HISTORIA


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TEORIA, ENSAIOS, COMENTARIOS SOBRE HISTORIA

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TEORIA, ENSAIOS, COMENTARIOS SOBRE HISTORIA


A literatura na história

J. P Mahaffy (quem foi? quando escreveu?)

RARAS vezes é inteiramente apreciado que grande parte da literatura do mundo é a história, de qualquer espécie. O primitivo selvagem é provavelmente a única espécie de homem que nela não toma interesse; deve notar-se que a memória dos mortos é muitas vezes cuidadosamente obliterada por ele a os nomes ou ainda palavras sugerindo os nomes dos seus antepassados, evitados nos seus discursos. Mas logo que uma centelha de civilização ilumina esta treva primitiva, os homens começam a tomar interesse pelos outros homens, não somente no que lhes diz respeito directo, mas além dos limites das suas próprias gerações. O interesse pelo passado a previsão para o futuro, são talvez as essenciais diferenças mentais entre o homem civilizado e o selvagem. A medida que o cuidado pelo passado a pelo futuro aumenta, toda a literatura se divide entre aquela que diz respeito às forças da natureza a aquela concernente à história do homem. Quase toda a literatura de imaginação parte desta última. Os poemas épicos pretendem cantar a história de heróis. Os poemas trágicos pretendem analisar as suas emoções em algumas grandes crises das suas vidas. Os poemas liricos são interessantes principalmente relatando-nos a história da alma do poeta. Até o romance moderno, que é manifestamente fictício, tem que se basear sobre a história de homens vulgares a buscar a maior parte dos seus enredos a ocorrências das suas vidas. O romance histórico é como que uma ponte entre as verdadeiras ocorrências do tempo passado e o desejo de saber mais dos motivos, da espécie, do carácter dos atores, do clue os conhecimentos transmitidos até aos nossos tempos por documentos contemporâneos. Este género de romances, quando didático, como por exemplo nos livros egípcios de Ebers, pode ser pouco mais do que um simples relatório de factos; quando artístico, como nos livros de Walter Scott, pode ser uma obra de pura fantasia. Contudo, existe neles sempre o interesse histórico, e é ponto discutível se a história de qualquer criatura inventada a formalmente divorciada dos anais dos homens conhecidos poderá jamais despertar esse vívido e permanente interesse que inspirará sempre a história de homens como Alexandre de Macedónia ou Napoleão. Todo o extenso repertório de ficções aglomerado em volta do nome do primeiro pretende impor-se como história; a vasta biblioteca de livros napoleônicos contém muitíssima fantasia; porém a ficção torna-se de pouco interesse se a compararmos com a história verdadeira dessa extraordinária existência.

Assim, visto a história, na acepção mais ampla da palavra, abranger a maior parte da literatura mundial, deveremos limitar-nos aqui a referir os esforços feitos por escritores nos últimos 3.000 anos, para investigar a história de homens que os precederam na vida ou passaram longe deles a existência, ou ainda para nos descrever a sociedade em que eles próprios viveram. Enquanto imperou na imaginação do homem a crença em uma idade de ouro, a crenca em um heróico passado, os anais e os poemas épicos também se ocuparam de um passado incerto a lendário.

A História de Heródoto, justamente considerada a obra-prima de uma nova escola, tentou a narrativa de um formidável combate, cujos pormenores ainda se não haviam apagado na memória dos velhos, e demonstrar ainda as causas que levaram a realizar-se este combate. Assim, pela primeira vez se tornou importante a parte literária de uma obra, em contraste com os anais secos e monótonos ou a simples relação de factos, adaptada pelos escritores a fim de fugirem das fábulas dos contistas para entrar no domínio dos factos. Porém o antagonismo manifestado nestes anais contra a maneira póética e ornada, tornou-se demasiado forte.

Os homens graves de então enganaram-se como os de agora ainda se enganam; julgaram que bastava investigar e narrar os factos cruamente, para haver a história verídica do passado. É quimérica tal ideia; nunca se poderá obter a verdadeira história da humanidade sem a descrição dos homens, das suas paixões e da lógica dos seus sentimentos. O romance histórico aproxima-nos muito mais da verdade dos fatos do que poderá jamais consegui-lo um relatório cronológico. Eis a razão por que o génio de Heródoto, como o génio dos historiadores do Velho Testamento, descobriu que os únicos retratos verdadeiros são os que expressam o caráter do retrato e que a perfeição desse retrato depende tanto do pintor como do assunto que ele tenta reproduzir. Os homens e as mulheres de Heródoto e até os estados e cidades que ele descreve, vivem na nossa imaginação. Ele, mais do que outro qualquer, conseguiu tornar a história da Grécia em assunto de eterno interesse. Neste sentido, Plutarco é o seu único rival. Se não houvessem existido estes dois escritores o público educado de todas as nações europeias teria há muito perdido o contacto com os Gregos, e apenas uma restrita minoria de artistas e estudiosos se interessariam ainda pelas coisas da Grécia.

Se existe a ideia de que Heródoto conserva ainda a obscura tendência de fazer da História um poema épico e que é demasiado pródigo em digressões e pontos de paragem - todavia preciosos! - os gregos fornecem-nos um forte antídoto. Em virtude da curiosa lei que não admite que apareça esporadicamente o gênio literário (como no caso excepcional de Dante), mas antes surja em grupos (como na época de Péricles, Isabel e Napoleão) - temos como grande rival contemporâneo de Heródoto, o historiador Tucídides. Em intencional antagonismo com a livre e fácil palestra do viajante da escola antiga, que se detém com frequência na marcha da sua epopéia imortal, a fim de deleitar os seus leitores com ramilhetes colhidos nos campos da anedota, este outro gênio literário ensina-nos claramente, sem se dignar dizê-lo mais do que uma vez e em uma leve frase, que (na sua opinião) o valor permanente da história consiste, não na parte social ou artística mas sim no progresso dos movimentos políticos, nos conflitos dos grandes princípios em que se amoldam o caráter e as condições das nações. Para ele a guerra entre Atenas e Esparta, até nas suas mais insignificantes e monótonas insurreições, é bem mais importante do que a escultura de Fídias, a poesia de Sófocles, a arquitectura de Ictinos e de Mnesicles.

Para ele, como para um grande número de historiadores modernos - desde Macchiavelli até Seeley - a política domina o mundo e portanto a história política excede a todas as outras em interesse e em valor. Será possível, todavia, que algum pensador, vivendo em certo meio e tomando parte nos debates políticos do seu tempo possa dar-nos uma relação objectiva do que em volta dele se passe? É isto que Tucídides pretende fazer; e soube tão bem ocultar a sua parcialidade, com a sua seriedade e afectada exactidão, que o seu gênio literário tem-se imposto no mundo dos eruditos desde então até aos nossos dias. Sabemos agora que a sua subjectividade não era menos dominadora do que a de Heródoto. Estava porém disfarçada, como a subjectividade de um grande pintor se disfarça - para a maioria vulgar - sob a fidelidade do retrato que executa. É provável que os contemporâneos de Rembrandt insistissem na exactidão com que ele reproduzia os seus burgomeisters, as suas velhas e os seus judeus. Nós, hoje em dia, avaliamos os seus quadros não como retratos fiéis, mas como a expressão do gênio do pintor. Ora, o mesmo nos acontece com a História de Tucídides. Se Heródoto é um Van Dick, que nos oferece uma galeria das personagens da Hélada e da Ásia, Tucídides é o Rembrandt que representa o seu próprio povo, embora seja rude e feio, com toda a energia e vigor do seu sombrio gênio. Assim são eles dois protótipos imortais até entre os Gregos, nossos mestres, porque ao lado deles todos os seus sucessores parecem fracos. Xenofonte possui toda a técnica de um artista historiador: falta-lhe porém a energia de caráter, a subjectividade que produz a harmonia de uma obra transcendente. Políbio é dotado da subjectividade e do forte caráter de um historiador, mas é tão deficiente a sua técnica, que se encontra esquecido por todos.

Não deixa de ser interessante inquirir até que ponto se manifestam estes eternos contrastes nos grandes escritores que têm conservado aceso, em tempos modernos, o luminoso facho da história artística; porém é demasiado vasto o assunto para que nos seja aqui permitido fazer mais do que algumas ligeiras reflexões gerais. A solidariedade da Europa, as miríades de relações dos grandes reinos em constante comunicação uns com os outros, tornaram tão imensa a tarefa, que nenhum cérebro humano pode encher a tela completa da história contemporânea, com um quadro adequado e harmonioso. Assim a Europa de Alison tinha de ser um fracasso como grande obra de arte e nenhum verdadeiro gênio histórico teria tentado escrevê-la. A única história contemporânea do autor ocupando um elevado lugar na Arte é a que se publica sob a forma de Memórias, como as de St. Simon ou de Boswell, que a reflectem dia a dia à superfície de uma sociedade interessante. Aqueles que têm demonstrado verdadeiro talento como historiadores em tempos modernos, escolheram épocas dos séculos passados, em que existiram caracteres e factos de bastante importância, para não deixar de interessar ainda hoje o espírito do mundo civilizado. O primeiro entre os historiadores ingleses foi Gibbon, o Heródoto dos tempos modernos pela amplitude do assunto, pela clareza da compreensão e pela riqueza da fantasia. É porém inferior a Heródoto como artista, tornando-se tão excessiva a pompa artificial do estilo, que chega frequentes vezes a distrair da narrativa a atenção do leitor; enquanto o velho grego havia atingido o elevado grau em que a arte se assemelha à natureza pela sua aparente simplicidade e total ausência de afectação. Apesar disto a história de Gibbon é uma grande e permanente obra de arte, que nunca será excedida pelas produções mais pragmáticas dos modernos escritores. Servia-lhe de lema o velho princípio clássico que exige ao historiador imaginação rica e fácil eloquência. Depois do Decline and Fall de Gibbon, entre as histórias escritas na língua inglesa deve figurar, tia minha opinião, a História da Grécia, de Grote. Assemelhando-se a Tucídides, na forma grave e sóbria, na exclusiva tendência para a política, no mal velado desejo de refutar os pontos de vista dos seus predecessores, Grote carecia contudo de hábil retórica e ainda mais daquela maravilhosa concisão, que torna tão impressionante a narrativa de Tucídides.

É, de facto, na sua forma de parafrasear os seus antigos modelos, que Grote mais brilha; mas, apesar de se haver chamado à sua história um enorme panfleto de radicalismo filosófico, a sua latitude, a sua ciência, a conscienciosa forma por que procura todas as fontes de informação, fazem destacar a sua História da Grécia, acima de muitas outras histórias mais curtas produzidas por eruditos europeus. É que ele não foi apenas erudito, foi também político; sabia como se podem evitar contradições teóricas em uma constituição, por meio de transições práticas, e se cuidava pouco de arte, de arqueologia e, em geral, da nota pitoresca do assunto de que tratava, pode contudo ainda serutilizado para corrigir a falta de conhecimentos políticos, tão frequentemente demonstrada pelos historiadores profissionais de França e da Alemanha. As investigações dos alemães e o espírito brilhante do franceses não produziram qualquer obra de valor igual às de Gibbon e Grote, apesar de haverem contribuído para a história com excelentes e até grandiosos elementos. Entre as produções alemãs, na minha opinião destacam-se duas: a História Romana de Mommsen e as histórias de Atenas e de Roma, por Gregorovius. Ambas são tratadas com uma perfeição de estilo geralmente desusada na Alemanha e são ambas monumentos de notável e exactíssima erudição. No livro de Mommsen esta erudição acha-se - para assim dizer - encoberta pela ausência de notas no fim da página e ainda mais por uma petulância de estilo que parecia indicar um certo facciosismo sobre algumas questões políticas de capital importância. Esta suspeita, originada pelo estilo desse livro notável, podia ser confirmada fazendo-se uma cuidadosa investigarão acerca das autoridades em que ele se apoia. Por outro lado, o conhecimento dos estudos especiais de Mommsen demonstra o gigantesco poder de que dispunha na arte de coligir elementos para a história. Niebuhr, o mais notável dos predecessores destes homens, apesar de ser autor de um método novo, como escritor não soube ser grande bastante para manter a sua situação contra os competidores modernos. Apesar disso os sucessores dele, exceptuando Mommsen, serão pessoas muito respeitáveis, mas não são com certeza artistas de valor. Muitos deles são eruditos de primeira ordem; porém isso aqui não vem ao caso. Como seria de esperar da parte de uma nação que produz tão excelente prosa, a França deu-nos uma série completa de eminentes historiadores, mas foi talvez devido ao elevado nível do seu estilo que nenhum deles conseguiu obter supremacia sobre os colegas. Guizot, Taine, Thiers, Renan, Montalembert, Henri Martin e muitos outros têm nos oferecido brilhantes exposições de várias épocas na história europeia; raras vezes, porém, conseguem libertar-se dessa subjectividade que caracteriza os franceses e prejudica a sua autoridade como juízes em assuntos históricos. Além disso, existe na maioria deles a visível preocupação do estilo, o desejo de dizer coisas brilhantes que tende mais a deslumbrar o espírito do leitor do que a iluminar o assunto de que tratam. É de crer que qualquer deles seria mais facilmente substituído do que Tocqueville, cujos estudos sobre a democracia são contudo antes exemplos de política do que de história. Mas estas generalidades acerca de historiadores estrangeiros tornam-se pouco valiosas sem mais amplas justificações. Ocupemo-nos novamente dos escritores ingleses que tornaram célebre o século actual, e mesmo a presente geração, pelos seus estudos históricos. Entre os que mais sobressaem há dois americanos - Motley, o historiador do período mais notável da história holandesa, e Parkman que, numa tela de menores dimensões, mas com pincel seguro, nos descreveu a prolongada contenda entre a França e a Inglaterra, pela posse da América do Norte. Na nossa Inglaterra, acabam de desaparecer dois homens eminentes, apresentando tais contrastes, que merecem ser discutidos e comparados: estes homens chamaram-se Freeman e Froude.

Este último era um grande escritor, e possuindo ainda uma brilhante imaginação -faculdade esta que pode ser censurável em um historiador mas que se torna completamente indispensável para sua grandeza. Assim, apesar de haver sido acusado de muitas inexactidões, a sua compreensão e perspicácia tornaram-no frequentes vezes tão acertado nas considerações, que não posso deixar de o julgar um historiador muito superior a Freeman, seu adversário e crítico. Este, embora possuísse em mais elevado grau a ciência de investigar, e fosse muito mais exacto nos pormenores, serve-se de um certo estilo grosseiro que afastará dele os leitores. Além de ostentar constantemente e com pedantesco orgulho a sua erudição, ainda afirma ou dá a entender com insolência a inferioridade dos que trabalham no mesmo campo. Desvia-se da sua História das federações gregas a fim de escrever notas sobre Napoleão III, que poderiam ser escritas por Vítor Hugo. Assim, apesar da sua grossa ciência, dos seus conhecimentos acerca da história do mundo, das suas cuidadosas investigações, Freeman será esquecido, quando ainda for lido o brilhante e gracioso Froude, que falará a milhares ele leitores, enquanto aquele já apenas o escutam algumas dezenas de ouvintes. Assim, também, os mestres do povo inglês na história são antes Shakespeare e Walter Scott do que o bispo Stubbs ou sir John Seeley, porque é esta a forma extrema do contraste entre o escritor pitoresco e o laborioso investigador. Sei que é regra entre os discípulos da escola de investigação negar-se qualquer mérito ou valor como historiadores aos escritores imaginativos. Todavia, sustento a opinião de que para cada pessoa que arranjou alguns conhecimentos acerca de Luís XI, rebuscando-os entre crónicas contemporâneas, existem dez mil que obtiveram dele uma ideia mais geral e verdadeira pela leitura de Qentin Durward ou de Notre Dame de Paris. Devo acrescentar que não é fácil tarefa interessar o público vulgar na leitura histórica e havê-lo conseguido representa um grande passo na civilização moderna.

Ocupando um lugar intermédio entre Froude e Freeman, coloco os meus dois amigos pessoais, Green e Lecky, os quais me aventuro a considerar como os mais populares escritores de história que a Inglaterra produziu depois de Gibbon. Green faleceu antes de poder dar a sua medida. Lecky é ainda hoje uma figura proeminente em Inglaterra; mas é considerado mais político do que historiador, visto ter trocado o estudo pelo Senado, e substituído a vida contemplativa pela actividade prática. É pouco provável, portanto, que ele nos apresente um novo livro de história. Contudo, os oito volumes da sua História de Inglaterra no Século XVIII, já apresentariam suficiente e ampla confirmação do seu gênio, ainda que os não houvessem precedido esses outros notáveis volumes sobre a história da cultura europeia, que tornaram conhecido e popular o seu nome por todo o império britânico. Pode ser posto em dúvida se o estilo acabado e leve de Lecky iguala o de Froude, ou se as suas investigações podem ser comparadas as de Freeman; contudo. ele reúne qualidades que eles não possuíam e portanto pode ser classificado acima deles por tino crítico independente. Torna-se talvez impossível a qualquer escritor escrever com o brilhantismo de Froude, se quiser escrever com judiciosa serenidade, se for indulgente para com os seus adversários, esforçando-se pela imparcialidade em controvérsias políticas. A narrativa de Lecky não se assemelha ao impetuoso Áufido, que arrasta homens e gado nas suas inesperadas cheias; parece-se mais com o tranquilo Líris, que vai lentamente desgastando os outeiros com a sua mansa corrente.

Mas, por muito bem que Lecky saiba avaliar quanto é necessária a eloquência na confecção da história, sa igualmente subordiná-la aos seus propósitos. Nos últimos dois volumes, que relatam a revolta irlandesa de 1798, ele, convencendo-se de que era pouco provável que alguém tratasse novamente desses factos, pôs de parte beleza da sua obra, a fim de nos fornecer uma compilação de todas as mais fidedignas notas contemporâneas, transcritas com as próprias palavras das autoridades que cita. Assim, estes valiosíssimos volumes dão-nos pouco mais do que um catálogo de extractos, compilados e expresso com cuidado e perícia, aliadas a uma modéstia que o torna ainda mais admiráveis. Podem, portanto, ser imparcialmente apreciados, mais como prova real do seu espírito investigador, do que do seu estilo, além de demonstrar-nos que, longe de ser o escravo deste, sabe subordiná-lo, a fim de atingir mais elevados fins. E contudo, se o livro fosse todo escrito sob essa forma, teria sido apenas lido por estudiosos especialistas e não por toda a gente.

João Ricardo Green foi um homem notável de outro tipo, e o seu único volume sobre o progresso e a educação do povo inglês logo atingiu e conserva ainda uma excepcional popularidade; mas assim como este livro não foi executado na larga escala do Século XVIII de Lecky, também nos dá ideia de uma menos cuidada investigação. Por exemplo, o relato de operações militares é manifestamente feito por forma tão superficial que não elucida bem o leitor. Jamais saberia descrever uma batalha como sir G. Trevellyan (que poderia figurar entre os nossos primeiros historiadores se não fossem as distracções de política partidária) descreveu recentemente a de Bunker's Hill. Por outro lado, as suas narrativas de movimentos populares, como por exemplo, a que trata da reacção do povo abandonando o Protectorado para abraçar a antiga soberania, são das mais brilhantes páginas que existem na literatura histórica inglesa. Não há lugar neste estudo para a filosofia política -` para a história das ideias, independentemente das realizações políticas, como as de Mr. Lecky, acima mencionadas. Não deporei, contudo, a minha pena sem afirmar que em uma dessas obras - o imenso fragmento da vasta concepção de Buckle sobre a civilização da Europa -encontrei maior estímulo, mais sugestão, mais incitamento à reflexão e ao estudo do que jamais encontrei em livro algum do nosso tempo. Não conheço tão pouco outra obra que a possa substituir completamente na educação intelectual de um historiador. Esta confissão é apenas pessoal; outros homens haverá que não aceitariam Buckle, levados por outras considerações. Green começou a concentrar a sua atenção na história por uma mera casualidade. Sendo ainda rapaz, foi felicitado, por ter ganho um prémio, por um velho professor-mor do colégio da Madalena, que lhe disse: "Lembra-te que esta mão que agora apertas, já foi apertada pela mão do grande dr. Johnson". E quantos outros homens haverá a quem uma casualidade, muitas vezes trivial em aparência, desperta faculdades dormentes? Se me for permitido citar o meu próprio caso, direi que a libertação de trabalhos escolares, a falta de ocupações suficientes e o acaso que me deparou um volume da Grécia de Grote, foram as causas determinantes que me impeliram, aos quatorze anos, para o estudo da história clássica, não obstante faltarem a Grote tanto a imaginação com eloquência tendentes a atraírem as atenções de uma criança. Todavia ambas estas qualidades existem no livro: sob a forma de uma clareza extrema, quando trate de descrições complicadas; em impressiva gravidade nas lições políticas, e em um certo tom geral digno e ponderado, que só um escritor de mérito pode atingir. Os homens variam nas suas predilecções e nos seus gostos mas a história fornece uma galeria de tipos e de variedades suficientes para satisfazer todas as forma de inteligência por muito elevadas que sejam; pois acaso não é ela, segundo as eloquentes palavras de Cícero:

Testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nintia vetustatis?

comentario de pw: afinal, que literatura e historia as vezes sao a mesma coisa está provado na Odisseia, na Iliada, na Biblia, nos Lusiadas e em tantas outras obras primas. prova cabal disso foi a descobeta arqueologica de Troia, efetuada por Schliemann (foi ele mesmo???) baseando-se tao somente na leitura atenta, na correta interpretacao e na fé inabalavel sobre o caracter historico do texto homerico. para saber mais vide o livro Deuses, Tumulos e Sábios.



