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Capítulo 3

O que é liberdade?

-O que você mais quer da vida, Amanda?

Essa pergunta foi feita por uma garota, chamada Lílian, que era a menina mais próxima de Amanda, na escola.

-Não sei... �respondeu Amanda.

-Ah, vai! Diz aí... todo mundo tem um desejo secreto, escondido... -Eu não...

Não que Amanda não gostasse de Lílian, ela era uma menina legal, uma pessoa boa. Mas não a considerava uma amiga e não gostava de falar sobre seus desejos com ela. Nem com ninguém.

-Ai, Amanda, não seja assim tão rabugenta... se você pudesse fazer um pedido, o que desejaria?

-Liberdade.

Um silêncio rápido ameaçou marcar presença, mas Lílian, que era uma menina enérgica, não deixou que isso acontecesse:

-Liberdade, Amanda? E o que fazer com liberdade?

-Viver?

-Você já está vivendo, Amanda! �Lílian riu. �Às vezes você fala umas coisas engraçadas!

Amanda sorriu de leve. "Típico", pensou. "Ela não acreditaria".

-Sabe o que eu desejaria? �perguntou Lílian, sem dar tempo para a outra responder. �Morar em uma cidade grande! Com shoppings, boates, bares! A vida daqui é muito desanimada!

-Pode ser... �falou Amanda, que não prestava muita atenção.

-Eu vi numa revista um vestido tão curto que usam na cidadegrande e nas festas de lá que quando mostrei para minha mãe e disse que queria um daquele, ela disse que realmente era uma blusinha muito linda. Não é engraçado? �Amanda concordou com a cabeça. �Já pensou se eu usasse um daquele aqui? As pessoas íam ter um treco! �e riu mais uma vez.

Amanda não entendia como Lílian podia ser assim. Ela pensava pequeno, se contentava com muito pouco.

Elas se conheciam desde os dois anos, mas só aos dez tiveram mais contato, para a surpresa de muita gente. Lílian tinha vários amigos, era falante e sempre estava em foco. Resumindo: era o inverso de Amanda, que ficava ainda mais ofuscada quando estava com Lílian.

Sem prestar atenção no que a outra menina estava falando, Amanda olhou para a janela e viu que o sol estava sumindo no horizonte.

Naquele momento, sua mãe entrou no quarto e falou:

-Menians, por que vocês não descem e vão tomar um lanchinho? Eu fiz cada coisa gostosa!

-A gente já vai, mãe... �respondeu Amanda. �Vamos? �ela perguntou para Lílian.

E, assim, as duas foram comer o "lanchinho gostoso" da mãe de Amanda.

-Líllian, querida, já experimentou desses biscoitos que eu preparei?

-Já sim, Sra. Mendes. Estão deliciosos!

-Que bom que gostou! E você, minha filha, já comeu alguns?

-Já. �respondeu Amanda, para a mãe.

-Não gostou? Eu sabia! São muito doces, né? Ai, meu Deus!
-Mãe! Mãe! Não é nada disso! Eu gostei... você não deixou eu falar!

-Ah, você gostou então? Que bom!!

Era isso que Amanda não gostava na sua mãe tudo que ela fazia tinha como objetivo agradar a filha ou o marido. Ela nunca se preocupava consigo mesmo. Amanda se sentia sufocada com isso.

À noite, quando Lílian já havia ido embora, Amanda e seus pais estavam conversando e seu pai comentou que o aniversário da filha, de dezessete anos, já estava se aproximando.

-O que você vai querer fazer? Uma festa? �perguntou a mãe.

-Acho que não quero fazer nada. �respondeu Amanda.

-Como não, filha? Dezessete anos é uma idade muito importante na vida de qualquer pessoa. Você não pode deixar passar em branco...

-Eu não me importo. Não quero festa nenhuma. �insistiu Amanda, com pouca paciência.

-Nem uma reunião com os parentes e amigos mais próximos? Uma coisa pequena?

-Não, mãe, não quero fazer nada!

-Eu posso fazer um bolinho gostoso só para a gente, de chocolate! Aquele que eu fazia quando você era pequena! �falava a mãe de Amanda, com as mãos juntas e os olhos brilhando.

-O que você acha disso que a sua mãe falou, Amanda?

-Ah, pai! Eu já disse que não quero nada!

-Eu sei, minha filha. �disse o pai. �Mas sua mãe está tã empolgada com esse seu aniversário! Deixa ela organizar uma festinha para você, só para agradá-la... �disse o pai, só para a filha, já que sua esposa parecia que estava em outro mundo.

Amanda suspirou e como já estava cansada daquela conversa, concordou com uma festinha. E, alegando cansaço, foi se deitar.

Enquanto estava deitada na sua cama, ela ficou pensando no que Lílian havia lhe perguntado e na sua resposta. Ela tinha dado semelhança à liberdade a viver. Mas, se dosse assim mesmo, ela já tinha a liberdade tão sonhada, afinal estava viva.

Será que a chance de fazer história, de "marcar presença no mundo", enfim, de viver era ser livre?
Não podia ser! Ela imaginava a liberdade tão mais... significativa! Ela estranhou esse seu pensamento. Haveria mesmo algo mais significativo que a vida?

Ocorreu a ela se outras garotas da sua idade também pensavam sobre essas coisas ou se só pensavam, como Amanda imaginava, em futilidades. Se houvesse mesmo alguém como ela, talvez pudesse abrir seu coração, falar o que pensa.

-Seria tão bom! �disse ela, para si mesma.

Passado-se um tempo, Amanda ainda não tinha adormecido e resolveu ir até a cozinha tomar um copo de leite. Antes que chegasse até a cozinha, pode ouvir um pedaço da conversa de seus pais, que estavam na sala de estar.

-Querido, estou tão preocupada! Ela está sempre sozinha! E parece não confiar na gente! �falava a mãe.

-Ela sempre foi assim, Miranda. É o jeito dela. �falou o pai, numa tentativa de parecer calmo, sem muito sucesso.

-Nunca com tanta intensidade! �protestou a mãe, Miranda.

Amanda desistiu do leite e, sem fazer barulho ou seu percebida, subiu para o seu quarto. Ela sabia que seus pais estavam falando dela. E, mais uma vez, ela desejou ficar livre daquilo. Até seus pais a achavam estranha. Haveria coisa pior?

Sim, haveria.

O fato de ela não sentir nada com o fato de seus pais comentarem que ela não era como os outros. Não ficou triste, com vontade de mudar para ter a aprovação das pessoas que mais amavam-na nesse mundo.

-Estranho. �ela falou para seu reflexo na água que havia feito poça na pia entupida do banheiro. �Não me incomodou nem entristeceu nada do que eu os ouvi dizer. Será que não os amo? Não, isso é absurdo. Nunca entendi porque pais e filhos têm que se amar sobre tudo no mundo. Não podem desgostar um do outro só porque são parentes? Gostaria de saber o que realmente sinto pelos meus pais. Se os amo tanto quanto imagino, ou se isso é uma barreira de tradições que ninguém tem coragem de quebrar, ultrapassar. �ela teve a impressão que seu reflexo disse um "Eu também", mas riu da sua própria atitude. �É, Amanda... sua cabeça não funciona mais como antigamente... melhor você ir dormir, já é tarde.

Olhou uma última vez para seu reflexo, os olhos bem abertos. Piscou. Estava diferente. Ou se via diferente. Algo do tipo. Estava mudando, ela não gostava disso. Não gostava de mudanças. Por que tudo haveria de mudar? Por que não podia continuar como estava? Por quê? Por quê?

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