Mal eles resolveram voltar à ativa, um moleque fanático pelo RHCP e, sobretudo, por Hillel Slovak, colou forte. Aos 18 anos, o guitarrista novaiorquino John Frusciante, era um menino prodígio. Tocava (e toca) muito e, para surpresa dos Peppers restantes, sabia cada acorde, cada solo, cada variação que Slovak registrava em seus trabalhos com a banda. Faltava agora um batera de responsa para substituir Irons. Fizeram uma audição com mais de 30 pretendentes. Quando o último foi embora o trio já estava desistindo da coisa, uma amiga de Flea disse: “Conheço uma cara que come baquetas no café da manhã.” E ele disse: “Manda esse cara pra nós.” Um grandalhão com visual de Hell’s Angel se apresentou e, sem tirar os óculos escuros e a bandana, sentou no banquinho da bateria. Flea chamou um som, Frusciante foi atrás e o grandão tocou como nunca, debulhando a bateria, casando perfeitamente seu estilo com o baixo de Flea. No final da sessão, Kiedis, só pra tirar uma, avisou: “Você só entra pra banda se raspar essa cabeleira”. O batera, Chad Smith, não raspou o cabelo, mas nunca mais os Peppers precisaram testar outros músicos para a posição. Tudo certo, contrato com a gravadora em dia, eles se reuniram, compuseram, arranjaram e gravaram seu primeiro disco de ouro, Mother’s Milk (89). Renovado, o Chili Peppers estava, masi uma vez pronto para reclamar seu lugar na música jovem, pop, rock, funk, punk ou seja lá qual for o tipo de som. Além de todo álbum ser dedicado a Slovak, a banda ainda compôs a emocionante Knock Me Down, em memória ao guitarrista. A turnê de Mother’s Milk foi um sucesso, as vendas também. Ninguém havia morrido ou saído do grupo. Do 148º lugar na Billboard com The Uplift Mofo Party Plan, eles pularam para 52º. Nesse clima de isso aqui ta muito bom, isso aqui tá bom demais, os quatro, prestes a serem conhecidos como a formação clássica do RHCP, escolheram o barbudo Rick Rubin, odiado por muitos, amados por muitos outros, para produzir o que viria a ser o graaande disco da banda. Em vez de bancar horas em algum super-hiper estúdio de L.A., eles escolheram uma velha mansão nas colinas californianas, com fama de mal-assombrada. Em vez de usar a última tecnologia em gravação, Rubin mandou buscar velhos amplificadores valvulados, mesas de som empoeiradas e todo tipo de velharia apta para captar a atmosfera da casa, das gravações e da banda. Bingo!!! BloodSugarSexMagik foi lançado em 91 e trouxe o primeiro grande sucesso comercial da banda: a balada Under The Bridge. Baseado em sua experiência com heroína, Kiedis escreveu esta letra e a escondeu em seu caderno de anotações, considerando-a sentimental demais.

Rubin leu, vislumbrou cifrões e mais cifrões e pediu que ele a mostrasse aos companheiros. Imediatamente, eles pegaram seus instrumentos e começaram a fazer o som. Com os clipes de Under The Bridge, Breaking The Girl e Give It Away sendo repetidos incansavelmente pela MTV e as mesmas músicas rolando toda hora no rádio, não teve jeito. BloodSugarSexMagik vendeu mais de dois milhões de cópias nos Estados Unidos. Finalmente, muita grana, fama no mundo todo e tudo o que o mega sucesso traz. Incluindo a insatisfação de um dos integrantes. Talvez ainda muito jovem pra agüentar as turnês pelo mundo, entrevistas e loucura, muita loucura, em forma de sexo e heroína, o menino John anunciou sua saída em 92. Entregue a seu destino, Frusciante se exilou do mundo e tornou-se um viciado por opção. Puto da vida com o ex-colega, Kiedis não quis saber de choradeira e logo achou substituto pouco brilhantes para o John. Entre eles, um amigo de Flea, o não tão genial Arik “The Freak” Marshall, que tocou com a banda no Brasil em 93. Em 94, vestidos como o Lampadinha, mascote do Professor Pardal, da Disney, estrearam no festival de Woodstock 94 com seu novo guitarrista: o todo pose Dave Navarro, ex-Jane’s Addiction. Rapidamente sua influência sobre a banda pôde ser sentida. Em One Hot Minute (95), sons como Warped lembram demais Jane’s - uma queda no nível de originalidade dos Peppers. Navarro pareceu dominar a área e acentuar o clima gay do RHCP, que sempre existiu. Sobretudo por conta da bitoca que dá na boca de Kiedis no clipe desse som. One Hot Minute não surtiu o mesmo efeito que BloodSugarSexMagik, mas valeu.

Em abril de 98, para a felicidade de muitos fãs, Navarro saltou fora do barco alegando incompatibilidade criativa. Depois de deixar a banda, declarou que se sentiu ridículo ao vestir traje de lâmpada em Woodstock e que se demitiu porque não conseguia fazer caretas. Como se não bastasse, Anthony Kiedis e Chad Smith sofreram acidentes com suas Harley Davidson em L.A.. Kiedis, que havia voltado à heroína, embutiu a moto na caranga de uma velhinha, fraturando os punhos e Chad chapuletou o ombro depois de tentar desviar de um carro em freada brusca. Longe da cena após sua saída do RHCP, John Frusciante havia se enfiado na jaca até o pescoço. Depois de lançar dois discos tão legais quanto estranhos – Niandra Lades & Usually Just A T-Shirt (95), dedicado a Clara Balzary, e Smile From The Streets You Hold (97) – mas sem nenhuma repercussão – ele decidiu que iria acabar com a vida de qualquer jeito. Injetava heroína, cocaína, fumava crack, tomava valium, bebia vinho todos os dias e nem chegava perto da guitarra. Quando Flea para Anthony que Frusciante deveria voltar, Kiedis, ainda corroído pelas brigas de anos antes, recusou a idéia. Mas foi só o baixista dizer a frase mágica “a volta dele é a única coisa que pode manter-nos vivos e juntos”, para o vocalista se ligar. Encontrado no chalé de Los Angeles sem os dentes, os cabelos caindo, as unhas podres, quase sem voz e envelhecido uns 30 anos em apenas quatro, Frusciante decidiu se internar para salvar sua vida. Para celebrar sua volta, o Chili Peppers chamou mais uma vez Rick Rubin e fez Californication (99). Não o melhor mas o mais inspirado e melódico disco de sua carreira. Recheado de baladas em que Kiedis destila sua voz limitada e com Frusciante provando ser um dos guitarristas mais expressivos desde que apareceu, o disco é uma visão musical de uma banda madura que não é mais o grupo da vez. Quando se fala em Red Hot Chili Peppers, não se pensa mais nos termos “moda” ou “sucesso”. Se outros revezes podem entrar no caminho, ninguém sabe. A certeza é que, por enquanto, eles ganham, e feio, a batalha contra o fim, lutando como bravos mulekes californianos que se tornaram.
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DISCOGRAFIA

CALIFORNICATION ONE HOT MINUTE WHAT HITS!? BLOOD SUGAR SEX MAGIK

Californication

One Hot Minute What Hits!? Blood Sugar Sex Magik
MOTHER'S MILK UPLIFT MOFO PARTY PLAN FREAKY STYLEY RED HOT CHILI PEPPERS
Mothers Milk Uplift Mofo Party Plan Freaky Styley Red Hot Chilli Peppers

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