FILOSOFIA


 


ENTREVISTAS COM FILOSOFOS

O VALOR DA IGNORANCIA, Julio Cesar Burdzinski


Por JÚLIO CÉSAR BURDZINSKI

Prof. do Depto. de Filosofia e Psicologia da Unijuí (RS)

O valor da ignorância

Pseudo-conhecimento

“Só sei que nada sei”. Esta talvez seja a mais famosa sentença da História da Filosofia. Quem já não a ouviu? E quantos já não a pronunciaram em alguma ocasião? A sentença é originalmente atribuída a Sócrates, o filósofo seminal da Filosofia clássica grega. Sócrates não registrou em texto seus ensinamentos, mas o mais famoso de seus discípulos, Platão, nos legou uma extensa obra. Esta obra é majoritariamente composta por diálogos. Também majoritariamente, estes diálogos têm em Sócrates seu personagem central. Se os diálogos platônicos estão mais próximos de ser uma exposição literal das palavras de Sócrates, ou uma criação filosófica e literária de Platão, não é importante aqui. O que sim importa é que Sócrates nos aparece como alguém que busca o conhecimento, alguém que questiona os supostos sábios sem se considerar sábio ele mesmo.

É a esse caráter ao mesmo tempo crítico e despretensioso de Sócrates que a sentença “Só sei que nada sei” se refere: crítico em relação ao suposto conhecimento alheio; despretensioso em relação ao que ele próprio conhece. Pois um conhecimento que não se sustenta diante da investigação racional não é de fato um conhecimento. É apenas algo que se parece com o conhecimento sem de fato o ser. É um pseudo-conhecimento. E, como Sócrates não cansa de nos lembrar, nada nos afasta mais do conhecimento do que o pseudo-conhecimento.

Ocorre que não é preciso buscar aquilo que já temos. Assim, se pensamos ter o conhecimento, também pensamos não precisar buscá-lo. Daí porque, se estamos iludidos a esse respeito, essa ilusão é o maior bloqueio para a obtenção do conhecimento. Como já disse alguém, não há melhor prisão do que aquela que não se parece com uma prisão. Para que tentemos nos libertar de nossas amarras, antes devemos nos dar conta de que estamos amarrados. Para que tentemos alcançar o conhecimento, antes devemos nos dar conta de que somos ignorantes. É somente na seqüência dessa descoberta, da descoberta de nossa própria ignorância, que podemos nos colocar no caminho da busca do conhecimento. Se estivermos aprisionados, todo adereço acrescentado à prisão servirá apenas para esconder ainda mais a natureza dessa prisão. Nenhum enfeite afixado nas paredes que nos encadeiam servirá para derrubá-las, nenhum ornamento nos libertará. A liberdade precisa começar pelo desnudamento de nossas cadeias, pelo desmascaramento das ilusões que nos confundem, pela denúncia de todo pseudo-conhecimento.

Mas já basta de metáforas. Que tipo de prisão é exatamente essa prisão formada pelo pseudo-conhecimento? É uma prisão mental. É o nosso espírito, são as nossas idéias e o nosso raciocínio que estão neste caso encarcerados. Como se chama essa prisão? Há várias delas, de fato, e muitas nos são familiares. Preconceito, estreiteza de espírito e indolência são alguns de seus nomes. Como podemos escapar de tais prisões? Pela crítica atenta e ativa dos preconceitos, pelo esforço consciente e incessante para ampliarmos os limites de nosso espírito, questionarmos nossas próprias idéias e aguçarmos nosso raciocínio.

E esta tarefa não é fácil nem simples. Muitas vezes ouvi a sentença “Só sei que nada sei” ser empregue como se ela fosse uma espécie de mantra, uma expressão mágica que muito fácil e rapidamente nos permitisse o acesso a um mundo maravilhoso de riquezas e esplendores. De fato, algumas pessoas parecem acreditar que essa expressão proporcione uma experiência parecida com a que acontece naquela história infantil em que as palavras “Abre-te, Sésamo!” automaticamente abrem as portas de uma caverna repleta de tesouros. A diferença seria que, no caso da sentença socrática, os tesouros aos quais ela nos daria acesso seriam tesouros espirituais ao invés de serem riquezas materiais. Porém, tanto num caso quanto noutro, o acesso seria simples e imediato. Algumas palavras seriam pronunciadas e prontamente um universo de maravilhas se descortinaria diante de cada um de nós. Mas, no caso do conhecimento, não é absolutamente assim que acontece.

Pseudo-ignorância

A ignorância – ou, se preferirem, a consciência de nossa própria ignorância - não nos é dada gratuitamente; a ignorância tem um preço. Não a ganhamos, a conquistamos. E com trabalho, com muito trabalho. Como tudo o mais que tem algum valor na vida, também a obtenção da ignorância exige esforço, paciência e dedicação. Pois ocorre que nos é muito mais natural crer do que duvidar. Nossa tendência é crer que as coisas de fato sejam como elas de início nos parecem ser. A dúvida acerca dessa aparência primeira pode surgir de diversos modos, e um desses modos é o modo filosófico. Neste caso, se trata de um esforço deliberado e metódico para colocar em questão as aparências. E este esforço não é fácil nem é simples.

É possível colocar em dúvida mesmo aquelas verdades mais evidentes e aparentemente inegáveis. Pensem, por exemplo, no gênio maligno de René Descartes – na suposição de que poderia existir uma criatura supremamente poderosa e malévola que tivesse por objetivo nos enganar inclusive a respeito daquelas coisas que nos parecem mais obviamente verdadeiras (o supercomputador do filme Matrix pode ser tomado como uma versão contemporânea de tal criatura). Não raro, essa singular hipótese é tomada por uma simples brincadeira filosófica. Mas ela é muito mais do que isto: ela é uma alegoria de certas conseqüências dos limites e da natureza de nosso conhecimento. Quem comete este equívoco talvez ignore que a invenção de uma tal criatura pretende pavimentar o caminho da dúvida através de uma imagem sugestiva. E isto porque a dúvida, e em particular, a dúvida sobre fatos que nos parecem óbvios – fatos sobre a nossa própria existência, por exemplo –, não é gerada sem que empreendamos um diligente esforço para tanto. E o exercício da dúvida é o instrumento indispensável que nos permite eliminar os fragmentos de pseudo-conhecimento reunidos ao longo dos anos que atulham nossa mente. É o exercício da dúvida que nos permite alcançar a ignorância.

Parte considerável dos esforços dos filósofos, portanto, é dedicada à tarefa de obter essa autêntica ignorância. Pois a fonte do pseudo-conhecimento é a pseudo-ignorância. A pseudo-ignorância é o resultado da tentativa insuficiente e fracassada em eliminar as crenças irracionais que se acumulam em nosso espírito. Diante desse fracasso, continuamos a sustentar idéias infundadas e a guiar nossas ações com base em pontos de vista que, ao fim e ao cabo, não têm sustentação racional. E tudo isto porque desde o início falhamos na tarefa de desmascarar nossa própria ignorância.

Enfim, o valor da ignorância é extraordinário. Defrontar a autêntica ignorância, único terreno sobre o qual o autêntico conhecimento pode ser erigido, é um empreendimento indispensável e virtualmente interminável. O mundo nos oferece constantemente idéias enganosas das quais precisamos nos depurar e essa depuração não é um trabalho do qual possamos dar conta sem esforço e método. Ter constantemente presente a necessidade deste trabalho e lembrar aos demais disto com uma persistência que beire a provocação – como o fazia o próprio Sócrates – pode ser uma boa maneira de se começar a filosofar.


 
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ENTREVISTAS COM FILOSOFOS (material obtido junto ao e-group acropolis)


Entrevista com Karl-Otto Apel

Como escapar do blablablá
O filósofo alemão Karl-Otto Apel expõe seus argumentos contra o relativismo
filosófico atual
 

