literatura livro e escrita

(LEIA MAIS E CLIQUE MENOS, ou, DEIXE SEU MOUSE DESCANSAR)


 


A literatura é o fruto mais nobre da maior conquista humana (depois da fala, certamente): a escrita. neste espaco vou dispor tudo o que for aparecendo sobre os assuntos envolvidos a literatura. mas eu gostaria de montar um painel que nao visasse apenas a literatura, mas tambem a escrita e suas outras fenomenologias. a escrita está, entao, acima da literatura. assim, escritor é aquele que escreve, como disse o Jayme Cortesao, falando de Caminha.

mas como tudo deve ter um comeco, será atraves de minhas predilecoes sobre certos generos e autores, as obras disponiveis em pdfs para download, biografias, etc. e principalmente, se houver colaboradores para tal, digressoes teoricas sobre a escrita, o livro e a literatura. Sobre a "escrita", propriamente dita, o site da Intellecta Design está montando um painel vasto sobre o assunto. Sobre o livro podemos citar duas obras imprescindiveis, O Livro, de Douglas MacMurtrie e Elementos de Bibliologia, de Antonio Houaiss. Sobre Elementos de Bibliologia, obra que não é de dominio publico, publicaremos apenas alguns excertos dentro das normas legais de publicacao por amostragem, no site da Intellecta, em Janeiro/Fevereiro de 2006

LITERATURA: DA IDEIA PARA O ATO

A literatura tem o dom de arquivar conhecimentos numa sistematica poetica que anula os efeitos enfadonhos de outras formas de escrita. a literatura tem o dom do convencimento (nao importando a mensagem) e portanto é motora do mundo, em diversos niveis. talvez a prova maior dessa capacidade de influenciar o pensamento e a acao seja a importancia que é dada por bilhoes de pessoas ao Alcorão (a ponto de servir de politica de estado para diversos paises nao laicos). da mesma forma a Biblia parece estar sendo revivida como fonte de dogma que vira conduta e acao a julgarmos pelas evidencias, no Brasil, por exemplo, do crescimento das igrejas evangelicas. ressalto tambem os casos recentes de influencia deste livro (a Biblia) junto a decisoes juridicas e legislativas nas questoes envolvendo estudo com celulas tronco embrionárias, ou nao. questao esta ainda longe de ser resolvida, quando o proprio presidente dos EUA, Bush, torna-se porta voz de peso (ainda que nao catolico) desta forma de ver o mundo...


ESCRITORES A HONRAR

LIVROS QUE NAO LI

LIVROS QUE SEI LÁ

PROSA, PROTO-ENSAIOS

COMENTARIOS DE OUTREM


ALGUNS ESCRITORES QUE LI E QUE GOSTARIA DE HONRAR NO SITE (as besteiras sinceras que comento sao fruto de admiracao)

"Caminha é escrivao, o que quer dizer, em certa medida, escritor..."

Jayme Cortesao

...

"Trabalho em cartório, mas sou escritor. perdi a pena nem sei qual foi aquele mes..."

Raul Seixas

 


PIER PAOLO PASOLINI

LUTA CONTRA O CONSUMISMO
por Rubens Shirassu Júnior *

Pier Paolo Pasolini permanece um enigma para os jovens a quem esses artigos e ensaios de Os Jovens Infelizes (org. Michel Lahud, trad. Michel Lahud e Maria Betânia Amoroso, Editora Brasiliense, 251 pags., 1990) supostamente se dirigem. A primeira parte do livro é dedicada à dissecação de modelos culturais, artigos em que Pasolini atua como analista da novíssima desordem cultural, econômica e política. Na segunda parte, ele fala de comportamento sexual, para finalmente chegar a uma entrevista chocante concedida ao jornalista Furio Colombo, do jornal Tuttolibri, poucas horas antes da sua morte, em 2 de novembro de 1975. Nessa entrevista, Estamos Todos em Perigo (título sugerido por Pasolini), o poeta e cineasta faz a sua verdadeira crônica da morte anunciada, revelando que corria o risco de um linchamento físico, após ser moralmente assassinado pela sociedade italiana. Horas depois, seria morto por um de seus ragazzi di vita, um marginal de nome Pelosi.
 

Um dos primeiros textos do livro, O Discurso dos Cabelos, originalmente publicado no Corriere della Sera em 1973, fala de "seres monstruosos" que Pasolini viu no Irã, seres parecidos com seu suposto assassino Pelosi, proletários que se pretendiam filhos de burgueses pródigos. Essa falsa imagem, mais do que um equívoco, exprime o espírito de uma abominável mutação, que não é genética, mas histórica. Essa atitude isolacionista dos jovens iranianos, rejeitando seus pares, é condenada por Pasolini mesmo antes do advento do "cromatismo" tribal americano (vide a guerra das cores em Colors, de Dennis Hopper). A contrapartida "reacionária" fica por conta da redução dos "cabeludos" a estereótipos de debilóides a proferir discursos dislógicos, quando Pasolini conhecia o perigo da generalização (um exemplo disso é que Julian Beck, diretor do Living Theater, que fez o cego Tirésias em Édipo Rei, estava longe de ser um imbecil.)

A defesa apaixonada de um mundo pré-moral, bárbaro (no sentido religioso), é na verdade, a mensagem subliminar de quase todos os artigos de Os Jovens Infelizes. Ao analisar uma campanha publicitária do jeans Jesus ("Não terás outro jeans além de mim"), Pasolini acusa os industriais de representarem o "novo poder laico" que coloca por terra qualquer possibilidade de sobrevivência do humanismo. Há uma religiosidade na poesia dialetal que seu companheiro Cesare Zevattini não percebe em seu livro "Stricarmín d´na Parola" (Restringir-me a uma Palavra), embora Pasolini seja generoso com ele, poupando o escritor e roteirista de críticas mais duras do que uma simples fobia homossexual.

A generosidade se transforma em conselho ao escritor Ítalo Calvino, que condenava em Pasolini sua nostalgia do mundo agrário. Calvino escreveu que não conhecia os jovens fascistas aos quais o cineasta se referia em suas críticas, a quem nem pretendia conhecer. A resposta de Pasolini é brilhante. Esses jovens fascistas, segundo ele, não nasceram para ser fascistas. "Talvez uma simples experiência diversa na sua vida, apenas um simples encontro, tivesse bastado para que seu destino fosse outro". A cultura, diz, "produz certos códigos, que produzem certo comportamento". É na linguagem que deriva desse comportamento que está a ponte ou o precipício para os jovens infelizes.

Para conhecer mais de Rubens Shirassu visite o site VerdesTrigos


Voltaire

Dicionario Filosofico

ABRAO

ALMA

AMIZADE

AMOR

AMOR PROPRIO


Conan Doyle

Pero Vaz de Caminha (inserir a carta...)

Oscar Wilde (de profundis, O Retrato de Dorian Gray, o Fantasma de Canterbury)

Julio Verne (Viagem ao Centro da Terra, 20000 Leguas Submarinas, Cinco Semanas num Balao, a volta ao mundo em 80 dias...) ja tive a colecao completa do autor. numa das muitas burradas que ja dei na vida, deixei-a no Espirito Santo, hoje irrecuperavel...

Kurt Vonegutt , revolucao no futuro

Philip K Dick , cuja obra gerou um dos maiores filmes de todos os tempos (talvez nao para os puristas amantes de cinema-arte) Blade Runner

Marguerite Yourcenar, Memorias de Adriano

Wittgenstein

Marguerite Duras, a rainha estrangulada. muito bom, este. fiz certa vez um poema para o personagem Guccio (um banqueiro sabe se cuidar... eu diza) mas perdi, off course..

Kant (ate hoje confesso nao ter conseguido entender a primeira pagina de critica da razao pura) mas mesmo assim é bom...

Schopenhauer

Caio Prado Junior, obra prima: O QUE é FILOSOFIA, que disponibilizarei em breve aqui no site, em pdf e html

Padre Sepp, sj

Anchieta, sj

Saint Hillaire

Visconde de Taunay, A Retirada da Laguna, tenho em digital

Guy de Maupassant (o Horla)

Eca de Queiroz, O Crime do Padre Amaro, A Reliquia esta na minha lista de futuras leituras

George Orwell (1984 + a revolucao dos bichos)

Aldous Huxley (Admiravel Mundo Novo)

Jose de Alencar (O Gaucho)

Erico Verissimo, um certo capitao rodrigo

Amundsen (este eu nao li, assim como Leakey e Darwin, preciso ler...)

Darwin

Cabeza de Vaca

Poe (quem dizia que Clapton era Deus, estava enganado...)

Rudyard Kipling , Kim

H P Lovecraft (ver na secao de links)

Lobsang Rampa (é verdade!...)

Erik von Daniken (cujas ideias, descobri depois, foram certamente roubadas de Lovecraft...)

Gandhi (Minha Vida e Minhas Experiencias com a Verdade, um calhamaco com 700 paginas e 7000 notas de rodapé, se bem me lembro. Jamais terminei a leitura, mas uma visao de Gandhi nunca se me dissociou: a de que o advogado deve ser mais que o porta voz da lei a ponte entre as partes... vou perguntar ao Soares Feitosa se ele partilha desta visao...)

