![]() |
Lembre-se: PLÁGIO é crime. Sinta-se a vontade em usar este trabalho como referência, desde a fonte seja citada: FREITAS, Rafaela Leal de; PORTO, Max. O "mais do mesmo" do discurso cinematográfico: o clichê como recurso de construção simbólica aplicado no cimema Hollywoodiano. Disponível em: <http://www.projetolcliche.xpg.com.br>. Acesso: dd/mm/aa. Faculdades Promove, 2008
| Voltar para sumário | Introdução | Capítulo I | Capítulo II | Memorial Reflexivo | Referências | Agradecimentos | O vídeo | Os autores | Página Inicial |
|---|
3 - Procedimentos adotados na experimentação
O projeto consistiu na produção de um vídeo ficcional a partir de discussões feitas acerca da linguagem cinematográfica, sobretudo, o uso do clichê, entendido aqui como sendo o “lugar-comum” dentro das narrativas cinematográficas. Trata-se de situações contempladas de forma demasiada por diversos roteiros que visam repetir uma fórmula já pré-estabelecida.
Esta idéia desdobrou-se da observação do constante uso deste recurso em produções cinematográficas e da vontade de estudá-lo, entendê-lo e retratá-lo videograficamente. Como etapa de pré-produção do vídeo, o grupo assistiu a 65 filmes, de diversos gêneros, produzidos em Hollywood a partir do final da década de 1970. Deste montante, foram escolhidas algumas cenas que foram (re) utilizadas na produção do curtametragem.
O vídeo foi constituído de um pastiche de cenas classificadas, após análise, como sendo clichês, dos filmes presentes na metodologia deste projeto. Esta montagem tem como objetivo ilustrar (e criticar) a grande exploração, por parte da indústria do entretenimento, de cenas e diálogos que são comuns em grande parte dos filmes de certos gêneros. Durante a etapa destinada a assistir aos filmes pré-selecionados, o grupo notou que situações-clichê estavam mais presentes nos filmes de ação e guerra (épicos), sendo, portanto, os gêneros selecionados para compor os recortes presentes no vídeo produzido.
Para selecionar os filmes que irão servir como fonte de captura de imagens e demais reflexões que norteiam esta pesquisa, foi considerado, como recorte, o contexto cinematográfico a partir do final da década de 1970, quando a indústria do cinema de massab passou por certas mudanças no que diz respeito às formas de produção e recepção de seus produtos. Trata-se do contexto do chamado cinema blockbuster e a cinefilia.
De acordo com Rodrigo Carreiro (2003), o blockbuster diz de uma prática da cultura de consumo na qual os “filmes produzidos em série, cujos custos de marketing superam o próprio valor de produção” (p.55). Ainda segundo o autor, muitos historiadores do cinema apontam o filme “Tubarão”, do cineasta Steven Spielberg, como a primeira grande produção realizada dentro dessa cultura mercadológica.
Cabe pontuar, também, o contexto político nos Estados Unidos daquela época, quando houve conflitos ideológicos no contexto da chamada “Guerra Fria”. Estes dois acontecimentos, segundo Douglas Kellner (2001), foram a base ideológica dos discursos de diversos filmes hollywoodianos no decorrer dos anos 70 e 80.
3.1 – Processo de concepção
Muitos filmes apresentam uma estrutura narrativa muito semelhante uns dos outros e a repetição destas estruturas dramáticas é motivada em diversos roteiros de cinema. Syd Field (1995) defende o seguimento de uma estrutura narrativa, afirmando que a forma (o que contar?) dos filmes deve ser igual; O que irá diferenciá-los serão seus conteúdos (como contar).
Esta estrutura, de acordo com esta pesquisa, muito tem a ver com a difusão da ideologia norte-americana. Durante os anos em que ocorreram a Guerra do Vietnã e a “Guerra Fria”, nas narrativas televisivas e cinematográficas, era bastante comum a presença do personagem do presidente dos Estados Unidos justificando uma batalha ou a entrada do país numa guerra como “uma maneira de proteger o modo de vida americano”, que nada mais é do que ser o dito país das oportunidades, dos homens bravos e da liberdade, como é cantado em seu hino nacional e propagado até em sua Constituição Federal.