LUIZ FELIPE PONDÉ
especial para a Folha
 

O filósofo Karl-Otto Apel vive em uma pequena cidade nos arredores de Frankfurt (Alemanha). A atmosfera desse lugar causa seguramente um estranhamento para alguém acostumado com a "promiscuidade antropológica" de cidades como Nova York, São Paulo ou Paris. A sensação que se respira nesse silêncio é que se está protegido do universo ruidoso e agressivamente contingente do qual brota um pensamento corrosivo como o pragmatismo. Todavia tal violência epistemológica do pragmatismo norte-americano não é garantia evidente de sua inconsistência filosófica. Para Apel é exatamente esta sua guerra: encontrar em meio à devastação causada por pensadores como Heidegger, Gadamer, Wittgenstein e Rorty os rastros de alguma luz que nos leve de volta à "episteme" platônica ou à Razão kantiana. Percebe-se como ele se bate contra a idéia de que a moral possa se dissolver no mundo sombrio do senso comum vadio contemporâneo, no qual o obsessivo desejo de "felicidade" devora qualquer drama moral. Apel é um anti-relativista convicto, embora aceite e reconheça o valor da crítica relativista em todos os seus sentidos. Como ultrapassar a semiótica, o pragmatismo, a hermenêutica e o historicismo racionalmente? Pela prática de uma pragmática transcendental baseada em uma racionalidade argumentativa não-estratégica. Para Apel a comunicação como pura possibilidade já depende de critérios éticos, do contrário ela fracassa, isto é, perde-se a possibilidade de produzir qualquer sentido mínimo. Faz-se necessário o respeito pelo Outro: o parceiro da comunicação está inscrito nas condições de possibilidade (filosofia transcendental) de materialização da Razão (que estaria encarnada no uso da linguagem, por isso uma pragmática). "Argumento, logo existo". Um outro a priori da Razão Pura. Para o pragmatismo rortiano o que falta em pensadores como Apel e Habermas é "estômago" para a absoluta contingência e por isso insistem nessa obsessão por filosofias transcendentais. Para Apel (autor de "Estudos de Moral Moderna", Ed. Vozes), quando o homem aceita trocar alegremente a "verdade" pelo "útil" ou "eficiente", ele na realidade selou sua sorte: redução de sua capacidade cognitiva e racional. Trata-se de uma ameaça direta à verticalidade do Homo sapiens. Supor que a racionalidade estratégica (ainda que cheia de "boas intenções ianques") possa ser uma forma válida de se enfrentar a contingência ontológica é condenar-nos à barbárie. De qualquer forma, ouvir hoje alguém que busca quebrar uma certa unanimidade ruidosa acerca do caráter "sagrado"
da "eficiência" como "virtude (pseudo) teologal" que substitui a "verdade"
_essa coisa arcaica_ é já saudável em alguma medida, pois, se está correto
dizer como Nelson Rodrigues que "toda unanimidade é burra", é urgente
discordarmos para sermos menos idiotas.
*
Folha - Sua primeira tese foi sobre Martin Heidegger e sua preocupação então
era muito ligada à hermenêutica e a Hans-Georg Gadamer?
Karl Apel - Sim. Comecei por Heidegger e minha intenção era fazer
hermenêutica. Quando vi então os primeiros resultados do trabalho de Gadamer
caí em mim! Percebi que não era aquilo que eu queria, embora meu interesse
intelectual estivesse ligado ao triângulo Heidegger/Gadamer/Wittgenstein...
Folha - A crítica de um "logos" um tanto ingênuo? O senhor concordaria com a
idéia de que, se analisarmos sua obra e sua vida, poder-se-ia dizer que na
sua atividade de filósofo se encontram unidas sua história existencial e
suas preocupações puramente conceituais?
Apel - Claro! É impossível não ver que em mim o imperativo de pensar a
responsabilidade de um homem pelo Outro e o problema da ética
existencialista irracional de que cada um tem o direito de buscar a si mesmo
estão profundamente ligados. Isto é: o imperativo ético kantiano de buscar
uma ética válida em mim se torna uma angústia existencial. Durante a Segunda
Guerra, fui voluntário; naquela época não tínhamos uma percepção clara do
papel desastroso que teria a Alemanha na guerra...
Lembro-me de um soldado alemão desertor que foi fuzilado diante de meus
olhos. Antes de morrer, ele amaldiçoou Hitler, dizendo que na Alemanha não
havia mais lugar para se viver como indivíduo. O olhar dele me marcou
profundamente. De alguma forma comecei ali a despertar e senti um sentimento
de responsabilidade pelo destino daquele soldado.
Folha - O senhor diria que sua obra é uma tentativa de responder ao impasse
rortiano de que os vocabulários que lidam com problemas morais universais
não apresentam conexões conceituais, consistentes logicamente com os
vocabulários existenciais? Resumindo: Kant não dialogaria com Kierkegaard ou
Heidegger?
Apel - Exatamente. Rorty é um querido amigo. Ele é muito engraçado como
pessoa, você sabe, tem um humor fantástico. Diz o tempo todo: "Vamos
escrever romances". Onde estão os seus romances? Só vejo ensaios filosóficos
excelentes. "A verdade é a contingência!" Sou alguém que antes de tudo
espera contribuir para combater exatamente o que meu amigo Rorty representa:
o relativismo, o pragmatismo.
Folha - Entre o binômio "sagrado" de hoje em dia, Wittgenstein/Heidegger, e
o binômio "que esqueceu o Ser" e que "não conheceu o relativismo pragmático
da linguagem", Platão/Kant, o senhor fica com o segundo?
Apel - Sem nenhuma dúvida. Mas um Platão e um Kant que "leram" o primeiro
binômio que você colocou e abandonaram o "logos" ingênuo. Seria necessário
ler esses autores relativistas e fazer a crítica deles em vez de criar modas
paralisantes do pensamento, como Derrida _sei que ele não é só isso. É o que
eu chamo de pragmática transcendental: assimilar a crítica relativista (de
todos os tipos) e buscar as condições de possibilidade da operação racional,
que se torna assim consciente de seus determinantes históricos.
Veja: a crítica pragmática de que os significados das palavras são relativos
ao meio político-social que utiliza essas palavras (as formas de vida e os
jogos de linguagem de que falam os wittgensteinianos), ou seja, a tal saída
de cena da metafísica como critério da verdade para a entrada da política e
da contingência histórica como critério, como diria meu amigo Rorty, é um
dado fundamental. Não reconhecer o peso (e a angústia) da "verdade" que
trouxe o pragmatismo americano é uma ilusão perigosíssima!
Todavia (e aí incorro no "pecado europeu", como diz Rorty, eu e o Habermas
somos grandes "pecadores"), não se pode simplesmente ficar paralisado diante
da vitória da "doxa" sobre a "episteme". É a morte do pensamento, e é uma
ilusão achar que o homem pode sobreviver à morte do pensamento! Esse
problema me parece crucial: os relativistas contemporâneos, principalmente
os pragmáticos, que são os mais radicais, não percebem que o valor de sua
"descoberta" está na crítica que ela faz do solipsismo cognitivo e
epistemológico da teoria do conhecimento moderno (na realidade começa com
Santo Agostinho).
Descartes, Kant, Husserl, todos erraram quando pensaram que era um tipo de
"eu penso" solitário que poderia gerar uma racionalidade fundante para
qualquer "ciência". Proponho abandonar o "eu penso" pelo "eu argumento". E
no plano moral ainda é mais evidente tal fato: a moral, em sua essência, não
trata da realidade individual e solitária de um homem. E essa é a grande
liberação da razão que trouxe Habermas para os desesperados de Frankfurt: a
Razão não é só evidentemente estratégica, e esta não é radicalmente
racional. A razão está concretamente presente na linguagem. Existem
condições de possibilidade universais que sustentam qualquer argumentação
séria possível, sem as quais o argumentador cai em autocontradição
performativa. A filosofia transcendental é que deve lançar luz sobre essa
questão.
Folha - Seria como dizer que, na luta contra a "doxa", Platão deveria
escrever o "Heidegger", o "Wittgenstein" e o "Rorty"? Como se dá essa
impossibilidade de ultrapassar a necessidade universal da racionalidade a
priori?
Apel - Rorty diz: "Vamos deixar essa história de querer produzir conceitos
universais". A menos que ele esteja blefando, e aí é um problema de não
credibilidade ética cognitiva (como diria Habermas), ele pressupõe que
"vamos..." está alicerçado sobre argumentos que possuem o que os analíticos
chamam "validity claims" (consistência material e referencial das
asserções). Ele sustenta que a saída é desistir da "verdade"...
Folha - Trata-se de um exclusão pragmática da verdade?
Apel - Isso mesmo. Mas, sustentando a exclusão da "verdade", já se sustentam
os pressupostos argumentativos que possibilitam defender esta idéia, a
começar pelas palavras como "abandonar", "conceitos", "validade" etc. Até
mesmo a letra "a". Negar isso é cair em autocontradição performativa. Na
realidade ninguém, nem o segundo Wittgenstein, nem Rorty, nem qualquer outro
representante do "linguistic-pragmatic-hermeneutic-turn" pode renunciar ao
recurso lógico-intelectual público para expor suas teses relativistas acerca
da não validade universal das propostas filosóficas. No "público" já está
implícita a racionalidade discursiva. Assim sendo, os relativistas recorrem
a esquemas não-relativistas da argumentação para "provar" a
não-racionalidade da argumentação. É contradição performática. Esse tipo de
procedimento é um verdadeiro símbolo da atividade conceitual dos pragmáticos
não-transcendentais.
Folha - Mas como o senhor responde à racionalidade estratégica (a questão
"desesperada" dos frankfurtianos)? Podemos muito bem reconhecer que existe
uma racionalidade imanente à linguagem _assim como reconhecemos a
racionalidade "físico-química"_ e ainda assim a instrumentalizarmos a partir
de nossa "razão cínica", como diz Peter Sloterdijk. O senhor não estaria
sendo ingênuo, como diz o Rorty?
Apel - Isso me lembra a eterna questão de Dostoiévski: "Se a alma é mortal e
Deus não existe, tudo é permitido". Em outras palavras, por que devo ser
moral?
Folha - O problema indicado por Dostoiévski aponta exatamente para a
impossibilidade de fundar uma ética no nível de uma argumentação circular ou
imanente. Sem sair do mundo da "corrupção" e do "temporário" não se chega a
um imperativo universalmente válido.
Apel - Para que haja comunicação é necessário que o Outro fale e reconheça o
que eu falo. Nesse eixo já existe a assunção mínima de que há um campo
democrático e de respeito na argumentação sem o qual não existe comunicação.
É por isso que afirmo que é um tipo de racionalidade que demanda um outro
tipo de binômio cognitivo: sujeito/co-sujeito e não sujeito/objeto, como nas
teorias solipsistas modernas. É uma validade epistemológica intersubjetiva e
não uma busca de objetividade ingenuamente neutra, como nos propõe uma
ciência cega.
Os cientistas estão imersos em uma comunidade comunicacional real, do
contrário não conseguem nem mesmo fazer a hipótese "acontecer". Se um grupo
de pessoas discute algo com a intenção de chegar a uma conclusão, quem
roubar no jogo destrói a argumentação. Não se trata de uma "adesão" volitiva
irracional de tipo popperiano, mas de uma adesão racional cognitiva: se
roubarmos no jogo, acaba a argumentação, e a cognição buscada se desfaz. Sem
esse campo democrático de respeito, toda fala é blablablá... É a
argumentação que deve ser o modelo transcendental (sentido kantiano) para a
fundação de uma ética atualmente (o que chamo de ética da discussão), em um
mundo pós-metafísico, sem Deus e cheio de almas mortais que se
inter-relacionam não mais dentro de esquemas culturais grupais fechados (que
sustentavam a ética solidária no passado), mas por meio de gigantescas redes
tecnológicas e comerciais impessoais.
Folha - Seria então o modelo argumentativo _linguagem normativa_ a forma de
suplantar a sensação pós-heideggeriana e pós-wittgensteiniana do relativismo
paralisante?
Apel - Sim. Retomando o que dizia antes sobre a relação íntima de minha vida
com o impasse moral relativista, fica clara minha guerra contra a idéia de
que se possa ficar na consciência da temporalidade do "dasein" como
horizonte ou mesmo da linguagem pragmática imanente como "limite". Sem
"eidos" não se pensa, ainda que esse "eidos" tenha em algum nível
determinantes político-sociais e históricos, como bem dizem os pragmáticos
americanos (o fundo contingencial da historicidade).
Folha - O senhor identificaria um certo "esquecimento do 'logos'" em
Heidegger, assim como ele identificou o "esquecimento do Ser"?
Apel - Sim. A verdade é "alethéia", mas também (e antes, logicamente) é
"logos", do contrário mergulhamos no silêncio ou no ruído.

Luiz Felipe Pondé é doutor em filosofia e professor do programa de estudos
pós-graduados em ciências da religião da PUC-SP (Pontifícia Universidade
Católica) e da Universidade de Tel Aviv (Israel).

 


 


A filosofia sem salvação
BERNARDO CARVALHO
O americano Richard Rorty, 63, é um dos maiores expoentes da chamada "filosofia neopragmática" ou "pós-analítica".
Algumas de suas principais teses foram expostas no polêmico "A Filosofia e o Espelho da Natureza" (1979), onde atacava a idéia da mente como um espelho refletindo o mundo e as pretensões do pensamento metafísico a dar legitimidade ao conhecimento. Rorty não acredita numa correspondência direta entre o pensamento e o mundo -considera-se "antidualista, antiplattônico e antifundacionista" (é contra a idéia de que a filosofia paira acima da história e das práticas sociais e tem a função de fundar o conhecimento). É absolutamente contra todas as teses essencialistas ou universalistas ("Não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais", diz). Para ele, a filosofia (e por conseguinte a linguagem) deve ser, antes de mais nada, relativizada, colocada em contexto.
Professor da Universidade de Virginia (EUA), Rorty vem ao Brasil para uma conferência no dia 19, no Rio de Janeiro, dentro do projeto Banco Nacional de Idéias, cujo tema central é "O Relativismo Enquanto Visão de Mundo".
"Vou falar sobre as discussões entre os filósofos como eu, chamados de relativistas, e nossos críticos. Acho que relativismo é um termo errado para definir a minha filosofia, a de Derrida e a do pragmatismo americano de John Dewey, por exemplo. Não devemos nos descrever como relativistas, porque esse termo aceita premissas platônicas, que devemos rejeitar", diz o filósofo, que deverá debater com Luís Eduardo Soares e José Arthur Giannotti.
De seus livros mais significativos, apenas dois foram traduzidos para o português, em Portugal: "Filosofia e o Espelho da Natureza" e "Contingência, Ironia e Solidariedade".

