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HDTV - A nova tecnologia

Agora, solte a imaginação. As coisas estão acontecendo e ainda levarão um tempo para chegar em definitivo aqui no Brasil. Mas mesmo assim, vamos lá: você está em casa, sentado no sofá... O seu novo aparelho de TV tem uma tela plana, bem mais larga do que alta, e emite um som incrível, aquele mesmo que você ouve quando liga um CD player.

Está começando um sensional jogo de futebol, a final da Copa do Mundo: você ouve com perfeição o grito da torcida; consegue perceber a fisionomia do jogador em campo quando ele perde o gol; lê nitidamente o nome dele impresso na camisa; vê com clareza as cores das camisas dos torcedores sentados do outro lado oposto do estádio de onde está a câmera que está captando aquela imagem; e ainda, com um clique no seu mouse (ops!), controle remoto, pode optar por assistir o jogo inteiro no mesmo ângulo de um dos goleiros. Quer congelar uma imagem? Rever uma jogada? Gravar alguns lances para rever com mais calma, depois de tudo terminado? Vá em frente, vá programando e clicando...

Daqui a uns anos você vai olhar para trás sem reconhecer a TV atual. Ela está passando por uma revolução tecnológica, e tudo vai mudar. Na verdade, o que está acontecendo é que a televisão está entrando na era da tecnologia digital e isso significa que todas as possibilidades que nossa imaginação puder criar são viáveis, desde que os especialistas em telecomunicações e informática continuem na acirrada competição saudável em busca da Digital Television, a DTV, a televisão digital. Nesse bem próximo futuro digital existem mais de 30 sistemas de televisão em processo de pesquisa. Entre eles, o que mais atrai a todos por ser o mais revolucionário: a HDTV.

Há quase 20 anos, técnicos das principais empresas japonesas, européias e estadunidenses trabalham sem descanso no desenvolvimento do sistema de televisão que tem como principal característica a imagem o som tão nítidos quanto os dos filmes 35 mm - o cinema das grandes telas transplantado para aparelhos de televisão. A HDTV - High Definition Television - ou televisão de alta definição, é considerada a maior revolução na tecnologia da televisão desde o aparecimento da TV em cores.

A TV de alta definição oferece imagens mais amplas, maiores detalhes, constraste e definição igual a imagem do cinema. Comparada com um padrão de televisão do tipo NTSC, a imagem da HDTV tem uma definição de luminosidade vertical e horizontal muito superior. A relação entre a largura e altura da TV convencional (atual) é de 4 por 3 (quatro unidades de largura para três unidades de altura), e essa mesma relação na TV de alta definição é de 16 por 9, o que a torna muito mais próxima da relação largura/altura oferecidas pelas telas de cinema.

Mas a maior diferença, e o grande apelo da HDTV, é sem dúvida a definição da imagem que transmite. A imagem da HDTV é composta de 1080 a 1125 linhas de resolução, enquanto a imagem da TV atual possui 525 ou 625 linhas. A tela da televisão atual produz uma baixa definição da imagem. Essa definição é medida é medida pela quantidade de pontos luminosos que formam a imagem: quanto mais, melhor qualidade (resolução) da imagem.

No Brasil, o sistema PAL-M, que possui 525 linhas, oferece ao telespectador uma resolução de 150 mil pixels (pontinhos da imagem) ou elementos de imagem, enquanto a HDTV, com 1125 linhas, chega a uma resolução de 2 milhões, 73 mil e 600 pixels. E ainda com a tela mais larga do que uma televisão comum, a imagem é muito mais nítida, livre de chuviscos e fantasmas, com mais constrastes e riquezas em detalhes.

A imagem da TV de alta definição contém cinco vezes mais informação que a TV convencional e traz múltiplos canais de áudio, com qualidade de som de "compact disc". Além disso, também é cosiderada uma característica revolucionária da HDTV a possivilidade inesgotável de utilizar recursos da informática, o que facilita a programação de canais e a interligação com computador, videocassete, aparelhos de som, fax, telefone etc. Enfim, com a HDTV teremos o aparelho doméstico que muitos sonharam ter um dia ao assistir a um dos desenhos animados de ficção mais populares da década de 1960, os Jetsons!