A Volta do Parafuso (magnifico, me escapa agora o autor, nao seria Henry Miller???) socorram-me

Daniel Defoe (falta reler agora adulto, o Robinson Crusoe) (Contos de Fantasmas)

Jorge Luis Borges (pouco, preciso ler mais). LEIA NESTA PAGINA A ESCRITA DO DEUS

Julio Cortazar (bestiario, os premios, soberbo)

Umberto Eco (meu idalo)

Pinheiro Machado??? (o gaucho, pela L&PM, livro que ja perdi trez vezes emprestando)

Agatha Christie (embora enfadonha nos dialogos...), O Assassinato de Roger Ackroyd, O Natal de Poirot, O Casod dos dez Negrinhos

Stevenson (como disse Borges, o Morgado de Ballantrae nao é um livro, é a literatura...), A Ilha do Tesouro, Jeckyl e Hide,

Ambrose Bierce, The Thing

Arthur Clarcke , Vento Solar

Ray Bradbury, cronicas marcianas, ressalva: conheco sua obra via cinema e quadrinhos, atraves das edicoes brasileiras de historias quadrinizadas nas revistas americanas da epoca classica da Weird Stories e afins...o unico que li,soberbo, foi fahreinheit 451

Isaac Asimov , eu robo...TENHO O LIVRO EM VERSAO DIGITAL


Stephen King (obra desigual)(a hora do vampiro e pet sematary, contudo, sao muito boas, tambem em especial alguns trechos de it e... Mas seus primeiros contos sao extremamente ruins. Vejo um deles logo abaixo

O Estranho
(The Stranger)
De Stephen King
Publicado originalmente em People, Places & Things de 1960

Kelso Black estava rindo. Riu até que a mandíbula começou a doer-lhe e a garrafa de whisky barato que segurava entre as mãos caiu sobre o solo. Polícias idiotas! Tinha sido tão fácil. E agora tinha cinqüenta notas das grandes em seus bolsos. Se o guarda tinha morrido, era por única e tão somente sua própria culpa! Já que ele tinha se atravessado no meio do seu caminho. Rindo, Kelso Black levou novamente a garrafa aos lábios. Foi quando ele escutou algumas pisadas na escada que levava ao sótão onde ele havia se escondido. Pegou sua pistola. A porta se abriu. O estranho vestia uma jaqueta negra e um chapéu inclinado sobre os olhos.
— Oi, olá! — disse — Kelso, venho lhe observado. Você me agradou muito, sabia? — O estranho riu e lhe produziu um calafrio de horror.
— Quem é você?
O homem riu de novo. — Você me conhece. Eu te conheço. Fizemos um pacto a mais ou menos uma hora atrás, no momento em que disparaste no guarda.
— Largue-me! — a voz de Black se elevou estridentemente — Largue-me! Largue-me!
— Chegou a hora de você vir comigo, Kelso — Lhe disse o estranho com suavidade — Além do mais, temos um longo caminho para percorrer.
O estranho tirou a jaqueta e o chapéu. Kelso Black contemplou aquele Rosto. Gritou. Kelso Black gritou e gritou e gritou. Mas o estranho apenas riu, e num instante, o quarto estava silencioso. E vazio. Somente havia um cheiro fortíssimo de enxofre.


Clive Barker , jack e o yatering, imperdivel, NAS COLINAS AS CIDADES, aqui ele se superou

Nathaniel Hawthorne (fauno de marmore, casa das sete torres)

Machado de Assis (o Edgar Allan Poe brasileiro)

Mary Shelley

Ellie Wiesel, Holocausto

Leon Uris, QBVII (é dele mesmo???, aqui comecou a minha curiosidade sobre temas nazistas, ampliada assistindo os filmes O Ovo da Serpente e Os Meninos do Brasil, e em diametro oposto, a televisivia e hilaria serie Guerra Sombra e Agua Fresca...

Bram Stoker , Dracula

Leon Uris OS DESPOSSUIDOS, é dele mesmo???

Jo Soares (por causa do Xango, nao obstante ter ridicularizado um pouco Holmes), O Homem que Matou Getulio Vargas

Tomas Moore (Utopia)

Nietzsche, assim falava zaratrustra, ecce homo, genealogia da moral

Marion Zimmer Bradley (a feiosa de brumas de Avalon, agora ja nao tenho o mesmo interesse pela saga)

Jose Simoes Lopes Neto, releitura de Contos Gauchescos e Lendas do Sul

Thoreau desobediencia civil, curiosidade em ler Walden

Ira Levin (meninos do brasil)(ele escreveu tambem o  bebe de rosemery)

Erasmo de Rotterdam, Elogio da Loucura

Gilberto Freyre, Pessoas, Coisas e Animais

Darcy Ribeiro (formacao do povo...)

alfarrabioo sobre a colera, seculo retrasado...

Eliphas Levy, dogma e ritual da alta magia

Stephen Jay Gould, o polegar do panda


ALGUNS AUTORES E LIVROS QUE GOSTARIA DE LER (ajudem-me a encontrar midia digital para estes)

Hernan Cortez e O Fim de Montezuma

Mein Kampf - comeco agora a le-lo

Willian Gibson (Neuromancer)

O Ramo Dourado de Fraser

J Sheridan le Fahnu (O Vampiro Karnstein e Carmilla)(inclusive dia destes perdi a oportunidade de comprar dois dvds baratissimos (9,90) no makro com versoes das obras de Fahnu em filmes provavelmente da decada de 50 ou 60 de estudios ingleses...(espelhar para cinema)


LIVROS QUE ME ESCAPAM O AUTOR AGORA (ajudem-me a fechar as lacunas)

A Noite dos Tempos (lembrar no material sobre o lago vostok o livro a noite dos tempos)ja lido, reler
 

Um cantico para Leibowitz (que me lembra muito o Nome da Rosa, no tocante ao amor dos monges ao conhecimento...este livro ;e realmenmte muito bom e embora nao o tenha mais influenciou minha visao de mundo profundamente

Contos do Vampiro (lendario indiano, saiu pela Martins Fontes) (reler). sabe-se que o mito do vampiro é comum a diversos povos, em formas variadas. estes contos do vampiro indianos o apresentam como a forma de um genio. muito bom este livro

E T A Hoffman

Horace Walpole, O Castelo de Otranto (vide serendipities...)

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeca (sleep hollow)


talk about A historia de verne sobre a troca de livros em viagem ao centro da terra



PROSA, PROTO-ENSAIOS, PSEU-ENSAIOS

ARGENTINA, por pw
Meus primeiros contatos com a cultura e o povo argentinos eram um prenuncio do assombro e do respeito que nutriria pelos mesmos, pre-adolescente no colegio jesuita, a Guerra das Malvinas, tao ali proxima, tao seriamente discutida diariamente nos jornais gauchos, dado a proximidade e mesmo a consagueneidade cultural e biologica de nossos povos ficou marcada em mim. Meu gosto pelas tecnologias militares e pela guerra propriamente dita talvez tenha nascido ali... depois, uma vez abandonado pelo meu tio-icone, Flavius, na rodoviaria de Porto Alegre (ele chegou horas atrasado - antecipando o enredo do filme esqueceram de mim) uma gaucha liberal me acolheu em sua casa naquela mesma tarde junto com seus amigos argentinos que chegavam a rodoviaria (foi nessa mesma tarde, tenho certeza, que vi pela primeira vez a capa de Classic, do Yes e dos primeiros discos do Iron Maiden, numa loja – experiencia parecida com a da capa do CODA numa loja das Americanas. e do prenuncio da capa do At the Rainbow do Focus, naquela noite na casa do advogado do karakele que brincava de divorcio com minha mae... – ENFIM, a tal gaucha – que alias meu tio tinha mais condicoes de papar do que eu, obviamente – comentava de seus argentinos que eles nunca tiravam a camisa, em hipotese alguma...

Anos se passaram e na rodoviaria – novamente – de Sombrio, eu e meus colegas nos divertiamos esperarando ver as argentinas – infinitamente mais voluptuosoas peitudas e gordinhas que as brasileiras – descerem do onibus para o café da manha antes de seguir viagem para Florianopolis, onde, sabe-se, os argentinos passam as ferias de verao...
 

Que povo era este que frequentava cemiterios, e no lugar de bares visitava bibliotecas na alta madrugada??? que povo era este que andava tao bem trajado???

Era um povo medianamente mais intelectualizado que o brasileiro - que até nossos dias ostenta bolsoes inexpugnaveis de ignorancia e pobreza nordestinos, brasilienses e diria metropolitanos em geral.

De maneira que esta admiracao pelos baixos indices de analfabetismo, por exemplo, dos argentinos, cristalizou-se em mim quando tive contato com a literatura deles. Em minha ignorancia prefiro seus livros aos nosssos – salvo Machado de Assis, mas que por tao extraordinario deve ser posto na conta das excentricidades. E entao maravilhado conheci um Cortazar e a literatura fantastica, meu cerebro preparava-se para assimilar Poe e o seu seculo... e ouvia falar de Borges e nessa mesmo epoca comprei um disco de Piazzola, já em Vitoria, voila...