BRASIL

SEGUEM ALGUNS DOCUMENTOS  que iremos arrolando de forma linear historica e melhorando futuramente com anotacoes nossas e comentarios de colaboradores, e, talvez, uma imagem aqui e outra acola. a primeira, a carta de mestre Joao Farias (quem sabe um antepassado meu)

A CARTA DE CAMINHA

A CARTA DE MESTRE JOAO FARIAS

A RELACAO DO PILOTO ANONIMO

TRATADO DA TERRA DO BRASIL, PERO DE MAGALHAES GANDAVO

VARNHAGEN


A CARTA DE MESTRE JOÃO FARIAS

Senhor: O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escobar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapamúndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.

Johannes, artium et medicine bachalarius. OBTENHA A CARTA EM PDF

Nota Biográfica

A vida de Mestre João vem sendo pesquisada desde quando Francisco Adolfo Varnhagen trouxe a público, pela primeira vez, na década de 40 do século XIX, este depoimento da chegada da frota cabralina a Porto Seguro, em 22 de abril de 1500.

Mestre João Farias, bacharel em artes e medicina, era médico e cirurgião do rei D. Manuel. É um personagem típico do humanismo ibérico envolvido com os descobrimentos e com o vasto universo de conhecimento da renascença européia.

Nota Explicativa

Mestre João Farias foi quem realizou as primeiras observações astronômicas no território brasileiro, conforme se pode notar pelos seus comentários nesta correspondência em que se identificam as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul, configurada na Bandeira do Brasil. A carta de Mestre João, documento científico e informativo, é o único texto escrito na semana em que a frota ficou ancorada na atual Baía Cabrália que contém um esboço descritivo das estrelas do céu brasileiro. Os comentários a respeito do uso dos diversos instrumentos astronômicos da arte de navegar demonstram como os portugueses detinham o que de mais avançado se sabia no tempo a respeito da ciência náutica.

O texto da carta e a nota explicativa basearam-se na edição publicada no livro de Paulo Roberto Pereira, Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil - Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999. (MCG)



RELAÇÃO DO PILOTO ANÔNIMO

Capítulo I

Onde o Rei D. Manuel em pessoa entregou a bandeira real ao Capitão

No ano de 1500, mandou o Sereníssimo Rei de Portugal, chamado Dom Manuel de nome, uma sua armada de naus e navios às partes da Índia, na qual armada havia 12 naus e navios da qual armada era Capitão-mor Pedro Álvares Cabral, fidalgo. As quais naus e navios partiram e bem aparelhados e providos de todas as coisas necessárias para um ano e meio. Das quais 12 naus ordenou que 10 fossem a Calecute e as outras duas para a Arábia para irem a um lugar chamado Sofala porque queriam mercadejar naquele lugar, o qual lugar de Sofala acharam estar no caminho de Calecute. E assim as outras 10 naus levavam mercadorias que à dita viagem lhes fossem necessárias. E aos 8 do mês de março no dito ano estavam prontos, e naquele dia, que era domingo, foram à distância de duas milhas desta cidade a um lugar chamado Restelo, onde está uma igreja chamada Santa Maria de Belém, no qual lugar o Sereníssimo Rei foi em pessoa entregar ao Capitão a Bandeira Real para a dita armada.

E na segunda-feira, que eram 9 dias de março, partiu a dita armada, com bom tempo, para a sua viagem. E no dia 14 do dito mês passou a dita armada pelas ilhas Canárias. E no dia 22 passou pelas ilhas de Cabo Verde. E no dia 23 separou-se uma nau da dita armada, de tal maneira que nunca mais se ouviu nada dela até hoje, nem se pode saber.

Capítulo II

Como correram as naus com tormenta

Aos 24 dias de abril, que foi quarta-feira da oitava da Páscoa, houve a dita armada vista de terra, de que teve grande prazer. E chegaram à terra para verem que terra era, a qual acharam terra muito abundante em árvores e gentes, que por ali andavam, pela costa do mar, e lançaram ferro na foz dum rio pequeno. E depois de lançadas as ditas âncoras, o Capitão mandou deitar um batel ao mar pelo qual mandou ver que gentes eram aquelas, e acharam que eram gentes de cor parda, entre o branco e o preto, e bem dispostas, com cabelos compridos e andam nus como nasceram, sem vergonha alguma, e cada um deles levava o seu arco com flechas, como homens que estavam a defender o dito rio. Na dita armada não havia ninguém que compreendesse a sua língua. E visto isto, os do batel voltaram ao Capitão e neste instante fez-se noite, na qual noite houve grande tormenta E no dia seguinte pela manhã levantamos âncora e com grande tormenta andamos correndo a costa para o norte para ver se encontrávamos algum porto, onde a dita armada ficasse. O vento era sueste. Finalmente encontramos um porto onde lançamos âncora e onde encontramos daqueles indígenas que andavam nos seus barcos a pescar. E um dos nossos batéis foi até onde estes tais homens estavam e agarraram dois deles e levaram-nos ao Capitão para saber que gente era, e, como se disse, não se compreenderam, nem à fala nem por sinais. E naquela noite o Capitão reteve-os com ele. No dia seguinte mandou vestir-lhes uma camisa e um vestido e pôr um barrete vermelho, do qual vestuário eles ficaram muito contentes e maravilhados das coisas que lhes mostraram. Depois mandou-os pôr em terra.

Capítulo III

Raiz de que fazem pão, e os seus outros costumes

Naquele mesmo dia que era a oitava da Páscoa, a 26 de abril, determinou o Capitão-mor ouvir missa, e mandou levantar um altar, e todos os da dita armada foram ouvir missa e sermão, onde se juntaram muitos daqueles homens bailando e cantando com as suas buzinas. E logo que foi dita a missa, todos se retiraram para as suas naus, e os homens da terra entraram pelo mar dentro até aos sovacos, cantando e divertindo-se. E depois, tendo o Capitão jantado, voltou à terra a gente da dita armada, para se distraírem e divertirem com os homens da terra. E começaram a tratar com os da armada, e davam dos seus arcos e flechas em troca de guisos, e folhas de papel e peças de pano. E todo aquele dia se divertiram com eles. E encontramos neste lugar um rio de água doce e à tarde tornamos para as naus. E ao outro dia determinou o Capitão-mor meter água e lenha, e todos os da dita armada foram à terra. E os homens daquele lugar vieram ajudar à dita lenha e água. E alguns dos nossos foram à terra donde estes homens são, que seria a três milhas da costa do mar e compraram papagaios e uma raiz chamada inhame, que é o seu pão que comem os árabes. Os da armada davam-lhes guisos e folhas de papel em troca das ditas coisas, no qual lugar estivemos cinco ou seis dias. De aspecto, esta gente são homens pardos, e andam nus sem vergonha e os seus cabelos são compridos. E têm a barba pelada. E as pálpebras dos olhos e por cima delas eram pintadas com figuras de cores brancas e pretas e azuis e vermelhas. Têm o lábio da boca, isto é, o de baixo, furado, e nos buracos metem um osso grande como um prego. E outros trazem uma pedra azul e verde e comprida dependurada dos ditos buracos. As mulheres andam do mesmo modo sem vergonha e são belas de corpo, os cabelos compridos. E as suas casas são de madeira coberta de folhas e de ramos de árvores com muitas colunas de madeira. No meio das ditas casas e das ditas colunas para a parede põem uma rede de algodão dependurada em que fica um homem e entre uma rede e outra fazem uma fogueira, de modo que numa só casa estão 40 ou 50 camas armadas à maneira de tear.

Capítulo IV

Papagaios na terra de novo descoberta

Nesta terra não vimos ferro e faltam-lhes outros metais. E cortam a madeira com pedras e têm muitas aves de muitas espécies, especialmente papagaios de muitas cores, entre os quais alguns grandes como galinhas e outras aves muito belas. E das penas das ditas aves fazem chapéus e barretes que usam. A terra é muito abundante em muitas árvores e muitas águas boas e inhames e algodão. Nestes lugares não vimos animal algum. A terra é grande e não sabemos se é ilha ou terra firme. Julgamos que seja pela sua grandeza terra firme. E tem muito bom ar e estes homens têm redes e são grandes pescadores e pescam peixes de muitas espécies, entre os quais vimos um peixe que apanharam, que seria grande como uma pipa e mais comprido e redondo, e tinha a cabeça como um porco e os olhos pequenos e não tinha dentes e tinha orelhas compridas do tamanho dum braço, e da largura de meio braço. Por baixo do corpo tinha dois buracos, e a cauda era do comprimento dum braço e outro tanto de largura. E não tinha nenhum pé em sítio nenhum. Tinha pêlos como o porco e a pele era grossa como um dedo e as suas carnes eram brancas e gordas como a de porco. E nestes dias que estivemos, determinou o Capitão dar a saber ao nosso Sereníssimo Rei o achado desta terra e de deixar ali dois degredados e condenados à morte que tínhamos levado na dita armada para tal fim. E imediatamente o dito Capitão despachou um navio que levavam com eles com mantimentos além das 12 naus sobreditas. O qual navio levou as cartas ao Rei na qual se continha quanto tínhamos visto e descoberto. E despachado o dito navio, o Capitão foi a terra e mandou fazer uma cruz muito grande de madeira e mandou cravá-la no dito espaço e também, como se disse, deixou dois degredados no dito lugar, os quais começaram a chorar. Os homens daquela terra confortavam-nos e mostravam ter piedade deles.

Capítulo V

Uma tempestade tão grande que quatro naus se perderam

Ao outro dia, que foi o dia 2 de maio do dito ano, a armada fez-se de vela para a sua viagem para ir à volta do cabo da Boa Esperança, o qual caminho seria através do mar mais de 1.200 léguas, isto é, quatro milhas por légua e a 12 dias do dito mês, seguindo o nosso caminho, apareceu um cometa para as partes da Arábia, com uma cauda muito comprida, o qual apareceu de contínuo 8 ou 10 noites. E um domingo, que eram 24 dias do dito mês de maio, seguindo toda a armada junta com bom vento, com as velas a meia árvore sem moneta por causa de uma chuva que tivemos no dia anterior, e seguindo assim, veio um vento tão forte pela vante e tão repentino, que não o notamos senão quando as velas ficaram atravessadas nos mastros. Naquele instante se perderam quatro naus com toda a sua gente, sem podermos prestarlhes socorro algum. As outras sete que escaparam, estiveram em perigo de perder-se. E assim tomamos o vento de popa com mastros e velas rotas, e à misericórdia de Deus andamos assim todo aquele dia. E o mar inchou de tal modo que parecia que subíamos ao céu. E o vento de repente descaiu, embora fosse ainda tão grande a tormenta, que não tínhamos desejo de dar velas ao vento. E navegando com esta tormenta sem velas, perdemo-nos de vista uns e outros, de modo que a nau do Capitão com mais duas seguiram outro caminho e outra nau chamada El-Rei, com mais duas, seguiram outro, e a outra por outro caminho. E assim passamos com esta tormenta 20 dias, sem dar uma vela ao vento. (...)*

* No original, a narrativa continua, relatando a viagem de Pedro Álvares Cabral até a Ìndia, e o seu retorno a Portugal.

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Nota Explicativa

A Relação do Piloto Anônimo, um dos três documentos conhecidos escritos por participante da armada que descobriu o Brasil, é o único publicado ainda em vida de Pedro Álvares Cabral, que morreu em torno de 1520. A versão apresentada por Paulo Roberto Pereira, no livro Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil, baseia-se na várias edições por ele consultadas: Fracanzano da Montalboddo, Giovanni Battista Ramusio, Sebastião Francisco de Mendo Trigoso de Aragão Morato, William Brooks Greenlee, Antônio Álvaro Dória, T. Marcondes de Sousa e José Manuel Garcia.

A Relação do Piloto Anônimo, apesar de se limitar, na parte referente ao Brasil, a informações sem os detalhes que encontramos na carta de Caminha, é um precioso documento. Pode-se observar que seus comentários em quase tudo confirmam o texto caminiano. Nota-se que o Piloto Anônimo procura realçar não só a riqueza geográfica da terra com seu bom ar, mas também a aparência física dos seus habitantes, em especial das mulheres, pelos cabelos compridos e a beleza do corpo. Ressalta ainda a confraternização entre os portugueses e os índios, que se divertiam, negociavam e se auxiliavam neste primeiro contato erdadeiramente paradisíaco entre o europeu e o nativo da terra recém descoberta, destacando a caridade com que os silvícolas trataram os degredados na partida das naus.

Observação: a edição deste texto e os comentários basearam-se no livro Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil, de Paulo Roberto Pereira. Rio de Janeiro:

Lacerda Editores, 1999. (MCG)



o texto a seguir deve ser espelhado para literatura

(MINISTÉRIO DA CULTURA, Fundação Biblioteca, Nacional, Departamento Nacional do Livro)

ENSAIO HISTÓRICO SOBRE AS LETRAS NO BRASIL [1847]

Francisco Adolfo de Varnhagen

Ao descobrir-se a América, ou antes, ao colonizar-se ela, durante o século XVI, achavamse no seu maior esplendor as duas nações do extremo ocidental da Europa, que nisso se empenhavam: assim as línguas e literatura, sempre em harmonia com a ascendência e decadência dos estados, como verdadeira decoração que são de seus edifícios, tocavam então o maior auge. Com efeito, o castelhano e o português, que tiveram a sorte de passar primeiro que outras línguas do velho ao novo continente, subiam então pelas suas literaturas à categoria de línguas, graças ao impulso que lhes davam os respectivos centros governativos. O português poliu-se sem degenerar quase nada de sua filiação galego-asturiana, nem corromper o valor das articulações latinas. O castelhano, procedente da mesma filiação, só chegou àquele resultado, depois de arabizar-se muito, de adotar o gutural árabe, e de alterar insensivelmente outras articulações latinas. O português de hoje é o mais legítimo representante do antigo castelhano e do domínio romano na Espanha; e o castelhano moderno serve a comprovar quanto o domínio de uma nação estrangeira pode fazer variar um idioma já bastante formado. Mas, apesar desse polimento da língua e literatura portuguesa, na época em que se colonizava o Brasil, como se as letras se encolhessem com medo do Atlântico, não passam elas com os novos colonos. Não era no Brasil que os ambiciosos de glória tratavam de buscar louros para colher, pois que essa ambição elevada se satisfazia melhor na África ou na Ásia. Ao Brasil, ia-se [sic] buscar cabedais, fazer fortuna; e as miras do literáto alcançam mais alto, não é aos gozos, nem mesmo às glórias terrenhas a que aspira: é à glória imortal. Os troncos colonizadores não trazem, pois, da árvore-mãe seiva poética bastante para produzirem frutos com ajuda do clima e da terra. A atividade intelectual que emigrava da metrópole nem bastava toda para se estender pelos Algarves d’Além e pela Índia, onde feitos heróicos se passavam. Os acontecimentos, que na Ásia e na África se representavam, eram eternizados em versos por um Camões, um Corte-Real, um Vasco Mousinho; e em prosa por um Gaspar Corrêa, um Castanheda e um Barros. A única obra que nesse primeiro século se escreveu com mais extensão sobre o Brasil, só ultimamente se imprimiu: referimo-nos à do colono Gabriel Soares, cujo trabalho, feito em 1587, foi o fruto da observação e residência de dezessete anos na Bahia; tantos como como passara na Pérsia o naturalista Ctésias, que foi quem primeiro fez conhecer aos gregos as riquezas naturais da Ásia. Ao Brasil não passavam poetas; é, pois, necessário esperar que ele se civilize e que os poetas aí nasçam e vigorem seus frutos. Os indígenas tinham um gênero de poesia que lhes servia para o canto; os seus poetas, prezados até pelos inimigos, eram os mesmos músicos ou cantores que em geral tinham boas vozes, mas eram demasiadamente monótonos; improvisavam motes com voltas, acabando estas no consoante dos mesmos motes. O improvisador, ou improvisadora, garganteava a cantiga e os mais respondiam com o fim do mote, bailando ao mesmo tempo e ao mesmo lugar em roda, ao som de tamborins e maracás. O assunto das cantigas era em geral as façanhas de seus antepassados; e arremedavam pássaros, cobras e outros animais, trovando tudo por comparações, etc.

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Eram também grandes oradores e tanto apreciavam esta qualidade que aos melhores

faladores aclamavam muitas vezes por chefes. Os missionários jesuítas, conhecendo estas

tendências, trataram de empregar a música e a poesia como meios de catequese. Nos seus

colégios, começavam logo a ensinar a cantar aos pequenos catecúmenos filhos da terra e, mais

tarde, compunham até comédias, ou autos sacros, para eles representarem; daí proveio o

primeiro impulso da poesia e do teatro no Brasil. Assim, a respeito deste último, sucedeu neste

país o mesmo que nos séculos anteriores se passara na Europa, pois, como é sabido, o teatro na

Idade Média se conservou e se aperfeiçoou depois, ocupando-se exclusivamente de assuntos

religiosos, como até se depreende da lei das Partidas.

Na América Espanhola sucedeu diversamente. A Espanha não tinha Áfricas, nem Ásias,

as suas Índias eram só as ocidentais. Do território hispânico não havia já mouros que expulsar e

às Índias tinham de passar os que queriam ganhar glória. Assim, enquanto Camões combatia em

África e se inspirava em uma ilha dos mares da China, Ercilla, soldado espanhol no Ocidente,

deixava gravada uma oitava sua no arquipélago de Chiloe, e, quando Os Lusíadas viam a luz

(1572), havia já três anos que corria impressa a primeira parte da Araucana. Os passos de Ercilla

eram, no Chile, seguidos por Diego de Santistevan Osório e Pedro d´Oña (já filho d´América),

que, em 1605, publicou em dezenove cantos o seu Arauco Domado. Já então se tinha organizado

em Lima uma Academia Antártica e havia, na mesma cidade, uma tipografia na qual, em 1602,

Diogo d´Avalos y Figueroa imprimiu sua Miscelanea Austral y Defensa de Damas, obra que faz

lembrar a Miscelanea Antártica y origen de Índios, que o presbítero Miguel Cabello Balboa

deixou manuscrita. Da mencionada Academia Antártica nos transmite, em 1608, os nomes de

muitos sócios a introdução, feita por uma senhora, às Epístolas d´Ovídio, por Pero Mexia. Aí se

mencionam, como mais distintos árcades, Mexia e os mencionados Oña, Cabello e Duarte

Fernandes. Por esse tempo, compunha, também em Lima, fr. Diego de Hojeda a sua épica

Christiada, publicada em 1611, e Fernando Alvarez de Toledo o seu Puren Indomito, que nunca

se imprimiu. A regularmo-nos pelos tons dos cantos do berço, estes montuosos países da América

Ocidental deveriam ter que representar um importante papel no desenvolvimento futuro da

literatura americana.

O México não deixava também de participar do estro ibérico, mas aqui, com ar de

conquistador, e não com formas nacionais, como no Chile, onde o próprio poeta soldado é o

primeiro, não só a confessar, mas até a exaltar generosamente as proezas do mesmo Arauco que

ele combatia com armas. Com razão diz a tal respeito d. Gabriel Gomes:

Al valiente Araucano

Alonso venció y honró: la ira

Recompensó la lyra.

Nem sequer um canto de bardo se levantou a favor do, por enganado, não menos herói,

tão simpático, Montezuma.

Com o título de elegias canta Juan de Castelhanos, em milhares de fluentes oitavas, a

história dos espanhóis que, desde Colombo, mais se ilustraram na América.

Gabriel Lasso (1588) e Antonio Saavedra imaginaram epopéias a Cortez, mas foram tão

mal sucedidos como século e meio depois o mexicano Francisco Ruiz de León.

O pequeno poema Grandeza Mexicana, publicado no México em 1604 pelo ao depois

bispo Balbuena, autor da epopéia El Bernardo, é, apesar de suas hipérboles e exagerações sempre

poéticas, o primeiro trecho de boa poesia que produziu a vista desse belo país, que logo se

começou a corromper: primeiro, com falsidades na guerra; depois, com a sede do ouro. Força é

confessar que a obra de Balbuena é, de todas as que temos mencionado, a que mais abunda em

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cenas descritivas, por se haver ele inspirado, mais que todos os outros, de um dos grandes

elementos que deve entrar em toda a elevada poesia americana: a majestade de suas cenas

naturais. Todos os demais poetas queriam ser demasiado historiadores, no que caiu algum tanto o

próprio Ercilla e muito mais outros que chegam a ter a sinceridade de assim o declarar. Deste

número, foi Saavedra e o capitão Gaspar de Villagra que, em 1610, publicou em Alcalá ( em

trinta e quatro cantos de verso solto, aos quais melhor chamara capítulos) a sua História de la

Nueva (sic) Mexico , e nesta descreve os feitos do Adiantado Oñate e seus companheiros. Mais

poeta nos parece que seria o pe. Rodrigo de Valdés, de quem possuímos a Fundação de Lima,

mas, infelizmente, escrito em quadras, que deviam ser a um tempo espanholas e latinas, é, às

vezes, obscuro e, com mira de fazer heróico o panegírico, o deixa aparecer antes, a trechos,

demasiado empolado.

Buenos Aires, de si terra pouco hospitaleira, ocupou as atenções de Martín del Barco

Centenera. Mas a Argentina é também mais uma dessas histórias em verso que um poema.