Folha - Em "Filosofia e o Espelho da Natureza", o sr. vai contra a epistemologia e a metafísica. Que tipo de filosofia ainda é possível hoje?
Richard Rorty - A filosofia não deveria ser vista como uma disciplina científica, com uma função social a servir. Os filósofos são pessoas que tentam juntar novos desenvolvimentos culturais com regras familiares aceitáveis. Tentam reconciliar ética cristã com ciência newtoniana, por exemplo, ou iluminismo e racionalismo com uma perspectiva darwiniana da origem humana. Sua função é encontrar maneiras de reempacotar nossas crenças, de forma a que as novas crenças possam coexistir com as velhas.
Folha - No mesmo livro, o sr. diz que os filósofos que mais admira vêm de uma "tradição terapêutica". O sr. poderia explicar o que quer dizer com "uma filosofia terapêutica"?
Rorty - O termo terapia filosófica está associado, em inglês, a Wittgenstein, que era especialista em dizer que muitos dos problemas tradicionalmente discutidos em livros de filosofia simplesmente não precisam ser discutidos. São resultado de uma obsessão neurótica em relação a certos conceitos dispensáveis. Filosofia terapêutica é uma concepção de filosofia onde você tenta se livrar das muletas, da escolástica, das questões cujos temas provocam debates infindáveis e infrutíferos.
Folha - O sr. é um admirador de Heidegger. Qual seria o papel dele dentro dessa "filosofia terapêutica"?
Rorty - O trabalho inicial de Heidegger era uma polêmica contra Descartes e Kant, tentando colocar de lado a idéia que os dois faziam do que é o ser humano e os problemas filosóficos artificiais criados pelas imagens cartesianas e kantianas. Penso em Heidegger como um filósofo que fez, à sua maneira, o mesmo que Wittgenstein e Dewey fizeram.
Folha - Como o sr. explica a recente redescoberta e reavaliação de John Dewey (filósofo do pragmatismo americano, 1859-1952) pela filosofia?
Rorty - Acho que ele foi eclipsado por Marx. Os dois eram discípulos de Hegel e concordavam com o mestre contra Kant. Mas por um longo período, durante o tempo em que o comunismo pareceu ser uma opção possível, as pessoas pensaram que, se quisessem um ponto de vista antikantiano e anti-hegeliano, o lugar para achá-lo era em Marx. Hoje, com a queda do comunismo, Dewey parece melhor, surgindo como uma versão naturalizada e darwinizada de Hegel.
Folha - Há algum futuro para a filosofia num mundo onde verdade e objetividade foram completamente relativizados?
Rorty - Não há uma função para o tipo de filosofia que Descartes sugeriu que devíamos conduzir. Mas acho que sempre haverá a necessidade de intelectuais que tentem fazer a ponte entre o novo e o velho. Sempre haverá pessoas chamadas de filósofos na falta de um termo melhor.
Folha - Mas não haveria o risco de um vasto cinismo das idéias numa cultura em que conceitos como verdade e objetividade foram submetidos a um extensivo relativismo?
Rorty - É certamente uma possibilidade, mas o medo do cinismo também já estava presente nos séculos 17 e 18, quando os intelectuais estavam começando a secularizar a cultura. As pessoas pensavam que, sem as crenças religiosas tradicionais, o cinismo ia tomar conta. Estavam errados. Os intelectuais foram bem-sucedidos em secularizar a cultura sem produzir cinismo. Por analogia, espero que possamos nos livrar da metafísica e, ainda assim, evitar o cinismo.
Folha - O sr. trata de questões prioritárias também para filósofos de uma linha completamente diferente da sua, como os franceses Michel Foucault e Gilles Deleuze. Como o sr. vê a filosofia francesa pós-sartriana?
Rorty - Dos filósofos franceses que apareceram depois de Sartre, acho Derrida o mais importante. Ele tem o pensamento mais original e funciona muito bem dentro da tradição de língua inglesa da filosofia da linguagem contemporânea. Também admiro dois pensadores franceses mais recentes, Bruno Latour e Vincent Descombes, que escreveram contra a própria idéia de pós-moderno, contra os livros de Lyotard.
Folha - Por que o sr. é contra a idéia de pós-moderno?
Rorty - Acho que a noção de pós-moderno não tem qualquer utilidade. É mais uma tentativa artificial de sugerir que recentemente passamos por algo dramático e importante. Não acho que o século 20 faça essa passagem entre o moderno e o pós-moderno. Muito tempo e energia estão sendo gastos na reflexão sobre o tópico do pós-modernismo.
Folha - O sr. aceita o rótulo de filósofo pós-analítico que lhe é atribuído?
Rorty - Não tenho certeza. Creio que continuo sendo um filósofo analítico porque discuto muitos dos tópicos que foram discutidos por filósofos analíticos. Tenho a tendência a ficar nervoso com o termo pós, que me parece excessivamente usado.
Folha - O sr. chegou a dizer que não acreditava mais na possibilidade de uma filosofia analítica hoje...
Rorty - Acho que é um tipo de filosofia perfeitamente correta, não acho que seja impossível. Muito da filosofia analítica se tornou extremamente enfadonho, mas isso é uma outra questão. Há filósofos analíticos contemporâneos como Putnam e Davidson que, embora não sejam originais como Derrida, continuam fazendo importantes contribuições.
Folha - O sr. escreveu sobre o conceito de mente (mind) de uma forma original e inovadora dentro da perspectiva filosófica. O que o sr. pensa do trabalho recente de neurobiólogos como Gerald Edelman? Eles podem mudar alguma coisa nas ciências humanas e na filosofia?
Rorty - Não li muito de Edelman. O que li não me sugere que ele estabeleça qualquer relação com as questões que preocupam os filósofos. Não acredito que entenda bem o que os filósofos vêm discutindo.
Folha - O sr. também escreveu sobre a "filosofia da solidariedade". Poderia explicar qual o sentido do conceito "solidariedade" no seu trabalho?
Rorty - Não significa nada muito técnico. A idéia é que, se você abre mão de Deus, da idéia da verdade como uma representação exata e da natureza intrínseca da realidade, não sobra nada além das práticas sociais humanas em que você possa se ancorar. O termo solidariedade é apenas uma maneira de sugerir que nós, humanos, só podemos contar conosco e não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais.

Tradução de Clara Allain.


"Eu sou do contra"
Filósofo ataca a esquerda dos EUA, diz que o estudo da psicanálise é desnecessário e comenta a política de minorias
da Redação
''A esquerda americana deveria tentar se lembrar de outras coisas que a Guerra do Vietnã'', afirma Richard Rorty na entrevista a seguir, em que fala sobre o antiamericanismo dos intelectuais norte-americanos, a política das minorias nos EUA e a psicanálise. A entrevista foi concedida pelo filósofo aos professores Luiz Eduardo Soares e Jurandir Freire Costa, no Rio de Janeiro, no ano passado, e permaneceu inédita até hoje.
Na ocasião, o filósofo participava da conferência internacional sobre ''Pluralismo Cultural, Identidade e Globalização'', coordenada por Luiz Eduardo Soares e Candido Mendes de Almeida, com o apoio da Unesco. As conferências apresentadas no encontro foram reunidas em um livro com o mesmo título, que está sendo lançado nesta semana em edição não-comercial, em inglês, pela editora do Complexo Universitário Candido Mendes e Unesco.
*
Jurandir Freire Costa - Num artigo sobre o livro de Marcia Cavell ''The Psychoanalytic Mind - From Freud to Philosophy'', o sr. afirmou que deveríamos poder chegar a definir o sujeito de maneira bastante econômica como uma rede neural, de um lado, e, de outro, como uma rede linguística. É uma idéia que o sr. já havia defendido em escritos anteriores. Ou seja, se bem entendi, o sr. defende a idéia de que, se nos libertarmos da imagem do "teatro cartesiano", poderíamos dispensar a psicologia e guardar apenas a neurologia e a ''folkpsychology'' (psicologia popular). Esta ainda é sua atual impressão? Psicologia, psicanálise etc. estão destinadas a perder a importância que têm tido pelo menos desde o século 19?
Rorty - Diria que Freud ampliou a ''folkpsychology'' e não que ele criou uma nova ciência. A ''folkpsychology'' ampliou-se muito no curso dos séculos porque temos mais ilustrações, mais analogias. Podemos dizer isto de outro modo. Entre os intelectuais, não entre o povo, podemos falar de "momentos proustianos", "conversações jamesianas", "momentos de felicidade stendhalianos" etc. Tudo isso faz parte da ''folkpsychology''. Freud nos deu de um só golpe um enorme tesouro de analogias, de frases, de imagens, e com isso enriqueceu nosso vocabulário de descrição de nós mesmos, como certos romancistas. Eu diria que a ''folkpsychology'' não é exatamente ''folk'', mas também não é uma ciência.
Freire Costa - Com a expressão "não é exatamente 'folk' " o sr. quer dizer que não é popular?
Rorty - Sim. Entre nós, nos EUA, existem leitores que escrevem cartas aos jornais a propósito de questões pessoais. Existe uma senhora que lhes responde. As respostas são frequentemente muito boas. Quero dizer que, hoje, as respostas que encontramos nestas páginas seriam impossíveis sem Freud. Mas com isso não quero dizer que as respostas são simplesmente dadas "no jargão de Freud". É o pensamento de Freud mesmo que encontramos nelas! Poderíamos chamar isso de ''folkpsychology''.
Eu creio que isso se aplica mesmo para Lacan. Assisti a uma conferência de Zizek, com muitos exemplos de cinema, de romances policiais etc. Pois bem, mesmo uma pessoa como eu, que não entendo quase nada de Lacan, pude compreender algumas frases como "o objeto sublime do desejo". Ou seja, trata-se de uma ampliação do conhecimento de nós mesmos. Eu não diria que Lacan descobriu uma grande verdade sobre a condição humana. Lacan, simplesmente, deu-nos, em minha opinião, uma outra perspectiva sobre nós, mas ainda uma perspectiva.
Freire Costa - O sr. quer dizer uma outra descrição?
Rorty - A meu ver, a psicanálise forma um contínuo com a literatura. Não é um assunto para ser estudado; é um assunto sobre o qual se escrevem bons livros que devem ser lidos.
Freire Costa - O que é que o sr. pensa da política da identidade? É uma boa ou uma má idéia?
Rorty - Em inglês temos a expressão "grupos de interesse". Os trabalhadores, as mulheres, os médicos, os professores etc. podem formar grupos de interesse. Subitamente, criamos a expressão "política de identidade". Eu penso que isso é uma mistificação. Naturalmente nós temos grupos de interesse. Mas identidade? Minha questão é: qual é minha verdadeira identidade? Homem? Professor? Branco? Eu penso que essa é uma questão que não merece ser posta!
Freire Costa - Não faz sentido querer fixar identidades?
Rorty - Se somos membros de um grupo oprimido, temos uma identidade como membro de um grupo oprimido. Se somos negros, se somos homossexuais e, por isso, quiserem bater-nos, então devemos protestar, devemos dizer: ''Não! Não se pode bater em negros ou homossexuais''. Mas saber o que é exatamente um homossexual ou, então, o que é exatamente a identidade negra, é uma questão para filósofos e não uma questão política. Eu sou membro da Associação Americana de Professores Universitários. Nós somos um grupo de interesse, quer dizer, temos leis que existem para nós. Mas não existe algo como "uma identidade profissional de professor".
Freire Costa - Quando se pergunta "o que é uma identidade?", o sr. acha que existe a tendência a buscar-se um referente imutável da "identidade"?
Rorty - Sim. Creio que na questão da política de identidade há sempre uma divisão entre essencialistas e antiessencialistas. Os essencialistas querem dar definições; os antiessencialistas dizem: ''Não! O problema é muito complexo para que se possa definir, trata-se de um jogo infinito de diferenças etc.''. Eu acho tudo isso tedioso. Existe uma batalha estéril entre aristotélicos e derrideanos (de Jacques Derrida). Eu não sei o que fazer com isso. Para divertir-nos, podemos escrever coisas deste tipo: o que é um professor, o que é uma mulher etc. Mas, falando politicamente, nada disso é sério.
Freire Costa - Mas o sr. não acha que, em discussões deste tipo, tentativas de descrever fatos de uma outra forma têm algum valor? Por exemplo, lembro de um texto de Stephen Jay Gould em que ele diz que a noção de raça é extremamente discutível em biologia ou zoologia. Ou seja, por que continuamos guardando esta noção aplicada aos humanos, quando muitos já a abandonaram no estudo do reino animal? O sr. não acha que vale a pena discutir coisas como esta, dizendo que isso não faz sentido?
Rorty - Sim, mas acho que é mais importante descrever, por exemplo, as particularidades da vida de um homem negro, de uma mulher pobre etc. É verdade que num nível mais abstrato podemos fazer redescrições. Isso talvez possa ser útil. Mas o que considero verdadeiramente útil é descrever os indivíduos em termos novos, imaginativos, e não de maneira abstrata. Nos últimos anos, temos uma literatura homossexual enorme, o que é bem mais útil do que a ''Psychopathia Sexualis'' (de Kraft-Ebing) ou mesmo do que as teorias de Freud sobre o assunto.
Luiz Eduardo Soares - A impressão que o sr. tem a respeito de seus colegas, os filósofos profissionais, foi um fator que pesou em sua decisão de abandonar os departamentos de filosofia e se transferir para as ciências humanas?
Rorty - Essas decisões sempre são um pouco pessoais, as relações pessoais que se tem com os colegas entram em jogo. Eu não estava me dando muito bem com meus colegas, estava lá havia 20 anos. Eles estavam entediados comigo, e eu com eles. Isso também era mau para meus alunos. Nos Estados Unidos, se um estudante escreve uma dissertação sobre Heidegger, é um escândalo. Então os alunos diziam: ''Posso escrever sobre Heidegger?''. Claro, mas meus colegas não vão gostar. Isso criava situações difíceis. O tipo de estudante que eu gosto é aquele que lê de maneira onívora, que lê de tudo, então é esse o tipo de estudante que eu atraio, mas não é uma recomendação geral.
Soares - Seu texto vem se tornando cada vez mais direto, seco, simples, é claro que não menos complexo, mas mais simples. Dá a impressão de ser uma decisão deliberada, um projeto, como se o sr. precisasse de uma certa estética do escrever para estabelecer um palco ou para dramatizar, para possibilitar também uma maneira de pensar ou talvez de comunicar, e minha impressão é que se torna muito evidente a qualquer um que o lê mais atentamente que isso parece constituir um diálogo íntimo e não dito com a filosofia francesa, na qual a retórica é tão importante.
Rorty - Isso ocorre porque existe muita imitação dos franceses entre meus colegas dos departamentos de literatura. As pessoas para as quais eu escrevo nos EUA tendem a ter lido Derrida e Lacan e escrevem numa espécie de imitação francesa, e, assim, para irritá-las, escrevo de maneira tão diferente da francesa quanto possível. Você sabe o que é ''do contra'' _alguém que faz tudo do jeito oposto. Eu sou do contra. Se todo mundo está fazendo de um jeito, sempre vou tentar fazer de algum jeito diferente. Eu simplesmente gosto de efeitos verbais.
Soares - Qual o escritor de sua preferência?
Rorty - Aqueles sobre os quais escrevi: Proust, Nabokov, Henry James. Mas também tenho livros favoritos que já li e reli muitas vezes. Acho que todo mundo tem livros assim. Não é que sejam grandes livros ou que você aprenda alguma coisa com eles, você os ama, apenas, então os relê muitas vezes.
Soares - Por exemplo?
Rorty - Há um escritor inglês, Max Beerbohm, que escreveu um livro chamado ''Zuleika Dobson''. Publicado em 1912, é um romance muito engraçado, um romance de humor. Acho que é um dos livros mais engraçados que já li na vida. Eu o releio a toda hora. Falo a meus alunos sobre o livro, e eles não entendem a graça. O livro não quer dizer nada para eles.
Soares - Tenho ouvido reações indignadas contra suas considerações e relações a respeito do patriotismo. O modo como o sr. expressa sua relação, sua admiração pelos Estados Unidos. Essas reações vêm de intelectuais que também são norte-americanos.
Rorty - Tínhamos uma esquerda patriótica nos EUA até a Guerra do Vietnã. Ou seja, as pessoas de esquerda nos EUA achavam que os EUA eram um grande país, que poderíamos recuperar os bons velhos tempos de Lincoln e Wilson. Depois veio a Guerra do Vietnã e de repente os intelectuais de esquerda norte-americanos disseram que o país não prestava, que eles tinham sido enganados. A esquerda norte-americana ainda acha que os EUA são um país terrível. Mas é claro que os cidadãos não acham que sejam um país terrível, ainda acham que é um grande país. Então meu argumento é que a esquerda nos EUA deveria tentar se lembrar de alguma coisa além do Vietnã.
Ela deveria parar de dizer que este é o país que oprimiu os negros, que matou os vietnamitas, que este é o país racista, o país sexista. Praticamente todos os países são imperialistas, racistas e sexistas e, comparado a outros países, este é OK. Em meu artigo ''Intellectuals in the Fore'', em que há várias páginas sobre o antiamericanismo, o que procuro argumentar é que a esquerda adotou essa política da identidade, na qual se considera que devemos abandonar a idéia do Grande Sonho Americano como se fosse ilusão. Quero dizer que é melhor não o abandonarmos, pois é tudo que temos. É o único meio de comunicação existente entre a esquerda e o público.
Soares - Admitiria políticas defensivas, como a ação afirmativa?
Rorty - Claro.
Soares - É favorável à manutenção da política de ação afirmativa?
Rorty - Não por ser um reconhecimento de identidade, mas porque, se tivermos ação afirmativa, este país será mais simpático.
Soares - O sr. não acha que o feminismo, enquanto movimento, nasceu fora desse contexto? Ou ele teria vindo dentro dele?
Rorty - Não, houve o que chamam de feminismo de primeira onda, em 1920, a questão do sufrágio, e ninguém achava que era uma questão de identidade, era uma questão de direitos. Depois o feminismo de segunda onda se dividiu entre pessoas que diziam ''direitos'' e as pessoas que diziam ''identidade'', porque haviam lido francês. Os americanos, na minha opinião, falam demais sobre direitos. Mas, entre direitos e identidade, é melhor falar sobre direitos. É melhor dizer simplesmente ''é injusto'' do que dizer ''minha identidade não está sendo reconhecida''. Acho que a identidade virou objeto de fetiche. Os intelectuais nos EUA passam 90% de seu tempo falando sobre identidade, isso não tem ligação com uma disciplina política, é uma espécie de preocupação estética.