Por fim, com o passar dos anos, e principalmente nestes ultimos anos, a proximidade da cultura argentina com a europeia, que cada vez mais passei a admirar em contraposicao a cultura norte-americana e do resto do mundo me aproximavam ainda mais deles

O fato de serem gauchos, por fim, fortaleceria infinitamente minha admiracao. Como ressalva fica apenas o fato de que o Maradona é um bosta, obviamente.


COMENTARIOS DE OUTREM

A ULTIMA TENTACAO DE GALAHAD

ALEM DA CRUZ E A ESPADA


COLOCAR MEU POEMA O gRAAL E UM CRANIO UM TOMO

A última tentação de Galahad,

para ler escutando Guinevere de Rick Wakeman, pw

especulações teóricas sobre o caráter sagrado do cavaleiro na Demanda do Santo Grall

É no mínimo estranho que, durante todos esses anos de um contato mais do que íntimo com o texto da Demanda do Santo Graal, esta seja a primeira vez que eu sente em frente a este computador para escrever algo à respeito. Seria de se supor, então, que esse contato me concedesse uma certa desenvoltura em relação ao tema, porém o que estou observando agora é exatamente o contrário. Quando milhares de idéias isoladas, e até certo ponto desconexas, dançam em turbilhão dentro de sua mente, é no mínimo difícil concatená-las e, mais ainda tentar sistematizá-las. Parece-me que quanto maior o domínio sobre o assunto, maior a dificuldade de síntese e sistematização.

A escolha de apenas uma das muitas passagens interessantes da Demanda do Santo Graal, me acenou com uma esperança. Talvez o universo reduzido me auxiliasse a escolher as idéias certas, as impressões mais pertinentes para serem expostas aqui. Mas por mais que eu tentasse isolar o episódio selecionado, tentasse manter o meu processo mental apartado de todo o resto do texto, concentrando-me unicamente naquele determinado trecho, a tarefa foi inútil. Minha mente vem sendo contaminada com a magia da cavalaria, em especial do Ciclo Arturiano, ao longo de vários anos, o que levou a reflexão sobre aquelas linhas a confundir-se não só com fatos e concepções pertencentes à Demanda em si, bem como a toda uma gama de conceitos expressos em outras novelas e romances de cavalaria.

Comecei a procurar por uma idéia que fosse realativamente nova, original, uma vez que considero inútil dizer o que já foi dito. Jamais dedicaria meu tempo, minha madrugada - uma vez que é só depois da meia-noite que consigo por idéias em ordem - a escrever um texto que dissesse o óbvio, que se resumisse a uma mera citação do código de honra cavaleiresca, de uma observação dos comportamentos dos cavaleiros, uma apologia de seu senso de dever e lealdade. Não. O primeiro registro escrito de uma de minhas maiores paixões não poderia se resumir a um texto medíocre, com idéias medíocres. E talvez por isso tenha relutado tanto até decidir sentar e começar a escrever. E a idéia que pretendo expor aqui nasceu em uma taça de vinho.

Uma taça de vinho. Em um primeiro momento pode parecer estranho que uma reflexão literária tenha sua gênese em uma taça de vinho. Ela poderia servir de berço a um poema romântico, talvez simbolista, lembrando Baudelaire... Mas, por incrível que pareça, o sangue de Baco foi responsável por estas especulações teóricas - ou nem tão teóricas assim. Portanto, creio que qualquer insânia escrita ao longo das próximas linhas já tenha sua pré-justificativa em sua própria origem.

A figura de Galahad, confesso, nunca me foi muito simpática. Sua perfeição sempre me causou uma certa irritação. Literariamente falando, essa perfeição se torna quase um estigma para a personagem, teoricamente tornando-a um caractere plano, sem os conflitos que imprimem o traço natural, vivo, aos outros cavaleiros da Távola Redonda.

Sendo assim, foi com uma certa surpresa que me deparei com Galahad dentro de minha taça de vinho. Mais tarde, relendo o texto, pude, finalmente, perceber o processo que levara à, aparentemente estranha, relação.

No primeiro episódio da Demanda do Santo Graal, Galahad chega à corte de Arthur envolto em uma armadura vermelho-ígnea, na minha imaginação, mais ou menos a mesma cor que ondulava dentro da taça de cristal. E encontrando a imagem do cavaleiro em vermelho, me dei conta de que eram duas: uma que boiava na superfície do líquido; outra, um tanto quando deformada e difusa, mergulhada, submersa. Pois bem, essas duas imagens me levaram à uma descoberta, à uma hipótese que, talvez, valha não somente para os cavaleiros do Graal, mas para todos os que tomaram armas nos textos da cavalaria..

A dupla imagem formada na taça fez com que eu percebesse que são duas as linhagens básicas da cavalaria medieval, dois os grandes arquétipos: o Cavaleiro de Deus e o Cavaleiro do Mundo. Não poderíamos dizer linhagens opostas, pelo menos não antagonistas, mas apenas formas diferentes de encarar a cavalaria, formas diferentes de interpretação do código cavaleiresco.

Tristão seria o ideal de Cavaleiro do Mundo. A mola mestra de suas ações é nada menos do que o amor. Não o amor fraternal, o amor pelo próximo, mas o amor-paixão, o amor cortês, puro pathos. Pensei em Lancelote. Entretanto, apesar de suas ações também serem guiadas pela paixão, ainda lhe resta a consciência do pecado, o medo do fogo infernal, não só para ele, mas também para Guenevere. Isto fica bem marcado no episódio em que o cavaleiro tem a visão da rainha nua, sentada em um trono de chamas, vítima do sofrimento eterno pela traição. Tristão não sofre senão pela ausência da amada. O amor por Isolda é mais forte do que o dever de vassalagem para com o rei, do que o laço de família com tio. Ele não hesita em tomar Isolda para si mesmo diante da dupla traição.

Pelo outro lado, empunhando o escudo com o brasão de Deus, a primeira personagem que me ocorreu foi o próprio Galahad. Puro, intocado pela mácula do louco-amor. Corpo e alma brancos como as armas que carrega. Incapaz do pecado, incapaz do erro, ainda que por um nobre motivo que o justifique. Galahad é perfeito como o próprio Cristo. Como o próprio Cristo... E esta frase deu origem à idéia que começou a me tentar...

Em um primeiro momento me pareceu algo difícil de ser provado, porém, com algum esforço, recorrendo a algumas passagens da Bíblia - livro que confesso não ter lido, apesar de conhecer algo por leituras indiretas - a idéia começou a ficar mais palpável e mais sutentável, consequentemente.

Uma comparação entre Cristo e Galahad. Mais. Galahad como símbolo do próprio Cristo no texto da Demanda. Quanto mais eu mergulhava na idéia, mais ela me fascinava. E a imagem do cavaleiro na minha taça de vinho, no sangue de Cristo, só me exortou a continuar com meu delicioso exercício de especulação.

A introdução do cavaleiro no palco dos acontecimentos do Graal coincide com a festa de Pentecostes, ocasião pela qual estão reunidos em volta da Távola Redonda todos os bons paladinos de Arthur. Pentecostes, para a religião cristã, simboliza a descida do Espírito Santo à esfera terrena. Galahad desce à Camelot, por assim dizer, em sua armadura vermelha, envolto em vermelho, como outrora o próprio Cristo desceu da cruz banhado em sangue.

Galahad é filho de Lancelote. E, estando Lancelote imerso em pecado por seus amores adúlteros com Guenevere, me parece lícito dizer que é Galahad que vem para expiar a culpa do pai ao recuperar para a cristandade a mais sacra das relíquias, o Graal. Segundo Albert Cousté, em seu Biografia do Diabo, a missão de Jesus Cristo é a de retirar o pecado do mundo, pecado este permitido, pelo menos virtualmente, pelo próprio Deus, ao expulsar Adão e Eva do Paraíso após o pecado original. Assim, tanto Jesus quando Galahad teriam a missão de redimir um pecado permitido, no primeiro caso, e cometido, no segundo, por seus pais.

Também é curioso o fato de serem em número de doze os cavaleiros do Graal. Ora, esse número é muito significativo, uma vez que eram doze os apóstolos. Assim, temos, no banquete em Camelot, uma réplica da Santa Ceia, não com o Rei assumindo a figura de Cristo, mas sim Galahad. Dessa forma, reunidos em torno da Távola Redonda, estão o Pai - Lancelote, o Filho - Galahad, e o Espírito Santo, na figura do Santo Graal que desfila perante os olhos dos cavaleiros, envolto em uma aura brilhante. A Santíssima Trindade.

Entretanto, se prestarmos atenção somente aos atos de Galahad ao longo do texto, deparar-nos-emos com um comportamento muito peculiar. O filho de Lancelot me parece ser o único dos cavaleiros do Graal, ao que me lembre, que não ostenta o orgulho secular pelas armas que carrega. Não quero dizer que a honra, no sentido em que ela se assemelha a orgulho pessoal, não faça parte da personalidade do cavaleiro, mas ele a expressa de uma forma um tanto quanto diferente. Galahad me passa uma certa impressão de humildade que não consigo reconhecer em seus demais companheiros. O status de cavaleiro no século XII poderia ser comparado ao de uma estrela de Holywood dos tempos modernos. E se os cavaleiros do Graal desfrutam desse status, sentem-se envaidecidos por estaram um degrau acima dos meros mortais, empunham seus escudos e suas insígnias com pompa e, por que não dizer, soberba, Galahad não. Durante toda a sua provação em busca do cálice sagrado, ele mantém a mesma atitude humilde, assim como Cristo o fizera, apesar de ser o filho de Deus.