Não cabe aqui seguirmos a história das produções poéticas nos países que hoje constituem

as diferentes repúblicas hispano-americanas, contudo, deixaremos consignado que tanta seiva

emprestada de pouco lhes valeu, por secarem, talvez, as árvores antes que as raízes fossem assaz

vigorosas para nutrir novos rebentões. Por nossa parte, fazemos votos para que uma tal literatura

se eleve à eminência de que é suscetível: o altíloquo Heredia e o mimoso Plácido abriram

caminho, não há mais que segui-lo. Haverá quem o siga? Quanto a nós, temos nisso inteira fé;

quando as ambições se cansem por si mesmas, quando chegue o desengano de que a política atual

quebranta a alma e deixa um vago no coração, o gênio terá que buscar, na cultura do espírito, o

mais seguro e mais glorioso refúgio.

Lancemos as vistas para o nosso Brasil. Deus o fade igualmente bem, para que aqui

venham as letras a servir de refúgio ao talento, cansado dos esperançosos enganos da política!

Deus o fade bem, para que os poetas, em vez de imitarem o que lêem, se inspirem da poesia que

brota com tanta profusão do seio do próprio país e sejam, antes de tudo, originais - americanos.

Mas que por este americanismo não se entenda, como se tem querido pregar nos Estados Unidos,

uma revolução nos princípios, uma completa insubordinação a todos os preceitos dos clássicos

gregos e romanos, e dos clássicos da antiga mãe-pátria. Não. A América, nos seus diferentes

estados, deve ter uma poesia, principalmente no descritivo, só filha da contemplação de uma

natureza nova e virgem, mas enganar-se-ia o que julgasse que para ser poeta original havia que

retroceder ao abc da arte, em vez de adotar e possuir-se bem dos preceitos do belo, que dos

antigos recebeu a Europa. O contrário podia comparar-se ao que, para buscar originalidade,

desprezasse todos os elementos da civilização, todos os preceitos da religião que nos

transmitiram nossos pais. Não será um engano, por exemplo, querer produzir efeito e ostentar

patriotismo, exaltando as ações de uma caterva de canibais que vinha assaltar uma colônia de

nossos antepassados só para os devorar?Deu-nos Deus a inspiração poética para o louvarmos,

para o magnificarmos pela religião, para promover a civilização e exaltar o ânimo a ações

generosas, e serão amaldiçoados, como diz o nosso poeta religioso:

(...) os vates em metro perigosos

Que abusaram da musa (...)

(Assumpção, c. 2o )

Infeliz do que dela se serve para injuriar sua raça, seus correligionários e, por ventura, a

memória de seus próprios avós!

Mas, voltando aos tempos em que deixamos as letras e a poesia entregues aos desvelos

dos jesuítas, é, sem dúvida, que dos colégios destes que se haviam apoderado da instrução da

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mocidade, saíram os primeiros humanistas e os primeiros poetas que produziu o Brasil.

Nessas aulas se educaria primeiro o franciscano, Vicente do Salvador, nascido na Bahia,

em 1564, e autor de uma história do Brasil que existe manuscrita; nas mesmas estudaria o seu

compatriota, o pe. Domingos Barbosa, que escreveu em latim um poema da Paixão. Delas

sairiam os dois amigos de Vieira, Martinho e Salvador de Mesquita, dos quais o primeiro

imprimiu obras em Roma (1662-1670), e o segundo deixou tragédias e dramas sacros. Delas saiu,

finalmente, o escritor paulistano Manoel de Moraes, queimado em estátua pela Inquisição.

Mas é singular como a atividade literária só começa depois que a guerra dos holandeses,

despertando, por assim dizer, os ânimos, os distraiu da exclusiva ocupação de ganhos e interesses

mesquinhos, para ocupar-se mais em apreciar as artes do engenho. Toda a guerra de alguns anos,

quando bem dirigida, convém , de tempos a tempos, às nações, para as despertar de seu torpor. O

sangue é fecundo, quando bem derramado, e a conquista de glórias é tão necessária a um povonação

como o aumento de suas rendas.

O pe. Vieira, com seu gênio vivo e grande eloqüência, foi, por meio de seus sermões, um

dos mais poderosos agentes que contribuíram para a regeneração moral, e até literária, da nova

colônia. As suas lições e os seus estímulos deram ainda aos púlpitos, além de outros pregadores

brasileiros, Antônio de Sá e Eusébio de Mattos. Este foi, além disso, o primeiro brasileiro que se

deu à poesia religiosa. E, por uma notável singularidade, a guerra contra os holandeses, que foi

um tônico para o povo, que serviu de motivo de inspiração a Vieira de muitos de seus rasgos mais

eloqüentes, que lembrou mais uma comédia ao imortal Lope de Vega, essa mesma guerra foi a

causa de que passasse ao Brasil um dos maiores homens, que contam nos anais de literaturas

Portugal e Castela: referimo-nos a d. Francisco Manoel de Mello que, como testemunha de vista,

escreveu por esta ocasião a Epanáfora bélica, sobre a expulsão dos mesmos holandeses de

Pernambuco.

Algum tempo depois da aclamação do duque de Bragança, um filho do Brasil, Diogo

Gomes Carneiro, foi nomeado cronista geral deste país, a quem o novo monarca brindou com o

título de principado na pessoa do herdeiro do trono.

Antes de passarmos adiante, diremos, em poucas palavras, as nossas opiniões acerca do

acento do Brasil que, não obstante variar em algumas entoações e cacoetes segundo as

províncias, tem sempre certo amaneirado, diferente do acento de Portugal, pelo qual as duas

nações se conhecem logo reciprocamente; a não ser que os nascidos em uma passassem a outra

em tenra idade, sobretudo desde os oito aos dezesseis anos. Alguma observação a este respeito

nos chegou a convencer que as diferenças principais que se notam na pronunciação brasileira

procedem de que a língua portuguesa no Brasil, desde o princípio, se acastelhanou muito. Estas

diferenças que, principalmente, consistem na transposição dos possessivos, no fazer ouvir

abertamente o som de cada uma das vogais, sem fazer elisões no e final, nem converter o o em u

e em dar ao s no fim das sílabas o valor que lhe dão os italianos, e não o do sh inglês, ou do sch

alemão, esta alteração na pronúncia, que se estende até a alguns modismos e usos, procedeu não

só de que os primeiros descobrimentos e colonização foram feitos com ajuda de castelhanos,

como de que , para a recuperação da Bahia contra os holandeses, passaram outros muitos que aí

ficaram estabelecidos; além disso, no interior da província do Rio Grande, fala-se hoje, pelo

menos, tanto espanhol como português e o contato dos negociantes de gados e tropeiros com

estes países fez que se adotasse deles quase tudo quanto é nomenclatura da gineta, por exemplo:

lombilho, etc.

Dadas estas razões, parece óbvio que a pronunciação ou acento peculiar ao Brasil, já na

época de que nos vamos ocupar, seria a mesma que hoje. Havia de ser, pois, a do pe. Vieira, pelo

menos criado no Brasil desde muito moço. Também sería a pronúncia de Eusébio de Mattos que

nunca do Brasil saiu e, talvez, mesmo a de seu irmão, Gregório de Mattos, poeta satírico, de que

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adiante trataremos com mais extensão.

Desejáramos agora dar algumas amostras das primeiras cantigas religiosas, ensinadas

pelos jesuítas, ou de alguma modinha das que devia de entoar a bela colona, sentada junto ao rio,

a gozar da suave viração da tarde! - Mas só o tempo poderá recolher esses monumentos da

primitiva poesia nacional.

Quanto aos jesuítas, sabemos que, em 1575, fizeram representar em Pernambuco o Rico

Avarento e Lázaro Pobre, que produziu o efeito de darem os ricos muitas esmolas. Nos anos de

1583 e seguintes não temos mais que ler a narrativa da visitação às diferentes províncias do pe.

Cristóvão de Gouvêa, escrita por Fernão Cardim, para nos convencermos dos muitos progressos

que haviam feito os discípulos dos jesuítas que, na Bahia, tinham já um curso d’artes e duas

classes de humanidades. Na obra de Cardim se lê, também (pág. 30) como ouviram os índios

representar um diálogo pastoril em língua brasílica, portuguesa e castelhana, língua esta que

falavam com muita graça.

Cardim nos dá notícia de uns versos compostos então ao martírio do pe. Inácio de

Azevedo, além de muitos epigramas que se faziam sobre vários assuntos; também nos refere uma

procissão das onze mil virgens em que estas iam dentro de uma nau à vela (por terra) toda

embandeirada, disparando tiros, com danças e outras invenções devotas e curiosas, celebrando

depois o martírio dentro da mesma nau, descendo a final uma nuvem do céu, e sendo as mártires

enterradas pelos anjos, etc.; também o mesmo descreve a representação de certo diálogo (que se

julgava composto por Álvaro Lobo) sobre cada palavra da Ave-Maria.

Os escassos fragmentos que chegaram a nós de poesias principalmente religiosas em

língua guarani não pertencem à presente coleção.

Das modinhas, poucas conhecemos e, essas, insignificantes, e de época incerta, a não ser a

baiana:

"Bangué, que será de ti!"

glosada por Gregório de Mattos; essa mesma sabemos ser antiga, mas não foi possível alcançá-la

completa.

Não deixaremos de comemorar a do Vitu, que cremos ter o sabor do primeiro século da

colonização, o que parece comprovar-se com ser em todas as províncias do Brasil tão conhecida.

Diz assim:

"Vem cá Vitu! Vem cá Vitu!

- Não vou lá, não vou lá, não vou lá! -

"Que é dele o teu camarada?"

- Água do monte o levou: -

"Não foi água, não foi nada,

Foi cachaça que o matou"

Igualmente antiga nos parece a modinha paulista:

Mandei fazer um balaio,

Para botar algodão, etc.

Cabe agora ocupar-nos do primeiro poeta que se fez notável no Brasil. Foi o

satírico Gregório de Mattos, que já em Coimbra, onde se formou, e depois em Lisboa, nas

Academias dos Singulares e na dos Generosos, a que pertenceu, começara a manifestar as

tendências de seu gênio. Passando ao Brasil, terra que, segundo ele, o criara para "mortal

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veneno", o descontentamento e mal-estar o irritaram a ponto tal que, em vez de satírico, era muita

vez insolente. Se nas descrições das festas ou caçadas, em geral demasiado prolixas, nos entretém

e diverte, nas sátiras pessoais temos sempre que lamentar que o poeta ultrapasse os limites da

decência e que, algumas vezes, deixe de ser cavalheiro. A maledicência que emprega contra o

governador Antônio Luís, a par dos elogios que de sua administração nos deixou Botelho, e

principalmente Rocha Pitta, fazem acreditar, que não a justiça, mas a vingança o movia contra

esse representante do poder.

Poderíamos, acerca dos seus versos satíricos, dizer o que de outras cantigas análogas diz

um ilustre contemporâneo: - "Eram verdadeiros fascininos [sic]; eram jambos de Arquiloco

refinados; eram estocadas de varar até as costas, e catanadas de abrir em dois até aos arções; iam

os nomes estendidamente; iam pelo claro as baldas públicas e secretas, até os defeitos

involuntários: os do corpo e os da geração, isto tão sem resguardo nos termos, que até as

obscenidades se despejavam com um desembaraço digno de Catulo, Marcial ou Beranger."

Mattos, pelas tendências do seu caráter, fez-se, não discípulo, mas escravo

imitador de Quevedo, portanto, assim como sucede a este, se muitos lhe acham graça e chiste,

outros o acharão em oposição com o decoro de engenho, em vez de senhor e gracioso; o

encontrarão truão e chocarreiro; quando quer ser filósofo, o acharão cínico. Como de Quevedo, o

estilo é cortado e desigual; a par de um belo conceito, traz Mattos uma sandice, um disparate ou

uma indecência. Sua imaginação era talvez viva, mas descuidada. O seu gênio poético faísca, mas

não inflama; surpreende e não comove; salta com ímpeto e força, mas não voa nem atura na

subida.

Com Quevedo e com os poetas portugueses dessa época, cultiva os assoantes,

sobretudo nos romances. Os espanhóis ainda hoje em dia conservam essa meia rima; em

português, foi ela inteiramente abandonada e, quanto a nós, com razão.

Não é este o lugar mais apropriado para entrar na questão da conveniência ou não

conveniência do uso dos assoantes na poesia portuguesa; harmoniosa e bela é a nossa língua para,

no heróico elevado, contentar-se com o solto. Os redondilhos, que são para poesia menos

elevada, tornam-se monótonos se a rima os não abrilhanta e, nos líricos menores, até às vezes se

requer que aquela seja aturada. Só aos ouvidos mais delicados é dado apreciar a arte do assoante

e, por esta razão, nunca ele será popular.

Das poesias, que damos por litigiosas, entre os dois irmãos Mattos, confessamos

que nos inclinamos a que sejam pela maior parte de fr. Eusébio. Há nelas em geral mais unção

religiosa e mais viva crença, que é natural ao gênio do poeta satírico. Quando muito, será de

Gregório a glosa à Salve-Rainha, entretenimento semelhante ao de Quevedo, glosando o Padre-

Nosso.

Seguia-se neste lugar tratarmos de um poema descritivo dos sertões brasileiros - O

Descobrimento das Esmeraldas - obra composta em 1689 por Diogo Grasson Tinoco e da qual

era herói Fernão Dias Paes. Infelizmente, de tal poema não conhecemos mais que as estâncias 4a

, 27a , 35a e 61a, que Cláudio Manuel da Costa transmite nas notas da sua Vila Rica. Fazemos

votos para que o manuscrito que possuiu Cláudio ou algum outro venha a aparecer em Minas e

seja dado ao prelo.

Bernardo Vieira Ravasco, filho da Bahia, irmão do padre Antônio Vieira, deixou

muitas poesias manuscritas, mas parece haverem-se perdido. Outro tanto terá sucedido aos Autos

Sacramentais que compôs seu filho, Gonçalo Ravasco, e à comédia A Constância e o Triunfo, de

José Borges de Barros, ao depois vigário-geral da Bahia. Fazemos aqui, muitas vezes, resenha

destas obras, que não conhecemos, para chamar sobre elas a importância a fim de que se

publiquem, se se chegam a encontrar.

Manuel Botelho de Oliveira foi o primeiro brasileiro que, do Brasil, mandou ao

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prelo um volume de poesias. Aí confessa ele a existência de outros poetas que haviam [sic] então

no Brasil, e são seguramente, esses contemporâneos, de cujas poesias apenas se conhecem os

títulos. Botelho de Oliveira talvez nascesse poeta, e não lhe falta imaginação, como se conhece

quando segue sua natural inspiração, nos momentos em que não quer ser demasiado culto - como

então se dizia - e nós hoje diríamos contorcido. O pior que ele fez foi querer demasiado imitar os

poetas de Itália e Espanha (expressões suas) dessa época, pois, insensivelmente, toma por modelo

a Gôngora, e Gôngora, apesar do seu grande talento, nunca podia imitar-se, pois coisas que ele

diz, só ele as sabia dizer com arte. Botelho tinha nímia erudição para poder obedecer sempre às

próprias inspirações e encher todo o seu extenso volume da Musica do Parnasso (que à imitação

talvez de d. Francisco Manoel dividiu em choros), com mais composições semelhantes à silva,

em que descreve a pitoresca ilha baiana da Maré. Quis passar pela vaidade de compor nas quatro

línguas, portuguesa, castelhana, italiana e latina, e melhor fora ter-se estreado em uma bem. Ao

seu castelhano, falta-lhe sempre o jeito de tal, nem que escrevesse primeiro em português e,

depois, lhe cambiasse as terminações. No italiano e latim, a dificuldade da empresa prendeu-lhe a

veia poética. Nas suas obras, se compreendem duas comédias, uma das quais Hay amigo para

amigo já antes fora publicada anônima entre as Famosas. É o título da outra - Amor, enganos y

zelos - três inimigos da alma, diz a comédia, que se dão nos amantes e no mundo todo. O enredo

destas duas composições é mui insignificante, nem sequer o autor soube para elas inspirar-se com

os socorros de Calderón e outros poetas dramáticos dessa época. Em ambas, fala-se de amor e

mais amor, mas em ambas há pouca paixão. Na primeira, um amigo cede a outro a dama, por

quem ambos estavam apaixonados. Nota-se, de uma e outra, que o autor possuía muito pouca

arte, ou pouco conhecimento deste gênero de literatura dialogada; em vez de pôr em diálogo o

que lhe convém, tira-se de cuidados e manda muita vez cada qual à cena dizer o que lhe

aconteceu e o que intenta fazer. Além disso, as jornadas ou atos são, em geral, demasiado

extensos. Em defensa, porém, do autor, cumpre-nos dizer que ele, por certo, nunca destinou para

o teatro estas composições, a que chama Descante cômico reduzido em duas comédias, título que

lhe quadra, pois vê-se uma certa forma para servir de pretexto a dizerem-se, segundo o gosto da

época, descantes de trocadilhos e conceitos amorosos ou com pretensões de tais, pois mal das

finezas amatórias que não foram inspiradas em algum sentimento ou alguma reminiscência da

paixão do amor. Se existiu deveras a Anarda de Botelho, duvidamos que se enternecesse com

tais declarações desenxabidas. Além da silva, acima mencionada, das comédias e das poesias

amorosas, deixou-nos Botelho várias canções, um panegírico em 34 estâncias ao marquês de

Marialva, que nos parece digno, com mais algumas outras suas composições, de ser condenado,

para nos servirmos de uma expressão querida na época em que ele viveu, a afogar-se no Lethes.

Quase contemporâneo a Botelho de Oliveira deve ter sido o autor que, no

Florilégio, designamos pelo nome de Anônimo Itaparicano e hoje temos a certeza que era o pe.

fr. Manuel de Santa Maria Itaparica, da ordem seráfica, e que ainda vivia em 1751, em que

consagrou várias composições aos funerais do rei d. João V. Filho da baiana ilha de Itaparica, não

só disso se prezou no seu nome, como nos seus versos, por pouco merecimento que se encontre

nessa descrição da ilha de Itaparica. O Eustaquidos, tão recomendado pelo assunto e que tem

sido escolhido para empresa de mais de um poeta, contém algumas belas oitavas, não inferiores

às do moderno poema castelhano do pe. fr. Antônio Montiel , que começa com as três belas

oitavas seguintes:

Divina Musa, inspira favorable

Conceptos à mi mente confundida:

Dime, ¿ quien fue el varon inimitable,

Que en paz y guerra, en la muerte y vida,

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Siempre glorioso, siempre inalterable,

En una y outra suerte padecida,

Con exemplo notable de heroismo,

Sopo vencer al mundo, y à si mismo

Aquel hombre, mayor que la fortuna,

Y que à pesar del tiempo y del olvido,

Roma se acordará de ser su cuna;

Buen amigo, buen padre, buen marido;

Ni la desgracia le abatió importuna,

Ni la felicidad le há envanecido:

Aquel, que problemático há dexado,

Si fue mas infeliz, que afortunado.

Dime, pues, ¿ como Eustaquio haya podido

Llenar la tierra y mar de sus hazañas

¿ Como despues de poco haya caido

De tanta altura ¿ como tan extrañas

Aventuras sufrió! ¿ como há perdido

El fructo de su amor y sus estrañas

¿ Como há pagado su valor el suelo

¿Como há premiado su virtud el cielo

Cabe aqui fazer menção de um jesuíta, filho do Rio de Janeiro, que então se exercitava na

poesia latina. O Carmem De Sacchari opificio de Prudêncio do Amaral só foi impresso no fim

do século passado e corre incorporado nos quatro livros de rebus rusticis brazilicis, em que José

Rodrigues de Mello trata da cultura da mandioca e outras raízes, da do tabaco, etc. Cumpre

reconhecer que a obra brasileira tem menos desenvolvimento do que a de Raphael Landivar,

autor de quinze livros latinos que podemos chamar Geórgicas Mexicanas. O mencionado Amaral

nos deixou o Stimulus amandi Dei param que julgamos nunca foi impresso; e em prosa, são seus

os elogios dos bispos e arcebispos que acompanham as Constituições da Bahia.

Mais tarde, também se exercitou na poesia latina o pe. Francisco de Almeida, natural da

Cachoeira, o qual, no seu Orpheus brazilicus trata das virtudes do pe. José de Anchieta.

Gonçallo Soares da Franca e o pe. João Álvares Soares ocuparam-se de algumas

insignificantes poesias à morte de d. Pedro II que correm impressas. O primeiro começou

Brazilia, poema sobre o descobrimento do Brasil; o segundo é o erudito Soares Bahiense, autor

do Progymnasma Litterario.

Contentemo-nos com fazer menção da pernambucana d. Joana Rita de Sousa e de Luís

Canelo de Noronha, do qual diz Brito de Lima:

"Nas loas do Parnaso as brancas aves

Avantajou no harmônico e sonoro

Luís Canelo, que em métrica harmonia

É modulado cisne da Bahia."

(Poem. fest., pág. 141)

Este Brito de Lima foi um dos poetas da Bahia que mais versos conseguiu fazer imprimir,

dedicava-os à adulação e, naturalmente, publicá-los corria por conta dos adulados. Conseguiu por

isso mais fama e glória?

Desgraçado do poeta que, em vez de seguir a inspiração, a busca em assuntos

alheios a ele, para lhes prestar servil acatamento!