Mas, exixtem problemas: nem os televisores nem os equipamentos de produção e transmissão em uso atualmente nas emissoras de TV são adaptáveis à DTV - televisão digital... pois ela usa o sistema de transmissão digital, diferente do analógico que estamos usando. Mas as emissoras já estão se preparando para isso: muitos de seus equipamentos já são digitais!

As diferenças

Vamos conhecer algumas diferenças entre esses sistemas de transmissão para entender melhor toda essa fascinante revolução que estamos acompanhando.

A tecnologia digital gera e processa informações digitalizadas (dados), ou seja, transforma sinais de áudio e vídeo para uma forma semelhante aos bits de um computador, e já é usada em satélites e fibra ótica.

A tecnologia analógica converte a intensidade luminosa em sinais eletrônicos que variam no tempo e na freqüência, gerando sinais de amplitudes variadas que trafegam em uma freqüência (banda) específica. As emissoras de TV e os alguns telefones (ainda) usam tecnologia analógica. Os telefones celulares e muitos telefones convencionais já usam a tecnologia digital.

Atualmente qualquer freqüência (banda) só pode ser ocupada pela programação de um canal de TV. No sistema digital essa mesma banda poderá ser usada por programações de diversos canais: o segredo está na compressão dos sinais que serão transformados em dados digitalidos (bits). Isso vai permitir que vários canais trafeguem sua programação na mesma banda, onde anteriormente, no sistema analógico, só trafega um canal. A vantagem é a maior utilização dessa banda.

Outra diferença: no sistema analógico, só se recebe um sinal com boa qualidade se não houver obstáculos entre a torre retransmissora e a antena do televisor. Caso contrário, o sinal chega com chuviscos, ruídos e fantasmas... No sistema digital não importa se existem obstáculos ou não entre a transmissão e recepção. Digitalizados, os sinais de áudio e vídeo vão trafegar por vários meios de transmissão - satélite ou cabo - sem sofrer qualquer degradação. O ponto a favor é que os sinais vão chegar à casa do telespectador com a mesma qualidades que saíram do estúdio onde foram gerados.

Mais uma diferença: a implantação do sistema digital de televisão requer uma mudança total em todo o equipamento - seja das emissoras, seja dos receptores (os telespectadores). Isso significa um investimento de centenas de milhões de dólares na conversão para o sistema digital. Isso envolve novos estúdios, novas câmeras, novos videotapes, novos switchers, novos transmissores e até mesmo novas torres de transmissão por parte das emissoras, produtoras, enfim, de quem está emitindo a programação.

Do outro lado, do lado de quem está recebendo a programação, o custo também será alto. Em um primeiro momento, o televisor convencional (analógico) poderá ter um adaptador para converter os sinais. Mas para se obter a imagem fiel ao sistema digital, somente com telvisores próprios para esse sistema. Ou seja, novos aparelhos.

Existem hoje em todo mundo quase 750 milhões de televisores analógicos. A China tem 290 milhões de aparelhos de domicílios com aparelhos de TV. Os EUA, 98 milhões. A Rússia, 56 milhões. O Japão, 47 milhões. Logoo depois vem o Brasil - com 37 milhões. Um mercado atraente e por causa disso, ao lado da corrida tecnológica acontece a corrida dos negócios: as indústrias das telecomunicações se movimentam, se unem, investem em uma competição sem precedentes na história da TV. Muito provavelmente, em duas décadas esses mais de 700 milhões de televisores estarão obsoletos. Todo o mundo usará televisores digitais.

