|
A Interpretação Bíblica na Reforma
A
Renascença (1300-1600), período caracterizado por um
renovado interesse pela antigüidade, especialmente pela literatura
clássica grega e latina, serve de pano de fundo para os métodos exegéticos
dos Reformadores. Houve um profundo interesse pela exatidão
histórica, originando um método de estudo que interpretasse os
textos clássicos dentro dos parâmetros estabelecidos pelo cenário
histórico e pela composição linguística desses textos. John Colet
(1467-1519), Erasmo de Roterdão (1469-1536) e
CaJetan (1469-1534) aplicaram os mesmos métodos á
interpretação bíblica.
Embora os
Reformadores tenham adotado os métodos lingüísticos e os Interesses pela
história dos Humanistas, eles se afastaram destes por motivos teológicos.
Os Humanistas tendiam a fazer da razão e do emprego da das ferramentas
históricas e lingüísticas a fonte mais importante da Interpretação Novo
Testamento. Contrariando esse fluxo, Martinho Lutero
(1483-1546) sujeitou a razão ao Espírito Santo e optou por interpretar as
Escrituras "Cristologicamente".
Os Reformadores
também se afastaram dos Intérpretes medievais e de Roma ao transformarem a
autoridade das Escrituras, que até então era vista por esses dois
movimentos como um guia suplementar á verdade e á vida, em
única regra de fé e conduta. Isso fez com que a
Interpretação das Escrituras não mais se apoiasse na tradição eclesiástica
ou alegorias fantasiosas, criadas para sustentar a tradição da Igreja. A
Igreja não deveria determinar o ensino das Escrituras, mas sim as
Escrituras deveriam determinar o ensino da Igreja.
Sob o risco de
abrir a porta para uma diversidade de interpretações, os Reformadores
deram destaque para a idéia de que a exegese era uma responsabilidade do
indivíduo, e não de um grupo pequeno e seleto.
João
Calvino (1509-1564), o Reformador mais Influenciado pelos
Humanistas da Renascença, desviou-se da abordagem
cristológica, ocasionalmente forçada de Lutero e deu pesada ênfase ao
testemunho Interno do Espírito Santo para confirmar suas conclusões
exegéticas. Rejeitou completamente o método alegórico e dedicou sua vida
exclusivamente a esclarecer o sentido literal das Escrituras, escrevendo,
assim, suas Institutas da Religião
Cristã. Deu importância ao estudo do contexto, da
gramática, das palavras e de passagens paralelas, porque conforme
declarava: "As Escrituras
Interpretam as Escrituras".
Para ele, a primeira tarefa de um intérprete é permitir que o autor do texto em estudo diga o que ele tencionou, em vez de atribuir-lhe o que se acha que ele deva estar dizendo. A Interpretação Bíblica no Período Pós
Reforma
A Igreja Católica
Romana reagiu e, como resultado de várias reuniões do Concílio de
Trento (1545 a 1563), apresentou seus dogmas e críticas ao
Protestantismo. Este, por sua vez, desenvolveu seus credos (ou Confissões)
para esclarecer a sua posição. Houve um momento em que as cidades
importantes possuíam cada uma o sou credo favorito. Nesse período, a
exegese tornou-se uma escrava da dogmática, cujo papel
limitou-se a comprovar o dogma defendido. Esse período é conhecido como
Confessionalismo.
PhIlipp
Jacob Spencer (1635-1705) representa o movimento
pietista, que já não suportava a controvérsia inútil acerca dos
dogmas. Preconizou o retorno ao interesse cristão mútuo e ás boas obras,
melhor conhecimento das Escrituras por parte dos cristãos e melhor preparo
espiritual para os pastores. Alguns membros desse movimento deram
importância á interpretação histórico-gramatical associado a um profundo
desejo de entender a Palavra de Deus para fazerem uso dela em suas vidas.
No entanto, outros pietistas desprezaram a interpretação
histórico-gramatical e passaram a depender de "uma luz interior" ou de
"uma unção do Santo". Isso levou a interpretações contraditórias e
impressões subjetivas em que o significado tencionado pelo autor do texto
era completa e propositadamente ignorado.