Cabe aqui consagrar algumas linhas à memória dos paulistas Alexandre de

Gusmão e de seu irmão, Bartolomeu Lourenço, o voador, ambos os quais cultivaram as letras. Do

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primeiro, não compreendemos, em nossa coleção, nenhuma das composições ou traduções

poéticas que, sem a necessária autenticidade, correm em seu nome, por nos parecerem todas elas

inferiores a tão grande homem. Queremos antes ver Alexandre de Gusmão presenteando sua

pátria com a colonização das ilhas de Santa Catarina e Rio Grande, com as providências sobre o

quinto do ouro e com a confecção do grande tratado de limites de 1750. É nestas obras, e

enquanto esse ilustre político escreveu, para as levar a efeito, que se pode sondar o gênio deste

brasileiro. Seu irmão não foi entendido no seu tempo: contra a sua invenção choveram sátiras, e

até uma comédia manuscrita vimos nós no Porto, expressamente feita naquele tempo para o

ridicularizar. Não admira, quando essa, e ainda pior, tem sido a sorte de tantos outros homens de

gênio.

Pouco diremos neste lugar do desgraçado Antônio José, remetendo o leitor para a

sua biografia e para os trabalhos que sobre suas obras terá talvez já ora publicado o nosso amigo,

o Sr. Pontes.

Para o fazer figurar na nossa coleção, separamos de suas óperas alguns versos que

publicamos, talvez sem a ordem e as explicações necessárias e sem que se refiram ao Brasil.

Basta-lhe que, por mais de um século, haja o público esquecido o seu nome, não se declarando

este nas óperas e apelidando-as do judeu; basta que a Santa Inquisição se vingasse do que ele

escreveu, queimando-lhe o corpo! É de saber que o pai de Antônio José, o mestre em artes João

Mendes da Silva, natural, como seu filho, do Rio de Janeiro, também cultivava a poesia, mas, por

infelicidade, nunca se imprimiram as obras que se lhe atribuem. Barbosa menciona um ofício da

cruz em verso; a fábula de Leandro e Ero, em oitavas rimadas; um hino a Santa Bárbara e,

finalmente, um poema Christiados. Notamos que, na maior parte dos assuntos, se contêm, pelo

menos nos títulos, a não serem paródias, profissões de fé antijudaicas. Dedicar-se-ia ele, pois, a

tais composições, só para que o não perseguissem? É certo que João Mendes morreu advogado da

casa da suplicação quando a mulher e o filho sofriam os tratos dentro da Inquisição. Se as tais

obras foram compostas para defender-se das perseguições destas, desculpemos-lhes a hipocrisia,

mas cremos que não seriam elas obras de inspiração, porém poesias de cálculo e, em tal caso, a

perda de tais manuscritos não deve muito lamentar-se. É sabido que Christiados fora o título de

um poema latino do bispo Balbuena, de cujo manuscrito se apoderaram os holandeses, quando

assaltaram a ilha de Porto Rico.

Ao referirmo-nos às operas, ou antes, zarzuelas, de Antônio José, cumpre dizer

que não nos consta que fossem jamais representadas em teatros no Brasil. Exigiam elas (como os

vaudevilles franceses de hoje), cômicos, vozes e músicos, o que não era fácil encontrar em tempo,

em que ainda, na Bahia, não havia teatro regular, nem cômicos de profissão. Só por ocasião de

festas se davam extraordinariamente representações, mas de comédias, entremezes e um pouco de

dança, e esses, algumas vezes, em espanhol. Temos informação das representações feitas em duas

dessas festas e, se bem sejam de época um pouco anterior à das óperas de Antônio José, julgamos

a notícia curiosa para não deixarmos de aqui a dar. Em janeiro de 1717, sabemos que se

representaram, na Bahia, El conde de Lucanor e os Afetos de ódio y amor de Calderón; em 1729,

com a notícia dos casamentos dos príncipes, representaram, do mesmo Calderón, Fineza contra

fineza, La fiero, el raio y la piedra e El monstro de los jardines; além disso, La fuerza del

natural e El desdén com el desdén, de Moreto. Não negamos boa escolha nas produções acima,

mas haveria ali, mesmo na capital do Estado, atores capazes de desempenhá-las? Eis quando,

para no-lo contar, é para sentir que já não vivesse Gregório de Mattos.

Estamos chegados ao momento de dever dar conta da primeira sociedade literária

regular que teve o Brasil: a Academia dos Esquecidos, criada na Bahia em 1724, sob a proteção

do vice-rei, Vasco Fernandes César de Menezes, ao depois, conde de Sabugosa. O nome de

esquecidos tomaram, talvez, os sócios da circunstância de não haverem sido lembrados os seus na

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Academia de História que se criara em Lisboa, em 1720. Daquela Academia chegou a fazer

memória o Mercúrio histórico de França, desse mesmo ano, mas os trabalhos delas eram de

pouca importância, a regularmo-nos por alguns manuscritos que foram parar à biblioteca dos

frades da Alcobaça e [que] tivemos ocasião de consultar, a saber: dissertações dos

desembargadores Luís de Sequeira da Gama e Caetano de Brito e Figueiredo, outra do dr. Inácio

Barbosa Machado e uma sobre a história eclesiástica do acima mencionado Gonçalo Soares da

Franca. Já que falamos da Academia de História, cumpre dizer que dela foi sócio o baiano

Sebastião da Rocha Pita que, em 1730, publicou uma História do Brasil que se recomenda pela

riqueza das descrições e elevação do estilo que, às vezes, são tais que mais parecem de um poema

em prosa. Antes tinha dado à luz vários escritos e composto poesias, pelas quais pouco se

recomenda o autor baiano. O pe. João de Mello, jesuíta pernambucano, também publicou, em

1742, um livrito de poesias que apenas tivemos ocasião de ver. O mesmo nos sucede com as do

fluminense Manuel José Cherem, publicadas em Coimbra e com o culto métrico à Senhora da

Conceição, do Secretário de Estado do Brasil, José Pires de Carvalho. Todas três possuía um

amigo nosso, portuense, mas não nos foi possível obter dele que no-las remetesse para nos

servirem nesta notícia. Mais felizes fomos com impressos de fr. Francisco Xavier de Santa

Teresa, da Academia de História, e das dos Aplicados, mas estas, exclusivamente panegíricas, de

um bispo do Porto e de um dos duques de Cadaval nada teriam com o Florilégio. É, porém, para

sentir que em Olinda já em tempo de Jaboatão não se achassem os manuscritos do poema ao

Espírito Santo e a tragicomédia de Santa Felicidade e seus filhos, por cujas obras poderíamos

ajuizar do gênio do poeta. Este escritor baiano era tido por bom pregador. Do genetlíaco,

composto a uma senhora, pelo pernambucano Manuel Rodrigues Corrêa de Lacerda, dos escritos

do cônego João Borges de Barros, nada podemos aventurar. O livro deste último, Relação

Panegírica, dos funerais (que consagrou à Bahia) à memória de d. João V, contém muitas poesias

de brasileiros, as quais excluímos da nossa coleção, não por falta de merecimento, mas por julgálas

só próprias de uma Miscelânea.

Na cidade do Rio de Janeiro, onde, em 1735, se tinha começado a organizar uma

sociedade literária, que não vingou, volveu-se, em 1752, a tratar de outra que chegou

definitivamente a organizar-se, com o nome de Academia dos Seletos. O mesmo sucedeu mais

tarde, no vice-reinado do marquês do Lavradio, à Sociedade Literária, que, sob seus auspícios, se

criou. Cinco anos antes da fundação da Academia dos Seletos, em 1747, fora aí estabelecida, por

Antônio da Fonseca, uma tipografia em que se imprimiu uma pequena relação composta por Luís

Antônio Rosado e também, segundo se crê, o livro Exame de Artilheiros, do lente da Escola

militar, José Fernandes Pinto Alpoim. Esta tipografia emudeceu logo, ou porque a fizeram

calculadas medidas de uma política desconfiada, ou porque não poderia por si mesma sustentarse,

o que não é para crer, quando tantas outras havia já em várias cidades, muito inferiores da

América Espanhola.

O Rio, pelo seu comércio, pelo talento de seus filhos, patenteado em Coimbra, e

sobretudo por se achar mais central para acudir de Pernambuco à Colônia do Sacramento, já tinha

sobre a Bahia uma grande preponderância quando, em 1763, o marquês de Pombal para ali

transferia a sede do vice-reinado.

Mas foi mais que tudo a província de Minas que (por ser pátria de uns literatos e

residência de outros) imprimiu um novo e grande impulso na regeneração da literatura brasileira.

Se esta nascera da atividade de uma guerra de armas, agora, um século depois, outra guerra com

os elementos, com as brenhas e entranhas da terra para extrair-lhe o ouro nelas escondido,

produziu a regeneração literária que já traz em si mesma o cunho de ser nascida daqueles sertões

do coração do Brasil.

Eram filhos dessa província, mas dela ausentes, José Basílio e Durão; eram nela

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nascidos e achavam-se aí residentes, Cláudio e Alvarenga Peixoto; Gonzaga desempenhava o

lugar de ouvidor em Vila Rica; Silva Alvarenga vivia no Rio de Janeiro; o irmão deste, e Antônio

Caetano de Almeida, irmão de José Basílio, também: todos formavam uma espécie de Arcádia,

que se chamou Ultramarina.

Se bem [que] destes poetas, Cláudio é o mais antigo, trataremos antes dos

ausentes, não só por darmos notícia de suas epopéias de assunto brasileiro, como por deixarmos

ou [sic] outros para os atender, conjuntamente, nos fatais acontecimentos posteriores.

E primeiro trataremos de José Basílio e do seu Uraguay. Esta epopéia é das

modernas de mais merecimento, se bem que o autor, com pressa, não lhe desse todo o

desenvolvimento. José Basílio tinha-se familiarizado muito com a literatura clássica e italiana e

deixou nisso freqüentes reminiscências, espalhadas pelo poema. O autor do Uraguay,

principalmente, se extremou pelo talento da harmonia imitativa, pelo mecanismo da linguagem,

sabendo sempre adotar os sons às imagens. Às vezes, faz correr os versos fluidos e naturais,

outras, como nas falas de Cacambo, demora no verso de propósito, porque deseja representar

distância, sossego ou brandura. Se a imagem é audaz e viva, como quando fala Cepé, faz

precipitar os versos; até diríeis que em casos duros e de batalhas, etc., sabe fazê-los roçar

asperamente uns com outros.

Durão deixou-nos o Caramuru. Este poema, mais acabado que o anterior, é de

fácil e natural metrificação, dicção clara e elegante, nele o poeta, só pelo seu gênio, conseguiu

fazer herói um indivíduo que estava longe de o poder ser. Entretanto, cumpre dizer que, se da

Ilíada se colhem estímulos de valor, se a Eneida comove à piedade, se o Orlando inspira

sentimentos de cavalheirosa abnegação, se os Lusíadas exaltam o patriotismo e a Jerusalém é um

modelo de prudência e conselho, o poema Caramuru oferece um tipo de resignação cristã e de

virtudes conjugais. O Caramuru ganhará, de dia para dia, mais partido e chegará, talvez, a ser um

dia popular no Brasil.

Cláudio deve considerar-se o primeiro poeta mineiro, por direitos de antigüidade,

pois já em 1751, em Coimbra, começou a imprimir algumas poesias; depois de ir a Minas, serviu

de secretário de Governo, correu os sertões com o governador Lobo e foi protegido do conde de

Valadares.

Deixou-nos Cláudio mais de cem sonetos, vinte églogas, muitas epístolas, alguns

epicédios e romances líricos e um heróico, alem de cantatas e cançonetas em italiano; pulsou a

lira, orçando pelo sublime na sua saudação à Arcádia Ultramarina, mas no poema Vila Rica não

acertou bem com a embocadura da trombeta épica. Nos sonetos, faz, muita vez, recordar a

Petrarca. As suas églogas parecem em tudo modeladas sobre as de Garcilasso. Era Cláudio, como

este, exato na impressão e, como ele, amante da literatura italiana. Mais delicados e ternos que

sublimes, um e outro eram como nascidos para égloga e elegia. As obras de Cláudio devem

estudar-se como modelos de linguagem; e, porém, de temer que o gênero bucólico, em que mais

abunda, venha a convidar poucos à sua leitura.

Alvarenga Peixoto era dotado de grande gênio poético e o pouco que dele nos resta

é bastante para lamentarmos que nos não deixasse muito mais ou, por ventura, que não apareça o

mais que comporia. O seu canto genetlíaco em 19 estâncias e a magnífica composição com que

convida d. Maria I a passar-se à América são, por si sós, bastantes para lhe tecer eterna coroa de

poeta.

Gonzaga, cuja Marília de Dirceu já vai sendo traduzida em todas as línguas,

acabando de sê-lo em castelhano, a rogo nosso, pelo amigo Sr. d. Enrique Vedia, distingue-se

pela ternura dos afetos e pela naturalidade da versificação. Ninguém como ele, a nosso ver, tirou

tanto partido para expressar seus sentimentos, de tudo quanto o rodeava, inclusivamente na

prisão, com a imagem da morte perante os olhos.

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Se Gonzaga (Dirceu) nos deixou um cancioneiro por nome Marilia, temos outro

de Silva Alvarenga (Alcindo) intitulado Glaura. À maneira de Petrarca, um e outro constam de

duas partes: no primeiro, canta o poeta os seus amores, na segunda, chora a perda deles: Dirceu,

pela sua prisão e desterro; Alcindo, como Petrarca, pela morte do objeto amado.

Silva Alvarenga, a quem devemos os melhores ensaios, feitos de intento em um

gênero erótico novo, tinha grande amor à poesia e elevadas ambições de poeta. É correto na

linguagem, poético nas imagens, natural, sensível e melodioso nas redondilhas, mas nem sempre

altíloquo no heróico. Seus ensaios eróticos de cor americana perdem por monótonos e convertem,

às vezes, o poeta num namorado chorão e baboso. Seu irmão, João Inácio, passava por ser o

autor da famosa ode a Albuquerque que, ultimamente, se deu de presente (não sabemos com que

fundamento), a Vidal Barbosa.

Do irmão de José Basílio da Gama, nada podemos dizer, por não conhecermos

composição alguma sua.

O governador Luís da Cunha de Menezes não soubera ganhar as simpatias da

capitania, cujo governo lhe fora confiado em 1783. O seu gênio vaidoso, os seus erros

administrativos e o prestar-se ele em pequenas coisas ao ridículo, deram assunto para a violenta

sátira que, em novo epístolas, chamadas Cartas Chilenas, contra ele escreveu um dos poetas de

Vila Rica. A facilidade da metrificação, a naturalidade do estilo e a propriedade da linguagem

fariam atribuir esta obra a Cláudio, a não desmentirem da sua pena, algumas expressões chulas e

pouco decorosas. Tão pouco nos atrevemos a atribuí-las a Alvarenga Peixoto, de quem nenhuns

versos possuímos deste gênero. É, porém, sem dúvida que tais versos eram de pessoa exercitada

em o fazer e não havia então em Minas poetas neste caso mais que os dois e Gonzaga, que fica

excluído, por se falar dele nas mesmas cartas. As epístolas supõem-se dirigidas por Critilo a um

Doroteu (Teodoro?) que estava na Corte. Correm precedidas de uns versos de outro autor que, em

certo lugar, nos previne a favor da nomeada de Critilo como escritor conhecido. Não faltam nas

cartas verdades que deviam de ser duras aos ouvidos, não só do governador presente, como até de

todos os mandões maus que lhe sucedessem. A sátira foi escrita provavelmente em 1786, isto é,

depois das festas, por ocasião dos casamentos dos infantes de Portugal e Espanha.

As cartas chilenas, que melhor podemos chamar mineiras, são o corpo de delito de

Cunha de Menezes, cujo desgoverno foi a origem da primeira fermentação em Minas, para a

conspiração em que apareceram complicados como chefes e cabeças os poetas de que

ultimamente fizemos menção, Cláudio, A. Peixoto e, em aparência, Gonzaga. Talvez nenhuma

outra história literária ofereça a novidade de se ver assim inseparável de uma conspiração

política em que, segundo parece, tiram os poetas a principal parte.

Em 1788, sucedeu a Menezes no governo o visconde de Barbacena e, à sua

chegada, correu voz de que ia forçar a capitania ao pagamento de 700 arrobas de ouro que ela

devia pela lei da capitação. Entretanto, as idéias de conspiração e revolução, originadas no

governo anterior, haviam amadurecido e a notícia de que se ia violentar o povo e satisfazer aquele

tributo fez-se espalhar como conveniente para fazer rebentar a revolução que os conspiradores

imaginavam teria tão feliz êxito como a que se acabava de levar a efeito nos Estados Unidos,

graças à grande proteção que estes encontraram da parte da França e Espanha contra a Grã-

Bretanha.

Alvarenga Peixoto estava entusiasmado pelo futuro da nova nação; improvisou-lhe

a bandeira e propôs as providências que deviam adotar para criar partido e para resistir à guerra

que, infalivelmente, dizia ele, com razão, devia ter lugar. Mas, como sucede tantas vezes, alguns

conspiradores converteram-se em delatores. Antes de rebentar a revolução, foram todos os

suspeitos réus presos e depois julgados. Cláudio matou-se no cárcere, enforcando-se com uma

liga. Alvarenga Peixoto foi sentenciado à morte, e Gonzaga, talvez inocente à conspiração, a

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degredo por toda vida para as Pedras Negras, em Angola. Estas sentenças foram comutadas, por

uma Carta Régia de perdão, a daquele em degredo perpétuo , ao princípio, para Dande e, depois,

para Ambaca, e a deste, em dez anos de degredo para Moçambique. O poeta português Diniz foi

um dos juízes signatários destas sentenças de seus colegas.

Já neste século, principalmente desde o marquês de Pombal, vemos filhos do Brasil

ocupando os primeiros cargos do Estado e outros distinguindo-se com escritos que ganharam

nomeada. João Pereira Ramos, um dos reformadores da Universidade, é guarda-mor do Arquivo

da Torre do Tombo. Seu irmão, o bispo de Coimbra, d. Francisco de Lemos, é reitor e reformador

da Universidade. d. José Joaquim Justiniano Mascarenhas foi feito bispo do Rio de Janeiro, sua

terra natal. O báculo de Pernambuco, confiou-se a d. Francisco da Assunção e Brito, natural de

Mariana e, depois, a d. fr. Diogo de Jesus Jardim, do Sabará, e, mais tarde, a d. José Joaquim de

Azevedo Coutinho, de Campos. d. Tomás da Encarnação, natural da Bahia, é autor de uma

conhecida História Eclesiástica, publicada em Coimbra em quatro tomos. O franciscano Jaboatão,

nascido na Vila deste nome, publicou uma história da sua ordem seráfica no Brasil; Pedro Taques

de Almeida Paes e fr. Gaspar da Madre de Deus escreveram memórias históricas sobre a sua

Província de São Paulo; José Monteiro de Noronha, do Pará, em cuja Sé foi vigário capitular, era

um eclesiástico de bastante saber. Na advocacia, distinguiram-se os doutores Inácio Francisco

Silveira da Motta, Saturnino, e como magistrado fez-se muito notável o desembargador Velloso.

Além dos advogados mencionados, outro havia de quem nos restam algumas composições

poéticas, além de outras que possuem seus netos; só três publicamos do poeta fluminense Mendes

Bordallo. Igual nome não daremos, mas sim o de simples versejador a outro fluminense, cuja

condição humilde foi para nós grande recomendação para o contemplarmos. Referimo-nos ao

sapateiro Silva. Os seus versos devem guardar-se e podem alguns ler-se.

Também nas ciências, alguns brasileiros ganharam celebridade nesta época: Alexandre

Rodrigues Ferreira, o Humboldt brasileiro, em suas extensas viagens pelos sertões do Pará; José

Bonifácio de Andrada, de cujas poesias adiantando [sic] trataremos, agora viajando como

mineralógico pela Europa. Do mesmo modo que o seu patrício (natural do Serro do Frio), o

naturalista Manuel da Câmara Bittencourt e o fluminense Antônio de Nola, ao depois, lente em

Coimbra; Coelho de Seabra escrevendo tratados de química, além de muitas dissertações

científicas; Conceição Velloso, trabalhando em uma grande Flora Fluminense e deixando

impressos muitos tratados compostos ou traduzidos; o dr. José Vieira do Couto, naturalista em

Minas; Manuel Jacinto Nogueira da Gama (ao depois marquês de Baependi) distinguindo-se, em

Coimbra, nas matemáticas, do mesmo modo que Francisco Villela Barbosa (marquês de

Paranaguá), e vindo ambos reger cadeiras dessas ciências. Pires da Silva Pontes, encarregado dos

tratados de limites e de levantamentos das cartas no Brasil e José Fel. Fernandes Pinheiro (v. de

S. Leopoldo) já magistrado e ocupando-se das traduções de obras que podiam ter aplicação à

indústria do Brasil; Silva Feijó, naturalista, empregado em explorações nas ilhas de Cabo Verde;

José Pinto de Azevedo, médico distinto da escola de Edimburgo, e outros de menos nomeada.

Nos fins deste século, um filho da Bahia, que nesta cidade professou o ensino da

gramática, José Francisco Cardoso, compôs em latim um canto heróico sobre a expedição

dirigida contra Trípoli e comandada pelo chefe de divisão Donald Campbell, para que o bei

entregasse uns franceses aí refugiados. O autor não era de imaginação mui rica, seus versos estão

longe da perfeição e o mesmo estilo é, em geral, pouco poético, mas este poema teve a honra de

ser vertido em verso português por Bocage, o poeta mais harmônico que tem dado Portugal.

Assim, a obra de Cardoso ganha muito em ser antes lida na tradução portuguesa. Rematemos o

que falta dizer dos poetas deste século XVIII, com um, que se pode dizer, concluiu com ele seus

dias: aludimos ao pardo Caldas Barbosa. E, com referência à sua biografia no Florilégio, diremos

que este cantor de viola, como se lhe tem querido chamar, merece mais consideração do que se

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lhe tem dado até agora. Além de que se ensaiou em todo o gênero de poesia, deixou-nos, a par de

muitas composições insignificantes, outras que lhe devem conferir o nome de poeta. Possuímos

dele elegantes quintilhas, harmônicas estrofes e alguns sonetos, nos quais só o muito desejo de

criticar poderá encontrar senões.

