Lembre-se: PLÁGIO é crime. Sinta-se a vontade em usar este trabalho como referência, desde a fonte seja citada: FREITAS, Rafaela Leal de; PORTO, Max. O "mais do mesmo" do discurso cinematográfico: o clichê como recurso de construção simbólica aplicado no cimema Hollywoodiano. Disponível em: <http://www.projetolcliche.xpg.com.br>. Acesso: dd/mm/aa. Faculdades Promove, 2008

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Memorial Reflexivo


No filme Adaptação (Adaptation, 2000), o personagem de Nicolas Cage precisa adaptar um romance para a linguagem cinematográfica. Seu maior desafio é criar um roteiro que seja completamente original. No entanto, como resultado, o roteirista consegue elaborar uma história cheia daqueles clichês dos quais ele havia dito que não iria utilizá-los. O filme sugere a seguinte reflexão: é possível criar roteiros originais?


O recurso denominado clichê tem uma notável importância comercial, uma vez que os diretores interessados em conquistar mercado lançam mão de certos discursos e situações que constituem a fórmula do sucesso do cinema hollywoodiano. Como visto no curta-metragem produzido pelo grupo, roteiristas e diretores apostam em narrativas semelhantes àquelas que outrora fizeram sucesso de crítica e de público. Um herói, uma mocinha e um conflito político, por exemplo, são ingredientes que constituíram o roteiro de muitos filmes como Rambo 2 e Duro de Matar 1 e 2, que se tornaram tão famosos,
viabilizando a produção de novas seqüências, seguindo a mesma fórmula.

Como discutido por Theodor Adorno, muitos filmes proporcionam aos seus espectadores um terreno seguro, uma vez que apresentam um roteiro cíclico que já indica, desde o seu inicio, como a narrativa termina. O desfecho de um roteiro clássico de comédia romântica, por exemplo, não pode ser outro senão a felicidade do casal protagonista, depois de amargarem diversas desventuras e desencontros.


Vista desta forma, a produção cultural oriunda das camadas dominantes tende a proporcionar ao espectador um mero entretenimento diante da condição de passividade do mesmo. Para alguns teóricos, os donos dos meios de produção simbólica se aproveitam dessa passividade para difundir ideais que convenham aos seus interesses.


No cinema hollywoodiano, exemplos disso não faltam, como é o caso dos títulos utilizados pelo grupo, por exemplo, nos filmes de ação, nas seqüências de Rambo 2 e Duro de Matar 1 e 2, que apresentavam como antagonistas personagens de países que eram inimigos políticos dos Estados Unidos em um determinado contexto da História (personagens soviéticos, alemães e vietnamitas foram demasiadamente utilizados nas produções cinematográficas norte-americanas da década de 1980).


Ademais, a presença de discursos inflamados de ideologia política é praxe nos filmes épicos de guerra, que exaltam a atitude heróica de seus líderes e combatentes. Esse discurso torna-se tão padronizado que já se tornou clichê, uma vez que seu conteúdo, lexicalmente, se torna idêntico, como ilustrado no curta-metragem, durante as colagens de cenas dos filmes O Senhor dos Anéis – O retorno do Rei, Gladiador e Coração Valente. Há momentos em que, pela semelhança das cenas e dos diálogos, mal se nota o corte entre as seqüências, dando a entender que se trata de um único filme.

Essa experiência também deixa clara a importância do gênero cinematográfico para padronizar os elementos narrativos dos filmes. Os filmes de ação e de guerra, em sua maioria, utilizam-se dos “mesmos” personagens, conflitos, motivações e até cenografia, como também fora ilustrado no curta-metragem produzido. Tal padronização contribui para a
legitimação do clichê como recurso cinematográfico utilizado para criar determinadas identificações e representações dentro de um roteiro.

A grande discussão aqui colocada em xeque acerca dos roteiros diz respeito à possibilidade deles terem alguma característica original, visto o caráter cíclico das produções diante, principalmente, do contexto mercadológico. Jean-Claude Carrière e Pascal Bonitzer (1996) acreditam que o grande erro nesta discussão é o de acreditar que a originalidade do roteiro consiste em contar uma história nunca antes vista. Talvez esse tenha sido o grande erro cometido pelo personagem do filme Adaptação.

O roteirista interpretado por Nicolas Cage, contrariando a lógica proposta por Alfred Hitchcock, ao invés de partir dos clichês, acabou terminando neles, de tanto fugir dessas fórmulas desgastadas. O que Carrière e Bonitzer (1996) querem dizer é que, embora os tipos de situações dramáticas, cômicas e épicas sejam limitados, a forma como contar mostra-se infinita. Um roteiro de sucesso tem como base uma situação típica, o que fará o filme ser diferente do outro é a forma como essa situação será contada. Os roteiros podem lançar mão de clichês (o personagem herói, a mocinha indefesa e um inimigo político, por exemplo), mas o filme pode se tornar original se estes recursos forem usados de uma forma diferente, que implique na mudança do “como contar”.


As posições dos autores estudados sobre os gêneros cinematográficos pactuam com o objeto deste estudo, uma vez que nos deixou convencidos de que esta padronização é grande contribuinte para o reforço do uso de clichês na confecção dos roteiros hollywoodianos, seja na formação de platéia, pois há a definição de um público próprio (filmes policiais com situações-clichê atingirão um público específico, filmes de comédia romântica atingirão a seu público etc.), seja na pré-produção, quando são feitos os contratos, orçamentos e planejamentos que cercam a realização de um filme para cinema, seja na separação que a indústria ou a crítica especializada ou o mercado cultural precisem fazer para classificar essas produções.

O grupo pôde aprender, na leitura e apuração do referencial teórico que cercou o projeto e, ainda mais, na ilha, a partir do trabalho do técnico do laboratório, Álvaro Starling, na construção do vídeo e em como pensar um filme. Percebemos na prática a importância de se manter a coerência lógica, a continuidade, de estar atentos à ambientação, aos planos, ao posicionamento das câmeras, à diferenciação entre o áudio de uma seqüência e outra. Ver o projeto tomar uma forma muito melhor do que a esperada foi muito prazeroso.

O grupo pôde ver, ainda no campo prático, as idéias transmitidas por teóricos, dentre eles especialistas em roteiro cinematográfico, como Syd Field, de como um filme é construído e como ele pode se tornar comercialmente viável, a partir de um apuro técnico e pensando-se na linguagem e na estética.

Por tudo isso, pode-se afirmar que aprendemos enormemente com todo o processo, tanto o teórico quanto o prático, de “fazer o filme”, o que não nos deu nenhum trabalho, no sentido de “fardo”, uma vez que assistir aos filmes (mesmo em número tão grande) fosse um ato muito prazeroso, e estudar o processo que o envolve, mais ainda.

"Webrabisc" - Rafaela Freitas

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