Capítulo 1
Luz, calor e mistério
Um suspiro. Um silêncio. Um olhar ao longe. Uma lágrima percorrendo um longo caminho, por entre olhos, nariz e boca.
-Não entendo essa sua mania de observar o pôr-do-sol todo dia. Calada, apática. Você está sempre sozinha, Amanda. �dito por uma voz doce.
-Você nunca me entende. �respondeu a outra voz, que ainda sentia o gosto salgado da lágrima, a pouco derramada, em seus lábios.
-Não diga isso, minha filha. Não me ponha triste.
-É verdade. Você nunca me entende. �dito enquanto dois olhos não desviavam a atenção do sol poente.
Não houve resposta.
Um suspiro triste de uma mãe dizia tudo. O fato de não compreender uma filha, e não desvendá-la, é uma frustração muito grande para qualquer mulher. Após isso, o silêncio voltou, mais rápido do que tinha ido embora. E a menina ficou só. O sol, o seu sol, já havia se posto.
Amanda não se sentia culpada, nem mentirosa. Era verdade o que havia dito. Sua mãe não lhe entendia. Ninguém a entendia. Ela duvidava que, algum dia, alguém pudesse fazê-lo.
Qualquer pessoa que vê uma outra sempre sozinha acaba achando que a solidão é uma preferência, algo que alguém adora vivenciar. Isso é uma falta suposição. Mas há casos, como o de Amanda, que a solidão é uma máscara. Às vezes, é preferível ficar sozinha.
Amanda não escolheu viver sozinha. Simplesmente vive. Não, não é culpa dela não ter amigos e não ter vontade de se socializar com ninguém. Por isso, gosta de observar o sol. Se sente tão bem, sente que o sol lhe faz companhia e vai sempre se despedir dela no pôr-do-sol.
Era bem mais fácil. Com uma pessoa, nunca se tem certeza de que poderá vê-la de novo, não se pode saber o que vai acontecer. Com o sol, não. Amanda tinha certeza que ao acordar no outro dia, o sol estaria lá e para sempre seria assim. Uma presença que nunca se acaba, um rever a cada nova despedida da lua.
Amanda considerava o sol infinito. Não envelhecia, morria ou ficava doente. Não há como perder o sol. Não há dor da perda. Não há laço de sentimentos. Só luz, calor e mistério.
E, tendo certeza que reveria o sol, Amanda entrou na sua casa e, como sempre, sem dizer nada, foi para seu quarto, de onde só sairia no clarear do dia que chegaria.