Não é por certo seu mérito a comparar com o seu xará, também eclesiástico - o sublime

Sousa Caldas. Conta-se que aquele reconhecia tanto essa superioridade que, uma vez,

encontrando ao último em sociedade, improvisou a tal respeito a seguinte quadra:

"Tu és Caldas, eu sou Caldas;

Tu és rico e eu sou pobre;

Tu és Caldeira de prata;

Eu sou Caldeira de cobre."

Souza Caldas é talvez o poeta brasileiro que mais orçou pelo sublime e também, com seus

versos líricos menores, sabia ser festivo. Como poeta sagrado, rivaliza com ele, não pelo sublime

e correto, mas pela viveza das imagens, colorido e facilidade de expressão, o autor da epopéia

sagrada, a Assunção da Virgem.

Fr. Francisco de S. Carlos teve a coragem de se abalançar neste século a tratar um tal

assunto e só pela fecundidade de seu engenho poderá sair bem da empresa. Com muita arte

envolve a América e suas grandezas neste assunto divino, passado em tempos em que aquela não

era, é verdade, conhecida dos cristãos, mas já era do Eterno e o podia ser do Arcanjo seu núncio.

Igualmente a idéia de pôr no Paraíso terreal os frutos da América, isto é, o verdadeiro jardim da

terra, é belíssima e original.

Na Assunção há mais poesia que no Uraguay e no Caramuru, mas as rimas pareadas

serão fatais à popularidade do poema e glória do poeta, semp re que algum leitor, animado pelo

assunto piedoso ou prevenido em favor do gênio poético do autor, se dedique boamente à sua

leitura, sem fazer reparo a um que a outro lugar de menos castigado estilo. Infelizmente, ao poeta

faltou-lhe em vida não só outro poeta amigo a quem pudesse dar a censurar suas composições. E

devemos crer, pelo que ele próprio nos diz, que dos outros, em vez de estímulo, só recebia sinais

de indiferença, e até o fim do poema se achara sozinho, sem mais valimento que o da sua musa.

Queixando-se a esta, nos diz:

"Aqueles mesmos, que nos meus suores

Deveriam ter parte são piores.

Surdos se têm mostrado, e indiferentes

A tão nobres vigílias... Vê, que gentes,

Que estima pelas musas, que alto brio

Produz o teu Janeiro o ilustre Rio."

( C. 8º , pág. 211)

Quanta reputação e quanta glória não pudera ter adquirido um dos poderosos de então se

houvesse querido e sabido proteger um pobre frade que, com tais versos, implora a benevolência

da posteridade! Sem aguardar para mais longe, já os que nascemos depois, quase condenamos

todos os que então figuravam no Rio e com quanto prazer, com quanta glória, para ele, não

citáramos aqui o Mecenas, se algum tivesse querido então sê-lo!

De Manuel Joaquim Ribeiro, professor régio de Filosofia em Minas Gerais, possuímos

alguns sonetos e várias liras e, lástima é que tantas destas composições não passem de puros

encômios à pessoa do capitão-general. Vê-se que Ribeiro quis tomar por modelo a Dirceu e, força

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é dizê-lo, que às vezes o imitou, na graça e naturalidade que chega a iludir-nos.

Ao fazermos menção de Minas nesta época, é impossível deixar no olvido a exata e

ingênua descrição desta província, feita em quadras pelo alferes miliciano Lisboa. As suas outras

composições patrióticas e contra a invasão francesa em Portugal nem sequer tiveram voga na

época de entusiasmo em que se deram à luz.

Mineiro era também o pe. Silvério, chamado da Paraopeba. Suas composições são

recomendáveis pela muita originalidade e , quando se colijam, fornecerão uma pintura de muitos

usos de nossos sertanejos.

Mais para o interior, em Goiás, pulsava a lira de Píndaro o sublime Cordovil, de quem

devemos sentir que não sejam conhecidas maior número de produções. Tendência ao sublime se

descobre também nas composições que temos do baiano Luís Paulino. Mais que estes se

distinguiu, posteriormente, no lírico elevado, o pernambucano Saldanha, cantando os principais

heróis que dirigiram a restauração da sua província contra o jugo holandês. Infelizmente,

Saldanha parece não ter tido mais modelo que as odes pindáricas de Diniz que já demasiado se

parecem umas às outras.

Restava ocuparmo-nos, mais extensamente, dos últimos quatro autores poetas, com que

termina o nosso Florilégio. De alguns outros modernos, falecidos, não possuímos composições

bastantes, e dos vivos, não ousamos nós julgar e muito menos a par dos mortos. Assim, Deus faça

subsistir por muito tempo os motivos porque [sic] deixamos aqui sem exame as poesias dos Pedra

Branca e Alves Branco, dos Odorico Mendes e de tantos outros poetas talentosos de nossos dias.

Reservando-nos, pois, o projeto de publicar um suplemento a esta coleção, quando tenhamos

juntado os materiais para ele, igualmente prometemos, para o futuro, um album, contendo duas

ou três das composições ou trechos de poesias que cada um dos poetas, que a nós se dirijam, e

que são convidados neste lugar, creia preferíveis às outras suas.

Os quatro autores referidos, que terminam o nosso Florilégio, são: José Bonifácio,

Paranaguá, Januário e Álvaro de Macedo. Os laços de amizade e veneração que a eles nos

prendiam, e nos ligam às suas famílias, quase nos apertam o pulso e fazem que a mão trema ao

escrever deles um juízo crítico - prematuro talvez. Digamos, antes de tudo, que nenhum desses

brasileiros talentosos cultivou a poesia, senão por distração de mais sérios estudos. José

Bonifácio era naturalista; Paranaguá, matemático; Januário, pregador e Álvaro, profundo nos

estudos da vária filosofia. Todos eles dedicaram grande parte da sua atividade e tempo aos afãs

da política, já como deputados e ministros, já como escritores e jornalistas. De cada um destes

dois últimos não pode contar a literatura mais que um pequeno poema, com escasso

desenvolvimento. De Paranaguá, faltam ao público a maior parte das composições, com a

correção com que as ia limando no decurso de sua vida, sobretudo as primeiras que publicou em

Coimbra, no século passado. Não sabemos como haverá modificado a sua Primavera, tão

notável pelo estilo e metrificação, mas onde faltava muita cor americana. Sentimos que o poeta

fluminense preferisse entre as quadras do ano a que na Europa é mais risonha e fizesse menção de

se ter acabado o frio do vento norte, quando o frio no Brasil não vem desse lado e que se lembre

da flor da amendoeira, pois se há esta árvore em algum jardim de aclimatação, não é para nós um

indício da primavera, etc. As composições amorosas, quando não abundam em nomes

mitológicos, e sobretudo as heróicas ao Fundador do Império, e que ouvimos recitadas da própria

boca do poeta, cremos que irão à posteridade com unânime louvor e darão a Paranaguá mais

glória do que a Primavera a que, por falta de outros modelos do autor, demos a preferência.

José Bonifácio não se pode classificar como poeta; não pertence a nenhuma escola, se

bem que se educou na clássica. Não se afeiçoou a nenhum gênero, mas em todos se ensaiou. Não

poetava por amor da arte, mas por fugir do tédio em horas que não queria pensar em ciências,

nem em política. Isto em nada se opõe a que não sejam de superior mérito algumas poesias que

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nos deixou. Parece que, juntamente com o brasileiro Mello Franco, muito concorreu para a

confecção do poema satírico da Universidade de Coimbra - O Reino da Estupidez.

Se o cônego Januário merece, nos diferentes ramos da literatura brasileira, uma reputação

muito maior do que a que lhe dão suas obras na poesia, sobretudo, os seus serviços foram maiores

do que os que indica o seu Nictheroy. Januário foi o primeiro coletor de poesias brasileiras, que

promoveu o gosto pelas letras americanas e delas foi, na imprensa, na tribuna e até no púlpito,

estrênuo e acérrimo campeão. Seu estro, descobriu ele, principalmente, em produções anônimas

que, por ora ao menos, não podem pertencer à literatura, pelas muitas personalidades que encerram, nascidas de paixões políticas às quais não foi estranho na idade madura este ativo eclesiástico. Álvaro de Macedo era um moço de saber e conhecedor profundo da língua e literatura inglesa e desta grande admirador. A Festa de Baldo, apesar de seus defeitos, que consistem em faltas de desenvolvimento de certos pensamentos e no prosaísmo de alguns versos, é o nosso primeiro poema herói-cômico. A muita convivência que, na qualidade de colega, com Macedo tivemos e a amizade que a ele nos ligava, nos permitiram quase que assistir à composição dos últimos dois cantos do seu poema ao qual, a pedido nosso, o autor decidiu dar uma cor mais americana na parte descritiva. Lastimamos que não desse ainda mais desenvolvimento a este nosso pensamento quando, quase simplesmente, nomeia as frutas, etc. A obra de Macedo ganhará, talvez de dia para dia, mais popularidade e, daqui a menos de um século, figurará no país e na literatura mais do que hoje. Nela nos legou o autor uma verdadeira imagem da sua maneira sincera de pensar em religião, em política, em proceder social e doméstico, em tudo finalmente. Nela nos apresentou um espelho do seu caráter que conciliava à profissão de princípios severíssimos, com um trato tão alegre e galhofeiro quanto lho consentiam as queixas que tinha contra a sorte que pouco o favorecera na carreira que abraçara. Essas queixas, reunidas à sua compleição débil, lhe quebrantaram a existência aos quarenta e dois anos de idade. Faleceu em Bruxelas, onde servia como representante do Brasil.

F. A. DE VARNHAGEN


(1882)

A Exposição Antropológica de 1882

por JOHNNI LANGER & LUIZ FERNANDO RANKEL

A Exposição Antropológica de 1882, realizada pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, foi um dos eventos científicos mais importantes do Brasil oitocentista. A partir da década de 1870 ocorreu uma verdadeira proliferação de instituições de caráter científico na América Latina. Os museus, através de seus cientistas pesquisadores e exposições ao público, foram os locais de vulgarização das teorias evolucionistas em ascensão na Europa. Tais teorias foram adaptadas e tomaram formato específico no Brasil, no intuito de legitimar algumas especulações acerca da posição em que se encontravam índios, negros e mestiços na cadeia evolutiva e do futuro de um país que para ser civilizado teria que lidar com os problemas das "raças" aqui presentes. O Museu Nacional enquanto entidade geradora de pesquisas e questões acadêmicas, rivalizava com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, principalmente a partir de 1874, com a posse de seu novo diretor, Ladislau Netto.

A Exposição Antropológica Brasileira foi aberta em 29 de julho de 1882, num sábado, nas instalações do Museu Nacional. A origem do grande evento foi ocasionada pelo apoio do ministro da Agricultura, Pedro Souza, aos projetos de Netto para divulgar as pesquisas museológicas do período. Este último enviou solicitações para todas as províncias, esperando receber materiais: os moldes de Botocudo chegaram de Goiás e do Espírito Santo; objetos etnológicos vieram do Amazonas e Mato Grosso; peças líticas e cerâmicas foram remetidas pelo Museu Paranaense e coleções particulares, além de muitas escavações organizadas especialmente para essa finalidade; os livros expostos foram emprestados da Biblioteca Nacional (LOPES, 1997: 176). Segundo o Guia da Exposição, as coleções foram organizadas em oito salas: Vaz de Caminha, Lery, Rodrigues Ferreira, Hartt, Lund, Martius, Gabriel Soares e Anchieta. Apesar de cada uma destas seções ter uma proposta histórica e conceitual diferente, os variados objetos arqueológicos estavam presentes em praticamente todas elas, em maior ou menor número. A sala Lund foi a que mais recebeu restos humanos fossilizados, enquanto que a Hartt continha a maior parte dos fragmentos cerâmicos e a Lery os restos de sambaquis. A exposição durou três meses e teve um público com mais de mil visitantes, um verdadeiro êxito no país e com repercussão internacional.

Saindo dos domínios acadêmicos, o tema dos "indígenas selvagens", especialmente os Botocudo, parecia interessar toda a sociedade. Em uma charge da então influente Revista Illustrada, dirigida por Angelo Agostini, percebemos toda essa expectativa. Satirizando a morte de um colaborador do periódico, o desenhista colocou sua charge junto aos Botocudo, com a legenda: "Estes tambem fazem como elle, não cogitam em coisa alguma. O que o Martinho tem de menos no beiço, sobra-lhe na lingua." (REVISTA, 1882a: 5). Com certeza, era a característica que mais impressionava nestes indígenas. Após a abertura da aguardada Exposição Antropológica Brasileira, essa imagem solidificou-se no imaginário.

Novamente, a Revista Illustrada nos concede um quadro nítido das percepções do período, com ilustrações em duas páginas. Um arlequim, ao entrar no Museu Nacional, assusta-se com a enorme quantidade de objetos, troféus e armas expostas. Em seguida, o monarca D. Pedro II é representado portando trajes de cacique, sendo observado por um pequeno menino Tucano. Uma sátira ao excesso de importância que a elite manteve com a imagem indígena. No final, retorna o tema dos adereços labiais, onde dois Botocudo tentam beijar-se! O arlequim do início, em tamanho miniatuarizado, é devorado por um selvagem em seu enorme disco labial. Horror e fascinação, sem dúvida, sempre andam juntas. Não poderia haver nesta época um indígena mais antagônico aos princípios civilizatórios, com as regras de bem viver de qualquer cidadão do império. Mas também, que outro "selvagem" poderia atrair mais pessoas numa única exposição? Isso é o que responde o último quadro: "Mas quem diria! Esses anthropophagos é que ficaram com medo de serem devorados pela curiosidade publica. Só a muito custo o director do Museu impediu que elles fugissem." (REVISTA, 1882b: 4-5). Em uma hilariante cena, um cidadão tenta retirar com suas mãos, o disco de madeira da boca de um Botocudo que foge assustado!

Ainda na Revista Illustrada (1882c) verificamos divertidos textos, escritos por Julio D., que recuperam a celeuma provocada pela exposição. O autor visitou o evento um dia após ser aberto, num domingo, para evitar a imensa quantidade de discursos oficiais... A imagem que percebemos em seu texto é uma verdadeira invasão de pessoas, buscando a todo custo, encontrar até índios de verdade pelo museu! As visitas prosseguiram com imenso sucesso até meados de agosto, onde encontramos uma curiosa anedota, também transcrita por Julio D.:

"Quinta-feira, 10, são onze e meia horas da noite, o Dr. Ladislau Netto, quebrado de trabalho, morto de cansaço, está em dever de dar um pouco de repouso ao seu corpo, quando lhe batem á porta.

A criada vae ver quem é.

- É um negocio importantissimo que só ao doutor posso confiar, e é urgente, amanhan já não há mais tempo, vá chamal-o.

- Uma robe-de-chambre, um gorro, e eis o director do Museu bocejando ao individuo:

- Então, o que há?

- Queria pedir-lhe um favor: parto amanhan para São Paulo, pelo trem das seis, e não queria ir, sem ter visto os botocudos!

- Sem commentarios, não acham?" (REVISTA, 1882c: 7).

Nossos indígenas possuíam a capacidade de fascinar os habitantes do império, seja pelas imagens elaboradas pela literatura, como pela ciência que os converteu simbolicamente em peças museológicas. Nesse contexto de modernidade, progresso e civilização, o olhar para criaturas "primitivas" devia criar uma satisfatória sensação de bem estar, e de orgulho para cidadão membros de um império tropical, cuja capital refletia todo esse avanço social.

Um periódico especialmente impresso em diversos fascículos, foi entregue para o público, a Revista da Exposição Anthropologica Brazileira. Pouco depois, foi encadernada em um único volume e distribuída para todas as províncias. Com uma linguagem muito mais acessível do que os Archivos do Museu Nacional e a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, pode ser considerada uma antecipadora das modernas revistas de popularização científica. Num total de 112 artigos, escritos por especialistas do momento – como Netto, Lacerda, Magalhães, Hartt; políticos e viajantes – A. Soido, A. Campos, E. Deiró; e antigos cronistas – João Daniel, Vasconcelos, Anchieta. Além da linguagem simples, a publicação chama a atenção por sua grande estrutura iconográfica, uma das mais belas de todo o império. Com a média de uma figura por página, resgatando antigas ilustrações ou contextualizando os artigos, a revista popularizou ao extremo o imaginário indígena no Brasil.

A capa da edição encadernada e o primeiro artigo, evidentemente, trataram de índios Botocudo. Neste texto, J. Lacerda acentuou ao extremo a imagem negativa sobre eles: baixos, fracos, com pernas delgadas e mãos delicadas; as mulheres com seios caídos e muito feias; o tipo osteológico deprimente. E é claro, o repulsivo disco de madeira e seus hábitos canibalescos. Qual o destino para tão miserável etnia, a raça humana mais inferior? A extinção, prevista por Lacerda para no máximo 50 anos... Dezenas de outros artigos também foram publicados, abrangendo desde estudos arqueológicos, teorias da origem dos brasileiros, tipos étnicos, questões sociais, etc.

Raça, progresso e civilização foram a tônica das exposições museológicas da segunda metade do século XIX, balizando a construção da nacionalidade na formação do Império. E poucas vezes uma exposição de cultura material alcançou tanto prestígio popular no Brasil quanto a realizada pelo Museu Nacional em 1882.

Bibliografia

LACERDA, João. Botocudos. Revista da Exposição Anthropológica Brazileira. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & Cia, 1882a.

LANGER, Johnni & SANTOS, Sérgio. Império selvagem: a Arqueologia e as fronteiras simbólicas da nação brasileira (1850-1860). Dimensões: Revista de História da UFES, n. 14, 2002.

LOPES, Maria Margaret. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. São Paulo: Hucitec, 1997.

NETTO, Ladislau. Ao leitor. In: Revista da Exposição Anthropológica Brazileira. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & Cia, 1882a.

_____ Discurso inaugural da exposição antropológica. In: Revista da Exposição Anthropológica Brazileira. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & Cia, 1882d.

REVISTA ILLUSTRADA. Rio de Janeiro, ano 7, n. 306, 1882a.

_____ Chronicas fluminenses. Rio de Janeiro, ano 7, n. 310, 1882b.

_____ Chronicas fluminenses. Rio de Janeiro, ano 7, n. 311, 1882c.

 

JOHNNI LANGER é Doutor em História e professor da Universidade do Contestado, SC.

LUIZ FERNANDO RANKEL é Licenciado em História pela FACIPAL, PR.


HISTORIA UNIVERSAL


se nao posso comecar pelo comeco comecarei entao pelo meio: ROMA


ROMA (no final do capítulo, fontes true type de inspiracao romana para download gratuito)

A CIVILIZAÇÃO ROMANA

Localização Geográfica e Povoamento da Itália

A Origem de Roma e Divisão de sua História

A Monarquia Romana

A Reforma de Sérvio Túlio

A República Romana

Intensificação de Luta entre Patrícios e Plebeus

Expansão Romana: As Conquistas

A Conquista da Itália

A Expansão fora da Itália

Consequências da Expansão Romana

A Crise da República

A Reforma dos Graco

A Guerra Civil: Mário e Sila

A Crise Continua

O Primeiro Triunvirato

A Ditadura de César

O Segundo Triunvirato

Roma Imperial e a Centralização do Poder

O Principado de Augusto

O Império depois de Augusto

Decadência de Império: O Baixo Império

Evolução do Cristianismo no Império Romano

Fim do Império Romano do Ocidente



LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA E POVOAMENTO DA ITÁLIA

A Itália se localiza ao ocidente da Grécia, na península Apenina, que, avançando pelo mar Mediterrâneo, divide-o em dois: Mediterrâneo Ocidental e Oriental.
 

Geograficamente, a Itália divide-se em quatro regiões bem delimitadas: no extremo norte, uma região montanhosa, entrecortada de rios; a planície do Pó, ao longo do caudaloso rio Pó; a região Apenina; a costa litorânea dos mares Adriático e Tirreno.


O solo dessa península era mais fértil do que o solo grego, o que tornou possível o atendimento das necessidades alimentares dos romanos dentro da própria Itália.


O processo de povoamento da península Itálica foi bastante complexo, distinguindo-se vários povos que ali se estabeleceram em diferentes épocas. De acordo com pesquisas arqueológicas, pode-se estabelecer um povoamento anterior ao dos povos de origem indo-européia, cujos representantes, já nos tempos históricos, seriam os sicanos, da Sicília, os lígures, do noroeste e os messápios e iapígios, do sul.


Os grupos de origem indo-européia teriam chegado à Itália por volta de 2200 a.C., tendo os povos denominados itálicos ou italiotas ocupado o centro-sul da península, e os séculos, a Sicilía. Os dois principais subgrupos dos itálicos eram os samnitas e os latinos.


Os samnitas habitavam a parte sul da Itália, próximo às colônias fundadas pelos gregos a partir de sua expansão, entre os séculos VIII e VI a.C. Os samnitas, organizados em clãs pastoris , que se reuniam em tribos, viviam em constante luta contra os gregos, na disputa pela riquíssima região da Campânia. Essas disputas e, consequentemente, os contatos com o mundo grego, levaram ao desenvolvimento do seu poderio bélico, à fortificação de cidades, à conquista de colônias gregas e à expulsão dos etruscos.