MATERIAL EM EDICAO

Mea philosophia

13/03/1999

Mea philosophia - Marilena Chaui e Bento Prado Jr. dialogam sobre a filosofia de Espinosa - BENTO PRADO JR.em breve estará à disposição dos leitores o novo livro de Marilena Chaui sobre Espinosa. O Jornal de Resenhas propôs-me a tarefa de apresentá-lo ao público apoiado na viva voz da autora.Com a entrevista, cremos, fica clara a estrutura da obra, destinada a três públicos diferentes, e a necessidade de sua extensão. Descobrimos também seu lugar na tradição dos estudos espinosanos no Brasil, a partir da obra inaugural de nosso mestre comum, Lívio Teixeira. Assim como podemos vislumbrar a singularidade da leitura proposta por Marilena, no que tem de comum e no que se afasta de empresas contemporâneas como as de Gilles Deleuze, Antonio Negri, Etienne Balibar e Alexandre Matheron. A própria idéia de "nervura do real" é esclarecida, mostrando o alvo último do trabalho.Além do mais, a entrevista restitui o prazer da conversação, cada vez mais raro, mas que tem a ver essencialmente com a filosofia, desde seu nascimento.*

Bento Prado Jr. - É notório que seu livro é muito longo. Pergunto, então, pela razão dessa extensão. Um leitor malévolo poderia afirmar que seria possível dizer as mesmas coisas em menos páginas. Não deve ser o caso, e sei que a forma do livro exprime sua intenção mais profunda. Então, por que esse volume?

Marilena Chaui - Quando pensei esse livro, eu o inseri numa série que inauguraria uma biblioteca espinosana brasileira e seria constituída pela publicação do livro de Lívio Teixeira (deveria ter sido o primeiro da série, o que não foi possível), seguido do meu e dos de dois colegas do Rio, Lia Levy e Marcos Gleizer.Como a intenção da série é formadora e informadora, meu livro se dirige a três públicos diferentes e, por isso, é extenso. Dirige-se a um público que não conhece história da filosofia nem Espinosa, mas já ouviu falar dele e poderia ter interesse em ler sobre esse curioso filósofo. Para esse público foi preciso oferecer muita informação sobre história da filosofia, Espinosa e a Europa do século 17. Há um segundo público, que conhece a história da filosofia, mas não está familiarizado com Espinosa. Para esse foi necessário mostrar sua inserção nas tradições filosóficas judaicas, cristãs, antigas, medievais e modernas, de modo que ficasse claro por onde passa a subversão espinosana. E o terceiro público é o dos especialistas, para os quais fica clara imediatamente qual é minha interpretação, contra quais e a favor de quais eu me coloco. Se tivesse escrito só para esse público, o livro certamente seria bem menor.Há mais duas razões para a extensão do livro. A primeira é a maneira como entendo o trabalho em história da filosofia, isto é, mostrando que uma filosofia interroga a experiência de seu tempo, é constituída por essa experiência e é também constitutiva dela, de sorte que a história não é um mero contexto externo à obra, e sim que ela precisa emergir da própria obra, esclarecendo-se nela e a esclarecendo também. A história da Holanda, a história do pensamento judaico, a história da modernidade filosófica participam da constituição da obra de Espinosa e essas informações tiveram que ser dadas para que ficasse claro para o leitor que a relação entre obra e história é interna.A segunda razão é o estilo de Espinosa. Trata-se de um autor extremamente conciso. Sua obra magna, a "Ética", tem cem páginas! Com exceção do "Tratado Teológico-Político", suas demais obras são curtas. Esse laconismo obriga seu comentador a mergulhar na erudição e na filologia para poder explicitar o implícito. De todo modo, não estou sozinha em extensão textual. O comentário de Martial Guéroult à parte primeira da "Ética" gasta 698 páginas para analisar 30 de Espinosa. Via de regra, os livros sobre Espinosa tendem a ser longos, porque o intérprete precisa explicitar textos de elegante concisão, fina ironia e profundidade, aceitando um ditado que volta e meia Espinosa menciona: "Para bom entendedor, meia palavra basta".

Prado Jr. - Já que, como Espinosa, você começa "in media res", dispensando uma introdução "didática", quero perguntar-lhe quais são as etapas de seu livro e qual seu alvo final. Sobretudo porque não conhecemos a segunda parte ou o desfecho do trabalho.

Chaui - A intenção do livro é dupla. Ergue-se contra a tradição interpretativa que declara que numa filosofia da imanência (isto é, da existência de uma única substância no universo) não pode haver seres singulares reais e que também declara que, numa filosofia que afirma a necessidade absoluta das causas e leis da realidade e que exclui a idéia de livre-arbítrio, não pode haver liberdade, uma vez que esta exige a existência do contingente e do possível, e da vontade que escolhe.Minha tarefa é, primeiro, mostrar como a imanência de Deus à natureza ou a existência de uma única substância no universo é a condição para haver seres singulares reais; e, em seguida, mostrar como se dá a construção da concepção judaico-cristã da liberdade a partir da imagem da ação divina como uma ação voluntária contingente e da ação humana como ação voluntária contingente, construção que produz uma oposição entre necessidade e liberdade; e, por fim, depois de mostrar como se dá a oposição imaginária entre liberdade e necessidade e a articulação imaginária entre vontade e liberdade, mostrar como Espinosa desconstrói esse imaginário e como somente em sua filosofia ganham sentido as idéias de liberdades divina e humana.O "télos" do livro depende do eixo à volta do qual examino as teses espinosanas, mostrando que a filosofia de Espinosa realiza uma subversão filosófica sem precedentes porque é a elaboração rigorosa e sem falhas do que chamo de ontologia do necessário. Trata-se de uma subversão, porque a teologia judaico-cristã, a metafísica moderna e a ontologia contemporânea são dimensões e etapas da construção do pensamento ocidental hegemônico, isto é, a ontologia do possível, inteiramente recusada e criticada por Espinosa.Passo agora à questão da arquitetura do livro.Ele está estruturado para mostrar como é construída a ontologia do necessário e, portanto, centrado no conceito de imanência e de unicidade substancial. Isso é feito sob a forma de um diálogo conflituoso de Espinosa com a tradição filosófica, que vai sendo demolida. Trabalho com a idéia da obra como um pensamento que se realiza em dois registros simultâneos: como contradiscurso que demole o instituído e como discurso que labora um pensamento novo. Uma vez demonstrada a existência dos seres singulares e afastada a noção imaginária de vontade livre, mostrarei futuramente como Espinosa concebe a relação entre a alma e o corpo e como pensa a atividade e a passividade corporal e psíquica, de maneira a vermos como se constitui a idéia de liberdade humana e por que é inseparável da idéia de necessidade. Para Espinosa, o oposto à liberdade não é a necessidade, mas a contingência, pois é lá onde há contingência que existe servidão.Abro o livro com uma "Introdução", na qual me refiro à pluralidade de interpretações da obra espinosana. Em seguida vem a "Parte 1", "A Construção do Espinosismo". O tema dessa parte não é Espinosa construindo sua obra, e sim a construção das interpretações de sua obra.

