Interpretação No Século XX
 
Incentivado pelas realizações do pensamento crítico, o século XX inrrompeu-se com um otimismo religioso e cultural. Embora tenha havido algumas vozes contrárias, parece que as pressuposições do pensamento histórico-crítico dominaram e determinaram a direção da interpretação bíblica deste período.
No entanto, a eclosão da Primeira Guerra Mundial deu um duro golpe na confiança humana no pensamento racional e no inevitável progresso da humanidade. As catástrofes políticas e sociais de 1918 geraram, como consequência, um ponto crítico decisivo para a pesquisa no Novo Testamento.
 
Um outro fator que veio a moldar esta pesquisa nas primeiras décadas do século XX foi a enorme riqueza de informações que rapidamente foram colocadas á disposição do público por meio de ensaios acadêmicos. Os progressos nos campos da arquelogia, filologia e as pesquisas nos manuscritos bíblicos resultaram em uma massa de informação que virtualmente trouxeram esclarecimentos a cada página das Escrituras.
A avaliação erudita das informações exigiam que os intérpretes bíblicos se tornassem extraordinariamente especializados. O resultado disso foi o surgimento de uma multiplicidade de disciplinas no âmbito da pesquisa do Novo Testamento.
Porém, cada uma dessas disciplinas tendia a ressaltar sua diversidade em vez de a sua unidade em relação às outras disciplinas. Este isolamento dentro dos vários campos de pesquisa sempre produz o risco de uma simplificação exagerada.
 
A consequência gerada por essa situação é que qualquer tentativa de se estabelecer as tendências do pensamento teológico no século XX confronta-se de imediato com uma variedade de campos de pesquisa e com a dificuldade de se determinar acuradamente quais foram as contribuições que cada estudo especializado fez para o todo.
 
O otimismo do liberalismo do século XX não somente foi abalado por fatores políticos, houve também uma vigorosa oposição que desafiou algumas das suas pressuposições mais divulgadas. Os "resultados seguros do cristicismo" receberam um tremendo golpe por parte de William Wrede (1859-1906) que empregou o método histórico-crílico e chegou a concluções radicalmente diferentes.
 
A obra de Wrede, intitulada The Messianic Secret, atacou a abordagem crítica convencional aplicada aos evangelhos ao argumentar que a consciência messiânca de Jesus no evangelhos de Marcos refletia uma reconstiiuição histórica realizada pela igreja com base no seu conceito teológico acerca da vida de Jesus, em vez de uma apresentação histórica imparcial da consciência de Jesus.
Deste modo, o evangelho de Marcos jamais poderia ser usado como uma fonte histórica para a vida de Jesus, visto que ele somente reflete o testemunho da fé messiânica da Igreja Primitiva.
 
 Albert Schweitzer (1875-1965) publicou a obra The Quest of the Historical  Jesus, sob o título em alemão Von Reimarus zu Wrede, que sacudiu a estrutura do liberalismo, causando um duro ataque as biografias de Jesus oriundas do século XIX sob o argumento de que estas haviam ignorado o elemento escatológico do ensino de Jesus.
 
Kall Barth (1886-1968) indicou uma nova direção para a interpretação bíblica, apesar de ter sido aluno de Harnack, Barth rompeu com a teologia liberal ao editar em 1919 seu comentário sobre o livro de Romanos. Neste ele escreveu:
 
"O método histórico-crítico de investigação bíblica tem a sua validade. Ele aponta para a preparação para a comprensão do que não é supériuo... No entanto, toda a minha atenção está voltada para olhar através da história para o espírito das Escrituras, que é o Epirito eterno." The Epistle on the Romans, prefácio da primeira edição.
 
A tentativa de Barth de orientar o exegeta através das considerações literárias e históricas para as verdades mais profundas existentes nas Escrituras se realiza à custa do escritor bíblico.
 
Rudolph Bultmann (1884-1976) também reagiu fortemente contra a velha escola liberal, que procurava o Jesus histórico "real", livre de qualquer interpretação teológica da sua pessoa e da sua obra.
Ele concordava com Barth que a essência do Cristianismo era a proclamação kerygmática que é endereçada ao homem, requerendo deste uma resposta de fé. Porém, ele discordava de Barth no que concerne ao valor a ser atribuido á forma histórica do Novo Testamento.
Os esforços exegéticos de Bultmann foram amplamente dominados pelo seu ceticismo radical no que tange ao conteúdo real da narrativa dos evangelhos, juntamente com o sua alta consideração pelo que ele considerava ser a mensagem central do Novo Testamento.
Em seu livro Christ and Mythology, ele procura lançar esclarecimentos sobre seu método de interpretação:
 
"Nós devemos nos perguntar se a pregação escatológica e as declarações mitológicas contém um significado latente mais profundo que se encontra encoberto sob o manto da mitologia. Se assim for, temos que abandonar as concepções mitológicas exatamente porque desejamos reter seu significado mais profundo.
O método de interpretação do Novo Testamento que procura recuperar esse significado mais profundo subjacente nas concepções mitológicas eu denomino desmitologização - uma palavra inadequada, por certo. Seu objetivo é não eliminar as declamções mitológicas, mas interpretá-las. Este é um método de hermenêutica."  Jesus and Mythology (New York: Scribner's, 1958), p. 18.
 
