Capítulo 4
Dezessete primaveras
-Não acredito que é hoje! Trabalhei tanto nisso! �repetiu uma mãe agitada num turbulento café da manhã.
-Você está mais empolgada que eu, que sou a aniversariante, mãe! �falava Amanda.
-Eu lembro de quando fiz dezessete anos... eu e seu pai só ficamos noivos um ano depois, naquela época ainda namorávamos! Eu era tão jovem! �falava a mãe, com os olhos brilhando.
-Eu sou muito diferente de você, mãe. �afirmou Amanda, olhando meio de lado.
-Você que pensa, Amanda, você que pensa. Talvez fique igual à mim num futuro próximo...
Amanda torceu o nariz. A perspectiva ou mesmo a idéia de ficar igual a sua mãe não lhe pareceu agradável. Ser quase submissa aos desejos da filha e do marido, viver atrás da máscara ou personagem da esposa e mãe perfeita, que não viva em funcão ou se preocupava com si mesma, fez Amanda beber, num gole só, toda a água de seu copo, há pouco cheio.
Sua mãe parecia encantada com a idéia de haver num futuro próximo uma filha igual a si mesma. Guardou num canto, com carinho e orgulho, a imagem de sua filha falando a mesma coisa para sua herdeira.
-Seus coleguinhas todos virão, não é filha?
-Não sei, mãe...
-Como não? Você não entrehou os convites que eu fiz com tanto carinho, um a um, e que ficaram tão lindos? �perguntou a mãe, em estado de choque, quase chorando.
Amanda olhou desconfiada para a mãe. Como alguém podia dar importância para algo tão pequeno? Mas, não deixou de responder, afinal viu aquela mulher tão flita e temeu que caísse aos prantos.
-Entreguei, mãe, entreguei.
-Então eles virão! �disse a mãe, batendo palmas, e quase saltitando.
Depois de um tempo, quando nada havia sido dito, Amanda pôs-se satisfeita e após sua mãe insistir para que comesse mais, Amanda falou:
-Mãe?
-Sim? �respondeu a mãe, ainda colocando bolinhos de vento no prato
da filha.
-Posso perguntar uma coisa?
-Claro, querida, quando você quizer.
-Por que o tema da festa você quis que fosse "Flores"? �perguntou a menina.
-Ah, é isso! Está na cara não está? �perguntou a mãe, tentando colocar na boca de Amanda os bolinhos, como se a menina fosse um bebê e não soubesse comer sozinha.
-Sinceramente, não.
-É que você nasceu em primeiro de Outubro, que é Primavera.
-E o que é que tem há ver?
-Ué, filha! Você está completando hoje dezessete primaveras,
que tem há ver com flores e...
--Está bem, mãe, já entendi. �falou Amanda, achando aquela lógica um tanto quanto idiota.
-Viu, filha? É fácil de entender, não há mistério algum.
-Pois é...
E Amanda levantou-se, sem dizer nada, e foi para a rua, observar o dia, o céu e o sol.
Andou bastante e não voltou para cada nem para almoçar. Imaginou como seus pais deviam estar preocupados e isso a fez lembrar da festa. Da sua feszta.
Não estava nem um pouco animada para a festa e pensou na reação de todos na hipótetse de ela não aparecer. Até que não era má idéia. Quem sabe seus pais ficassem tão desapontados que a mandasse embora de casa e a deserdasse?
Amanda riu do próprio pensamento. Desejar ser expulsa de casa era o topo de sua insanidade.
-Não vou fazer isso. Seria muito errado. �falou para si mesma.
Mas ela fez.
O sol começou a desaparecer no horizonte. Sua festa devia estar começando.
Ela não se moveu nem quando a claridade restante era tão pouca que não permitia que ela visse sua mão que estava a dois palmos de seus olhos.
Ela não se moveu nem quando se deu conta da infelicidade que deveria estar cusando a seus pais, especialmente à sua mãe.
Ela não se moveu nem quando tinha que brigar com si mesma para que seus olhos não fechassem. Suas pálpebras estavam tão pesadas!
Ela não se moveu nem qaudno percebeu que estava adormecendo. Mas, como poderia? Estava tão cansada!
E ela continuou imóvel enquanto dormia.
Não sonhou.
Aliás, ela nunca sonhava. Não lembrava de ter o feito. Jamais.
E, antes que acordasse, o céu mudou várias vezes de cor. Um espetáculo a parte da natureza. Se ela soubesse daquilo, com certeza desejaria poder tê-lo visto. Sem dúvida alguma.
Uma luz incômoda fez com que seus olhos abrissem. Já havia amanhecido. Fez um pouco de esforço para se lembrar de tudo o que havia acontecido. Quando o conseguiu, sua única reação foi suspirar. Não podia mudar o passado. E, sem pensar duas vezes, levantou e começou a voltar para casa.
Amanda havia sido bastante inconseqüente, sem dúvida. Dormir na rua não era totalmente seguro, mesmo numa cidade como aquela, pequena e com pouca violência e criminalidade. Ela tinha tido muita sorte de não ter acontecido-lhe nada.
Pelo caminho para sua casa, pode ver as fofoqueiras mas dedicadas na sua "função" a olhar e falar, com a mão na boca, algo bem terrível, umas para as outras.
Amanda se sentiu enojada com essa situação tão repugnante. Mas, sem se deixar abalar ou transparecer qualquer reação, seguiu seu caminho.
Quando abriu a porta da sua casa, a única coisa que conseguiu ver foi seus pais em pé, a olhando tristemente. Sua mãe estava com os olhos inchados e vermelhos, provavelemnte de tanto chorar. Seu pai abraçava a esposa pela cintura e segurava a mão desta.
-Onde você estava, Amanda? �perguntou seu pai, com as sobrancelhas juntas.
-Por aí. Eu me perdi. �falou Amanda, olhando para baixo.
-Se perdeu? Nessa cidade tão pequena, que você conhece de ponta à ponta, desde que você nasceu? �hironizou seu pai, enquanto Amanda abaixava a cabeça, envergonhada. �Não minta, Amanda. Nós sempre te ensinamos a ser sincera.
Nada foi respondido, então Vinícius, pai de Amanda, continuou:
-O que você fez foi muito errado. Sua mãe tinha preparado tudo com tanto carinho! E, ficamos nós, aqui, com cara de tacho, olhando para aquela gente toda e tentando explicar que a aniversariante havia desaparecido. E, você me chega hoje, de manhã, e nem diz, ao menos, a verdade! �disse, tempestuoso. �Suba, vai! Sai daqui!
Amanda, num passo acelerado, subiu a escada, que nunca pareceu tão comprida e foi para seu quarto. Mas, antes de entrar, pode ver sua mãe, que estava com a cabeça apoiada no ombro do marido, chorar.