É preciso lembrar que uma vez que a TV digital - a DTV - engloba todas as etapas de um processo - produção, compactação, transmissão e recepção final. A HDTV - televisão de alta definição - é um dos sistemas de transissão dentro desse processo. Existem outros processos como por exemplo a SDTV - standard digital television -, um sistema básico, que transmite um sinal digital mas não possui todas as características da alta definição.

Uma nova filosofia

Tem mais, e talvez o mais surpreendente: a HDTV vai mexer com a forma de se fazer televisão. Aí sim, começa também uma revolução para todos que trabalham em televisão, tanto no conteúdo, quanto nos formatos da programação.

Os técnicos e pesquisadores já afirmam que a linguagem da televisão terá que ser totalmente reformulada. Tudo que foi feito até hoje terá que ser revisto. Os padrões de enquadramento, a iluminação, cores, ângulos, captação de áudio, produção de cenários, transmissão de eventos terão que ser readaptados no sistema de alta definição. Será uma filosia, uma concepção, do fazer televisão completamente diferente da que se tem hoje em dia. A produção de novelas, telejornais, programas de auditório, eventos esportivos, como futebol, terá que começar do zero, experimentar soluções até que se encontrem formatos próprios para a HDTV.

E, sem contar que quando a HDTV estiver linkada a internet, aí então... tudo pode acontecer. O telespectador vai escolher o que quer ver da programação de cada emissora, vai criar sua própria programação, arquivar os programas que quiser, e assistir na tela do seu computador em sua mesa de trabalho, na hora que quiser. Utilizando softwares próprios, poderá por exemplo, escolher qual o lance do jogo de futebol que quer ver no esquema de tira-teima. Pois é, não será mais a produção da emissoras que escolherá o lance duvidoso para ver de novo, será o telespectador. Simples, rápido, como se faz atualmente o download de um site, o telespectador está atuando também como programador de TV.

Como tudo começou

O Japão está investindo pelo menos 1 bilhão de dólares em pesquisas e projetos de HDTV. Em 64, os pesquisadores japoneses do Laboratório de Ciência e Tecnologia da NHK - Nippon Hoso Kyokay, a emissora estatal do Japão, fundada em 1925 - ao lado de técnicos das empresas japonesas de telvisores, por exemplo, a Sony, perceberam que deveriam começar a evolução da televisão. E partiram em busca da TV que se parecia com cinema, pesquisando para melhorar a qualidade no sistema analógico. Criaram a Hi-Vision, no início da década de 70.

Os europeus também começaram a desenvolver um sistema próprio de alta definição, a partir do analógico, que se chamava HD-Mac - High Definition Multiplexed Analogue Components, criado por um consórcio de empresas européias denominado Eureka.

Os estadunidenses teriam saído um pouco mais tarde nesse busca, chegaram a se associar aos japoneses, mas logo concluíram que o caminho da alta definição não seria a partir do sistema analógico. A alta definição da imagem só aconteceria se os recursos da eletrônica e da informática (compressão/digitalização) fossem acoplados à transmissão e recepção do sistema de TV.

Foi então que surgiu o princípio definitivo de uma tecnologia digital, mostrando que a TV poderia estar muito mais associada aos bits de um computador do que se pensava pra alcançar de vez a qualidade do sistema, tão desejada.

Em 1985, as primeiras transmissões experimentais de alta definição foram feitas pela NHK na Exposição de Ciências de Tsukuba, no Japão. No início de 1988, imagens em alta definição eram tranmistidas do Japão para a Austrália, durande a EXPO 88, utilizando o formato MUSE - Multiple Subnyquist Enconding - para compressão de sinais. E em setembro do mesmo ano, a rede japonesa transmitiu jogos das Olimpíadas de Seul para 81 pontos diferentes do Japão. Em 1º de abril de 89, a NHK começou transmissões experimentais diárias e hoje coloca no ar cerca 16 horas de produções exclusivamente no sistema de alta definição.