                               Veja também  O Novo Testamento e Mitologia  por Rudolph Bultmann
                               Veja Resenha em Fides Reformata
 
Embora outros antes de Bultmann, tenham tentado desmitologizar, Bultmann é singular em sua insistência de que a interpretação do Novo Testamento deve ser uma Interpretação fundamentalmente "existencial", objetivando dirigir-se à existência humana.
Apesar dos esforços de Barth e Bultmann não estarem acima de qualquer julgamento, deve-se reconhecer que, na maioria das vezes, o objetivo de ambos era o de compreender as Escrituras, não destruí-las; acentuar, não minar a sua autoridade.
Em sua reação aos abusos históricos da geração anterior a eles, eles tem corretamente sido alvo de criticas de subestimar o papel histórico.
W. G. Doty, em seu livro Contemporary New Testement Interpretation, p. 92, fez as seguintes observações acerca de Barth e Buttmann:
 
"Eles se concentraram no elemento significado-histórico a tal ponto que o "fato historicamente concreto", no sentido comum da palavra já não era mais uma preocupação vital."
 
Entretanto, os temas levantados por esses dois teólogos são questões que os eruditos somente começaram a levar a sério nas últimas duas ou três décadas. A investigação literária nos evangelhos sinóticos continuaram na mesma linha da Crítica da Fonte do século XIX.
A avaliação de W. G. Kürnmel de que "o trabalho da critica da fonte sobre os sinóticos foi encenado com a teoria das duas fontes demonstra que foi feito pouco progresso além do pensamento do século XIX. Os esforços de se reconstituir a tradição literária por meio de uma análise das formas literárias (Crítica da Forma) levou muitos eruditos á conclusão de que a formulação e preservação da tradição acerca de Jesus foi estimulada não por interesses históricos, mas por interesses intrinsecamente relacionados á fé.
S. H. Travis, em seu artigo "Form Criticism". no livro New Testament Interpretation, p. 155, descreve a tarefa da crítica da forma como o esclarecimento de perícopes dos evangelhos de acordo com a sua forma, a fim de atribuir a elas seu respectivo Sitz im leben.
 
Uma das tendências mais produtivas na pesquisa sinótica envolve a mudança de ênfase de se estudar as fontes usadas pelos evagelistas para um exame do propósito teológico de cada autor ao redigir seu evangelho. Os escritores dos evangelhos náo objetivavam somente preservar cada detalhe histórico; eles também interpretavam e organizavam o conteúdo histórico de modo a encaixar seu propósito teológico.
Eruditos oriundos de várias formações reconhecem a Crítica da Redação como uma ferramenta útil para a averiguação do interesse teológico dos evangelistas. Embora as narrativas dos evangelhos reflitam um grau limitado de edição literária, deve-se evitar a "mentalidade documental" que faz com que cada declaração verbal tenha sido extraída de um documento. Muitos dos esforços atuais para se determinar a dependência literária ou oral dentro da tradição sinótica têm levado alguns eruditos a um tipo de "teologização não-histórica".
 
Um exame detalhado de praticamente qualquer perícope vai demonstrar que os escritores teriam que fazer um verdadeiro "malabarismo literário" com as suas fontes a fim de produzir seus evangelhos por meio do mero ato de copiar fontes orais ou escritas. A Crítica  da Redação nos ajuda a perceber o propósito teológico para o qual os autores canalizaram as informações históricas disponíveis a eles. Em razão do fato de os evangelistas haverem escrito a partir de um propósito teológico, a estrutura literária dos seus escritos refletem cada interpretação distinta de cada escritor do Kerygma historicamente fundamentado.
 
Novas tendências nos estudos linguisticos têm procurado tornar a Bíblia inteligível e relevante para o homem moderno. Recomeçando do ponto onde Bultrnann parou, a hermenêutica de J. Robinson (apresentada no livro The New Hermenutics) e de um grande numero de eruditos alemães revelam uma nova compreensão da natureza e função da linguagem.
Os principais proponentes dessa novo perspectiva são G. Ebeling e E. Fuchs, que a denominaram Nova Hermenêutica. Tentar compreendê-la não é uma tarefa fácil. Todavia, em resumo, os expoentes desse movimento conclamam o intérprete a entrar em diálogo com o texto e fim de ser subjetivamente confrontado pela linguagem e os aconteciementos derivados de um contexto histórico diferente. Quando a linguagem das escrituras toca a vida de uma pessoa de uma maneira significativa, ela se torna verdade para essa pessoa. A.C. Thiselton, em seu artigo "The New hermneutic", na obra New Testament Interpretation, p.323, ressalta que a "nova hermenêutica" está mais preocupada em compreender o Novo Teptnmento mais "profundamente e criativamente" do que "compreendê-lo corretamente". Há quem se pergunte se os defensores da "Nova

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