Os latinos habitavam o curso inferior do rio Tibre, região que jamais foi conquistada pelos etruscos ou pelos gregos. Seus maiores adversários eram os volscos, tribo montanhesa que habitava os contrafortes dos Apeninos, entre o Lácio e a Campânia, e que vivia essencialmente do pastoreio. Nas montanhas habitavam também os équos e sabinos, tribos que viviam do pastoreio e do saque, também subgrupos dos itálicos.


A expansão da colonização grega no sul da Itália, região conhecida como Magna Grécia, provocou atritos com os fenícios, que povoavam a Sicília, e seus aliados, os etruscos, no mar Tirreno.


Os etruscos, outro povo que colonizou a Itália, é de origem até hoje desconhecida. Seu território inicial estava localizado entre o mar Tirreno, a oeste, e os montes Apeninos, a leste, entre o rio Arno, ao norte, e o Tibre, ao sul. Há pesquisadores que os consideram autóctones e outros que os consideram oriundos da Ásia Menor. O que se sabe é que sua língua não é de origem indo-européia, apresentando apenas algumas afinidades com a língua falada pelos habitantes da ilha egéia de Lemnos, na fase anterior à conquista ateniense.
 

Já por volta do século VII a.C., os etruscos estavam organizados em um império que constituia, na prática, uma liga de várias cidades-estados. Ocupavam-se da agricultura, do pastoreio, do trabalho manufaturado e do comércio, que não podia ser separado da pirataria. Eram comerciantes ativos no mar Mediterrâneo, aliados à cidade fenícia de Cartago. Seus produtos metalúrgicos e têxteis chegavam a todo o Oriente e a todo o Mundo Grego por intermédio dos cartagineses e dos colonos gregos.
 

O povoamento da Itália se completou com a chegada dos gauleses, no início do século IV a.C., que se estabeleceram ao norte, no vale do rio Pó (Gália Cisalpina).
 



A ORIGEM DE ROMA E DIVISÃO DE SUA HISTÓRIA

De acordo com a tradição lendária, Roma teria sido fundada em meados do século VIII a.C. por Rômulo, juntamente com Remo, filhos gêmos da princesa latina Réia Sílvia e do deus Marte. Rômulo teria sido então o iniciador da realeza romana.


As pesquisas arqueológicas têm confirmado alguns dados apresentados pela tradição, como por exemplo a época de fundação da cidade. Em meados do século VIII a.C. já existia no local da cidade de Roma uma aldeia latina que não se comparava, entretanto, em brilho e importância, às cidades etruscas e gregas existentes na península Itálica, no mesmo período. Os latinos, habitantes da primitiva Roma, eram basicamente povos agricultores e pastores, mas que realizavam algumas trocas com outros povos da região.
 

A partir do final do século VII a.C., acentuou-se a urbanização de Roma, com o aparecimento de templos e edifícios públicos, abertura de ruas mais regulares e pavimentação rudimentar. Portanto, já teria existido em Roma um processo de urbanização anterior à dominação etrusca, que corresponderia ao período lendário dos reis latinos e sabinos.
 

A acelerada urbanização dessa aldeia latina se justifica pela sua posição geográfica estratégica, no baixo vale do rio Tigre, representando o ponto de confluência de várias rotas de comunicação com as regiões vizinhas, particularmente com a etrúria e a Magna Grécia. A presença de mercadores etruscos e gregos já era acentuada no século VI a.C.
 

Foi exatamente sua posição estratégica que levou os etruscos à conquista de Roma, em meados do século VI a.C., o que a transformou na principal cidade da região do Lácio.
 

A história de Roma é tradicionalmente dividida em três períodos: monarquia, república e império.


A MONARQUIA ROMANA (de cerca de 750 a.C. a 509 a.C.)

O período monárquico iniciou-se com a fundação da cidade de Roma e terminou em 509 a.C., quando uma revolta da aristocracia depôs o último rei – Tarquínio, o Soberbo.
 

Durante a monarquia, a organização social básica do mundo romano era a gens, que pode ser definida como uma comunidade formada por um grupo extenso de pessoas que se reconhecem como descendentes de um antepassado comum e que organizam sua vida econômica e social baseada na solidariedade. A gens romana, entretanto, não tinha características de comunidade igualitária, pois consituía uma organização aristocrática, muitas vezes proprietária de escravos.
 

As propriedades e as fortunas não saíam do interior da gens porque imperava o direito paterno, que excluía as mulheres da herança, uma vez que, a partir do casamento, deixavam de pertencer à gens paterna para se vincularem à do marido.
 

A vinculação com uma gens criava laços de solidariedade obrigatórios. A gens tinha uma sepultura comum para os seus mortos, cultos particulares aos seus antepassados míticos e o hábito de reuniões para tomada de decisões coletivas.
 

A organização em gens era restrita à população nativa da cidade. Seus membros eram conhecidos como patrícios, denominação derivada da palavra latina pater, que significa pai ou chefe da família, elemento que tinha direito de vida e morte sobre os outros membros.
 

A reunião de dez gens constituía uma cúria, e da reunião de dez cúrias formava-se uma tribo. Cada cúria tinha suas práticas religiosas, seus santuários e seus sacerdotes. Das tribos saía o chefe militar e grande sacerdote. O conjunto das três tribos formava o populus romanus (povo romano). Só pertencia ao povo romano o membro de uma gens, que era, também, a partir desta, membro de uma cúria e de uma tribo.
 

Os membros das tribos submetidas pela população romana nativa não faziam parte das gens e eram chamados de plebeus. Eram homens livres; podiam possuir propriedades territoriais, pagavam impostos e prestavam serviços militares, sem, no entanto, terem o direito de exercer funções públicas ou partilhar da repartição das terras conquistadas pelo Estado Romano. Os plebeus, portanto, não eram cidadãos e sim súditos de Roma.
 

Além dos patrícios e plebeus existiam os clientes, homens livres, mas dependentes de um aristocrata romano, que lhes dava um pedaço de terra em troca do pagamento de uma taxa e de prestação de trabalho.
 

Resumindo, os clientes tinham uma dependência pessoal com um aristocrata, os plebeus dependiam do Estado e os escravos eram propriedade da família patrícia.
 

Alguns autores afirmam que durante a realeza a sociedade romana não era tão estratificada, poi houve reis e magistrados com nome de origem plebéia. Porém afirma-se que a aristocratização da sociedade romana foi se acentuando cada vez mais, na medida em que os plebeus eram privados de muitos de seus direitos.
 

Quanto à organização política da monarquia romana, podemos afirmar que Roma era governada por um rei, que tinha o título de rex sacrorum. Era ao mesmo tempo chefe militar, juiz supremo e sumo sacerdote, sendo escolhido entre os chefes militares e religiosos saídos das três tribos romanas. O conselho dos anciãos formava o senado, que prestava assistência ao rei. Seus membros eram recrutados entre as mais ricas e nobres famílias romanas. Todos os homens adultos pertencentes ao populus romanus reuniam-se em assembléias, por cúrias – comitia curiata -, onde elegiam os chefes, declaravam a guerra ou firmavam a paz. Segundo a tradição, a monarquia romana teve sete reis, sendo Rômulo o primeiro.
 

Durante o domínio etrusco, a aristocracia se fortaleceu, enquanto a situação dos plebeus se agravou. Os pequenos proprietários de terras, endividados, eram transformados em escravos dos patrícios. Ocorreram lutas entre patrícios e plebeus. Um rei romano de origem etrusca, Sérvio Túlio. Realizou importante reforma social no século IV a.C.


A REFORMA DE SÉRVIO TÚLIO

Sérvio Túlio dividiu a população em cinco classes, de acordo com a renda de cada indivíduo. Cada classe deveria contribuir com um certo número de soldados para o exército. As questões militares passaram a ser decididas nas assembléias das centúrias, que eram divisões do exército romano em cem homens, comandados pelo centurião. As centúrias patrícias conseguiam impor sua posição porque eram em maior número.
 

A reforma implementada por Sérvio Túlio parece ter concedido alguns direitos aos plebeus, entre eles o acesso ao serviço militar.

 


A REPÚBLICA ROMANA (de 459 a.C. a 31 a.C.)

De acordo com a tradição lendária, a monarquia teve fim em 509 a.C., quando a aristocracia rebelou-se contra a dominação etrusca e a tirania do rei Tarquínio, que foi deposto. O senado assumiu o poder, transformando-se na mais poderosa instituição política do mundo romano.
 

A aristocracia continuou a ser a classe que dominava a vida econômica e política da cidade, ocorrendo uma tendência para uma estratificação mais acentuada da sociedade romana. O endividamento dos pequenos proprietários levava ao aumento do número de escravos, dos trabalhadores servis e mesmo dos clientes. Acirraram-se os conflitos entre patrícios e plebeus. Entretanto, também entre os plebeus começou a se evidenciar uma estratificação: os plebeus pobres passaram a lutar pela abolição das dívidas, da servidão por dívidas e pela repartição das terras, enquanto os plebeus mais ricos preocupavam-se principalmente com o acesso aos cargos públicos.
 

Ao mesmo tempo, a cidade de Roma, após consolidar sua hegemonia sobre a liga das cidades do Lácio, passou a organizar lutas contra seus vizinhos, os volscos, équos e hérnicos. As lutas tinham inicialmente caráter defensivo, passando depois a um caráter nitidamente expansionista, visando o controle de toda a Itália meridional.
 

A organização política sofreu transformações significativas. No lugar do rei passaram a existir dois magistrados eleitos por um ano, em tempo de paz – os cônsules -, com plena autoridade sobre os assuntos civis, militares e religiosos. Em caso de necessidade, como guerras, revoltas ou calamidades, os cônsules eram substituídos por um ditador, que teria poder absoluto pelo período de seis meses. Os romanos passaram a identificar a liberdade política com o governo eleito por tempo determinado.
 

Além dos cônsules, existiam outras instituições: o senado, a instituição mais poderosa da república romana e da qual só participavam os patrícios, e a assembléia popular, que também teve sua importância política aumentada, pois, de simples órgão que registrava os editos reais, passou a votar as questões que lhe eram apresentadas pelos cônsules; mas nunca chegou a ter os mesmos poderes que as assembléias das cidades-estados gregas.

 


INTENSIFICAÇÃO DE LUTA ENTRE PATRÍCIOS E PLEBEUS

Para se compreender a intensa luta travada entre plebeus e patrícios é necessário ter-se uma visão geral de estrutura econômica e social vigente em Roma, pelo menos até o final da república.
 

A agricultura era a atividade básica, predominando a pequena propriedade rural, cultivada pelo próprio dono, às vezes auxiliado por escravos. As mesmo tempo, as terras pertencentes ao Estado – ager publicus – aumentavam consideravelmente principalmente quando se acentuou a tendência expansionista. Essa terras deveriam ser cedidas aos membros da comunidade: os terrenos desocupados seriam cedidos como pastos, e os terrenos já ocupados, na época da conquista, estariam sujeitos ao pagamento de taxas. A maior parte das terras públicas, porém, era abandonada e inculta, sendo ocupada por particulares, sem o pagamento de qualquer taxa.
 

Na apropriação dessas terras, a aristocracia patrícia sempre levava vantagem, principalmente porque eram seus membros que ocupavam os principais cargos públicos. O senado e a magistatura eram monopólio dos patrícios. A participação dos plebeus na comitia centuriata (assembléia da centúria) era puramente formal, pois a aristocracia detinha o poder de decisão, uma vez que as centúrias patrícias eram mais numerosas. Os plebeus também não podiam casar com patrícios nem podiam ser sacerdotes.
 

Essa situação foi se agravando cada vez mais, porque os plebeus também passaram a ter participação na vida militar; e como as campanhas militares se intensificavam, os pequenos proprietários, que se mantinham muito tempo afastados de suas propriedades, ficavam sujeitos à ruína, enquanto as propriedades dos patrícios eram aumentadas, progressivamente, com as novas conquistas.
 

No ano de 494 a.C., os plebeus abandonaram Roma e foram para o Monte Sagrado, próximo à cidade. Essa retirada significou em enfraquecimento do exército romano, o que levou os patrícios a admitirem uma série de concessões aos plebeus. A principal concessão foi o direito de eles elegerem um tributo da plebe, com poder de veto sobre as decisões dos magistrados, com exceção das decisões militares. Esses tribunos, inicialmente em número de dois e mais tarde de dez, gozavam de inviolabilidade pessoal e residencial, pois suas casas eram consideradas lugares de “asilo”. Tornaram-se verdadeiros protetores da plebe, já que, além das atribuições já citadas, podiam impedir qualquer ação do Estado contra os plebeus, através da simples oposição a essa medida – intercessio.
 

As leis romanas eram baseadas na tradição e interpretadas pelos patrícios. Os plebeus, num processo semelhante ao ocorrido na Grécia, passaram a exigir leis escritas, o que levou ao aparecimento, em 450 a.C., do primeiro código de leis escrito da história romana – a Lei das Doze Tábuas -, redigido por uma comissão de decuriões composta de patrícios e plebeus.
 

Uma década depois, por proposta dos tribunos da plebe Licínio e Séxtio, os plebeus conseguiram conquistar o direito de um dos cônsules ser de origem plebéia. Mais tarde, obtiveram também o direito de ocupar o cargo de ditador.
 

A aristocracia romana, porém, soube absorver as conquistas sociais e políticas dos plebeus e manteve o controle do Estado, fosse através do sistema de votação na comitia centuriata, que inviabilizava a participação dos cidadões mais pobres, fosse através da arregimentação dos clientes, que foi perdendo seu caráter de base eleitoral.
 

Em 445 a.C., foram permitidos os casamentos entre plebeus e patrícios, o que levou a uma associação entre as famílias plebéias mais ricas e os patrícios, fazendo surgir uma nova aristocracia – a nobilitas -, composta de um número reduzido de famílias que, durante muito tempo, controlaram o acesso aos mais elevados cargos do Estado.
 

Com a expansão militar romana, novas magistaturas foram criadas: os protetores, que cuidavam dos assuntos juriciários; os censores, que dividiam os cidadões segundo os bens e preparavam a lista dos senadores; os edis, que cuidavam do abastecimento e da vigilância da cidade de Roma; os questores, que administravam o tesouro público. Os plebeus conseguiram ter acesso a todos esses cargos, porém, cada vez mais se acentuava a divisão interna da camada plebéia entre pobres e ricos.

 


EXPANSÃO ROMANA: AS CONQUISTAS

Foi durante o período republicano que Roma se transformou de simples cidade-estado em um grande império, voltando-se inicialmente para a conquista da Itália e mais tarde de todo o mundo mediterrâneo.
 

O imperialismo romano se estendeu pelo período de quase um milênio, desde a época da monarquia até o Baixo Império. Como a expansão imperialista provocou profundas transformações na vida econômica, social e política de Roma, podemos identificar diferentes fatores para justificá-la em épocas determinadas da história romana. Para simplificar o estudo desses fatores, dividiremos a expansão em duas fases: a primeira, que se estende até o século III a.C., identificada com a conquista da Itália; e a Segunda, que corresponde à formação do poderoso império mediterrâneo.
 

Na primeira fase, o fator determinante da expansão foi a necessidade de novas terras cultiváveis, numa sociedade onde o desenvolvimento das forças produtivas era limitado e o conflito entre aristocracia e pequenos proprietários bastante acentuado. A disputa pelas terras do Estado, que aumentava, ao mesmo tempo que encontrava na conquista uma válvula de escape e uma motivação para a luta, acirrava as lutas internas entre a aristocracia e a plebe. A aristocracia rural, através da conquista, ampliava sues domínios territoriais e seu poder político e militar, estabelecendo alianças com as aristocracias dos Estados conquistados e aumentando os contingentes de seu exército, uma vez que Roma integrou, progressivamente, as regiões conquistadas ao seu sistema político, admitindo seus habitantes como cidadões romanos, em graus diferenciados.
 

Para as massas camponesas, a conquista representava um alívio, na medida em que possibilitava o aumento das unidades de produção familiares, sempre sujeitas a profunda fragmentação pelo direito de herança e pagamento de dotes. Além desse fator, a participação, ainda que minoritária, na divisão das presas de guerra.
 

Na Segunda fase imperialista, quando os latifúndios escravistas (propriedades aristocráticas, com mão-de-obra escrava e produção especializada, voltada para o mercado) dominaram a economia romana, o fator determinante do expansionismo militar passou a ser recrutamento da mão-de-obra escrava, obtida a partir das populações vencidas. Estudaremos mais detalhadamente esse período na transição da república para o império e na fase imperial.

 


A CONQUISTA DA ITÁLIA

Em princípio do século V a.C., o objetivo fundamental da aristocracia romana era manter sua hegemonia na região do Lácio, o que preocupava as cidades etruscas.


Os latinos que viviam próximos a Roma sabiam que sem a ajuda romana não poderiam conter nova dominação etrusca. Formaram, então,uma liga das cidades latinas, sob o comando de Roma.


Em 449 a.C., os sabinos foram derrotados pelos romanos, que se apoderaram de boa parte do seu território. Pouco depois, os latinos venceram os volscos, que queriam isolá-los do mar, e novas colônias romanas foram instaladas nos territórios ocupados.
 

Em 395 a.C., os romanos venceram a cidade etrusca de Veios, numa luta iniciada pelo controle da foz do rio Tibre. Após essa vitória se seguiu-se uma derrota, por volta de 390 a.C., quando os gauleses que organizavam expedições de saque às regiões do sul da Etrúria chegaram ao território romano, saquearam a população e exigiram o pagamento de resgate, em dinheiro, para a libertação da cidade.
 

A invasão dos gauleses levou as cidades latinas a refazerem a aliança com Roma, que andava bastante abalada. Até meados do século IV a.C., a expansão deveu-se à liga latina, dissolvida em 340 a.C., quando a sublevação das cidades latinas levou Roma a submetê-las totalmente à sua hegemonia. A partir daí, a conquista passou a ser feita sob o controle absoluto de Roma, mas as colônias instaladas tinham um caráter latino.
 

De 327 a 290 a.C., Roma guerreou contra os samnitas pelo domínio da fértil região da Campânia. A maior parte dos samnitas acabou se aliando aos romanos.
 

Posteriormente, Roma submeteu o norte da Etrúria, cujos domínios compreendiam a Itália central e parte da Itália setentrional. Quando a supremacia romana se estendeu ao sul da Itália, algumas cidades gregas, como Nápoles, aliaram-se a Roma, enquanto outras, como Tarento, declararam-lhe guerra.
 

Em 272 a.C., o sul da Itália, inclusive Tarento, se rendeu. Toda a península Apenina, exceto o vale do Pó, passou ao domínio romano.


Ao conquistarem uma região italiana, pelo menos um terço do território ocupado era apropriado pelo Estado – ager publicus – e distribuído aos cidadãos romanos, para várias finalidades: instalação de colônias, distribuição de lotes individuais ou ocupação pela aristocracia, que tinha os meios disponíveis para o seu aproveitamento.

 


A EXPANSÃO FORA DA ITÁLIA

A expansão fora do território italiano teve início com as Guerras Púnicas, contra Cartago, cidade-estado fenícia localizada ao norte da África, que por volta do século III a.C. dominava o comércio do Mediterrâneo possuindo colônias na Sicilia, Sardenha, Córsega, Espanha e em toda a costa setentrional da África.


Os conflitos entre Roma e Cartago se iniciaram a partir da expansão romana pela Itália meridional. Quando Roma anexou os portos italianos do sul e os interesses de Nápoles e Tarento (colônias gregas rivais de Cartago) se tornaram interesses romanos, a guerra passou a ser inevitável. Era quase certo que Roma, como líder dos gregos ocidentais, iria intervir na luta secular entre sicilianos e cartagineses.
 

A maior parte da ilha da Sicília era habitada por cartagineses, em luta constante com as colônias gregas ali existentes. Os romanos intervieram nessa luta e uma de suas legiões ocupou a cidade de Messina. Os cartagineses declararam guerra a Roma.
 

As forças das duas potências eram bastante equilibradas, pois o poderio de ambas era sustentado por uma comunidade de cidadãos e um poderoso exército, apoiado por aliados em caso de guerra.
 

Nas três Guerras Púnicas (de 264 a.C. a 146 a.C.), os romanos venceram os cartagineses, impondo seu domínio na Sicília, Córsega e Sardenha, além da Espanha, que só foi totalmente integrada ao império romano após a total submissão dos celtiberos, em 133 a.C. Portugal, por sua vez, caiu sob o domínio romano em 140 a.C., quando os lusitanos, liderados por Viriato, foram vencidos pelas tropas romanas. Parte do norte da África também foi dominada pelos romanos, a partir da queda e destruição de Cartago, em 146 a.C. Todo o Mediterrâneo Ocidental passou para o domínio romano.
 

Ao mesmo tempo em que estava envolvida com as Guerras Púnicas, Roma voltou sua atenção para o Mediterrâneo Oriental, onde o império formado por Alexandre Magno havia se desagregado.
 

A Macedônia, aliada a Cartago na Segunda Guerra Púnica, foi derrotada em 197 a.C., tornando-se protetorado romano. Posteriormente, com a revolta dos macedônios, Roma dominou totalmente a região, transformando-a em província romana, em 168 a.C.
 

A Síria foi vencida em 189 a.C., seguindo-se depois a conquista da Grécia e da Ásia Menor e o estabelecimento de um protetorado romano no Egito.
 

Com a conquista da Gália Transalpina, efetivada por Júlio César (51 a.C.), a Roma republicana transformou-se no maior império da Antigüidade.

 


CONSEQÜÊNCIAS DA EXPANSÃO ROMANA

A expansão romana exigiu uma nova forma de administrar as terras conquistadas e, no plano interno, trouxe profundas modificações na sociedade.
 

