Capítulo 2
O Primeiro Erro
-Amanda, querida, ainda não acordou? Eu fiz as panquecas que você tanto adora! Venha logo!
Amanda suspirou, enquanto prendia o cabelo, em frente ao espelho, quando ouviu sua mãe gritar por ela.
-Panquecas? �perguntou Amanda, enquanto descia as escadas, para tomar café. �Mamãe, quantas vezes precisarei dizer que eu não como panquecas? �e deu um beijo estalado na bochecha da mãe e pegou uma maçã, vermelhinha.
-Vejo que está de bom humor, minha filha, isto é tão bom, fico tão feliz! �disse a mãe.
Amanda não respondeu. Não que estivesse triste, não era isso. Ela só não suportava o fato de ninguém perceber sua máscara, seu teatro.
-Querida, vamos! Levante desse sofá ou chegará atrasada na aula! Seus amiguinhos devem estar todos te esperando!
-Mãe... �veio em resposta.
"-Amiguinhos me esperando? Está bem, então...", pensou Amanda.
A cidade onde ela morava não era muito grande. Casas pequenas, muito próximas, todos se conheciam e colocavam os filhos na única escola da região. Isso incomodava Amanda, ela via isso como uma falta de privacidade, a vida de cada um, para ela, não era privada de certa formalidade. Todos comentavam sobre qualquer pessoa e sua respectiva vida, nada era escondido. E Amanda sabia o que falavam dela. Anti-social, estranha, fechada. E ela não gostava disso.
E, mais um dia, ela foi caminhando para sua escola, que não ficava longe. Ela não estava sozinha.
O sol brilhava entre as nuvens.
Como toda vez, Amanda suspirou antes de entrar na escola que estudava. Não tinha muitos amigos, pelo menos não verdadeiros, e aquelas horas lá dentro eram um tanto quanto cansativas.
-Amanda Mendes. Atrasada de novo? �perguntou, com um pouco de sarcasmo, uma voz atrás de Amanda, que guardava seus livros no seu armário. �Anda, menina, ou ficará, novamente, para fora da primeira aula.
-Eu já vou, Letícia, já vou.
Letícia, a orientadora da série de Amanda, olhou para ela, com um ar de reprovação e foi até alguns garotos que brincavam com a água do bebedor, explicar para eles não gastarem água à toa, porque "se todos fizessem isso, rapazes, poderemos daqui há dez anos não possuir mais esse preciosidade", Amanda ainda pôde ouví-la dizer, antes de entrar na sua sala de aula.
Ela via os ponteiros do relógio passearem entre os números, devagar, e se sentia impotente diante do tempo, da vida. Afinal, não conseguia adiantar o tempo, mudar o caminho da vida, por mais que desejasse. E ela queria tanto. Daria tudo para mudar as coisas que achava que estava errado. Tudo, daria tudo.
E esse foi o seu primeiro erro.
O pensamento de que nada poderia ser mais importante ou ter mais valor para Amanda do que realizar tudo que quisesse foi algo que pareceu pequeno para ela, mesmo fazendo-a arrepiar-se. Será que era assim mesmo que ela se sentia? Alguém sem apego a nada, nunca satisfeita? Perguntas como essa ecoavam pela cabeça de Amanda e a impediam de se concentrar em outras coisas, como na aula.
-A Idade Média marcou um período de algo como uma pausa na evolução. Com as Invasões Bárbaras, foi como se o tempo voltasse, já que os romanos estavam bem mais evoluídos e tiveram que se adaptar a uma vida quase pré-histórica. Mas, vejo que, para alguns, tudo isso que estou falando não interessa. O que você acha disso, Amanda?
-Ãhn?
-O que você acha disso? �perguntou novamente a professora de História, que mantinha a expressão fria, sem nunca mudar.
-Desculpa, professora, eu não...
-Não estava prestando atenção. Eu sei. �a professora não desviava o olhar dos olhos de Amanda, que nem piscava. �Amanda, suas notas não estão maravilhosas e se continuar assim, sem se esforçar e não prestando atenção nas aulas, não sei como pretende passar de ano. �agora, o olhar da professora transparecia algo parecido com... piedade.
Piedade. Era tudo de que Amanda não precisava. Ela teve uma louca vontade de desviar o olhar e sair correndo, mas manteve-se parada sem tirar seus olhos da professora.
E, assim, o tempo passou, sem interferência de ninguém, como sempre havia acontecido. E como sempre deveria acontecer.
O sinal bateu e foi como um aviso de liberdade que, mesmo sendo tardia, não deixou de chegar. Antes de sair da sua classe, Amanda ainda pôde ver Emanuel, um rapaz baixinho, de óculos fundo de garrafa e muito inteligente, tropeçar no degrau que dividia as carteiras dos alunos da mesa da professora. Amanda, desligando-se de tudo, foi ajudá-lo a recolher os livros que havia derrubado. Ele agradeceu e sorriu, antes de sair por aquela porta.
Amanda ainda ficou um tempo de pé, olhando ao longe, naquela sala. E, inesperadamente, sorriu, com os olhos molhados. Emanuel sempre despertou muita empatia por parte de Amanda e talvez ele fosse a única pessoa que ela lamentava não ser amiga. Ele era visto por todos como ela era vista. Sozinho, estranho, anti-social.
"Mas, ele não pode ser tão infeliz como eu sou", pensou Amanda.
Ela perdeu quase o dia todo matutando em cima de um pensamento que havia tido naquele dia. Sim, naquele pensamento.
Será que trocaria tudo mesmo por algo que desejasse?
Não, não podia ser verdade.
Mas era.
E o pior, é que ela percebeu que trocaria até... sua família, sem pensar duas vezes.
Será que ela era tão fria?
Quando essa última pergunta surgiu, ela olhou-se no espelho e disse
para si mesma:
-Pára de pensar nisso, Amanda. Nunca vai acontecer mesmo! E mesmo que acontecesse, você nem sabe ao certo o que quer! Bobagem! Isso tudo é bobagem!
E ela resolveu que não queria fazer nada arriscado, que pudesse dar errado. Só que ela não sabia que o primeiro erro já havia sido cometido.