O rock e a música popular brasileira já se encontraram mais de uma vez,
como nos tempos dos Mutantes, nos psicodélicos anos 60, ou com a ascensão do ritmo
nordestino dos Novos Baianos, Alceu Valença e outros. Entretanto, a mistura nunca foi
tão explosiva e coesa até o surgimento dos RAIMUNDOS. O gênero ainda não aparece no
dicionário, mas faz jus a suas origens. Filhos de pais nordestinos e moradores de uma
metrópole como Brasília, Rodolfo, Digão, Canisso e Fred juntaram a música predileta de
seus pais (forró) com o som das ruas (hardcore): deu o forrocore!
Faltava ainda um nome para a banda, algo que os futuros fãs pudessem de cara associar à
sua música. Amantes do metal e do punk rock, os quatro rapazes não tiveram dúvidas em
homenagear seu grupo favorito, os Ramones. Daí para RAIMUNDOS foi um pulo - nome comum
entre nordestinos, capaz de associá-los à massa. Assim como inúmeras bandas no início
de carreira, saíram à caça de uma gravadora com uma fita demo debaixo do braço. A
grande maioria sugeriu que 'deveriam parar com o barulho estridente e eliminar as
guitarras', até que chegaram à Banguela Records - selo que pertencia aos Titãs e que
era distribuído pela Warner Music Brasil.
O primeiro disco, que trazia apenas o nome
da banda e um chapéu de cangaceiro na capa, foi produzido por Carlos Eduardo Miranda e os
próprios RAIMUNDOS. O peso da guitarra e a malícia de suas canções marcaram a estréia
do grupo que, em apenas seis meses, recebeu Disco de Ouro pelas mais de 100 mil unidades
vendidas. Logo tornaram-se a banda revelação dos anos 90, merecendo a capa das
principais revistas brasileiras de rock. Os prêmios foram se seguindo: "Disco do
Ano", "Melhor Banda de Rock de 94", "Melhor Show de Rock",
"Melhor Música" e "Melhor Clip". Na verdade, os RAIMUNDOS conseguiram
colocar três clips em primeiro lugar no Top 20 Brasil - MTV, sendo que o de "Nêga
Jurema" foi exibido pela MTV Latina - fato extremamente difícil para artistas que
cantam em português.
Após o estrondoso sucesso de seu primeiro álbum que hoje soma mais de 280 mil cópias
vendidas, os RAIMUNDOS deixaram o Banguela e assinaram contrato com a WEA Music. Em agosto
de 95, começaram a gravar seu segundo CD, que seria lançado em outubro do mesmo ano.
Desta vez, os inventores do forrocore contaram com a produção de Mark Dearnley, que já
havia trabalhado com artistas dos gêneros mais variados: white Sabbath, AC/DC, Def
Leppard, Joan Armatrading, XTC, Uriah Heap, Ray Charles e King Sunny Adé.
"Lavô Tá Novo" é certamente
tão poderoso e expressivo quanto o primeiro. Para suceder os hits "Puteiro em João
Pessoa" e "Selim", os garotos contra-atacaram com "Eu Quero Ver o
Oco", "Tora Tora", "Esporrei na Manivela" e "I Saw You
Saying (That You Say That You Saw)", ultrapassando a casa das 350 mil cópias
vendidas. Não bastasse o imenso território nacional, o álbum foi lançado também em
Portugal, Argentina, Chile e Espanha, onde atraíram milhares de pessoas para suas
apresentações literalmente de Norte (Galícia), a Sul do país (Granada), passando por
Madri, é claro! Coube ainda aos RAIMUNDOS, em 96, ser o único representante do rock
brasileiro no Festival Phillips Monsters of Rock, ao lado de alguns dos maiores nomes do
hardcore internacional, como Iron Maiden, Biohazard, Skid Row e Motorhead. Como sempre,
não deixaram nada a dever: as 45.000 pessoas presentes foram à loucura com o showzaço
dos RAIMUNDOS. O terceiro álbum do grupo veio embalado como presente de Natal. As
primeiras cópias de "Cesta Básica" vieram numa caixa com uma fita de vídeo
com os clips da banda e uma história em quadrinhos do Angeli, tendo seus integrantes como
personagens. O CD em si trazia sucessos do primeiro e do segundo disco gravados ao vivo
durante as apresentações dos RAIMUNDOS no Hollywood Rock 96, no Rio e em São Paulo.
Estão ali "Puteiro em João Pessoa", "Esporrei na Manivela",
"Bê a Bá", "Cajueiro/Rio das Pedras" e "Palhas do
Coqueiro". Das outras cinco faixas, três são inéditas e duas são regravações:
"Merry Christmas", de Joey Ramone; e "Bodies", de Sid Vicius,
PaulCook, Steve Jones e Johnny Rotten.
"Lapadas do Povo" foi lançado em
97 e serviu para saciar a sede dos fãs por mais músicas inéditas dos RAIMUNDOS.
Novamente produzido por Mark Dearnley, o álbum revela a veia mais pesada dos garotos e
demonstra que eles andaram trabalhando bastante durante os cerca de 80 shows (20 em
estádios) que fizeram em 96. Das 13 faixas, apenas três não foram compostas pelos
quatro raimundos: "Ui, Ui, Ui" (Martin Luthero, o Telo), "Oliver's
Army" (Elvis Costello) e "Pequena Raimunda", uma versão para um sucesso de
seus ídolos, "Ramona". O mais recente trabalho dos RAIMUNDOS quase teve seu
lançamento adiado por conta do roubo da tiragem inicial de 100 mil cópias ainda no
depósito da distribuidora. Sem se deixar abater, o grupo optou por dar continuidade ao
cronograma estabelecido, certos de que "Só No Forevis" - uma homenagem ao
trapalhão Mussum - só lhe daria alegrias. Afinal, foi este o espírito reinante desde a
composição das músicas, passando pela pré-produção, em Sampa, e chegando às
gravações, no Rio, com a participação de inúmeros amigos. Sob os cuidados de Miranda
(o mesmo do primeiro disco), Tom Capone e Mauro Manzoli, "Só No Forevis" remete
imediatamente ao álbum de estréia. A energia hardcore continua, mas eles agora exploram
outros ritmos, como o rap ("Boca de Lata"), ska ("Me Lambe") e até
reggae ("Deixa Eu Falar"), valorizando o que fazem de melhor: músicas simples e
afiadas, repletas de versos de duplo sentido. Isso sem falar no primeiro single,
"Mulher de Fases", que já desponta como um clássico raimundesco. Do deboche da
capa às letras de fundo crítico, o quinto disco dos RAIMUNDOS é tudo o que os fãs
queriam. Com mais de um milhão de CDs vendidos nestes cinco anos de carreira, a banda
leva adiante a segunda geração do rock brasiliense com bom-humor e qualidade de sobra.
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