Falei em provação. Ainda que todos esses fatores que citei contribuam para que encaremos Galahad como um ícone da figura de Cristo, creio que seja nesta palavra, provação, que se encontre a chave para minha hipótese.

Assim como o Novo Testamento relata inúmeras situações em que Jesus teria sido tentado pelo Demônio para que abandonasse o caminho de Deus, a Demanda do Santo Graal, pelo menos nos capítulos que dedica ao filho de Lancelot, também não deixa de ser um relato das tentações do Diabo sobre o cavaleiro Galahad. Não são poucas as vezes em que o jovem se depara com essas tentações, mas procurarei me restringir, aqui, ao trecho escolhido para análise, o episódio em que Boorz e Galahad chegam ao castelo do rei Brutos.

Creio não ser necessário dissertar sobre as concepções da sociedade medieval acerca do sexo. Sabemos muito bem como o século XII encarava as relações homem - mulher, as tratando como mais uma das tarefas de administração do reino, muito embora os poemas dos trovadores estejam repletos de amores arrebatadores e românticos, para usar um termo que ilustra muito bem aqueles versos, ainda que só fosse ser inventado uns seis séculos mais tarde.

É plenamente compreensível que as tentações, na Idade Média, se relacionem quase sempre com a mulher. Afinal, como a responsável pela introdução do Pecado no mundo, a sua figura estaria associada com o próprio Diabo até os tempos da Inquisição. E é justamente através de uma mulher que se manifesta a primeira tentação de Galahad.

Vivendo trancada no interior dos muros do castelo de seu pai, a filha do rei Brutos se apaixona perdidamente pelo cavaleiro. É interessante o caráter anônimo da donzela, o que ratifica sua posição de mero instrumento de tentação, obstáculo que o herói tem de superar em sua busca interior. Ela não é uma personagem sólida. Talvez sequer possamos chamá-la de personagem... O fato é que nela residem os dois elementos que se unem para constituir a provação de Galahad: a figura feminina e o sexo.

O amor que a donzela protesta, ao deitar-se na cama do cavaleiro, em segredo, envolvida pela proteção da noite, não é o amor puro e casto das cantigas dos trovadores. Pelo contrário, é o desejo carnal, o amor-paixão em sua forma mais extremada. Ela toca o corpo do cavaleiro, ela o deseja enquanto carne, não enquanto espírito. Talvez Galahad pudesse aceitar aquela espécie de amor, mas seu temperamento crístico, por assim dizer, o impede de tolerar o contato de corpos.

O caráter de tentação se afirma mais ainda quando, mesmo ao perceber que Galahad não era pertencente à classe que chamei aqui de Cavaleiros do Mundo, pelo contrário, era um piedoso, o que se manifesta pelo uso da estamenta, ela continua a nutrir seus desejos pelo jovem. É um embate interno, uma marca contraditória da donzela: por um lado ela sabe ser impossível atingir seu objetivo com Galahad, entretanto, mesmo sem a mínima esperança, ela continua tentando, e uso aqui essa palavra com seus dois sentidos.

- Ai, infeliz! Que é isto que vejo? Não é ele cavaleiro dos cavaleiros andantes que dizem que são namorados, mas é daqueles cuja vida e alegria está sempre em penitência... Este é dos verdadeiros cavaleiros da Demanda do Santo Graal e em má hora foi tão formoso para mim.

Se a donzela possui essa certeza, por que mais continuaria com suas súplicas senão pelo seu caráter de instrumento de tentação?

Mas é quando Galahad acorda e encontra a linda mulher em seu leito que sua prova de fogo realmente tem início. E é curioso como ele assume uma posição irredutível ao longo de todo o episódio, sensibilizando-se unicamente quando a donzela salta do leito, frustradas todas as suas esperanças de uma noite com o cavaleiro.

Quando ouviu isso não esperou mais, antes saiu do leito onde se encontrava e correu à espada de Galaaz, que pendia a entrada da porta da câmara, e sacou-a da bainha e pegou-a com ambas as mãos e disse a Galaaz: - Senhor cavaleiro, bem vedes o engano que havia nos meus primeiros amores. E mau dia fostes tão formoso para mim que tão caro me convirá comprar vossa beleza.

É somente quando a donzela toma a espada em suas mãos e o cavaleiro percebe que ela realmente porá fim a vida por amor a ele que a atitude impassível vem por terra e Galahad cede à tentação:

- Ai, boa donzela! Tem um pouco de paciência e não te mates assim que farei todo o teu prazer!

Entretanto a própria rendição de Galahad me parece aqui mais um ato de sacrifício por amor fraterno do que de fraqueza propriamente dita. A frase desesperada do cavaleiro tem muito mais de Jesus Cristo crucificado por amor ao mundo do que de Eva seduzida. E talvez seja exatamente por isso, pela natureza altruísta dessa, digamos, queda, de Galahad que ela não se consume no plano físico. A donzela realmente enterra a espada no peito, pondo fim à virtualidade do pecado. Consciente de que houvera feito o possível, o cavaleiro não mostra sinais de remorso. Talvez até o mostrasse se não precisasse defender a própria vida contra os cavaleiros de Brutos. Mas o fato é que não mostra. E assim o espírito do paladino continua imaculado, não tocado pela mancha do pecado. Galahad continua mais Cristo do que nunca, uma vez que até mesmo o sacrifício simbólico - a pureza de sua alma em troca da vida do próximo - foi virtualmente praticado.

Confesso que a idéia me fascinou. Provavelmente este pequeno texto renderá alguns frutos no futuro, uma análise mais apurada, mais elaborada.

Não pretendi aqui trazer uma resposta definitiva. Estas linhas foram, como anunciei nos primeiros parágrafos e no próprio sub-título do texto, mais especulações teóricas do que uma análise literária propriamente dita. Mas acredito que, muitas vezes a especulação movida pela paixão seja mais frutífera do que a aplicação de mil teorias prontas. Ainda tenho uma certa dificuldade em encarar literatura como ciência exata, com regras e parametros definidos, e talvez a tenha em virtude de não querer tratá-la assim. Acredito mais na imagem dos Galahads flutuando em minha taça de vinho do que em tudo o que foi escrito sobre ele até hoje. Mentalidade medieval, diriam alguns. Talvez. Eu prefiro dizer que é apenas uma forma de se aproximar dessa fascinante dimensão chamada Literatura. (Roger Monteiro)

Notas

1

Bem... Se Proust baseou um romance no gosto de bolinhos, creio que não esteja cometendo um pecado grave, aqui. Até mesmo porque o vinho é o sangue de Cristo.

2

Esta é uma das contaminações a que me referi algumas linhas acima. Tenho uma dificuldade muito grande em utilizar os nomes dos personagens arturianos em suas formas portuguesas. Espero que isso não acarrete problemas realtivos à fulidez da leitura.

4

A estamenta era uma espécie de camisa áspera que monges e penitentes em geral usavam junto ao corpo como uma forma sutil de auto-flagelação.

SE VOCE GOSTOU DAS ILUSTRACOES INFORME-SE MAIS SOBRE OS MOVIMENTO ART NOUVEAU, ARTS AND CRAFTS E A KELMSCOTT PRESS OU ESCREVA PARA MIM, paulo w


Além da Cruz e a Espada

algumas palavras acerca das relações entre paganismo e igreja na literatura de cavalaria

"Que todos sejam livres para servirem ao deus que quiserem." Merlim

Prelúdio

O crepúsculo é a hora da imaterialidade.

É ao cair do sol que as sombras se tornam traços alongados sobre o chão. É ao levantar da lua que as formas se difundem, se confundem, em um jogo de cores e matizes, em uma dança meio que desordenada de ícones e símbolos. O crepúsculo é o momento do diáfano, do irreal, do etéreo, do não palpável. É a morte do dia, o nascimento da noite, mas já não é mais dia, e ainda não é noite. Enfim, o crepúsculo é o reino do vir a ser, um castelo construído com as pedras da virtualidade.

A Idade Média é uma zona de crepúsculo. Um tempo em que as fronteiras, tanto geográficas como psicológicas, ainda estão longe de estarem definidas. São séculos que tem a palavra incerteza encrustada nos portais de suas cidades muradas, escrita com letras de fogo por sobre os portais das igrejas e no coração de seus habitantes. E levar essa palavra - incerteza - em consideraçõ é uma condição básica para que ousemos nos aproximar da dita Idade das Trevas.

Uma vez que passamos a considerar aqueles séculos como um grande trabalho de colagem, como uma obra de Klimt, nos aproximamos do espírito que pairava por entre aquelas sólidas torres. A Idade Média é um grande amálgama, onde as mais variadas culturas, sobrepostas, costuradas - muitas vezes de maneita não lá muito firme - acabam por formar um todo. Um todo, sim, porém nunca homogêneo.