Prado Jr. - Posso interrompê-la? Recordo-me da primeira pergunta que lhe fiz em seu concurso para professora titular: apoiado na distinção tradicional entre marxismo, marxologia, marxianismo, perguntei se você se considerava espinosista, espinosana ou espinosóloga.

Chaui - Nesse livro uso o seguinte léxico: espinosano, espinosana, espinosista e espinosismo. Espinosano e espinosana se referem ao discurso e ao pensamento de Espinosa. Espinosista se refere às interpretações referentes a Espinosa. E espinosismo se refere à suposição de que exista uma doutrina de Espinosa. Espinosista e espinosismo são usados em sentido pejorativo, Espinosano e espinosana com sentido afirmativo. Aliás, essa distinção vem daquela pergunta que você me fez."Construção do Espinosismo": com isso pretendo mostrar como foi produzida uma imagem do filósofo e de sua obra, imagem que foi uma interpretação inicial de onde provieram todas as subsequentes. Procuro mostrar que a produção da imagem do espinosismo se inicia com Espinosa ainda vivo e, para isso, examino as cartas anteriores à escrita da "Ética". Os correspondentes holandeses de Espinosa, ao lerem essas duas primeiras obras numa chave cristã, se escandalizaram, dando início ao esboço da figura do filósofo como fatalista e ateu, mas também, e contraditoriamente, como entusiasta (portanto, um místico).A seguir, mostro como essa imagem se consolida após a morte de Espinosa, quando é publicada a "Ética". Examino a reação dos filósofos _Leibniz, Henry More e Malebranche_ e, depois, o texto daquele que dá origem à tradição interpretativa que vai do século 17 até nossos dias, o verbete "Espinosa", do "Dicionário" de Pierre Bayle. Desse verbete provêm as interpretações leibniziana, da Ilustração, hegeliana, kantiana, ou seja, a fortuna crítica da obra de Espinosa não nasce da leitura dessa obra, mas da leitura do verbete de Bayle.

Prado Jr. - Posso interrompê-la mais uma vez? A figura do "fatalista", essa expressão é polêmica e insultuosa, essencialmente antiespinosista. Mas, quando Diderot escreve "Jacques le Fataliste", não assume ele o contrário? Algo como a boa face do fatalismo?

Chaui - Sim. A situação do século 18 é curiosa. A obra de Espinosa vai suscitar um fascínio muito grande, pois responde ao materialismo do período, ao mesmo tempo em que vem com o peso de uma tradição interpretativa já constituída. Não há nenhum autor do século 18 que não se defina com relação a Espinosa porque ele é a atração e a repulsa máximas, em grande parte produzidas pelo verbete de Bayle. Esse verbete é complicadíssimo, porque é uma fina peça de retórica judiciária na qual é montado um processo contra Espinosa a fim de explicar a existência de uma figura, até então impensável, a do "ateu especulativo" (admitia-se a existência do ateu prático), pois não pode haver pensamento nem especulação filosófica ali onde não houver o fundamento verdadeiro e último, Deus. Um ateu, como dizia Descartes, pode aprender matemática, mas jamais terá como provar que conhece a verdade. Espinosa se torna um assombro porque seria um ateu filósofo. Um dos grandes debates políticos herdados pelo século 17 é o da possibilidade de uma república atéia. Julgada impossível até então (não há vida comunitária e virtuosa sem Deus), começa, graças sobretudo aos libertinos, a ser considerada possível e virtuosa . Sob esse ponto de vista, os primeiros leitores da obra de Espinosa não têm dúvidas em julgá-lo libertino ou ateu prático. Todo o problema aparece, porém, com a "Ética" e o "ateísmo especulativo", cujo núcleo e objeto da crítica do século 17 ao 20 é, justamente, o fatalismo, isto é, a imagem cristã do que chamo de ontologia do necessário.

Prado Jr. - Porque o objeto da especulação (essência da "metafísica") é Deus, a origem...

Chaui - Sim. Um ateu prático, ou seja, moral, é coisa corriqueira. Impensável e monstruosa é a figura de um ateu especulativo. Diante do desconcerto que provoca, compreende-se que Bayle conclua o verbete dizendo que Espinosa é louco. Por isso, conclui, ninguém precisa se preocupar com essa filosofia insidiosa e perversa que atormenta os espíritos cristãos, pois se trata da obra de um louco manso, de alguém que, se tivesse levado a sua loucura até o fim, seria um fatalista coerente e teria ficado em silêncio.Se do verbete de Bayle nasce o ateu fatalista, na interpretação de Henry More surge o melancólico entusiasta, aquele que se imagina imerso na divindade. Ora, no século 17, entusiastas são todas as seitas e partidos revolucionários radicais que querem, no dizer de Christopher Hill, "virar o mundo de ponta-cabeça". Assim como o fatalista é um perigo para religião e o Estado, os entusiastas também o são, o que significa que Espinosa é perigoso em qualquer roupagem.Na segunda parte procuro acompanhar Espinosa elaborando sua filosofia. A tradição considera que ela é uma mescla de racionalismo cartesiano com neoplatonismo e estoicismo e de elementos da teologia judaica. O que procuro mostrar é a torção conceitual a que Espinosa submete o legado cartesiano, medieval e judaico, isto é, o pensamento da transcendência e da contingência. Em suma, investigo como o pensamento espinosano vai sendo elaborado no embate com a tradição filosófica.

Prado Jr. - No nível do tratado ou da suma tradicionalmente definidos, desde a Idade Média? Quase como "quaestiones disputatae"...

Chaui - Sim, pois ali Espinosa não esconde o tom polêmico, mas o enfatiza. Essa ênfase é preciosa para o intérprete porque lhe permite acompanhar o nascedouro da obra em seu tempo próprio, no embate com outras.Feito isso, passamos à exposição da obra já elaborada. Por isso a terceira parte se intitula "Mea Philosophia", expressão que Espinosa emprega para referir-se à sua filosofia, ou melhor, à "prima philosophia", pois jamais emprega o termo "metafísica". A obra magna, a "Ética", é escrita à maneira dos geômetras. Então era preciso explicar ao leitor o que é ordem geométrica no século 17 e por que a geometria espinosana não é a cartesiana, nem a hobbesiana, nem a matemática leibniziana.Assim, na introdução, dialogo com os outros comentadores da obra; na primeira parte, Espinosa dialoga sobre teologia política com seus contemporâneos; na segunda, Espinosa subverte a tradição e o legado cartesiano; na terceira, o pensamento de Espinosa se apresenta nos textos escritos para seus amigos (o "Tratado da Emenda" e cartas) e em sua obra magna, a "Ética", como ontologia do necessário e da liberdade humana.Meu empenho é mostrar que estamos diante de uma subversão filosófica porque vemos nascer e expor-se a ontologia do necessário, de tal maneira que a dimensão afirmativa da obra de Espinosa é também a demolição do núcleo do pensamento ocidental judaico-cristão, qual seja, uma ontologia e uma metafísica do possível cujo pressuposto é uma teologia da transcendência de um Deus pessoal, dotado de intelecto e de vontade. Com isso fica preparado o terreno para que se compreenda como e por que há seres singulares reais, por que a ação desses seres é necessária, como necessária é sua causa (Deus) e por que é essa necessidade causal a condição de sua liberdade efetiva.

Prado Jr. - Vamos voltar à acusação de fatalismo ou de necessitarismo... Você poderia explicar ao leitor de que modo Espinosa destrói a idéia de livre-arbítrio sem abrir mão da de liberdade?

Chaui - Vamos lá. A questão da contingência é posta de maneira diferente da aristotélica com o surgimento do pensamento judaico-cristão, quando aparece a noção de criação do mundo. Embora mantendo a concepção aristotélica da contingência, o pensamento judaico-cristão terá que deslocá-la para a própria ação de Deus, pois não pode conservar a idéia da necessidade eterna da natureza, uma vez que o mundo foi criado e a criação é efeito de uma causa contingente, isto é, a livre vontade de Deus, a qual poderia não ter criado o mundo se não o quisesse. Se a existência do mundo fosse necessária, julgam teólogos e filósofos, estariam aniquiladas a onipotência e a liberdade divinas.A obra de Espinosa é a destruição da idéia de uma causa voluntária que age contingentemente, isto é, de uma vontade _divina ou humana_ cuja liberdade seria provada pela contingência de suas ações, isto é, pelo poder fazer ou deixar de fazer alguma coisa. A demolição se realiza em duas etapas. Na primeira, Espinosa oferece as causas que levam a imaginação humana a construir essa imagem de um Deus como pessoa transcendente, mera projeção de uma imagem do homem como livre-arbítrio, pois tanto essa imagem de Deus como a do homem são ilusórias. Na segunda etapa, o filósofo demonstra que Deus é Deus porque age necessariamente, segundo as leis necessárias de sua essência e de sua potência. A tradição sempre afirmou que Deus age de acordo com sua vontade onipotente, com seu intelecto onisciente ou com a junção de ambos.Espinosa demonstra que essas noções são imaginárias, que Deus não é intelecto nem vontade, que a perfeição divina são as leis necessárias da essência divina e que a liberdade divina é o poder de Deus para autodeterminar-se à ação, e jamais um ato de escolha entre possíveis. Assim, ao deslocar o lugar da ação divina e o modo dessa ação, Espinosa desmantela a idéia de uma causalidade contingente. No tocante aos seres humanos, a liberdade também não se localiza numa vontade livre que delibera e escolhe entre possíveis contrários. Numa filosofia da necessidade absoluta, a liberdade humana também será, como a divina, o poder de autodeterminação para agir, ou o que Espinosa chama de "causa adequada". Somos livres quando a ação por nós realizada decorre da necessidade de nossa natureza, da força interna de nosso ser e não do poderio de causas externas sobre nós. Justamente porque somos modificações do ser absoluto, nossa liberdade é como a divina. Em suma, a liberdade humana é a força interior de nosso corpo e mente para produzir e acolher a pluralidade simultânea de movimentos corporais, afetos e idéias. A liberdade não é escolha e sim autodeterminação necessária e riqueza de vida. A consequência é imediata: contingência significa ausência de ação; é a passividade submissa ao poder de forças externas inesperadas e imprevisíveis. Numa palavra, Espinosa demonstra que a articulação entre liberdade e contingência destrói a liberdade, em vez de afirmá-la. E se teimamos em opor necessidade e liberdade é porque fomos acostumados pela tradição teológico-política a identificar necessidade com autoridade ou decreto, e liberdade com desobediência.

Prado Jr. - Eu havia cancelado uma pergunta a que devo retornar. É importante que você situe seu trabalho na tradição dos estudos espinosanos no Brasil, entre a obra inaugural de LívioTeixeira e a dos pesquisadores mais recentes.

Chaui - Na origem do meu trabalho estão os cursos do professor Lívio no departamento de filosofia da USP e a sua tese sobre Espinosa, ainda não publicada.Quando resolvi fazer filosofia, estava buscando respostas a questões de natureza religiosa. Era uma cristã perplexa. No exame vestibular, na prova oral de filosofia, o professor Lívio me perguntou por que eu queria estudar filosofia e lhe expliquei que era por isso. Ele me disse que a filosofia não iria dar-me essas respostas. Passei no vestibular e, no segundo ano da graduação, segui o curso que ele ministrava sobre a "Ética". A última aula foi dedicada a uma análise da "Parte 5" dessa obra. Quando o professor Lívio terminou a exposição, eu, do fundo da classe (e, você se lembra, naquele tempo, nós éramos muito contidos, a relação em classe era muito cerimoniosa), não me contive e exclamei: "Mas, professor, é isso que eu procurei a vida inteira, procurei alguém que me dissesse que é possível viver sem culpa e que a felicidade é possível". Foi assim a minha iniciação a Espinosa. Amor intelectual à primeira vista...Quando comecei a estudar Espinosa, fiquei quase paralisada, pois não conseguia entender uma única palavra. Era impenetrável. Quando o departamento de filosofia decidiu que eu deveria fazer meu doutorado na França, você e (José Arthur) Giannotti sugeriram que eu trabalhasse sobre um clássico e decidi que seria Espinosa. Minha relação com Espinosa é coisa antiga, nascida pelo fascínio por essa filosofia de um Deus imanente à natureza, por essa ética da liberdade e da felicidade que coloca a culpa, o remorso, a humildade do lado das paixões tristes e da servidão, e vê na alegria nossa verdadeira salvação...Quando comecei meu trabalho, em 1968, pretendia que fosse uma continuação da tese do professor Lívio. Foi assim que trabalhei inicialmente com Victor Goldschmidt, na França. Mas quando voltei para o Brasil, logo depois do AI-5, achei que precisava pensar a tirania, a violência política, e por isso meu trabalho se voltou para o "Tratado Teológico-Político" e para o "Tratado Político", de tal maneira que a "Ética" servia apenas para assegurar o fundamento das teses desse dois tratados.