No final da década de 80, os europeus chegaram ao formato de transmissão que denominaram DVB - Digital Video Broadcasting. Durante a Copa do Mundo da Itália, em 90, vários testes foram feitos: a RAI - televisão estatal italiana - transmitiu ao vivo 16 jogos no sistema de alta definição. Dois anos depois, as Olimpíadas de Barcelona se transformaram no primeiro evento internacional a ser coberto em HDTV para outros países, inclusive para o Japão. Atualmente, na Europa várias emissoras - ligadas à Comunidade Européia - já estão com transmissões periódicas de alta definição.

Nos EUA, a Federal Communications Commission - FCC, órgão do governo responsável pela fiscalização e regulamentação das telecomunicações - vem criando normas desde 1987 para a implantação do formato de alta definição. Muitas empresas tentaram criar padrões atendendo às requisições da FCC. Mas depois de muita polêmica, um consórcio de empresas, de empresários, de fabricantes, e outros setores comerciais envolvidos na tecnologia digital conseguiram propor o padrão ATSC - Advanced Television System Comittee, aproveitando as melhores características de cada concorrente.

A FCC cedeu a algumas emissoras canais paralelos para transmissões experimentais com o sistema digital, sem deixar de transmitir sua programação em sistema analógico. No final de 1998, 41 emissoras americanas começaram a transmitir em alta definição os eventos esportivos e filmes. Nos EUA, até 2006, todas as emissoras que trabalham no sistema convencional - analógico - devem migrar para o sistema digital.

No Brasil

Ainda não há previsão para a mudança definitiva de sistemas, mas os testes já começaram.

A Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações - ainda não formalizou uma legislação nacional e discute com representantes das emissoras a forma e o período para ceder a elas um novo canal, para testes de transmissão digital simultânea à analógica. O padrão do sistema a ser adotado tende para o americano ATSC. Um grupo de trabalho ligado, ao Ministério das Comunicações, composto por engenheiros da ABERT/SET - Associação Brasileira de Telecomunicações / Sociedade de Engenharia de Televisão -, está acompanhando o desenvolvimento da tecnologia de trasmissão digital em todo o mundo e os passos que estão sendo dados para a transição dos sistemas.

A Rede Globo e a Rede Record disputam o mérito de de terem feito a primeita transmissão digital de HDTV no Brasil, em junho de 1998, com a diferença de algumas horas. De qualquer forma, são as pioneiras de mais um momento histórico da TV brasileira.

A Record realizou uma grande festa no Memorial da América Latina, em São Paulo, no dia 6 de junho, um sábado, e transmitiu da sua torre localizada no bairro da Barra Funda um vídeo produzido totalmente noo sistema digital: desde a captação das imagens, a edição, a transmissão, para os convidados da festa. Foi uma transmissão em circuito fechado, para um público exclusivo.

Mas foi a Globo, no domingo, 7 de junho do mesmo ano, fez em circuito aberto para milhões de telespectadores, a primeira transmissão digital internacional ao vivo.

O jornalista Pedro Bial apresentou o Fantástico ao vivo de Paris, na França, poucos dias antes do início da Copa do Mundo, gerando diretamente do International Broadcast Center, o IBC, em HDTV, alta definição. Todos os que assistiram em casa perceberam apenas a diferença entre o formato 4x3 (do sistema analógico) para o 16x9 (do sistema digital) - mais largo do que o convencional. Somente os freqüentadores de um shopping center de São Paulo, onde estavam colocados aparelhos televisores digitais, puderam ver as diferenças do sinal digital: a nitidez da imagem, sem ruído ou fantasma, a luminosidade, a clareza de detalhes e o som similar ao CD.

A Rede Globo também tem o mérito da assiduidade das transmissões experimentais em HDTV, e em cada grande evento, como Carnaval, novos testes são feitos.

Deve-se destacar que a cada transmissão experimental, não importa de qual emissora, obstáculos e desafios são transpostos e chegamos mais perto do que já é considerado definitivo: a implantação do sistema digital de alta definição no Brasil.



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Última atualização: 17/05/2003

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