O Efeito do Racionalismo na Exegese
Farrar, em seu livro History of
interpretation, nos dá uma descrição assustadora acerca da direção
que a exegese tomou nos dois séculos seguintes à Reforma. Segundo
ele:
"Foi um período em que a liberdade foi substituída pelo
cativeiro; princípios universais foram substituídos por elementos
desprezíveis; a verdade foi substituída pelo dogmatismo: a independência
foi substituída pela tradição e a religião foi substituída por
sistemas".
Novamente, os
questões polêmicas passaram a determinar os procedimentos exegéticos. A
Contra-roforma dos séculos XVI e XVII fez emergir os
teólogos jesuítas, trazendo desafios ás posturas doutrinárias
Protestantes. O racionalismo Sociniano elaborou um
sistema que submetia as Escrituras á razão.
O fanatismo dos
Anabatistas também trouxe desafios à interpretação
tradicional protestante acerca das Escrituras. Adicione-se ainda a todo
esses movimentos as revoluções no pensamento científico, juntamente com as
novas filosofias de Descates, Hobbes e Spinoza.
Como conseqüência,
observa-se que houve um grande número de fatores condicionantes que
moldaram a exegese nos séculos que seguiram a Reforma.
A segunda
geração dos reformadores procurou preservar sua identidade
situando a fé atrás da barricada das confissões do credo, extraídas de
textos comprobatórios desconexos. Sob essa pressão polemica, os teólogos
do período pós-reforma lançaram mão dos meios de argumentação
escolástico, fundido com o modelo Aristotélico a fim de
esclarecer e sistematizar as doutrinas básicas da Reforma.
Ironicamente, a
perspectiva do Racionalismo tornou-se uma alternativa viável para o
sistema dogmático da Ortodoxia Protestante. Pelo fim do século XVII, a
autoridade bíblica tornava-se severamente restrita pelos avanços
científicos e históricos. Isso significava que a investigação das
Escritura, não mais poderia sor conduzida somente peia história bíblica. A
busca por objetividade exigia que os exegetas tratassem a Bíblia da mesma
maneira que qualquer outro documento histórico, submetendo-a a todos os
tipos de análise científica e sujeitando-a aos critérios estabelecidos
pela comunidade científica.
Uma vez que a
mente humana tornara-se livre das questões dogmáticas, foi estabelecido o
alicerce para uma Investigação das Escrituras totalmente histórica e
livre, Krentz, em seu livro The
Historical-Critical Method, descreve um novo problema:
"alguns poucos eruditos ortodoxos aprenderam o método
histórico sem assimilar a mentalidade antisupernaturalista do
racionalismo".
Visto que as
Escrituras haviam perdido seu valor como autoridade, o seu estudo passou a
ser motivado exclusivamente pelo interesse histórico. As idéias
conclusivas da razão elaboradas pelas novas filosofias passaram a dar a
confirmação final para a credibilidade das Escrituras. A influência do
racionalismo produziu alguns avanços positivos no campo do estudo textual
do Novo Testamento. Por exemplo, a verificação da fraseologia exata e o
significado dos textos das Escrituras foi um avanço fundamental na
interpretação histórica do Novo Testamento.
As investigações
históricas levaram os eruditos a um exame imparcial da transmissão textual
do Novo Testamento.
Nomes como
John Mill (1707). J.A. Bengel (1734) e
J J. Wettstein (1751-1752) ajudaram a lançar a base para
um texto academicamente critico do Novo Testamento grego. Mais tarde,
J. J. Griesbach imprimiu o primeiro texto grego
reconstituído.
Griesbach também
avançou além do criticismo histórico dos seus predecessores imediatos ao
aplicar-se aos problemas da crítica literária na área do Novo Testamento
em que esses problemas são mais óbvios: os evangelhos e suas
interpretações.
Deve se ressaltar
que nem todo trabalho exegético do XVIII século incorporava o racionalismo
vigente.
O comentário
expositivo palavra -por- palavra de J.A. Bengel,
intitulado Gnomon novi tetatmenti
(1742) ainda é bastante usado no ambiente acadêmico evangélico.
Embora eruditos
como J.J. Semler (1725-1791) e J.D.
Michaelis (1717-1791) buscassem objetividade total por meio de
uma rigorosa abordagem histórico-gramatical, o racionalismo de seus dias
influenciou grandemente as suas conclusões.
A busca por
objetividade era recomendável, no entanto, com a pressa de se escapar dos
pressupostos eclesiásticos, grande parte dor exegetas dos séculos XVII e
XVIII tornou-se prisioneira das conclusões do racionalismo secular.
|