Trata-se de pretender ser um país onde as pessoas nascidas ou naturalizadas enxerguem a possibilidade real de se sentirem seguras, de prosperarem, de vencer financeiramente e de terem uma qualidade de vida, julgada por eles próprios, como a melhor do mundo e como um exemplo de bem viver.
A partir dessas pontuações, o grupo pensou em fazer questionamentos acerca deste processo, levantando discussões sobre a necessidade de se seguir essas estruturas narrativas já pré-concebidas. Além disso, cabe a reflexão sobre a fala de Syd Field quanto ao “como contar”. Muitos autores seguem a receita do bolo, mas pecam ao abrir mão de um toque mais autoral, repetindo não apenas a estrutura como o seu próprio conteúdo.
Ainda é possível escrever roteiros originais? Será que os cineastas hollywoodianos se preocupam em se diferenciarem no que tange o “como contar?” Seria mesmo o clichê um recurso eficaz para a divulgação do american way of life? Diante destes questionamentos, já imaginando a dificuldade de se criar um roteiro completamente original, o grupo pensou em produzir um curta-metragem ficcional, pontuando o “descompromisso” dos cineastas em serem originais na hora de criar a estrutura narrativa para seus filmes.
3.2 - Proposta de experimentação
O vídeo produzido pelo grupo é constituído de um pastiche de imagens de filmes dos gêneros ação e épicos com a temática da guerra. A produção apresenta um viés cômico devido à própria essência do clichê, de ser algo engraçado, previsível, que já foi visto muitas vezes.
A produção constitui-se de imagens de filmes hollywoodianos, produzidos a partir do final da década de 1970 e norteada a partir de reflexões acerca do próprio “fazer cinema”, segundo Hollywood, utilizando a metalinguagem como cerne da proposta prática, sendo aquele recurso definido por Sânderson Reginaldo de Mello (2003) da seguinte forma:
O conceito de metalinguagem versa sobre um código que trata sobre ou
descreve outro código ou linguagem. Por exemplo, um filme pode abordar a
produção cinematográfica, a mensagem de um poema pode expressar a
respeito da arte poética e um romance expressar sobre o processo de
produção de seu gênero narrativo. (MELLO, 2003, p. 8).
A metalinguagem estará presente como uma espécie de “metafilme”, pois o roteiro do projeto será baseado nos próprios ensinamentos dos manuais de roteiro dramático clássico escritos por profissionais de Hollywood, como Syd Field, o autor aqui contemplado.
3.3 – Estrutura da narrativa
Syd Field (1995) propõe que o roteiro ideal tenha de 90 a 120 páginas, sendo cada página referente a um minuto de filme. O autor propõe a seguinte estrutura:
3.4 – A formatação do roteiro do vídeo e a pós-produção
O grupo procedeu à parte prática do projeto, iniciando por assistir a exatamente 65 produções cinematográficas, predominantemente norte-americanas, a partir do final da década de 1970 até lançamentos recentes. Para assistir aos filmes, o grupo recorreu a diversas videolocadoras da cidade de Belo Horizonte, à ajuda de colegas, que emprestaram inúmeros
títulos e a acervo próprio.
Ao assistir aos filmes, os integrantes do grupo identificaram seqüências que poderiam fazer parte do projeto, apontando passagens mais comuns entre os títulos (os clichês ora estudados) fosse em situações (como nos filmes do gênero ação, mais especificamente nas seqüências de tiros e perseguição de carros, por exemplo), em diálogos (por exemplo, nas seqüências do discurso de guerra dos títulos “Coração Valente”, “Gladiador” e “O Senhor dos Anéis – O retorno do Rei”) ou em situações específicas, que fazem parte da construção de um roteiro clássico de cinema, segundo Syd Field, como os “plot points” ou pontos de virada da história ou nos “momentos de relaxamento”, que antecedem uma grande seqüência de ação (“Duro de Matar 1”, “Rambo 2” e “Adaptação”).
À medida que tais seqüências eram identificadas faziam-se anotações e o mapeamento das cenas, pelo mostrador digital do aparelho de DVD (nº do capítulo, hora, minuto e segundo) em que a seqüência começava e terminava e uma breve referência sobre o assunto. Esta referência serviu de base para se escolher as seqüências que seriam efetivamente utilizadas no projeto, bem como para se construir o roteiro do filme, o roteiro de edição (para uso na ilha), o story board etc.