Prado Jr. - Funcionava como um idéia reguladora...

Chaui - Sim. Eu estava tentando, por meio de Espinosa, pensar o Brasil. Com ingenuidade de neófita, imaginava que essa relação poderia ser imediata. Mas a guinada foi muito importante para mim, porque, ao ler o Espinosa dos tratados políticos apoiados na ontologia, pude perceber que a própria ontologia espinosana foi elaborada como embate efetivo com uma tradição poderosíssima, a da teologia política.

Prado Jr. - Entre parênteses, talvez não seja apenas uma contingência da situação brasileira, pois, se não me engano, a leitura de Espinosa nos anos 60, não só no Brasil, redescobriu essa dimensão política...

Chaui - Não é bem assim. O que se fazia, sobretudo por causa de Althusser, era a remissão de Marx a Espinosa, mas nunca inteiramente explicitada e esclarecida. Nos anos 60, há os trabalhos de Guéroult e Deleuze: o primeiro não se interessou pela questão política e o segundo empenhou-se em antever Nietzsche em Espinosa. É nos anos 70, com os livros de Alexandre Matheron e Antonio Negri que se inicia realmente uma leitura da obra política de Espinosa e uma interpretação política da própria "Ética". Quando fiz o meu ingênuo doutoramento, essas obras também estavam em preparação. Mas você tem toda razão em dizer que os anos 60 estimularam uma leitura política de Espinosa, uma leitura de esquerda.

Prado Jr. - É isso que estou dizendo. Não é só a circunstância de ditadura no Brasil, é algo mais planetário.

Chaui - Concordo. Mas ainda considero que o melhor trabalho para uma iniciação ao pensamento de Espinosa é o do professor Lívio, que recomendo como leitura obrigatória para todos os que vêm estudando Espinosa comigo. Quanto à minha trajetória, fui caminhando e me distanciando, não do que ele diz, mas de suas preocupações.Sobre a nova nova geração _Lia Levy, Marcos Gleizer e Ulisses Pinheiro, que foram formados por Raul Landim e depois trabalharam com Jean-Marie Beyssade_, o mais importante para ela é a relação entre Espinosa e Descartes, e a ênfase recai mais sobre as questões epistemológicas e as repercussões dessas questões sobre a ética, enquanto estou mais preocupada com a ontologia, a ética e a política. Como eles e eu orientamos trabalhos sobre Espinosa, em breve estará consolidada uma tradição brasileira que se pauta pela aceitação de perspectivas diversas de análise.

Prado Jr. - Depois de ter situado seu trabalho dentro da tradição brasileira de espinosologia, eu pediria para você se situar em relação a alguns comentadores recentes de Espinosa. Estou pensando no artigo de Antonio Negri, que saiu justamente na Folha (Mais!, 28/02/99), no qual ele fala de Espinosa como antídoto ao pensamento pós-moderno. E de fato, como você mesmo disse, há nos escritos de Negri, e também nos livros de Matheron e Deleuze, uma nova leitura de Espinosa, até porque o Espinosa de Deleuze é um nietzschiano, mas de esquerda.Vejamos o texto do Negri. Ele afirma que tal releitura consiste em cinco revisões da interpretação tradicional que Hegel realizara, que subvertia a imagem de um Espinosa panteísta, acósmico e a-histórico. Você disse que, numa determinação negativa da filosofia de Espinosa, deve-se primeiro observar que essa filosofia não é panteísmo, nem emanatismo, não é neoplatonismo, nem monismo e tampouco acosmismo. Quer dizer, você está tentando retirar a filosofia de Espinosa da roupa pronta que lhe foi colocada por pensadores fiéis a tradições com os quais ele rompia. Aqui, creio, aparentemente há semelhanças com os trabalhos de Matheron e Deleuze, que também caminham para afirmar que não há acosmismo, panteísmo e todas essas coisas que eram consideradas ou defeitos ou qualidades de Espinosa.Além disso, todos eles também insistem na dimensão política de Espinosa. Uma dimensão que, pelo menos para mim, que conhecia apenas o Espinosa de nosso mestre Lívio Teixeira, foi uma surpresa. (Foi uma descoberta quando li seus primeiros textos sobre o Espinosa do "Tratado Teológico-Político".) Enfim, gostaria que você falasse um pouco sobre o que há de parecido e de diferente entre sua leitura e essas outras.

Chaui - Os estudos mais recentes sobre Espinosa concordam no que recusam: Espinosa não é panteísta, monista ou acosmista. Mas a concordância termina aí, porque disso resulta a busca de novos termos para qualificar a filosofia espinosana e, de modo geral, não concordo com os termos propostos, pois acarretam problemas que a própria obra não propõe. Além disso, muitos conservam, por exemplo, a afirmação do monismo, porque para Espinosa há uma única substância no universo. Ora, ele só seria monista se a substância absolutamente infinita fosse constituída por um único atributo (por exemplo, seria apenas extensa ou seria apenas pensamento), mas ela é constituída por infinitos atributos infinitos, é infinitamente complexa e diferenciada e, portanto, o termo "monismo" é um contra-senso. No caso da recusa do acosmismo (o termo é de Hegel, mas a origem dessa idéia encontra-se no verbete de Bayle, coisa que ninguém havia levado em conta), você pode chegar a conclusões espantosas. Por exemplo, Matheron termina seu primeiro livro sobre Espinosa comparando a estrutura do universo proposta pela "Ética" e o cosmos proposto pela árvore sefirótica da cabala judaica, deixando de lado que essa árvore (mística e não geométrica) tem como pressupostos a transcendência radical do absoluto e a idéia de emanação, isto é, duas idéias criticadas e rejeitadas por Espinosa

.Prado Jr. - Seriam as nervuras daquela árvore...

Chaui - Não exatamente, pois a idéia de nervura afirma a imanência, recusando a transcendência e a emanação. Ora, essas duas idéias são inseparáveis da noção de graus de realidade ou de hierarquia dos seres, graus e hierarquia criticados e recusados por Espinosa. Dizer que Espinosa não é acosmista não é dizer que sua filosofia manteria a idéia da natureza como cosmos, e sim mostrar que o conceito de "ordem necessária da natureza" se refere à atividade real de produção de todos os seres pela causalidade imanente dos atributos da substância e de seus modos infinitos, que essa atividade constitui a estrutura da realidade e que esta é infinita. Exatamente porque a realidade é infinita e auto-ordenada é que não se pode falar nem em acosmismo nem em cosmos.Ainda com relação à recusa do acosmismo, também não é possível aceitar o que diz Negri, que considera que a evolução política de Espinosa teria sido tal que os infinitos atributos infinitos, que constituem a substância absolutamente infinita e cujo papel é essencial na ontologia da "Ética", iriam perdendo função, assim como os modos infinitos, que também iriam perdendo sentido, restando, ao fim e ao cabo, uma filosofia materialista fundada apenas nas ações dos modos finitos, isto é, dos corpos e dos espíritos finitos...

Prado Jr. - Os modos finitos de produção?

Chaui - Sim, os modos finitos de produção. A idéia que sustenta essa interpretação é a de que o pensamento político de Espinosa, em sua particularidade concreta, não necessitaria dos conceitos metafísicos de atributo e de modo infinito, os quais seriam vestígios da influência neoplatônica renascentista sobre o jovem filósofo, abandonados por ele à medida que se tornaria materialista. Com isso, considera-se uma parte ponderável da ontologia espinosana descartável e residual. Independentemente do que se encontra de fato escrito na "Ética", parece que há aqui um esquecimento grave, isto é, a afirmação feita pelo "Tratado Político" de que essa obra está fundada na "mea philosophia", portanto, na ontologia da "Ética".Então, o fato de que hoje os intérpretes unanimemente concordem em rejeitar o rótulo de acosmismo não significa que estejamos dizendo o mesmo, porque alguns recuperam a noção de cosmos e outros a demolem à custa do abandono de conceitos-chave da ontologia, e eu me recuso a fazer isso.

Prado Jr. - Falemos agora do título de seu livro, "As Nervuras do Real". Eu tenho a impressão de que o título quer sublinhar a ênfase no chão ontológico do pensamento. O que pode significar a nervura do real? A metáfora que me parece mais evidente é a nervura de uma folha, a estrutura de uma árvore. A nervura do real parece, portanto, indicar uma espécie de antikantismo, isto é, algo contra a suposição de que exista um sujeito cognitivo ordenador, de um lado, e uma realidade informe, de outro, uma poeira de dados que é estruturada pelo ato de conhecimento. De uma certa maneira, o real se põe a si mesmo, ele se auto-estrutura; ou seja, a nervura do real quer dizer que o próprio real organiza-se, estrutura-se, distribui-se em singularidades regulares. Pergunto-me: não há aí um eco de Merleau-Ponty?

Chaui - A referência merleau-pontyiana do título é proposital, porque Merleau-Ponty também fala em nervura da folha e porque, no correr do livro, me valho de uma expressão dele, inseparável da idéia de nervura: "O ser de indivisão". A substância espinosana (Deus ou a natureza) é a ação imanente de um ser que se autodetermina e de autodiferencia sem se separar de si mesmo. E, de fato, nervura do real pretende assinalar, desde o começo, que estamos numa filosofia que não trabalha com a cisão sujeito-objeto, não considera, à maneira cartesiana, que a consciência seja um princípio da filosofia, e não admite, à maneira kantiana, que o real seria a multiplicidade bruta a ser organizada e ordenada como fenômeno pelo sujeito do conhecimento. Nervura do real e imanência significam a realidade auto-ordenada e auto-estruturada por um princípio inteligível que é sua própria ação e sua própria existência. Essa inteligibilidade plena do real é afirmada pela primeira definição da "Ética", a da "causa de si".

Bento Prado Jr. é professor da Universidade Federal de São Carlos e autor, entre outros livros, de "Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson" (Edusp).


 


KARL POPPER
A DOUTRINA DO FALSEAMENTO - Alexandre Marques

O objectivo deste trabalho é analisar, no contexto da filosofia da ciência, as propostas de Karl Popper, respeitantes ao critério de demarcação entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento, a sua concepção inovadora do método científico e as consequências que daí resultam para a ideia de progresso científico.

No primeiro capítulo, abordaremos a crítica de Popper ao método da verificação, demonstrando que "o conceito positivista de "significado" ou "sentido" (ou de verificabilidade, confirmabilidade indutiva, etc.) não é apropriado para realizar
a demarcação entre ciência e metafísica, simplesmente porque a metafísica não é necessariamente carente de sentido, embora não seja uma ciência".1

No segundo capítulo, procuraremos abordar a nova tematização do ideal metódico da ciência, a sua transformação pela colocação da conjecturação no lugar tradicionalmente atribuído à indução e a substituição da exigência de verificabilidade dos enunciados pela de falsificabilidade das hipóteses. Analisaremos a leitura da evolução do conhecimento que daí resulta, leitura que corta com a narrativa de uma progressiva sucessão de observações e de teorias e que sugere em alternativa um desenvolvimento problemático em que, através de tentativas e erros, se vão resolvendo os problemas e inventando outros.