A partir da conquista de terras fora da península Apenina, Roma passou a agrupar os territórios anexados em províncias, cujo sistema de exploração sofreu profundas transformações. Enquanto na expansão inicial dava-se ênfase à conquista das terras incorporadas ao ager publicus, às alianças políticas e ao fornecimento de soldados, na fase posterior da expansão romana destacava-se a cobrança de tributos anuais, em espécie ou moeda, o pagamento de indenizações de guerra, a exclusividade na exploração das minas e principalmente o recrutamento de escravos entre a população dominada.


Nas regiões dominadas ficavam o exército e os governadores, que controlavam o poder civil e militar. A arrecadação dos impostos provinciais era arrendada pelo Estado romano a particulares - os publicanos - que se tornaram um poderoso grupo, de grande importância nas lutas sociais travadas no final do período republicano.


A expansão romana provocou transformações radicais na vida econômica e social de Roma, sem, no entanto, alterar sua estrutura política.
 

Roma continuava sendo uma cidade-estado governada pela aristocracia, através do seu principal órgão político - o senado. A camada aristocrática havia alterado sua composição, com a incorporação dos plebeus ricos, mas não havia alterado suas concepções nem seus objetivos de controle exclusivo do poder. Mesmo essa nova aristocracia - a nobilitas - só muito lentamente recrutava novos quadros entre as camadas de maior renda, os équites ou cavaleiros, que passavam a ser conhecidos como "homens novos", discriminados pela oligarquia que tradicionalmente controlava o poder. Por outro lado, os plebeus, como já vimos anteriormente, sofreram profunda estratificação interna, e os tribunos da plebe, pertencentes às camadas plebéias ricas, afastavam-se cada vez mais das camadas populares.
 

Os pequenos proprietários, devido à mobilização permanente para a guerra, foram prejudicados e passaram a ter dificuldades de readaptação na vida agrícola, o que levou grandes contingentes populacionais a migrar as grandes cidades, enquanto outros grupos de pequenos proprietários arruinados passaram a trabalhar como camponeses contratados por grandes proprietários – os coloni.
 

A concentração de propriedades rurais levou ao aparecimento do latifúndio. Havia, portanto, em Roma, capital abundante nas mãos da aristocracia e mão-de-obra disponível, principalmente com o aumento do número de escravos. A especialização agrícola, com produção voltada para o mercado, passou a dominar a vida econômica romana.
 

Foram essas transformações que geraram tensões, responsáveis pela crise da República: disputa entre a aristocracia da cidade de Roma e as elites provinciais; tensões no interior do exército, que necessitava do recrutamento dos camponeses, mas cuja ação só beneficiava os senadores e os éqüites; tensões de caráter étnico e cultural, agravadas pela escravização das populações submetidas.

 


A CRISE DA REPÚBLICA

É quase impossível determinar, cronologicamente, quando a sociedade romana passou a ser essencialmente escravista. A escravidão já existia desde o período da realeza, mas como uma relação de produção sem grande importância para a vida romana. O certo é que, com a aceleração do expansionismo romano, o escravo passou a ser a base do sistema produtivo. A partir do século II a.C., essa transformação passa a ser bem evidente.


As revoltas dos escravos foram mais explosivas e constantes no meio rural. Dentre elas destacam-se as ocorridas na Sicília, entre 136 e 133 a.C., onde os escravos chegaram a tomar o poder, estabelecendo um governo monárquico. Também no reino de Pérgamo, na Ásia Menor, escravos e cidadãos pobres, liderados por Aristônico, revoltaram-se contra Roma, sendo derrotados em 130 a.C. Essas revoltas preocuparam a aristocracia romana, mas não abalaram O sistema escravista, que se consolidava cada vez mais.
 

Os escravos urbanos também participaram das lutas políticas, particularmente daquelas travadas no final da república, mas não como uma camada social portadora de reivindicações e sim como massa de manobra de grupos políticos.

 


A REFORMA DOS GRACO

Uma das questões centrais das lutas internas dos romanos era a disputa pela terra entre os ricos e os camponeses pobres.


Durante a primeira metade do século II a.C., o senado ainda manteve uma política de colonização intensa na Gália cisalpina e na parte sul da Itália, mas não na Itália central, onde já predominavam os latifúndios escravistas. Mas a distância entre regiões colonizadas, a pequena extensão dos lotes e os poucos recursos disponíveis levaram os colonos a abandonar as zonas de colonização. O fim dessas colônias provocou um aumento de tensão em Roma.


Alguns elementos progressistas da aristocracia romana, influenciados pela cultura grega, bastante forte nesse período, pensaram em reformas sociais. Um desses elementos foi o senador Tibério Graco, que preparou um projeto visando melhorar a combatividade do exército romano, desmoralizado pela sua rendição, quase sem luta, na Espanha.
 

Segundo Tibério Graco, a melhoria da combatividade do exército dependia da melhoria das condições de vida dos camponeses pois, nesse período, o campesinato constituía a base do exército romano. Assim, resolveu conceder terras àqueles que não as possuíam em quantidade suficiente para sobreviver.
 

Como tal proposta só poderia ser aprovada pela assembléia popular, e só os tribunos podiam apresentar projetos, ele candidatou-se a esse posto e venceu as eleições.
 

O projeto de Tibério Graco limitava a quantidade máxima de terras públicas que uma família poderia possuir em 500 iugera (medida romana) para o chefe e 250 por filho (até o máximo de dois). Essas terras se tornariam propriedade dos seus concessionários, porém aquelas concedidas aos pobres não se tornariam propriedade particular, pois não poderiam ser vendidas e estavam sujeitas ao pagamento de taxas de arrendamento.
 

No dia da votação do projeto, uma multidão de camponeses reuniu-se em Roma. Os senadores, para não perderem a votação, recorreram a um antigo recurso constitucional romano – o veto de um tribuno a qualquer lei. O veto foi dado por Otávio. Tibério recorreu a um meio inconstitucional e pediu à plebe que afastasse Otávio e aprovasse a lei.
 

Para a execução da lei era necessário o apoio dos tribunos, que eram eleitos anualmente. Tibério candidatou-se novamente para o posto, além de procurar eleger outros candidatos seus. Como a reeleição de um tribuno era contrária à tradição romana, a aristocracia passou a acusá-lo de pretender instalar um governo tirano. No dia das eleições houve um conflito armado, onde Tibério e muitos de seus partidários foram mortos.
 

Caio Graco, irmão de Tibério, foi eleito tribuno em 124 a.C., e apresentou um projeto de reformas muito mais amplo à assembléia. Entre suas propostas, incluíam-se uma lei que estendia a todo o mundo romano as terras concedidas aos pobres; um programa de obras públicas para dar ocupação à plebe urbana; uma reforma judiciária que favorecia camadas intermediárias, tirando o papel de juiz dos senadores e transferindo-o para os cavaleiros (comerciantes), que passaram também a exercer importante papel nas finanças públicas com o arrendamento da cobrança dos impostos provinciais.
 

Com a lei frumental, iniciou-se a distribuição de trigo para a população romana. subvencionada pelo Estado. Esse hábito assumiu grande importância no século I a.C., tornando-se totalmente gratuito a partir do ano de 58 a.C.
 

Caio Graco, em sua campanha à reeleição, sugeriu que a assembléia estendesse os direitos de cidadania a todos os aliados de Roma, mas o projeto foi derrotado e o senado ordenou a expulsão de todos aqueles que não eram cidadãos romanos.
 

Tentando derrubar Caio Graco, os aristocratas denunciaram-no como sendo inimigo da religião e da pátria, alegando que ele havia fundado, em Cartago, uma colônia numa região considerada amaldiçoada. Caio Graco foi perseguido e seus partidários foram derrotados pelo senado. Temendo tornar-se prisioneiro, pediu a um escravo que o matasse.
 

Os únicos beneficiários das reformas dos Graco foram os cavaleiros, que há muito pretendiam participar das estruturas efetivas de poder do Estado. Os camponeses, porém, continuaram a perder suas terras e os latifúndios continuaram sua expansão.
 

As tentativas de reforma não conseguiram restaurar a propriedade camponesa nem a estrutura do exército, baseada no recrutamento dos cidadãos. O exército passou, progressivamente, a ser profissional, composto por mercenários que faziam da vida militar seu meio de sobrevivência (ver adiante as reformas de Mário).

 


A GUERRA CIVIL: MÁRIO E SILA

A classe senatorial consolidou seu domínio sobre a cidade de Roma e continuou sua política de conquistas.
 

Uma das primeiras grandes investidas do exército romano foi sobre a Numídia, ao norte da África. Mas os generais romanos, mais preocupados com seus interesses particulares do que com os do Estado, eram subornados pelo rei daquela região e a guerra se tornava indefinida. A conquista definitiva da Numídia aconteceu quando a assembléia romana elegeu como chefe das tropas africanas o incorruptível Caio Mário, que foi reeleito cônsul e general-chefe.
 

Mário iniciou uma série de reformas no exército, ao perceber que sua base de recrutamento - os camponeses - não tinha grande interesse em lutar, o que provocava indisciplina e deserção. Passou também a convocar a classe dos proletarii (indivíduos sem bens e com prole para sustentar), contrariando a tradição romana, que restringia o recrutamento militar aos proprietários. Os soldados passaram a ser assalariados, passo decisivo para a profissionalização militar.
 

Nessa época, a situação de Roma era difícil. Explodiram revoltas de escravos na Sicília, e povos itálicos se rebelaram por não gozarem do direito de cidadania romana, apesar de serem seus aliados.


Os dois principais generais romanos, Mário e Sila, foram enviados para submeter os revoltosos. A luta durou três anos, e Roma só pôde vencê-la após uma série de expedientes para dividir os aliados.


Antes do final da revolta dos itálicos, Roma teve de enfrentar outro adversário - Mitridates, rei do Ponto, que conseguiiu reunir boa parte do Oriente helenizado e massacrar toda a população latina da Ásia Menor. Roma preparou-se para enviar tropas contra Mitridates. Os partidos popular e aristocrático apresentaram, como candidatos ao comando das tropas, Mário e Sila, respectivamente. O vencedor foi Sila, que partiu para o Oriente.
 

Aproveitando-se de sua ausência, Mário e seus seguidores se apossaram do poder em Roma. No entanto, no Oriente, Sila fez um acordo com Mitridates e retornou a Roma, onde derrotou Mário e seus partidários. A partir daí (82 a.C.) instaurou uma ditadura em Roma, tornando-se ditador vitalício.
 

Durante essa ditadura, Sila anulou o poder dos tribunos, limitou os direitos da assembléia popular e entregou o controle da justiça à aristocracia senatorial. Em 79 a.C. abdicou, retirando-se para a Sicília.

 


A CRISE CONTINUA

As lutas entre as diferentes facções e partidos políticos acirravam-se cada vez mais.


É importante notar que essas lutas eram disputas entre a classe aristocrática romana e as elites provinciais. Mas, na desorganização provocada por essas disputas, setores das camadas mais pobres e os próprios escravos também manifestavam sua insatisfação. Foi o que ocorreu, por exemplo, na Campânia, no ano 70 a.C., quando milhares de escravos, liderados por Espártaco e ajudados pelos proletários rurais da Itália, se rebelaram. Essa rebelião foi reprimida por Crasso, homem rico, saído da classe dos cavaleiros.
 

Também no Oriente, Roma conseguiu se impor a Mitridates, vencido por Pompeu, que anexou a Síria e a Palestina.
 

O partido democrático, liderado por Júlio César e financiado por Crasso, voltou a se manifestar em Roma, para tentar controlar o poder na cidade, aproveitando-se da ausência de Pompeu, que combatia no Oriente. Seu instrumento foi Catilina, um nobre arruinado e com fama de demagogo e conspirador, com grande influência sobre os desclassificados de Roma, Apoiado por Júlio César e Crasso, tentou várias vezes, inutilmente, ser eleito cônsul. Em 63 a.C., apoiado por soldados que haviam lutado contra Mário e estavam empobrecidos, tentou organizar uma conjuração em Roma. Seu plano foi descoberto e denunciado pelo cônsul Cícero. Catilina foi derrotado e morto pelas forças do senado.
 


O PRIMEIRO TRIUNVIRATO

Em 60 a.C., César, Pompeu e Crasso firmaram um pacto secreto para dividir o governo. Esse acordo denominou-se triunvirato (governo de três pessoas). Com a ajuda de Pompeu e Crasso, César conseguiu ser eleito cônsul e tornou-se o elemento encarregado da execução de medidas propostas pelos três. Distribuiu terras da Campânia para os soldados de Pompeu; apoiou os partidários de Crasso na expulsão de Cícero, senador aristocrático contrário às reformas de Roma; fez com que as soluções adotadas por Pompeu, em relação ao Oriente, fossem confirmadas pela assembléia. Para si, garantiu o governo das Gálias cisalpina e transalpina. Toda a Gália foi subjugada por César, o que lhe permitiu conquistar uma reputação militar e recursos materiais ilimitados, que lhe tornaram possível comprar a devoção dos seus soldados. Nessa fase de acirrada disputa política, os soldados mantinham-se fiéis aos seus generais, em função dos interesses clientelísticos que estes pudessem lhes garantir.
 

Durante a campanha da Gália, César procurou manter o triunvirato. Após a morte de Crasso, aumentaram os conflitos entre César e Pompeu. César não respeitava as limitações constitucionais do seu cargo e voltava-se contra o senado, que também o temia.
 

Com a expiração do mandato de César nas Gálias, o senado propôs-lhe que retornasse a Roma, onde seria candidato a cônsul, e que dispersasse seu exército, o que ele se recusou a fazer pois sabia que isso significava perder seu poder e ser destruído pelo senado.
 

César invadiu a Itália e marchou sobre Roma. Os senadores abandonaram a cidade e Pompeu retirou-se para a península Balcánica, onde, pouco tempo depois, foi abatido por César, que também derrotou seus exércitos na Espanha.
 

O Egito, onde havia uma disputa pelo poder entre os herdeiros, também foi alvo de César. Ele colocou a rainha Cleópatra no poder e deixou o Egito em 47 a.C.
 


A DITADURA DE CÉSAR

Ao retornar a Roma, César tornou-se o chefe do Estado romano, ocupando, ao mesmo tempo, o cargo de tribuno e de cônsul. Procurou manter o funcionamento formal das instituições republicanas, mas submetendo-as totalmente ao seu controle. Na luta contra o senado, apoiou-se nas camadas mais baixas da assembléia popular e nos veteranos do exército das províncias ocidentais.
 

César foi assassinado pela facção republicana do senado, em 44 a.C., mas seu desaparecimento não restituiu o poder ao senado, que, representando a oligarquia, era combatido pelo exército, pela plebe e pelas camadas ricas, que não partilhavam do poder.
 


O SEGUNDO TRIUNVIRATO

Com a morte de César, seus seguidores Marco Antônio e Lépido controlaram as tropas e impediram qualquer domínio político por parte do senado, que aceitou o acordo proposto por Marco Antônio para garantir todos os atos de César, mas a disputa entre os seguidores deste e a classe senatorial continuou.
 

Bruto e Cássio, senadores que lideraram a conspiração contra César, escaparam para o Oriente, onde controlaram parte do exército sediado na Macedônia, enfraquecendo a posição de Antônio.
 

Na Itália, Otávio, sobrinho de César, exigiu participação no governo e devolução do dinheiro retirado do espólio de seu tio. Antônio recusou-se a aceitar as exigências impostas e os veteranos de guerra de César ficaram com Otávio, que ofereceu seus serviços ao senado, sendo aceito. A maior parte dos soldados do senado passou para o comando de Otávio, que recebeu o título de cônsul e condenou os assassinos de César.
 

O esperado choque entre Antônio e Otávio não ocorreu. Como nenhum deles conseguiria governar sozinho, acabaram entrando em acordo e formaram, juntamente com Lépido, o segundo triunvirato.
 

Pelo acordo, dividiram entre si as principais províncias ocidentais do império e receberam poder ilimitado, por cinco anos, para reorganizar o Estado. O acordo foi ratificado pela assembléia popular.
 

Para garantir a "reorganização do Estado" instaurou-se o terror em Roma, com o objetivo de eliminar a oposição e levantar fundos para o pagamento dos soldados.
 

Antônio e Otávio dirigiram-se para a Macedônia, onde derrotaram o exército de Bruto e Cássio. Antônio foi para o oriente e Otávio retornou à Itália, onde começou a expropriar terras para doá-las a seus soldados.
 

O governo autocrático, instaurado por Antônio no Oriente, reabilitou Otávio junto à população romana, revoltada com os confiscos de terra. Quando Marco Antônio começou a doar províncias romanas aos herdeiros de Cleópatra, sua favorita, Otávio apresentou-o aos romanos como traidor de seus ideais. O senado apoiou Otávio, e toda a aristocracia da Itália e das províncias lhe jurou fidelidade.
 

Em 34 a.C., na batalha de Áctium, Marco Antônio foi derrotado pelo exército romano e, após sua morte e o suicídio de Cleópatra, o Egito transformou-se em província romana. Começava a nascer a Roma Imperial.
 


ROMA IMPERIAL E A CENTRALIZAÇÃO DO PODER

Durante as guerras civis, acumularam-se grandes fortunas em Roma. A anarquia nas províncias e a falta de eficiência do governo central propiciaram o enriquecimento extraordinário dos generais e governadores de províncias. Os governadores, juntamente com os équites, enriquecidos com a espoliação das províncias, passaram a fazer parte da classe senatorial.
 

Roma transformou-se no maior centro comercial e financeiro do mundo. O envio de riquezas do Oriente enriqueceu ainda mais a península. Os pequenos proprietários se arruinavam, pois os cereais eram importados das províncias a preços ínfimos.
 

Graças à grande entrada de capitais vindos das províncias, houve grande desenvolvimento da manufatura, principalmente após a chegada de escravos especializados, vindos da Grécia e do Oriente. Ao mesmo tempo em que Roma florescia, as províncias se empobreciam, devido à espoliação dos governadores e dos cavaleiros.
 

As classes dominantes de Roma, juntamente com os cidadãos romanos, diante da anarquia gerada pelas guerras civis, sentiram necessidade de reformas para integrar efetivamente o enorme território imperial, mantendo uma relativa paz e progresso interno, sem perder sua situação privilegiada. Otávio expressou e interpretou esse desejo, estabelecendo um governo centralizador e autocrático – o principado, isto é, o governo do primeiro homem do Estado (princeps).
 


O PRINCIPADO DE AUGUSTO

As reformas empreendidas por Augusto (título recebido por Otávio e pelo qual ele passou a ser conhecido) possibilitaram a unidade política do império. Ele liberou os camponeses da obrigação do serviço militar e profissionalizou totalmente o exército; distribuiu lotes de terras aos soldados desmobilizados; estabilizou as fronteiras do império e alterou o sistema fiscal das províncias, nomeando funcionários rigidamente fiscalizados, pagos pelo Estado para controlar a arrecadação de impostos; incentivou a criação de um sistema de comunicação entre as províncias e ao mesmo tempo realizou nelas muitas obras de urbanização.


Sob o ponto de vista político, Augusto manteve a ilusão da república, pois formalmente as instituições republicanas continuaram em funcionamento. O poder, anteriormente exercido pelo senado, passou a ser centralizado pelo imperador, que abriu as funções senatoriais e outras magistraturas para membros de famílias italianas das províncias, equilibrando as tensões entre a aristocracia romana e as elites provinciais.
 

A nobreza senatorial manteve seus privilégios. Os cavaleiros, apesar de perderem o controle da arrecadação de impostos, continuaram a ser a segunda classe da sociedade romana.
 

O império foi dividido em províncias senatoriais, sob a administração do senado, e províncias imperiais, fronteiriças, ainda não pacificadas, subordinadas ao imperador, e onde ficavam aquarteladas as tropas romanas. Em Roma foi criada a guarda pretoriana para proteger o imperador e evitar tumultos.
 

Houve, a partir do governo de Augusto, um período de prosperidade no império romano, ficando os dois primeiros séculos da fase imperial conhecidos como o período da pax romana.
 


O IMPÉRIO DEPOIS DE AUGUSTO

O oposicionismo da classe senatorial às reformas implantadas poucas vezes pôde se revelar de forma efetiva na ação política cotidiana, mas se revelou, de forma magistral, na teoria política desenvolvida pelos teóricos da aristocracia. Perry Anderson evidencia o significado dessa teoria política ao afirmar que "Atenas, que conhecera a mais livre democracia do mundo antigo, não produziu teóricos importantes, defensores desta, enquanto Roma, paradoxal mas logicamente, que nunca conhecera senão uma oligarquia estreita e oprimente, deu à luz as mais eloqüentes odes à liberdade da Antigüidade". O conceito de liberdade pôde atingir o mais alto grau de pureza e profundidade porque era tão restrita a camada que controlava o poder que seu conceito de liberdade estava voltado para seus próprios membros e não para o conjunto dos cidadãos romanos.
 

O poder exercido pelos sucessores de Augusto teve um caráter mais pessoal e corrupto, mas em Roma a administração pública nunca esteve à mercê dos caprichos do governante, como nas monarquias orientais, sendo sustentada, pelo menos aparentemente, por um sistema de leis civis. Os imperadores transformavam sua vontade em lei, mas através de editos, sentenças e decretos.
 

A aristocracia provincial foi incorporada de tal forma à aristocracia romana que várias famílias italianas formaram dinastias que se sucederam às famílias patrícias de Roma, como, por exemplo, a dinastia flaviana.
 