Esse caráter fragmentário tornar-se-ia explícito em quase todas as instâncias do cotidiano medieval. O próprio país não passava de uma justaposição de feudos, células independentes que, por motivos circunstanciais formavam uma unidade maior. A guerra também era uma atividade fragmentária, com a Cavalaria valorizando a unidade, a individualidade, um pensamento completamente contrário ao de Roma com suas Legiões, grandes exércitos atacando o inimigo em blocos maciços. Entretanto, talvez seja no campo das artes que essa cultura do fragmento tenha sua expressão mais marcada.

O legado artístico deixado pela Idade Média aos séculos futuros é inestimável. Encontramos reflexos do Trovadorismo até hoje, como no caso dos repentistas e cantadores de cordel do nordeste brasileiro. Porém, praticamente toda a manifestação estética surgida naquele período reflete a estrutura fragmentária da sociedade em que foi concebida.

Uma dessas manifestações, talvez a mais recorrente delas, corrobora essa idéia de maneira bastante sólida. O mosaico, técnica de representação de cunho pictórico, nada mais é do que a união de minúsculas partes, a harmonização de pequenos pedaços, de maneira a dar a impressão de todo. E, de uma certa forma, ouso dizer que toda a arte medieval é, na verdade, um grande mosaico, uma vez que essa fragmentação se alstrou por todas as outras formas de manifestação artística, incluindo aqui a literatura.

Se tomarmos como objeto de análise a vasta obra dos trovadores, perceberemos que tanto em seu primitivismo formal quanto em sua simplicidade temática, ela não passa da colagem de vários fragmentos, versos que são dispostos em volta de um refrão, quase sempre em duplas, onde esses versos aparecem duas vezes, de maneira a fechar um pequeno círculo hermético, que não dá margens para escapadas interpretativas muito grandes.

Já na prosa medieval, campo que interessa mais de perto a este texto, o caráter fragmentário apresentar-se-á de modo um pouco diferente. Ainda há, é claro, a cultura do fragmento no âmbito formal, como na Chanson de Roland, em que o foco da narrativa vai se alternando entre os Doze Pares de França, formando uma grande teia de episódios e aventuras que podem - ou não - serem lidas em sequência, uma vez que alguns desses capítulos constituem histórias fechadas, com começo, meio e fim.

Entretanto, o fragmento está presente nessas narrativas também no campo temático. Todo aquele clima de incerteza, de imaterialidade, de indefinição irá contaminar, por assim dizer, a prosa da Idade Média com esse paroxismo, resultante das várias culturas em convivência, muitas vezes não lá muito pacífica. As imposições culturais são naturais em sociedades formadas por povos diversos, e as lutas resultantes dessas tentativas de supremacia são inevitáveis.

E encontraremos nos textos em prosa, principalmente nas novelas de cavalaria, reflexos claríssimos desse embate entre culturas, uma vez que elementos essencialmente pagãos, provenientes das culturas celta e germânica, que foram passando de geração em geração; e de árabes e turcos, em virtude da invasão e permanência desses povos infiéis em território europeu durante várias décadas, aparecem nesses textos andando lado a lado com os sacramentos da Igreja Romana, com os santos do catolicismo, com a figura do próprio Cristo.

Essa covivência esteticamente muito frutífera é incontestável. O objeto de análise dessas linhas não é a existência ou não desses elementos pagãos diluídos entre os reinos da cristandade, mas sim o relacionamento dessas imagens com a toda poderosa Roma. Na verdade, é a busca de uma explicação, ou pelo menos de algo próximo a isso, para que certos elementos tenham sido tolerados, e até mesmo incorporados ao imaginário cristão pela classe clerical, enquanto outros foram decretados como heresia, condenados à fogueira e à virtualidade do esquecimento.

Para essa temerária análise, começarei com a leitura de dois dos romances mais importantes da chamada Matéria da Bretanha, ciclo narrativo que enfoca o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Um deles, a Demanda do Santo Graal, que narra as aventuras desses cavaleiros em busca do cálice onde teria sido recolhido o sangue de Jesus Cristo após a crucificação. O outro, incorporado à Matéria da Bretanha mais tarde, Tristão e Isolda, a história dos amores adulteros entre o cavaleiro Tristão de Lionês e Isolda, a Loira, rainha da Cornualha, esposa de Marcus, tio e soberano do cavaleiro. Não necessáriamente nessa ordem. Mas nada impede que outros textos façam suas aparições esporádicas

Sendo assim, pedindo aos deuses e demônios para que nada escrito aqui seja considerado herético pelo Tribunal da Inquisição, lancemo-nos, pois, ao instigante exercício da especulação literária.

Cavaleiros de Armaduras Brilhantes

Se por um lado é certo que a Idade Média produziu, no campo da Literatura, muito mais versos do que narrativas, também é certo que, por quaisquer que sejam os motivos, são esses textos em prosa que nos apresentam um panorama um pouco mais fiel da sociedade medieval. É claro que há muito de fantasia desabrida ao longo daqueles textos, de elementos fantásticos e ficção, à qual, muitas vezes, se tenta atribuir valor de verdade. Entretanto, mesmo impregnados por esse caráter maravilhoso, são esses textos que nos permitem reconstituir, de algum modo, o contexto em que foram escritos, uma vez que a poesia dos Trovadores muito pouco, ou quase nada, nos oferece a respeito do cotidiano medieval, quer por sua limitação temática, quer por seu primitivismo linguístico.

Sendo este um texto que se propõe a estudar as relações entre a Igreja e os últimos resquícios das antigas religiões pagãs da Europa, nada mais natural do que tomar como objeto de análise o gênero de prosa mais popular e mais recorrente na Idade Média, a novela de cavalaria.

As novelas de cavalaria são descendentes diretas das chamadas canções de gesta, que tiveram sua gênese entre os germanos, mas logo se espalharam pelos principais pontos do Velho Continente, na época, o único. Tratam-se de longas narrativas em prosa, geralmente enaltecendo os feitos e as virtudes de uma personagem principal, um guerreiro que se destaque entre os seus, quer por habilidade com as armas, quer por força física. Em sua essência, são muito semelhantes aos antigos poemas épicos da Antiguidade Clássica, diferindo, entretanto, pelo seu caráter individualista em contraponto ao coletivo das epopéias gregas e romanas. Enquanto os clássicos encaravam o herói como um ícone da comunidade em que estava inserido, como um representante de todos os ideais e crenças dessa coletividade, os autores dessas canções de gesta já permitiam aos seus heróis alguma fraqueza, ou, pelo menos, discordância em algum ponto com a sociedade que o cercava, numa antecipação, guardadadas as devidas proporções, do que seria o futuro arquétipo do herói romântico, uma personagem que busca valores autênticos em uma sociedade degradada. Entretanto, a despeito dessas suaves diferenças, o cunho das narrativas são práticamente os mesmos, combates, aventuras fantásticas, monstros e criaturas sobrenaturais.

Com o advento da Lírica Occitânica, ou Lírica Provençal - assim chamada por haver surgido na Provença (DIGITALIZAR MATERIAL ESPECIFICO QUE POSSUO), região ao sul da França, na época independente - essas canções de gesta, predominantes nas terras do norte, começaram, aos poucos a sofrer modificações sensíveis. Os ideais do movimento chamado Amor Cortês, paulatinamente foram sendo incorporados pela matéria das canções de gesta. Dessa forma, já não tínhamos mais somente as cenas de batalhas, mas as narrativas começaram a dedicar grande parte de suas linhas à vida palaciana, às intrigas da côrte e aos amores, lícitos ou ilícitos, que floresciam por trás da cortina de repressão sexual e castidade sacral. Tudo isso resultou em uma nova forma de encarar a literatura, uma vez que esses novos elementos requeriam uma sutileza muito maior do que a pura e simples carnificina. Assim, as novas narrativas, as novelas ou romances de cavalaria, tornaram-se textos estilística e tematicamente mais ricos, mais ao gosto das côrtes que começavam um processo de refinamento, refletido na apreciação dessas manifestações artísticas, agora não mais somente em louvor à Igreja e a Cristo.

As civilizações tendem a escolher seus heróis. E o nome desses heróis, mesmo que ficcionais, fica de tal modo enraizado na história dessas civilizações ao ponto de, a partir de determinado momento, começarem a ser tratados como figuras históricas reais. A Grécia tem seu inesquecível Odisseu, aquele que após a guerra de Tróia enfrentou a morte mil vezes para retornar ao seu lar; Roma tem Enéias, sobrevivente de Tróia que fundou, sob a proteção dos deuses aquele que viria a ser um dos maiores impérios do Ocidente. A Idade Média não é diferente.

Muitos foram os heróis nascidos sob o signo da civilização medieval e muitos os seus feitos grandiosos. Porém, a palavra grandiosidade não se aplica de maneira tão plena a nenhum deles como se aplica a Arthur e seus cavaleiros.

Tem-se notícia de um Arthur histórico. Ele teria sido o líder de uma das inúmeras tribos celtas, que defenderam o território inglês contra as invasões dos saxões. Entretanto foi o imaginário popular, por motivos não facilmente explicáveis e que não vêm ao caso agora, que o transformou em grande Rei da Inglaterra, aquele que teria unificado todas as tribos que compunham o mosaico inglês em um grande exército que marchou contra os invasores. E o folclore - derivado de folk, da palavra inglesa para povo - vai além, quando lhe atribui uma origem cercada por mistério e feitiçaria, uma espada dotada de poderes mágicos e até mesmo uma morte não definitiva.

