A interpretação no Século XIX
 
O século XIX trouxe uma revolução intelectual e social que afetou não somente o modo como a humanidade via o seu universo, mas também os métodos de investigar os campos variados do pensamento e atividades humanos.
Os métodos de investigação do universo da literatura clássica introduziu uma nova abordagem á interpretação e a análise acadêmica das Escrituras. Os estudos históricos foram dominados pelo conceito da existência de alguma idéia divina ou racional que se movimentava através da história, podendo ser o processo dialético de Hegel ou a teoria da evolução de Darwin.
Em cada área do conhecimento, esse século foi marcado pelo pensamento desenvolvimentista, métodos histórico-críticos e criticismo cientifico. A primeira metade do século testemunhou uma abordagem extremamente radical ao Novo Testamento da parte da erudição alemã. Houve uma mudança: a instrução bíblica realizada pela igreja passou para a universidade secular, onde os conceitos filosóficos de Hegel orientavam a investigação, contribuiu para o surgimento de um novo senso de liberdade no tratar os registros bíblicos.
 
Os métodos exegéticos oriundos da Alemanha eram dominados pela busca da "essência do Cristianismo"'. O princípio dominante na mentalidade desse período pode ser resumido da seguinte forma: Se o valor da Bíblia deve ser preservado, o "cerne" da verdade divina deve então ser retirado da "casca" da mentalidade do primeiro século. Visto que as Escrituras deveriam ser examinadas corno qualquer outro documento histórico, as categorias da revelação divina e os milagres foram substituídos pelo "resultados seguros" do Criticismo Histórico. Livres dos interesses dogmáticos, os exegetas passaram a perseguir a análise "objetiva" do texto, cuja função era a de conduzi-los ao âmago da mensagem bíblica. Os resultados divergentes e altamente subjetivos comprovaram claramente as limitações desse empreendimento.
 
As primeiras décadas do século XIX foram dominadas pela influência de Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Este procurou preservar o valor das Escrituras ao substituir as preocupações exegéticas de uma compreensão histórica por uma compreensão psicológica do texto. Deste modo, a Bíblia não mais deveria ser levada a sério em cada detalhe.
A essência da mensagem bíblica deveria ser encontrada no seu registro da experiência religiosa. A tarefa da exegese, então, envolve uma análise das experiências religiosas e do desenvolvimento da sensibilidade para penetrar nessa experiência em um contexto contemporâneo.
 
A combinação do racionalismo com o pietismo de Schleiermacher levou-o á uma perspectiva pragmática do valor das Escrituras. Os livros sagrados se tornaram a Bíblia em virtude do seu poder inerente, mas eles não coibem nenhum outro livro de ser ou vir a tornar-se uma Bíblia.
A teologia de Schleiermacher foi grandemente responsável pelo início de um interesse pelo Jesus histórico. Armados do racionalismo e o estímulo romântico de Schleiermacher, muitos empreenderam em escrever biografias acerca de Jesus, cujo conteúdo refletia as convicções teológicas vigentes.
D. F. Strauss (1808-1874) tentou atenuar a tensão entre o super naturalismo do primeiro século e o racionalismo da sua época por meio de uma síntese que resultava em uma "interpretação mitológica".
Seu livro, Vida de Jesus, foi uma tentativa de trazer à tona verdades espirituais ao penetrar no interior da "compreensão lendária e ingênua dos autores do evangelho".
É surpreendente como cada verdade pretensamente importante escavada por Strauss e outros autores de biografias de Jesus do século XIX tendem valores e percepções liberais.
 
F. C. Bani, (1762-1860), chefe da escola de criticismo bíblico de Tübingen, reinterpretou a história da igreja primitiva pelo ângulo de um pretenso conflito entre o partido dos judeus, lideiado por Paulo e um partido helenístico, liderado por Pedro.
Seguindo esta premissa, Bani dissecou as epístolas paulinas e chegou á conclusão de que somente quatro epistolas poderiam ser aceitas como autênticas: Romanos, 1 e 2 Coríntios e Gálatas; enquanto o restante deveria ser considerado como produção literária do segundo século. Embora poucos eruditos fora da escola de Tübingen tenham concordado com as conclusões de Baur, seu procedimento no que tange à abordagem histórica intensificou o reconhecimento de que a comunidade cristã primitiva somente poderia ser compreendida dentro do contexto histórico.
 
A tentativa de penetrar no contexto histórico levou muito eruditos a um envolvimento com o ramo acadêmico da Crítica da Fonte.
H. J. Holtzinam (1863), seguindo a orientação de C. H. Weisse (1023-1866) defendeu a prioridade da elaboração do evangelho de Marcos, em conjunto com o emprego de uma fonte comum paia Mateus e Lucas, denominada Q.
No final no século XIX, a Bíblia estava firmemente ancorada em seu próprio mundo. O Criticismo Bíblico obteve êxito em secularizar completamente a Bíblia. As pesquisas deste penedo era completamente dominado pela abordagem crítico-literária, com suas indagações sobre fontes e vínculos literários entre os escritos neo-testamentários.
Com as obras de Jullus Wellhausen (1841-1918) no Antigo Testamento e Adolf Von Harnack (1851-1930) no Novo Testamento, o criticismo bíblico alcançou um considerável nível...
 
 
 
 
 
 
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