Na dinastia antonina, que se seguiu à flaviana, houve um período de despotismo esclarecido. O crescimento econômico foi acompanhado de expressivo florescimento cultural. Surgiram inúmeras manufaturas por todo o império, e o comércio foi intensificado. Em 212, a cidadania romana foi estendida a todos os habitantes livres. A principal atividade econômica continuou sendo a agricultura, então praticada essencialmente pelos escravos, embora os pequenos proprietários nunca tivessem desaparecido do mundo romano.
 

Subjacente a essa "prosperidade", havia uma contradição e um limite que começariam a ganhar força nos dois primeiros séculos da nossa era, para assumir o caráter de barreira intransponível nos séculos III e IV. O crescimento expressivo da mão-de-obra escrava dependia das conquistas e, após a estabilização das fronteiras, com o domínio de praticamente todo o mundo mediterrâneo, essas fontes se esgotaram, reduzindo-se a produtividade significativamente. O preço do escravo aumentou e, consequentemente, os custos de produção no sistema escravista se elevaram. A reprodução escrava atingiu níveis tão baixos que os senhores passaram a incentivar, com prêmios, as escravas que tivessem filhos. Essa baixa taxa de natalidade pode ser explicada pelas próprias condições de vida, que inibiam a reprodução, e pelo desequilíbrio entre os sexos e a quase inexistência de casamentos.
 

As cidades não conseguiram se tornar auto-suficientes e, apesar de toda a urbanização ocorrida e de seu significado para a vida política, continuavam a ser uma extensão do mundo rural.
 


DECADÊNCIA DO IMPÉRIO: O BAIXO IMPÉRIO

Nos séculos III e IV, o trabalho dos escravos começou a se tornar antieconômico. Como a maior parte dos produtos consumidos em Roma era importada das províncias, começaram a escassear os metais preciosos. O comércio sofreu uma retração.


Nessas condições, manter escravos era um luxo para os grandes proprietários romanos, que começaram a dividir suas propriedades em pequenos lotes e arrendá-las a pequenos produtores, dependentes dos proprietários - os colonos.
 

Os senhores de escravos também transformavam parte de seus escravos em colonos. Os arrendamentos eram pagos em dinheiro ou em espécie, e os impostos, em ascensão para manter os gastos com a máquina estatal, numa fase em que as conquistas haviam cessado, consumiam boa parte do excedente produzido, piorando a situação dos arrendatários, que, endividados, não podiam abandonar a terra. Assim, passou-se progressivamente da escravidão ao colonato.
 

A instabilidade econômica foi acompanhada de uma instabilidade política, com revoltas camponesas, internamente, e ataques e invasões estrangeiras, ao longo de suas fronteiras.
 

A crise interna e os ataques externos desorganizaram ainda mais a produção. O sistema fiscal se desintegrou com a desvalorização da moeda, e o pagamento em dinheiro foi substituído progressivamente pelo pagamento em espécie. Em todo o império houve uma tendência à ruralização, com os domínios rurais tornando-se praticamente auto-suficientes. As revoltas dos colonos e dos escravos, aliadas às invasões bárbaras, enfraqueceram o império.
 

No início do século III, sucessivos imperadores tentaram reforçar sua autoridade e reestruturar o Estado romano. As concepções políticas orientais foram incorporadas às instituições romanas. A figura do imperador passou a ser divinizada, e o império, além de despótico, tornou-se teocrático. Os senadores deixaram de ter qualquer função política, e os burocratas, dirigidos pelo imperador, assumiam cada vez mais a direção do Estado romano.
 

No período de Diocleciano, os exércitos imperiais foram aumentados e o número de legiões foi dobrado, visando a proteção das fronteiras e o policiamento interno.
 

Diocleciano, percebendo a dificuldade para manter a unidade do império, dividiu-o em duas partes e transferiu o controle da região ocidental para Maximiano, homem de sua confiança. A partir daí, o império passou a ter dois Augustos, cada qual com exército, administração e capital próprios. Esse sistema ficou conhecido como diarquia. Posteriormente, o império foi dividido em quatro regiões administrativas, sendo nomeados dois auxiliares dos Augustos - os Césares. Esse novo sistema, criado por Deocleciano, recebeu o nome de tetrarquia.
 

Um grande número de bárbaros (povos estrangeiros) passou a ser admitido no exército, e os altos postos militares foram confiados aos homens da cavalaria, perdendo a classe senatorial sua importância política, deslocada para o oficialato profissional do exército, que também passou a exercer o governo das províncias. Muitos bárbaros, particularmente germanos, passaram a compor essa nova aristocracia.
 

Paradoxalmente, a reforma de Diocleciano, continuada por seus sucessores, ao mesmo tempo em que garantiu a estabilidade do império por mais dois séculos, acentuou ainda mais a crise estrutural do Estado romano pois, ao aumentar a máquina administrativa e defensiva do Estado, que necessitava de recursos imensos, aumentava, consequentemente, a espoliação sobre seus súditos.
 

Uma das maneiras encontradas pelas massas populares para fugir do pagamento de impostos e dos trabalhos forçados foi a mudança de domicílio e ocupação. A generalização desse processo levou o Estado a obrigar os trabalhadores a não deixarem suas terras ou as terras arrendadas, transformando-os em servos do Estado.
 

Após a abdicação de Diocleciano, iniciou-se uma guerra entre os Augustos e os Césares por ele nomeados. O vencedor foi Constantino, que tornou o trono hereditário, tendo como suporte de sua dinastia a religião e o exército.
 

Compreendendo a necessidade da sanção religiosa para um governo de caráter despótico, Constantino procurou criar uma base de apoio de caráter religioso. A religião mais popular entre seus soldados era o cristianismo, que até então fora perseguido pelas autoridades imperiais. Por isso, no ano de 313, com o Edito de Milão, deu liberdade de culto aos cristãos.
 


EVOLUÇÃO DO CRISTIANISMO NO IMPÉRIO ROMANO

O cristianismo surgiu no século I, durante o governo de Augusto, período em que o império romano foi invadido por concepções religiosas místicas provenientes do Oriente. Uma dessas religiões, o cristianismo, surgido na Galiléia, difundiu-se como religião das camadas populares, graças ao trabalho do apóstolo Paulo, seu brilhante organizador.
 

Durante o governo de Nero teve início a perseguição aos cristãos, provavelmente porque eles se recusavam a adorar os deuses romanos (sustentáculo ideológico da sociedade e do Estado romano), não queriam prestar serviços no exército, negavam a divindade do imperador e pregavam a igualdade, que era uma concepção revolucionária na época.
 

A partir do século III, com a intensificação da crise econômica social romana, também elementos da aristocracia aderiram ao cristianismo. Nesse período, as comunidades cristãs enriqueceram e começaram a eleger elementos para administrar seus bens: bispos, diáconos etc. Da união das várias comunidades cristãs surgiu a igreja cristã.
 

Diocleciano, com a política de fortalecimento do poder imperial, organizou a última perseguição aos cristãos. Constantino deu liberdade de culto aos cristãos, transformando a igreja cristã num dos sustentáculos do seu poder. Em 380, Teodósio I, outro imperador romano, transformou o cristianismo em religião oficial do Estado romano.
 


FIM DO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

Com a morte de Teodósio I, em 395, o império romano foi dividido entre seus dois filhos: Arcádio, que ficou com o Oriente, com capital em Constantinopla, e Honório, que ficou com o Ocidente, com capital em Milão. A partir daí, a separação entre Ocidente e Oriente foi se acentuando cada vez mais.
 

O último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augústulo, tinha sua autoridade restrita praticamente à cidade de Roma. Os hérulos, membros do exército romano, depuseram-no em 476, colocando no poder seu chefe Odoacro, que intitulou-se rei da Itália. Acabava, assim, a autoridade já desaparecida, na prática, do império romano do Ocidente.
 

Vítima das contradições internas e do esgotamento do modo de produção escravista, o império, já doente e agonizante desde o século III, terá nas invasões bárbaras do século V apenas um fator de precipitação da sua morte, mas não sua causa.

(o grosso deste texto foi fornecido por fabricio pinheiro)

SAIBA MAIS

1    saiba mais sobre arte greco romana no site história da história
2    os romanos nos legaram o alfabeto em estado aprimorado. de lá para cá, nestes dois mil anos não houveram alteracoes relevantes na forma das letras maíusculas. voce poderia ler um texto romano num onibus lotado, em pé. as minúsculas, ao contrário, embora oriundas do alfabeto maiusculo romano sofreram diversas alteracoes nestes dois milenios (para saber mais, leia O LIVRO, de Douglas MacMurtrie. logo abaixo estamos disponibilizando uma série de fontes true type para download gratuito inspiradas em escritas históricas romanas clássicas, incluindo TIMES NEW VESPASIAN, fonte criada pelo designer Paulo W, pela Intellecta Design.

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LEVAR PARA A PAGINA DE CIENCIA EM CONSTRUCAO

Humboldt

Por Latino Coelho

O nome de Humboldt é um século. É este nome a própria história da ciência, durante todo o tempo em que o sábio prussiano serviu com a fatigável actividade do seu espírito privilegiado a quase toda a ciência humana. Busca-se em vão nos modernos anais do entendimento um homem que deixasse padrões mais eloquentes da sua glória em tantas e tão distantes províncias do saber.

O século XVIII, o século tantas vezes caluniado pelos que dele receberam o facho com que ainda dissipar as trevas derradeiras, o século XVIII, de que todos nós mais ou menos descendemos pela nossa genealogia intelectual, não só foi um grande século pelos espíritos que iluminou e pelos nomes gloriosos de que enriqueceu a história da humanidade. Foi também fecundo nos génios que gerou ainda no seu seio, para que na puerícia vissem os últimos lampejos daquela quadra memorável, e ao espírito de dúvida e investigação, que a inspirou, ajuntassem a madura reflexão, que caracteriza a nossa idade.

O século XVIII viu morrer os grandes pensadores, a que a posteridade pleiteia de vários modos a virtude, a generosidade, a independência, a sinceridade, a fé, e a moral; mas a quem entre a apoteose dos parciais e a excomunhão dos adversários, é unânime em conceder a glória. Parece que o século se não queria despedir sem haver assegurado a sua prole intelectual. Quando muitos dos grandes nomes daquele tempo recebiam no túmulo a consagração da história, os louros dos que acabavam de expirar enramavam e enfloravam já o berço, onde o carinho materno embalava as novas glórias da humanidade.

Quase ao mesmo tempo surgem Napoleão, Byron, Chateaubriand, Humboldt, Laplace e Cuvier; a vitória, a dúvida, a fé e a ciência. Os novos rebentos da árvore da civilização vencem em vigor e em formosura aqueles, que nas mesmas vergônteas se mirraram. Napoleão dá ao génio de Frederico a fortuna da sua estrela e os brios cavaleirosos da Franga antiga retemperados pela força juvenil da revolução; Byron dá à ironia de Voltaire a melancolia e o encanto da musa do norte; Chateaubriand ressuscita e poetiza a piedade eloquente de Bossuet; . Laplace continua Newton; Cuvier escurece a memória de Buffon; e Humboldt transpõe o século XVIII, floresce, brilha, irradia, deslumbra durante mais de meio século ainda, porque era destinado a resumir e epilogar a ciência de todos, porque era destinado a cerrar o cortejo destes nomes ilustres, a coligir os tesouros do saber humano, e a entregar as chaves à época nova que se abre em nossos dias para a ciência e para a humanidade. Não foi acaso que por tantos anos se dilatasse esta vida, enobrecida por tamanhas peregrinações, por tão indefessos estudos, por tão ininterruptas observações, por tantos respeitos, tantos triunfos, tantas glórias. Desde a infância o incitou o desejo imoderado de lustrar as mais apartadas  regiões. Vede-o no berço. Foi sábio? Cuidais que haveis de inferir que foi pobre e humilde sob o tecto da família? Foi grande perante as vaidades humanas? Pensais que o deveu únicamente à munificência dos que lhe galardoaram o talento? Tão acostumados estamos a ver que a pobreza entristece o natal dos grandes génios, e que não é de ordinário a glória senão o resplendor que irradia de uma cruz. Humboldt teve também por cúmplice a fortuna. Como que andou a Providência aparelhando .todos os meios, para que tão singular e primoroso entendimento não tivesse uma sombra para o enturvar, uma dor para o enoitecer, uma penúria para o desanimar, uma só ingratidão para o ferir. Nasceu nobre e opulento. Nobre, para que sem subir estivesse à altura das protecções. Opulento, para que a humilharão de estender a mão aos protectores lhe não entibiasse desde a infância este natural e moderado orgulho, com que o génio mantém intemeratos os foros da sua realeza. A quantos visitaria no castelo patrimonial, entre as soberbas da sua condição, o desejo de comprar a glória pelo talento e pelo estudo? Pois a Humboldt não o encantaram na puerícia os esplendores da corte, as delícias da vida aristocrática, os sonhos do poder, as fantasias da ambição, os nadas deslumbrantes com que a fortuna enfeita as personagens da sua tragicomédia. Quereis saber qual era a sua predilecta ambição no quieto remanso do seu castelo de Tegel? Sabeis por que ansiava tanto deixar os afagos maternos, as afeições domésticas, as perspectivas risonhas da corte, o patrocínio dos Mecenas, e as promessas, com que a fortuna lhe encarecia as grandezas mundanas e vulgares? Era para discorrer viajante pela terra e pelo oceano. Julgais que por vagar na ociosidade elegante das grandes capitais? Por entrar na frequência do mundo, por luzir na sociedade os dotes do seu engenho? Não. Sorriamlhe as terras mais remotas, mais virgens, mais inóspitas, com tanto que a natureza aí fosse esplêndida, original, opulenta, admirável. Quatro homens buscaram as terras do Novo Mundo por instrumento da sua glória: Colombo, Chateaubriand, Tocqueville e Humboldt. Colombo para ter glória de aportar aonde ninguém jamais lançara ferro; Chateaubriand para amaldiçoar a guilhotina desde fundo das florestas, onde a natureza é ciosa da sua virgindade; Tocqueville para assistir ao regrado crescimento da nascente democracia. Humboldt buscou-a para completar o navegador, e para ir além do escritor e do publicista. Colombo descobriu a América, Humboldt estudou-a; cantou-a Chateaubriand, e Humboldt conheceu-a; louvou-a Tocqueville, e Humboldt fez mais que todos,; quase de novo para a ciência a descobriu. E quanto maior não foi a fortuna de Humboldt! Colombo viu apenas as praias patentes e abertas ao primeiro mareante afortunado. As selvas primitivas de Chateaubriand, aradas pelo carril de ferro, pululam hoje, de cidades e de indústrias) A democracia de Tocqueville macula com a servidão e com a luta das raças antagonistas o idílio democrático do cândido escritor! Só a América de Humboldt é sempre a mesma. Sempre indisputadas as conquistas do sábio nas regiões que ele primeiro que todos esclareceu com a luz.do seu talento indagador.

Poucos homens cursaram mais terras, sulcaram mais oceano do que

Humboldt. Raros alongam mais do que ele a vida neste mundo. Não vos

parece que a Providência lhe alargou o espaço às observações, o tempo aos

pensamentos com algum intento singular Newton viveu por anos dilatados. A

Fontenelle e Voltaire, a derradeira pulsação da vida se lhes confundiu com a

extrema centelha do espírito, ainda fecundo e criador, como nos dias da sua

primavera intelectual.

Mas Newton adivinhou no mesmo ponto do firmamento a lei suprema do

universo. Voltaire e Fontenelle conheceram sempre o mesmo azul dos céus, a

mesma cor das ondas, o mesmo recorte da folhagem, o perfume das mesmas

flores, a copa dos mesmos arvoredos, a crista das mesmas serranias.

Humboldt viveu muito, porque era grande a província que lhe cabia na ciência.

Viajou muito, porque tinha por missão compreender a natureza na sua infinita

variedade, e como que restaurar o molde perdido do universo, a unidade do

grande Todo universal, na mais ela e mais celebrada das suas numerosas

composições, o Cosmos.

É do tempo e do espaço que se compõe o mundo. E como quereis vós que o

pintor se desempenhasse do grande painel, da fidelíssima cópia do universo,

se lhe não acudira a Providência com mão larga, em lhe conceder liberalmente

aquelas duas tintas fundamentais?

Eis aí o segredo com que Humboldt abusou quase do espaço e da duração. Eis

aí por que ele foi por excelência o sábio cosmopolita, aquele que, se tinha a

velha e boa Alemanha por pátria tradicional, havia o globo inteiro por pátria de

adopção. Eis aí por que o haveis de ver já nonagenário quase, na quadra em

que o corpo se inclina para a terra, prosseguir com a energia de um

adolescente os estudos ainda havia pouco delineados.

Quem pronuncia o nome de Humboldt profere logo involuntariamente Cosmos.

É o Cosmos, por assim dizer,

a Bíblia do universo físico, é a mais completa descrição das suas harmonias,

das suas leis, da sua mística unidade. O grande movimento intelectual da

moderna idade se, repartindo as ciências, e atribuindo a cada investigador uma

província distinta do saber, facilitou os descobrimentos, como que esteve

mutilando as feições da natureza e deslustrando na sua fisionomia a

expressão, com que a assinalou o Criador. Nasceu a ciência una e

harmónica, se bem que errada e imperfeita, na cabeça dos grandes

pensadores da antiguidade. No eclipse em que as ciências se escureceram

depois que a sua herança caiu no domínio dos bárbaros, a filosofia natural

perpetuou-se apenas como uma tradição de autoridade. Com o século XVI,

com a nova alvorada da razão, invocou-se de novo o universo como o primeiro

e essencial fundamento do estudo da natureza. Descartes e Bacon venceram

Aristóteles, venerado até ali como o supremo oráculo. Mas a análise exagerou

com a sua influência a divisão indefinida do saber. A natureza, à semelhança

de uma bela estátua, foi como que partilhada entre os seus cultores, que lhe

truncaram aqui e ali as proporções e lhe deixaram perder, perante Deus e a

ciência, a unidade.

Esta admirável ciência moderna, digamos antes esta ciência que no

nosso século em muita parte germinou, cresceu, floriu, frutificou, e ensombrou

com a sua ramada, alastrando ràpidamente, o terreno em que nasceu, devia

achar um talento privilegiado que a ,soubesse com pendiar, resumir, encadear,

e da palheta riquíssima de todos os matizes, opulenta de todas as tintas

naturais, tirasse as cores para debuxar num quadro verdadeiro 0 aspecto

multiforme do universo, iluminado pelo radiante esplendor da unidade e da

harmonia.

O pintor foi Humboldt. O painel é o Cosmos. A antiguidade não sonhou sequer

uma obra assim. A idade moderna não a pudera antes de Humboldt conseguir.

É este livro o resumo eloquente do que sobre o universo se sabia até o meado

do século actual. É ao mesmo tempo uma cópia da natureza, e um tesouro do

saber. Quando os vindouros daqui a muitos séculos quiserem ter a medida do

que foi para a ciência a idade em que vivemos, hão de abrir o livro de

Humboldt, e como nós agora com as obras de Aristóteles recompomos idealmente

o génio científico mais completo da antiguidade grega, assim eles

poderão reconstruir a ciência do século actual interrogando as páginas, tantas

vezes eloquentes, animadas, quase inspiradas de estro, com que o ilustre

prussiano traçou as harmonias da criação, e registrou os êxtases em que o

enlevava a pitoresca religião da natureza.


HISTORIADORES

herodoto

tucidides

flavio josefo

gibbon

saint-hilaire

spix

von martius



LEVAR PARA HISTORIA

ESSENTIAL "mythology one" INFORMATION

a - pallas with aegis. aegis - a shield, or defensive armor,
originally applied to the shield given by jupiter to minerva.
pallas - the grecian goddess of wisdom, identified, at a
later period, with the roman goddess minerva
b - pallas with aegis
c - anubis, an egyptian deity, the conductor of departed spirits,
and represented by a human figure with the head
of a dog or fox
d - anubis
e - apollo, a deity among the greeks and romans, and worshipped
under the various names of pean, nemius, helius, pythius,
phoebus, etc. he was the presiding deity of archery,
prophecy, music, and medicine, and president and protector
of the muses
f - apollo
g - atlas, a titan who for his part in the titan's revolt
against the gods is forced by zeus to support the heavens
on his shoulders
h - atlas
i - calliope, (from the greek, meaning "having a beautiful voice"),
the muse that presides over eloquence and heroic poetry;
she was the mother of orpheus, and chief of the nine muses
j - calliope
k - centaur, (originally meaning "a herdsman," afterward "a herdsman
who fought on horseback"), a fabulous mythological being,
supposed to be half man and half horse
l - centaur
m - ceres, the daughter of saturn and ops,
the goddess of corn and tillage
n - ceres
o - clio, (from the greek meaning "the proclaimer"),
the muse who presided over history
p - clio
q - cupid, (from the latin for "desire," or "desire of love"),
the roman god of love, the greek eros
r - cupid
s - dagon, the national god of the philistines, represented with
face and hands of a man, and the tail of a fish; the fish-god
"this day a solemn feast the people hold,
to dagon, their sea-idol."
-milton
t - dagon
u - diana, the daughter of jupiter and latona; a virgin goddess
who presided over hunting, chastity and marriage
v - diana
w - erato, (from the greek meaning "to love"), one of the muses,
who presided over lyric, and especially amatory, poetry.
she is represented as crowned with roses and myrtles,
and holding a lyre in her hand
x - erato
y - dragon, a fabulous animal, generally represented as a monstrous
winged serpent or lizard, with a crested head and enormous
claws, and regarded as very powerful and ferocious.
"the dragons which appear in early paintings and sculptures
are invariably representations of a winged crocodile."
-fairholt
 


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