Consequentemente, a maior parte dos romances de cavalaria adota como seu tema principal a Matéria da Bretanha, que é o conjunto dessas aventuras vividas pela côrte de Arthur e que já circulava entre o povo na forma de literatura oral. Essas narrativas constituem o ciclo conhecido como Lancelote-Graal, que relata as aventuras de Lancelote, o mais famoso cavaleiro do mundo, ligando-as às do Rei Arthur e demais cavaleiros da Távola Redonda e à Demanda do Santo Graal. Escrito na primeira metade do século XII, esse ciclo organiza uma vasta matéria narrativa, matéria essa que evoluiu muito rápido e que, no próprio século XII já constituám o cânone da cavalaria, então em plena ascenção. A reelaboração ficcional de histórias tão remotas no tempo serviu, dessa forma, a leituras da realidade social e cultural contemporânea.

Aos POUCOS, outros personagens que, originalmente não estavam ligados a Arthur e seus cavaleiros foram sendo incorporados à sua côrte, como Tristão de Lionês, Isolda da Irlanda e Marcus da Cornualha. A lenda de Tristão é de origem celtica, mas sua gênese é incerta e nebulosa, como, aliás, a da maioria dos textos medievais. Entretanto, existem elementos que atestam a ligação entre o texto e os antigos cultos ao Sol daquelas tribos, bem como determinados traços filológicos relativos aos nomes das personagens e a fragmentos de manuscritos mais antigos.

Dessa forma, mais por influências externas, uma vez que os escritores dessa época geralmente concebiam seus textos sob encomenda da nobreza, o destino de vários heróis independentes em suas raízes acabou sendo ligado ao de Arthur, ligação que, com o passar do tempo acabou por tornar-se de tal maneira solidificada pela abrangência dos textos que adquiriu um certo caráter natural.

Mas o que realmente importa para o decorrer desta breve análise é a origem celta, e, portanto, pagã desses dois grupos de personagens. Uma vez concebidas por uma cultura completamente diferente da cristã, vigente na Europa durante o período em que foram prosificadas, é natural que essas narrativas apresentem traços bem marcados das crenças, costumes e ideais daquelas sociedades. E, no caso das tribos celtas, estes traços são mais acentuados pelo fato de se tratarem de sociedades matriarcais em que era adotada uma religião de cunho também matriarcal. Outro ponto importante a respeito dessa religião é o fato do sexo ser encarado pelos celtas como uma celebração à vida, uma forma de homenagem à Deusa, à Grande Mãe, ou seja, uma concepção completamente oposta à da Igreja Católica. Assim, seria inevitável que estas histórias trouxessem consigo toda essa carga ideológica diametralmente opostas a qualquer dos preceitos cristãos. Criou-se então um problema crucial: o que fazer com esse paganismo? Deixá-lo livre, detentor da virtualidade da corrupção da alma do povo, uma vez que essas idéias pagãs eram muito mais atraentes do que o eterno mea culpa do cristianismo? Ou destrui-lo por completo, como seria feito com as chamadas heresias, talvez a maior e mais famosa, a Heresia Albigense?

Primeiramente, vejamos mais de perto que elementos pagãos específicos eram esses e que importância eles apresentam, dentro de suas respectivas obras, para o todo das narrativas. Para ilustrar esses elementos, escolhi duas obras que considero fundamentais em se tratando da literatura cavaleiresca: Tristão e Isolda e a Demanda do Santo Graal.

Entre Dragões, Bruxas e Poções

Como já foi dito aqui, quase toda a prosa medieval, mas em especial as novelas de cavalaria encerram em si uma série de elementos fantásticos provenientes de suas raízes celtas, e, portanto, não-cristãs. Esses elementos da cultura pagã muitas vezes aparecem como simples acessórios, ficando à margem da estrutura narrativa. Entretanto, em outros momentos esses traços constituem a coluna vertebral do texto. As obras aqui selecionadas para análise, A Demanda do Santo Graal e Tristão e Isolda são exemplos de um e outro caso, respectivamente.

Tristão e Isolda insere-se dentro do grupo de narrativas que centra seu eixo nos elementos remanescentes da antiga religião celta. Praticamente ao longo de todo o texto o sobrenatural estará presente, e sempre desempenhando um papel muito ativo no rumo dos acontecimentos, desde o início até o final.

Tristão vem a conhecer Isolda indeiretamente através de um dragão. O dragão talvez seja um dos personagens pagãos mais recorrentes não só nas crônicas de cavalaria como também na prosa dita científica da época. Com muita frequência, ao abrirmos as páginas de algum bestiário medieval, gênero muito produtivo onde eram listados todas as espécies de animais conhecidas, encontramos um dragão ao lado de cães, gatos, galinhas e outros animais domésticos. Isso leva a crer que a Idade Média realmente acreditava na existência dos dragões, o que inviabilizaria sua classificação como imagem pagã. Entretanto esse pseudo cientificismo não pode ser encarado ao pé da letra, pois vários outras formas literárias da época, por assim dizer, não hesitavam em misturar ficção à realidade, como no caso dos Livros de Linhagens, por exemplo, onde inúmeras famílias alegavam descendência de personagens importantes, desde o Rei Arthur até casos absurdos como o da Melusina. Por ora prefiro continuar tratando os dragões como figuras do imaginário pagão. Afinal o que seria da cavalria sem o dragão?

Ao lado do dragão, quase que imediatamente teremos a aparição de outro elemento sobrenatural. Ao transportar a bela Isolda da Irlanda para a Cornualha, onde a princesa deveria casar-se com Marcus, tio de Tristão, os dois jovens são levados a beber de uma poção preparada pela mãe de Isolda. Trata-se de um elixir mágico, uma poção de amor, uma forma que a rainha-bruxa encontrara para que sua filha não corresse o risco de infelicidade no matrimônio. Essa poção será a responsável pela detonação de todo o drama dos amantes, uma vez que seu amor, ainda que efeito de uma droga, não encontra chances para ser realizado. O fato é que esses filtros de amor são imagens recorrentes em outros textos de cavalaria, como em um episódio da Canção de Rolando, por exemplo, onde uma donzela lancará mão de magia para obter o amor de Ogier, um dos doze paladinos. Porém em nenhuma outra obra eles desempenham um papel tão fundamental quanto na história do cavaleiro de Lionês.

Temos em Tristão e Isolda, portanto o paganismo como mola mestra da ação. São os elementos não cristãos que determinam o curso dos acontecimentos. Este caráter extremamente pagão da narrativa pode ser significativo, uma vez que este texto sai da oralidade somente no século XII, período em que a Igreja Católica já exercia um poder mais do que considerável sobre quase toda a Europa.

A Demanda do Santo Graal é uma coletânea de escritos do século XII, justapostos sobre um único pano de fundo, a busca dos cavaleiros da Távola Redonda pelo cálice sagrado. Tematicamente, poderíamos dizer que a obra é de cunho cristão, pois, além de tratar de fé, ela se vale de um dos dogmas mais básicos da Igreja Romana, a crucificação e ressureição de Jesus Cristo. Entretanto, circulando em volta desse eixo central várias episódios completos em si mesmos vão se desenrolando, e é nesses episódios paralelos que iremos encontrar o choque entre as duas culturas. Em A Demanda do Santo Graal convivem lado a lado, e pacificamente, o catolicismo e o paganismo, o Deus dos padres e a Deusa das sacerdotisas celtas, o crucifixo e os amuletos de fertilidade, o vinho consagrado e as beberagens mágicas. O paradoxo cultural aqui, não se dá somente entre a obra e o contexto social em que está inserida, mas também dentro do próprio texto, embora, dentro da narrativa ela não possua qualquer caráter paradoxal, uma vez que parece completamente natural a presença dos dois mundos.

Nessa demanda paralela, não raras vezes nos deparamos com feiticeiros e bruxas, com castelos que aparecem e desaparecem, com anéis mágicos.

Um desses elementos maravilhosos é o Cervo Branco, um animal fantástico que aparece perante Galahad, filho de Lancelote do Lago. Se estudarmos um pouco, ainda que superficialmente, a religião celta, saberemos que o cervo era um animal sagrado, assim como era sagrado o carvalho, árvore que compõe a floresta onde este cervo se oculta. O narrador da demanda tenta aproximar esse animal de Deus, usando como argumento a sua cor, branco, a cor da pureza, do manto de Cristo. Porém a analogia não se sutenta e podemos afirmar com certeza que esse cervo nada mais é do que o ícone sagrado celta.

Entretanto um desses elementos parece receber um tratamento especial por parte do narrador, a Besta Ladradora. Ela é descrita como um animal horrível, possuidor de várias cabeças que cospem fogo. Chama-se ladradora porque essas cabeças latem sem parar, causando um barulho ensurdecedor. Segundo a lenda teria sido o fruto de um incesto, crime passível de morte na Idade Média. Ela é eternamente perseguida por um cavaleiro mouro, Palamedes

Interessante aqui é o fato do paganismo não estar representado apenas por estes traços diluídos, escondidos entre os parágrafos da narrativa, mas sim de forma explícita. Não é somente a besta que empunha as armas pagãs, mas um cavaleiro as traz em seu escudo. E note-se que não é qualquer cavaleiro, um biltre, um parvo. Inacreditavelmente, até, talvez a Demanda do Santo Graal seja o primeiro dos textos medievais a conceder um lugar de destaque para um dos mais antigos inimigos da cristandade, o cavaleiro mouro, tão acirradamente combatido por Carlos Magno.