Terminada esta etapa, foi possível produzir, em casa, um “copião” com o material preliminarmente escolhido. Foram usados, para isto, dois aparelhos reprodutores de DVD e um aparelho gravador de DVD. A necessidade de se usar dois aparelhos reprodutores se deu porque um deles não permitia a reprodução de determinadas mídias, determinados discos de
DVD, enquanto o outro aparelho permitia.
A partir do roteiro construído houve, portanto, a montagem desse copião, reproduzindo os trechos e os copiando no aparelho gravador. Várias versões foram produzidas, para que o vídeo fosse acertado e modificações pudessem ser feitas, até se chegar a um formato mais próximo do ideal. Foram feitos, inclusive, alguns letterings (quadros com fundo preto e letras brancas, para simular a aparição dos letterings reais), que estariam inclusos no filme (o título do filme, os autores, as indicações de 1º, 2º e 3º atos, os créditos finais e o “the end”, além de algumas inscrições de inserção de cenas). Esses letterings foram produzidos no Microsoft Power Point, maximizados para o modo de apresentação (tela cheia), depois capturou-se a imagem da tela, através do recurso de teclado Print Screen, no qual foram gerados arquivos em formato jpg.
A partir daí, esses arquivos foram gravados em CD e passados no reprodutor de DVD, onde puderam ser copiados para o gravador de DVD e encaixados nos lugares determinados do copião. Esse DVD foi mostrado para a orientadora do projeto, que fez observações importantes sobre a construção do roteiro e a edição das cenas, o que levou o grupo a tomar outro rumo na elaboração do vídeo, mantendo a idéia de algumas seqüências e reformulando outras (especialmente a conclusão do filme, que foi melhor elaborada).
Após esse ponto, o roteiro foi elaborado com mais cuidado e as seqüências foram pensadas, de forma a contemplar uma maior fragmentação das cenas, dando mais ritmo ao filme, sem deixar de seguir a lógica de roteiro de Syd Field, dos 3 atos (apresentação, desenvolvimento e conclusão), inclusive no que diz respeito à métrica das seqüências (1/4 de tempo para o 1º e 3º atos e 2/4 de tempo para o 2º ato - desenvolvimento, o “recheio” do filme).
O próximo passo foi aprimorar o roteiro, fechando de forma decisiva quais filmes iriam fazer parte do produto final e definindo todas as seqüências, letterings, trilhas, músicas e créditos. A idéia de se fazer a narração, em off, foi abandonada e optou-se por deixar esse recurso para os referidos letterings, que contariam, assim, a história.
Foram produzidos, ao todo, 4 story boards16 (inclusive um eletrônico, que foi mandado por e-mail para o orientador e para o técnico da ilha de edição para se acompanhar a idéia da narrativa), até se chegar ao definitivo, que serviu como guia para se montar e cortar o filme. Os story boards que foram impressos foram feitos a partir de fotografias tiradas de um aparelho celular, no momento em que a cena escolhida aparecia na tela do televisor.
Congelava-se a imagem naquele ponto e capturava-se a imagem, fazendo-se anotações sobre os filmes já registrados, em seus devidos pontos. Essas imagens foram descarregadas em computador, no qual foi possível trabalhar as cenas e colocá-las na ordem do roteiro estabelecido. Foi feita também, no Microsoft Word, uma espécie de capitulação17, seguindo a indicação da orientadora, no sentido de mostrar todas as cenas do filme, divididas por título, sua posição no DVD, seu número de capítulo e uma imagem daquela cena, orientando de forma mais rápida o que se queria buscar. Este método se mostrou muito eficiente tanto para o grupo quanto para o técnico do laboratório de vídeo.
Após essa etapa, o grupo levou ao laboratório todos os filmes originais para que fossem capturados e, então, gerado um arquivo para este projeto, contendo todas as seqüências e indicações pensadas para o filme. Para isso, foram feitas locações de títulos de filmes em três videolocadoras de Belo Horizonte, além dos DVDs do acervo próprio e do que fora emprestado por colegas. Ao todo, para o projeto final, foram usados 15 filmes, dentre os 65 assistidos.
Uma vez na ilha de edição (laboratório de vídeo), o grupo orientou a montagem das seqüências e o corte das cenas, nos pontos previstos e pôde contar com a experiência do técnico Álvaro Starling, que deu inúmeras dicas para melhorar o que havia sido pensado.
![]() |
|---|
"Webrabisc" - Rafaela Freitas