Finalmente tiraremos algumas conclusões sobre as limitações e insuficiências do falsificacionismo, argumentando que a história do conhecimento científico é rica em exemplos que nos mostram que as primeiras formulações de novas teorias, que implicaram novas concepções imperfeitamente formuladas, não se abandonaram e desenvolveram-se apesar das aparentes falsificações, o que traduz uma enorme felicidade para o desenvolvimento da ciência por não ter atendido estritamente à metodologia do falsificacionismo.

1. A contrastação das hipóteses pelo método da verificação.
Para Popper, o problema central da filosofia da ciência reduz-se em grande parte àquilo que ele designa do problema da demarcação, isto é, a tentativa de estabelecer um critério que permita distinguir as teorias científicas da metafísica e/ou da pseudo-ciência. Este ponto inicial, que serve de base à reflexão levada a cabo pelo autor, poderá levar-nos à primeira vista, a considerar que estamos perante o mesmo ponto de partida que estimulou o empirismo lógico do Círculo de Viena nos anos vinte e trinta. No entanto, é urgente precisar que Popper, ao procurar estabelecer um critério de demarcação, não está imbuído da ambição positivista de instituir critérios de sentido que excluam ou marginalizem quaisquer domínios de saber (nomeadamente o metafísico); uma vez que o sentido aparece sempre, para Popper, solidário da problematicidade que germina, sem excepção, por todas as áreas do conhecimento e da acção dos homens. Não se trata pois, da retoma do velho ideal positivista, que passava pela tentativa de unificação da ciência e pela construção de uma blindagem que protegeria a mesma de toda e qualquer tentação metafísica. Não é o regresso às famosas distinções entre frases "com" e "sem" sentido, que animaram fortemente o debate epistemológico nos anos trinta, que somos levados a assistir com o pensamento deste autor. "Popper não considera que o problema do significado seja um problema sério, e ao procurar um critério de demarcação tem exclusivamente o intuito de delimitar uma área do discurso significativo: a ciência".2
Quando deve ser considerada científica uma teoria? Qual o critério que determina o status científico de uma teoria? Há uma condição fundamental para que qualquer hipótese tenha o estatuto de teoria científica, essa hipótese tem de ser falsificável. Popper refere claramente que o problema que o preocupa não é determinar quando é verdadeira ou aceitável uma teoria?, mas sim "distinguir a ciência da pseudo-ciência, sabendo muito bem que por vezes a ciência erra e a pseudo-ciência acerta".3 Ele conhecia a resposta comummente aceite para o seu problema: "a ciência distingue-se da pseudo-ciência + ou da metafísica + pelo seu método empírico, que é essencialmente indutivo, isto é, que parte da observação ou da experimentação".4 No entanto, essa resposta, não o satisfazia. Daí a reformulação do problema com o intuito de distinguir "um método genuinamente empírico de um método não empírico ou até pseudo-empírico, isto é, um método que embora fazendo apelo à observação e à experimentação, não logra adequar-se às normas científicas. Este último método pode ser exemplificado pela Astrologia, com a sua enorme massa de dados empíricos baseados na observação, em horóscopos e biografias".5
O critério de demarcação que Popper encontra implícito na obra dos positivistas é o da verificação, critério segundo o qual uma proposição é significativa se, e apenas se, puder ser verificada empiricamente, isto é, se houver um método empírico para decidir se é verdadeira ou falsa. Na falta de tal método é uma pseudo-proposição carente de significado ou, quando muito, uma tautologia. Este princípio foi ligeiramente reformulado pelos empiristas lógicos que encontraram na obra de Carnap, a sua carta magna: aí a noção de verificação concludente de uma proposição é substituída pela noção de confirmação gradualmente crescente, mediante o recurso à observação e à experiência. Importa referir que o conceito de verificação não perde a sua ligação umbilical à verdade: verificar é tornar verdadeiro ou ver a verdade de algo.
Popper rejeita este critério e toda e qualquer tentativa de construir uma lógica indutiva. As suas principais objecções à lógica indutivista são as tradicionais. No raciocínio indutivo passamos de um caso (isto é, de um juízo particular) para todos os casos (isto é, para um juízo universal). Qual a legitimidade lógica do "salto" que efectuamos nas inferências indutivas? O que nos autoriza a realizar semelhante tipo de raciocínio? Se os juízos da experiência são sempre particulares e contingentes (isto é, a relação que neles se estabelece entre o sujeito e o predicado é particular e contingente), como se pode formular um juízo universal e necessário que legitime as pretensões das ciências de possuírem leis com um carácter universal e necessário (únicas que permitirão a previsão)? Em termos estritamente lógicos, a conclusão de um argumento não pode ter maior extensão ou conteúdo do que aquilo que é afirmado nas premissas. Ora, é precisamente esta infracção que se verifica numa proposição científica de carácter universal, que se fundamenta em premissas que consistem num conjunto finito de proposições singulares. Popper descobriu uma concepção secular, a que identifica a ciência como uma actividade estritamente indutiva que, a partir de umas tantas observações e experiências, avança hipóteses e formula leis sobre os fenómenos, procedendo depois à sua generalização e verificação. Foi esta concepção que a ingénua epistemologia da Modernidade consagrou como paradigmática no âmbito das ciências naturais e, depois, pretendeu exportar para o conjunto dos saberes e disciplinas. "Tendo rejeitado a tese de que as proposições científicas podem ser verificadas (...), Popper tenta reconstruir a lógica da ciência de forma a que somente a lógica dedutiva seja suficiente para avaliar as proposições científicas. Esta reconstrução dá lugar a um novo critério de demarcação".6
Popper, ao pretender demarcar-se do empirismo lógico, mais não faz do que mostrar a outra face do carácter regulador do conceito metafísico de verdade, quando enuncia o princípio fundamental do seu falsificacionismo a partir do qual se poderia determinar a cientificidade de uma proposição: uma proposição só pode considerar-se científica, se dela for possível deduzir um conjunto de enunciados de observação que possam falsificá-la, ainda que não a falsifiquem necessariamente. É o facto de uma teoria científica poder ser teoricamente falsificável que determina a sua cientificidade, é esse facto que permite avaliar o seu grau de verosimilhança e que, em última análise, a afasta e demarca de teorias pseudo-científicas, como a Astrologia. Estas teorias, embora consigam realizar predições correctas, são formuladas de tal modo que se torna impossível qualquer tentativa de falsificação e, por esta razão, não são consideradas teorias científicas.
Podemos tentar resumir os critérios aceites por Popper para determinar o estatuto científico de uma teoria, aos seguintes princípios:
. Uma teoria que não é susceptível de refutação não é considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude mas sim um vício.
. Todo o teste ou contrastação é uma tentativa para refutar uma teoria. Neste sentido, a testabilidade equivale à refutabilidade. Algumas teorias são mais testáveis e, por isso, estão mais expostas à refutação.
. A descoberta de novos factos que estão de acordo com as predições de uma teoria, não confirmam por si só a teoria mas única e exclusivamente a corroboram. Uma teoria que é corroborada, quando passa um teste ou contrastação, isto é, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, robustece a própria teoria sem no entanto a confirmar.
Será útil relembrar, que o critério de refutabilidade imposto por Popper, não consiste num critério de sentido ou significação, mas sim no traçar de uma linha divisória entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento. As afirmações de carácter metafísico não possuem estatuto científico na medida em que não são susceptíveis de ser falsificadas; o seu carácter de sentido ou significação não é posto em causa; é este facto que nos permite diferenciar Popper das posições assumidas pelos autores do positivismo lógico. "(...) A tarefa primordial para uma demarcação entre a ciência e a metafísica consiste em libertar a metafísica. (...) É ridículo proibir que se fale de qualquer coisa que não pertença à ciência. Foi o que o Círculo de Viena tentou fazer. O Círculo de Viena estabeleceu interdições e decretou: só se pode falar de ciência, tudo o resto é absurdo."7
"(...) O bem mais precioso do homem são as ideias. Nunca temos ideias suficientes. Daquilo que nos ressentimos é da escassez de ideias. E as ideias são um bem prestimoso, por isso, devemos tratar a metafísica com respeito e discutir + talvez das suas ideias surja alguma coisa. (...)" 8
2. A teoria do falseamento de Karl Popper, no sentido estrito.
O falsificacionista admite francamente que a observação é guiada pela teoria e a pressupõe. Também se congratula de abandonar qualquer afirmação que implique que as teorias se podem estabelecer como verdadeiras ou provavelmente verdadeiras à luz da evidência observacional. Uma vez propostas, as teorias especulativas terão que ser comprovadas rigorosa e implacavelmente pela observação e a experimentação. As teorias que não superam as provas observáveis e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por outras conjecturas especulativas. A ciência progride graças ao ensaio e ao erro, às conjecturas e refutações. "O método da ciência é o método de conjecturas audazes e engenhosas seguidas de tentativas rigorosas de falseá-las".9 Só sobrevivem as teorias mais aptas. Nunca se pode dizer licitamente que uma teoria é verdadeira, pode-se dizer com optimismo que é a melhor disponível, que é melhor que qualquer das que existiam antes.
Segundo o falsificacionismo, pode-se demonstrar que algumas teorias são falsas recorrendo aos resultados da observação e da experimentação. Por outro lado é possível efectuar deduções lógicas, partindo de enunciados observáveis singulares como premissas, e chegar à falsificação de teorias e leis universais mediante uma dedução lógica. Exemplo: num determinado lugar e num determinado tempo, observou-se um corvo que não era negro. Conclusão: nem todos os corvos são negros. Estamos na presença de uma dedução logicamente válida.
A falsificação de enunciados universais pode ser deduzida de enunciados singulares adequados. O falsificacionista explora ao máximo esta questão lógica. Considera que a ciência é um conjunto de hipóteses que se propõem a modo de ensaio com o propósito de descobrir ou explicar de um modo preciso o comportamento de algum aspecto do mundo ou universo. No entanto, nem todas as hipóteses o conseguem. Há uma condição fundamental para que qualquer hipótese tenha o estatuto de teoria científica ou lei científica, essa hipótese tem de ser falsificável. E uma hipótese é falsificada se existe um enunciado observável ou um conjunto de enunciados logicamente possíveis que sejam incompatíveis com ela, isto é, que em caso de serem estabelecidos como verdadeiros, falsificariam a hipótese. Exemplos de enunciados que não cumprem esse requisito e não podem ser falsificados: "ou chove ou não chove", "é possível ter sorte na especulação desportiva", etc. Se um enunciado não é falsificável, então o mundo pode ter qualquer propriedade e comportar-se de qualquer maneira sem entrar em conflito com o enunciado. O falsificacionista admite que algumas teorias passam de facto como teorias científicas somente porque não são falsificáveis e deveriam por isso ser eliminadas, embora superficialmente possa parecer que possuem as características das boas teorias científicas. Para que uma teoria possua um conteúdo informativo, há-de correr o risco de ser falsificada.
Uma boa teoria ou lei científica é falsificada justamente porque faz afirmações definidas acerca do mundo. Uma boa teoria será aquela que faz afirmações de muito amplo alcance acerca do mundo e que, ao ser testada, resista à falsificação. As teorias que tenham sido falsificadas têm que ser rejeitadas, visto que, como afirma Popper, ao descobrirmos que a nossa conjectura era falsa, aprendemos muito sobre a verdade e chegaremos mais perto dela. Aprendemos com os nossos erros. "A ciência progride mediante o ensaio e o erro".10 Esta atitude de "vida ou de morte" choca com a precaução recomendada pelo indutivista ingénuo. Segundo este, só as teorias que se podem demonstrar é que são verdadeiras ou provavelmente verdadeiras e só essas devem ser admitidas na ciência. O falsificacionista, em contraposição, reconhece as limitações da indução e a subordinação da observação à teoria. Os segredos da natureza, somente se podem descobrir com a ajuda de teorias engenhosas e perspicazes. Quanto maior for o número de teorias conjecturadas que procuram enfrentar a realidade e quanto maior for o seu nível especulativo, maiores serão as oportunidades de realizarmos importantes avanços na ciência. Não existe o perigo de assistirmos a uma proliferação das teorias especulativas, na medida em que aquelas que representam descrições inadequadas do mundo podem ser eliminadas drasticamente em função do resultado da observação ou de outras provas. A exigência da falsificabilidade das teorias, origina a atractiva consequência de que as teorias sejam estabelecidas e precisadas com clareza.