Os raios de paganismo que rompem o céu nublado cristão são muitos, na verdade incontáveis. Entretando, creio que estes poucos elementos apontados anteriormente, sejam suficientes para formar um panorama geral das formas de tratamento que a Igreja Romana dispensava a essas pequenas heresias em potencial.

O Longo Braço da Igreja

A Igreja Católica talvez seja, se não a mais, uma das mais organizadas instituições do mundo. Graças a essa organização ela vem se mantendo viva e atuante desde os primórdios até hoje. É certo que ela não goza mais do poder político do qual gozou durante séculos. Pode ser que o Inferno já não seja um lugar tão apavorante para os habitantes do século XX como era para os do XV. Entretanto a nave de Pedro ainda pode ser considerada como uma organização respeitada.

Sem dúvida, um dos dispositivos que ajudou a Igreja Católica a manter-se viva durante tanto tempo foi a Inquisição. Um mecanismo muito simples, utilizado e aprovado por todo o tipo de governante autoritário: elimine os focos de revolta e está aliminada a revolução. Assim, com a tortura e a morte dos ditos heréticos os pilares do catolicismo foram resguardados, a custa de muito sangue, é verdade, mas antes o sangue dos heréticos do que o de Cristo.

Detentora exclusiva de quase toda a cultura durante a Idade Média, Roma pôde manipular os textos ao qual o mundo teria acesso. Dessa forma ela pode deixar que chegasse até o público leitor aquelas palavras que enalteciam a Cristo e à Virgem, bem como quaimar e destruir todas as linhas consideradas heréticas ou blasfemas. Sendo assim, surge uma pergunta: Como a Igreja permitiu a permanência desses elementos pagãos, e, na época, pagão era igual a herege, dentro dos textos de cavalaria?

Seria ingenuidade extremada da nossa parte acreditarmos que essas imagens pagãs tenham escapado aos olhos atentos e zelosos dos frades, que tinham tempo de sobra para aplicar suas censuras à arte, uma vez que viviam às custas das doações e da venda de indulgências. Não. Definitivamente o poder da Grande Mãe não era tão grande para fazer com que seu culto fosse propagado por entre os seguidores do Cristo sem que os paladinos da Igreja ficassem sabendo. Isso nos leva a crer que, se o paganismo floresceu nas narrativas do século XII, juntamente com o culto à Virgem, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, foi única e exclusivamente por permissão de Roma.

Mas que interesse a Igreja poderia ter na disseminação dessas crendices celtas entre seus fiéis? O que levaria o clero a correr o risco de uma onda de esoterismo indiscriminado, como a que presenciamos hoje, às portas do século XXI, influenciada pela presença pagã na literatura. É fato que o público leitor dessas obras era reduzidíssimo, e o povo, a plebe, nunca teriam contato com um livro, primeiro por que não sabiam ler; segundo, porque o preço do livro era algo absurdo, uma vez que os volumes levavam anos, às vezes para serem copiados. Porém, as narrativas eram orais, contadas em feiras e praças públicas. Talvez a Igreja não tivesse o poder necessário para editar a literatura oral, mas é difícil de acreditar que ela permitisse que esses ideais ficassem gravados em pergaminho. Verba volat, scripta manent, diziam os romanos. O dito voa, o escrito permanece.

Uma hipótese provável e possível é que o clero tenha usado a permanência desses elementos para uma função didática. Analisando as principais figuras pagãs presentes nesses textos, poderemos facilmente notar que elas sempre estão relacionadas, direta ou indiretamente, a eventos desastrosos ou consequências horríveis.

O episódio da Besta Ladradora nos oferece dois vestígios, um evidente, outro oculto, para que aceitemos essa idéia do didatismo.

Sendo fruto de um incesto, a Besta Ladradora nada mais é do que um elemento didático. É como se o clero apontasse seu dedo acusador e mostrasse que o pecado leva ao monstruoso.

Entretanto, existe mais um fator didático relacionado a este episódio, não ao monstro em si, mas ao cavaleiro que a persegue, Palamedes.

Palamedes, aqui, representa todo o povo mouro, o povo infiel. E é ele que persegue a besta, ícone do incesto. É como se a Igreja dissesse que o infiel persegue o pecado assim como Palamedes persegue o monstro, num exercício de lógica um tanto quanto distorcida, porém interessante à Roma.

Já em Tristão e Isolda encontraremos uma marca de punição ao paganismo, não diria que mais forte do que na demanda, uma vez que a própria história dos amantes está também contida no texto português, mas diria mais intensa, já que o leitor acompanha todo o drama da separação e morte bem mais de perto, com um caráter mais visceral que em nenhum momento aparece em A Demanda do Santo Graal.

Aqui a desgraça ocasionada pelo paganismo é completa e absoluta, levando a uma vida de desgostos e sofrimento, e, muito provavelmente à uma pós-morte atormentada no fogo do Inferno, como prevê Lancelote em seu sonho. Sonho este do qual também participa a rainha Guenevere e ele próprio, Lancelote, com quem a rainha mantinha relações ilícitas.

Novamente nos deparamos com uma advertência quanto ao incesto, uma vez que Tristão mantém amores adúlteros com a mulher de seu tio, que lhe abrigou como um pai. E mais, com a rainha, que na mentalidade medieval era considerada como mãe de seus súditos. Tristão seria, por assim dizer, um duplo incestuso, condenado às respectivas penas por um narrador simpático à sua causa, quando falamos do romance original; e por um narrador completamente impiedoso quando consideramos a história contida em a Demanda do Santo Graal.

Sendo assim, creio que fica claro o caráter didático - eufemisticamente falando, uma vez que a palavra mais apropriada seria ameaçador - desses elementos pagãos tolerados, por assim dizer, pela classe clerical.

É claro que isto é apenas uma hipótese, porém, ao mesmo tempo, é a única explicação plausível, o único critério concebível para que Roma convivesse de forma tão pacata com esses dragões, monstros cuspidores de fogo e poções de amor em uma época em que jogavam-se pessoas ao rio para certificar-se de que não eram bruxas.

Pseudo-Conclusão

Pseudo-conclusão, sim. É no mínimo leviano falarmos em alguma conclusão quando estamos no terreno da Idade Média. Cada vez mais me convenço que quanto mais fundo mergulhamos nesse poço sem luz, a dita Idade das Trevas, mais questões surgem e menos respostas são obtidas.Mas acho que o texto cumpriu sua proposta inicial, ou seja, tentar jogar alguma luz sobre esse misterioso critério de seleção entre os pagãos.

Sei que, até certo ponto, foi uma análise superficial, mas talvez as relações entre Igreja e Literatura o sejam por natureza. Platão baniu os poetas de sua república assim como Deus baniu a Lúcifer. E não foi porque os poetas trazem consigo a alienação, como pretendeu o grego, mas sim porque eles trazem a luz, como a Estrela da Manhã. Foi o anjo caído que ofertou ao homem a possibilidade do erro, da escolha. Dessa forma, a luz que Lúcifer porta não é a que ilumina o caminho, mas sim a que ilumina a razão. Uma vez que luta contra Lúcifer, a Igreja luta contra a razão, contra o esclarecimento. A Idade Média teria sido uma época de treva caso Roma pudesse ter reinado sozinha. Talvez até hoje estivéssemos atirando pessoas ao fogo. Mas os poetas estavam lá, para resistir bravamente empunhado suas penas contra os crucifixos afiados... Mas isto já é ideologia.

 

Notas

A

Existe a lenda de que, após ser ferido pela lança de Mordred, Arthur teria sido recolhido pelas fadas da Ilha de Avalon e levado em uma barca para aquela terra magica cercada de brumas. Ele retornaria quando a Inglaterra corresse um grande perigo e tivesse necessidade de seu maior herói.

 

B

Segundo o Maleus Maleficarum, o manual dos inquisidores, atirava-se a pessoa ao rio, amarrada a uma grande pedra. Caso ela se salvasse, era bruxa e deveria ser queimada; caso morresse, ficava provada sua inocência e ela teria direito a um enterro cristão.

Bibliografia

ANONIMO. A Morte de Arthur. Martins Fontes, SP, 1992.

JUNQUEIRA, Rita Soares. O Triste Destino de Tristão na Versão Portuguesa D'A Demanda do Santo Graal. in: Revista de Letras, UNESP, SP, v.35, 1995, p.103.

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ARQUIVO DO SUTTANA , excelente site que traz nao apenas poemas mas textos diversos de autores nacionais e portugueses, mantido pelo professor de literatura e escritor Renato Suttana. participacao importante de pensadores portugueses, nao traz apenas textos de literatura mas antes de campos diversos do conhecimento incluindo antropologia e artes. imperdivel, Http://geocities.yahoo.com.br/rsuttana


LITERATURA NA HISTORIA

EDGAR ALLAN POE

SHERLOCK HOLMES E CONAN DOYLE


A Escrita do Deus
Jorge Luis Borges

O cárcere profundo e de pedra; sua forma de um hemisfério quase perfeito, embora o piso (também de pedra) seja algo menor que um círculo máximo, fato que de algum modo agrava os sentimentos de opressão e de grandeza. Um muro corta-o pelo meio; este, apesar de altíssimo, não toca a parte superior da abóbada; de um lado estou eu, Tzinacan, mago da pirâmide Qaholom, que Pedro de Alvadaro incendiou; do outro há um jaguar, que mede com secretos passos iguais o tempo e o espaço do cativeiro. Ao nível do chão, uma ampla janela com barrotes corta o muro central. Na hora sem sombra (o meio-dia), abre-se um alçapão no alto e um carcereiro que os anos foram apagando manobra uma roldana de ferro, e nos baixa, na ponta de um cordel, cântaros de água e pedaços de carne. A luz entra na abóbada; neste instante posso ver o jaguar.

Perdi o número dos anos que estou na treva; eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar nesta prisão, não faço outra coisa senão aguardar, na postura de minha morte, o fim que os deuses me destinam. Com a longa faca de pedernal abri o peito das vítimas e agora não poderia, sem magia, levantar-me do pó.

Na véspera do incêndio da Pirâmide, os homens que desceram de altos cavalos me castigaram com metais ardentes para que revelasse o lugar de um tesouro escondido. Abateram, diante de meus olhos, a imagem do deus, mas este não me abandonou e me mantive silencioso entre os tormentos. Feriram-me, quebraram-me, deformaram-me e depois despertei neste cárcere, que não mais deixarei nesta vida mortal.

Premido pela fatalidade de fazer algo, de povoar de alguma forma o tempo, quis recordar, em minha sombra, tudo o que sabia. Gastei noites inteiras lembrando a ordem e o número de algumas serpentes de pedra ou a forma de uma árvore medicinal. Assim fui vencendo os anos, assim fui entrando na posse do que já era meu. Uma noite, senti que me aproximava de uma lembrança precisa; antes de ver o mar, o viajante sente uma agitação no sangue. Horas depois, comecei a avistar a lembrança; era uma das tradições do deus. Este, prevendo que no fim dos tempos ocorreriam muitas desventuras e ruínas, escreveu no primeiro dia da Criação uma sentença mágica, capaz de conjurar esses males. Escreveu-a de maneira que chegasse às mais distantes gerações e que não tocasse o azar. Ninguém sabe em que ponto a escreveu nem com que caracteres, mas consta-nos que perdura, secreta, e que um eleito a lerá. Considerei que estávamos, como sempre, no fim dos tempos e que meu destino de último sacerdote do deus me daria acesso ao privilégio de intuir essa escritura. O fato de que uma prisão me cercasse não me vedava esta esperança; talvez eu tivesse visto milhares de vezes a inscrição de Qaholom e só me faltasse entendê-la.

Esta reflexão me animou e logo me intuiu uma espécie de vertigem. No âmbito da terra existem formas antigas, formas incorruptíveis e eternas; qualquer uma delas podia ser o símbolo buscado. Uma montanha podia ser a palavra do deus, ou um rio ou o império ou a configuração dos astros. Mas no curso dos séculos as montanhas se aplainam e o caminho de um rio costuma desviar-se e os impérios conhecem mutações e estragos e a figura dos astros varia. No firmamento há mudança. A montanha e a estrela são indivíduos e os indivíduos caducam. Busquei algo mais tenaz, mais invulnerável. Pensei nas gerações do cereais, dos pastos, dos pássaros, dos homens. talvez em minha face estivesse escrita a magia, talvez eu mesmo fosse o fim de minha busca. Estava nesse afã quando recordei que o jaguar era um dos atributos do deus.

Então minha alma se encheu de piedade. Imaginei a primeira manhã do tempo, imaginei meu deus confiando a mensagem à pele viva dos jaguares, que se amariam e se gerariam eternamente, em cavernas, em canaviais, em ilhas, para que os últimos homens a recebessem. Imaginei essa rede de tigres, esse quente labirinto de tigres, dando horror aos prados e aos rebanhos para conservar um desenho. Na outra cela havia um jaguar; em sua proximidade percebi uma confirmação de minha conjectura e um secreto favor.

Dediquei longos anos a aprender a ordem e a configuração das manchas. Cada cega jornada me concedia um instante de luz, e assim pude fixar na mente as negras formas que riscavam o pêlo amarelo. Algumas incluíam pontos; outras formavam raias transversais na face inferior das pernas; outras, anulares, se repetiam. Talvez fossem um mesmo som ou uma mesma palavra. Muitas tinham bordas vermelhas.

Não falarei das fadigas de meu labor. Mais de uma vez gritei à abóbada que era impossível decifrar aquele texto. Gradualmente, o enigma concreto que me atarefava me inquietou menos que o enigma genérico de uma sentença escrita por um deus. Que tipo de sentença (perguntei-me) construirá uma mente absoluta? Considerei que mesmo nas linguagens humanas não existe proposição que não envolva um universo inteiro; dizer o tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e tartarugas que ele devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi a mãe do pasto, o céu que deu luz à terra. Considerei que na linguagem de um deus toda palavra enunciaria essa infinita concatenação dos fatos, e não de um modo implícito, mas explícito, e não de um modo progressivo, mas imediato. Com o tempo, a noção de uma sentença divina pareceu-me pueril ou blasfematória. Um deus, refleti, só deve dizer uma palavra e nessa palavra a plenitude. Nenhum som articulado por ele pode ser inferior ao universo ou menos que a soma do tempo. Sombras ou simulacros desse som, que eqüivale a uma linguagem e a quanto pode significar um linguagem, são as ambiciosas e pobres vozes humanas, tudo, mundo, universo.

Um dia ou uma noite - entre meus dias e minhas noites que diferença existe? - sonhei que no chão do cárcere havia um grão de areia. Voltei a dormir, indiferente; sonhei que despertava e que havia dois grãos de areia. Voltei a dormir, sonhei que os grãos de areia eram três. Foram, assim, multiplicando-se até encher o cárcere e eu morria sob este hemisfério de areia. Compreendi que estava sonhando; com um enorme esforço, despertei. O despertar foi inútil: a inumerável areia me sufocava. Alguém me disse: "Não despertaste para a vigília, mas para um sonho anterior. Esse sonho está dentro de outro, e assim até o infinito, que é o número dos grãos de areia. O caminho que terás que desandar é interminável e morrerás antes de haver despertado realmente".

Senti-me perdido. A areia me enchia a boca, mas gritei: "Nenhuma areia sonhada pode matar-me nem existem sonhos dentro de sonhos". Um resplendor me despertou. Na treva superior abria-se um círculo de luz. Via a face e as mãos do carcereiro, a roldana, o cordel, a carne e os cântaros.

Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, eu era um encarcerado. Do incansável labirinto de sonhos regressei à dura prisão como à minha casa. Bendisse sua umidade, bendisse seu tigre, bendisse meu velho corpo dolorido, bendisse a treva e a pedra.

Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar. Ocorreu a união com a divindade, com o universo (não sei se estas palavras diferem). O êxtase não repete seus símbolos; há quem tenha visto Deus num resplendor, há quem o tenha percebido numa espada ou nos círculos de uma rosa. Eu vi uma Roda altíssima, que não estava diante de meus olhos, nem atrás, nem nos lados, mas em todas as partes, a um só tempo. Essa Roda estava feita de água, mas era também de fogo, e era (embora visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam-na todas as coisas que serão, que são e que foram, e eu era um dos fios dessa trama total, e Pedro de Alvarado, que me atormentou, era outro. Ali estavam as causas e os efeitos e me bastava ver essa roda para entender tudo, interminavelmente.
Oh, felicidade de entender, maior que a de imaginar ou a de sentir! Vi o Universo e vi os íntimos desígnios do universo. Vi as origens narradas pelo Livro do Comum. Vi as montanhas que surgiram na água, vi os primeiros homens com seu bordão, vi as tinalhas que se voltaram contra os homens, vi os cães que lhes desfizeram os rostos. Vi o deus sem face que há por trás dos deuses. Vi infinitos processos que formavam uma só felicidade e, entendendo tudo, consegui também entender a escrita do tigre.

É uma fórmula de catorze palavras casuais (que parecem casuais) e me bastaria dizê-la em voz alta para ser todo-poderoso. Bastaria dizê-la para abolir este cárcere de pedra, para que o dia entrasse em minha noite, para ser jovem, para ser imortal, para que o tigre destruísse Alvarado, para afundar o santo punhal em peitos espanhóis, para reconstruir a pirâmide, para reconstruir o império. Quarenta sílabas, quatorze palavras, e eu, Tzinacan, regeria as terras que Montezuma regeu. Mas eu sei que nunca direi estas palavras, porque eu não me lembro de Tzinacan.

Que morra comigo o mistério que está escrito nos tigres. Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo não pode pensar num homem, em suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. Esse homem foi ele e agora não lhe importa. Que lhe importa a sorte daquele outro, que lhe importa a nação daquele outro, se ele agora é ninguém? Por isto não pronuncio a fórmula, por isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na escuridão.

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