O progresso da ciência, tal como o vê o falsificacionista, poderá resumir-se da seguinte forma. A ciência começa com problemas, problemas que estão associados à explicação do comportamento de alguns aspectos do mundo. O cientista propõe hipóteses falsificáveis para solucionar os problemas. As hipóteses são criticadas e comprovadas. Algumas são eliminadas rapidamente, outras podem ter mais êxito. Estas devem submeter-se a críticas e provas mais rigorosas. Quando finalmente se falsifica uma hipótese que tenha superado com sucesso uma grande variedade de testes, surge um novo problema, que é a invenção de novas hipóteses, seguidas de novas críticas e provas. Este processo continua indefinidamente. Por isso nunca se pode afirmar que uma teoria é verdadeira, por muitas provas rigorosas que tenha superado, somente podemos afirmar que a teoria em vigor é superior às suas predecessoras, no sentido de que foi capaz de superar testes que falsificaram as teorias anteriores. No dizer de Popper "(...) só há um caminho para a ciência: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte nos separe + a não ser que obtenhamos uma solução. Mas, mesmo que obtenhamos uma solução, poderemos então descobrir, para nosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem-estar poderemos trabalhar, com um sentido, até ao fim dos nossos dias".11 A afirmação de que a origem da ciência está nos problemas é perfeitamente compatível com a prioridade das teorias sobre a observação e os enunciados observáveis. A ciência não começa com a pura observação. A concepção falsificacionista, proporciona uma imagem dinâmica da ciência.
O progresso da ciência, exige que as teorias sejam cada vez mais falsificáveis e em consequência tenham cada vez mais informação, exclui no entanto, que se efectuem modificações nas teorias destinadas simplesmente a protegê-las da falsificação ou de uma falsificação ameaçadora. Essas modificações, tal como a adição de mais um postulado sem consequências que não tenham sido já comprovadas, são denominadas de modificações ad hoc. As modificações ad hoc são rejeitadas pelo falsificacionista, no entanto, existe outro tipo de modificações não ad hoc, aceites pelo falsificacionista. Centramos a nossa atenção na seguinte proposição: "O pão alimenta". No entanto, em França, numa determinada região, o trigo que crescia de maneira normal foi convertido em pão normal e a maioria das pessoas que comeu esse pão ficou gravemente doente. A teoria de que "todo o pão alimenta" foi falsificada. Podemos modificar a teoria para evitar a sua falsificação: "Todo o pão alimenta, excepto, aquele que é produzido numa determinada zona de França". Esta é uma modificação ad hoc. A teoria modificada não pode ser comprovada de maneira que não o seja também a teoria original. A hipótese modificada é menos falsificável que a versão original. O falsificacionista rejeita essas acções de retaguarda. Como modificar a teoria de uma maneira aceitável? Da seguinte forma: "Todo o pão alimenta, excepto aquele, cujo trigo é contaminado por um determinado tipo de parasita". Esta teoria modificada, não é ad hoc porque leva a novas comprovações. No dizer de Popper, é contrastável de forma independente.
O falsificacionista deve rejeitar as hipóteses ad hoc e estimular a proposta de hipóteses audazes com melhorias potenciais em relação às teorias falsificadas. As confirmações que são conclusões conhecidas de antemão são insignificantes. Se hoje em dia confirmamos a teoria da gravitação universal de Newton atirando uma pedra ao solo, não contribuímos com nada de valor para o progresso da ciência. Ao contrário, se amanhã confirmamos uma teoria especulativa que implica que a atracção gravitatória entre dois corpos depende das suas temperaturas, falsificando a teoria de Newton, teremos realizado um avanço importante no conhecimento científico.
Logo que Popper formula as suas primeiras posições epistemológicas, não podia deixar de encontrar no seu caminho os predicados centrais do empirismo lógico: antes de mais, as ciências empíricas não poderiam admitir enunciados que se não apoiassem em observações, porque tais enunciados são pura e simplesmente desprovidos de sentido; o método legítimo das ciências empíricas é o indutivo; graças a ele, o espírito humano organiza as informações que recolhe da observação e que se armazenam passivamente nos seus sentidos e percepções; só a observação de repetições ou de frequências na natureza permite ao homem de ciência inferir a existência de relações constantes formalizáveis no interior de asserções gerais (instrução por repetição); por fim, a acumulação indefinida de observações e experimentações permite verificar progressivamente a justeza ou falsidade das primeiras hipóteses (princípio de verificação).
Os teóricos do Círculo de Viena pensavam, assim, ser detentores do critério de demarcação que permitia separar, na totalidade dos enunciados, o trigo do joio: um enunciado com sentido era um enunciado capaz de passar com êxito a prova da verificação, ou então, significado de um enunciado é o método da sua verificação. A Lógica da Descoberta científica, editada em 1934, é uma réplica directa às teses do Círculo de Viena. Karl Popper decide partilhar com os seus leitores uma convicção que jamais o abandonará: o indutivismo, tanto na sua versão maximalista (acesso certo à verdade) como na sua versão moderada (acesso provável à verdade), é um mito que contamina desgraçadamente as ciências da natureza e que deve ser perseguido sem piedade.
Em primeiro lugar, reconhece a David Hume o insigne mérito de ter demonstrado que o método indutivo se privava a si próprio de fundamento lógico. Com efeito, não é possível extrapolar, a partir de uma série finita de observações particulares, um princípio de alcance universal generalizável, em seguida, a observações que ainda não foram efectuadas. Popper actualiza e radicaliza o raciocínio de David Hume que se ligava, apesar de tudo, ao indutivismo por razões de ordem prática e psicológica. Um grande número de enunciados singulares nunca permite inferir um enunciado geral. Em contrapartida, basta um único enunciado geral preexistente. Pouco importa o grande número de cisnes brancos que tenhamos observado; não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos.
Depois, invertendo a ordem de encadeamento criada pelos partidários do empirismo lógico, Popper proclama a preeminência absoluta da teoria sobre a observação: em fase alguma do desenvolvimento científico, escreve, começamos por algo que não seja semelhante a uma teoria, uma hipótese, uma opinião preconcebida ou um problema que, em certa medida, guia as nossas observações e nos ajuda a escolher, entre os inúmeros temas de observação, aqueles que podem ser interessantes. A observação é sempre selectiva, não se resume nunca a sensações ou percepções que o observador se limitaria a transcrever em relatórios escritos, é parcialmente determinada pelas expectativas e problemas que existem no espírito do investigador e que ele retira de um conhecimento anterior (background knowledge). Não existe observação e, de um modo mais geral, conhecimento que não esteja, à partida, impregnado de teoria.
Deveria talvez ter-se dado mais atenção a Hume, quando ele observou que não é possível validar logicamente a inferência indutiva que do particular passa ao universal, e propôs que se transferisse para um outro nível, o do hábito, a sua explicação. Foi isso que, como já se referiu, fez Popper, que prolongou a proposta de Hume até à rejeição da ideia de que a ciência, e mais geralmente o conhecimento, tem uma base indutiva, substituindo-a por uma actividade conjectural, hipotética.
Não se contesta, nesta orientação, o ideal metódico da ciência moderna, o que se pretende é transformá-lo colocando a conjecturação no lugar tradicionalmente atribuído à indução e substituindo, no mesmo lance, a exigência de verificabilidade dos enunciados pela de falsificabilidade das hipóteses. Perspectiva que assim permite, por um lado, que não se desvalorizem os saberes não científicos, nomeadamente a filosofia, à qual se atribui um papel preponderante no crescimento do conhecimento devido à sua singular prática do debate, à particularidade da sua argumentação e à especificidade dos seus problemas; e, por outro lado, que a concepção da história da ciência que sustentava uma visão cumulativa dos saberes seja + uma vez privada do seu pressuposto indutivista + seriamente abalada. Popper propõe uma leitura da evolução do conhecimento que corta com a narrativa de uma progressiva sucessão de observações e de teorias, sugerindo em alternativa que se veja a história da ciência como um desenvolvimento problemático em que, através de tentativas e erros, se vão resolvendo uns problemas e inventando outros.
A dignidade concedida à refutação em detrimento da verificação provoca várias consequências: uma teoria com pretensão científica deve, em primeiro lugar, satisfazer uma condição de testabilidade. Será considerada testável a partir do momento em que se possam inferir de forma dedutiva um ou vários predicados que, em virtude de algumas condições chamadas iniciais, poderão ser confrontados com factos e submetidos a testes severos e acessíveis. O critério popperiano deve, em segundo lugar, ser entendido como uma regra de preferência e não como uma regra de justificação. O homem de ciência nunca pode fundar positivamente uma asserção geral, mas é-lhe lícito, em contrapartida, preferir uma asserção a outra se defrontar mais eficazmente a prova da experiência. Finalmente, uma teoria nunca é mais do que uma hipótese, uma tentativa que tem em vista compreender o mundo, nunca pode ser verificada, mas pode, em contrapartida, ser corroborada. Será considerada corroborada uma teoria que até então tenha resistido com êxito aos testes mais severos e não tenha sido substituída com vantagem por uma teoria rival. Mas, cuidado, a corroboração popperiana não é de forma alguma um sucedâneo da confirmação carnapiana; uma hipótese corroborada é uma hipótese aceite provisoriamente pela comunidade científica, mas cujo destino natural é ser, um dia, desmembrada pela superveniência de novos factos. No fundo, para Popper, as teorias mais válidas nunca são teorias verdadeiras, mas apenas teorias que ainda não são falsas. O conhecimento é sempre imperfeito, mas perfectível. A verdade absoluta não está ao nosso alcance; e, ainda que a alcançássemos, não poderíamos sabê-lo. O real é uma espécie de ideia da razão, mas temos motivos para pensar que a ciência se aproxima progressivamente dele.
"(...) As teorias científicas são de tudo o que mais violentamente está exposto à crítica. São elas que, após um processo de depuração, um processo de purificação, um processo de falsificação, temos perante nós. Creio que as teorias são o que de melhor contém o Mundo Três. (...)"12
CONCLUSÃO
Vários foram os epistemólogos e investigadores da história das ciências que contribuíram para uma superação da concepção positivista da ciência e de forma particular para o surgimento do que se veio a designar por "nova filosofia da ciência".
De entre outros está Karl Popper. Este defendeu que não existe processo algum de indução pelo qual possam ser confirmadas as teorias científicas.
Popper criticou aquilo a que chamou o mito do "observatismo", vigente no modelo de investigação positivista, segundo o qual a observação pode ser fonte segura do conhecimento. Segundo Popper, por detrás da ideia de indução, encontra-se a convicção errada de que o investigador pode observar e experimentar a realidade sem pressupostos e sem preconceitos. Não se pode admitir que o espírito do investigador se comporte como uma tábua rasa, já que tal seria ignorar o facto de que sempre se observa e se experimenta em função de problemas, teorias e modelos que condicionam a investigação. Quer na vida quotidiana quer na ciência, a observação não é o primeiro passo; há sempre algo que orienta o conhecimento + antecipações e expectativas na vida quotidiana; teorias no plano da ciência. É falso que o cientista parte de observações, tentando generalizá-las.
O método científico processa-se de outro modo, numa tentativa de provar a falsidade (e não a verdade) das hipóteses de que parte, verificando até que ponto elas resistem a hipóteses contrárias.
Se alguém pensar no método científico como um meio para justificar resultados científicos, ficará decepcionado. Um resultado científico não pode ser justificado. Só pode ser criticado e testado. E nada mais se pode dizer em seu favor senão que, depois de todas essas críticas e testes, ele parece melhor, mais interessante, mais forte, mais promissor e constituindo uma melhor aproximação da verdade do que dos seus rivais.
O falsificacionista insiste que a actividade científica deve dedicar-se à tentativa de falsificar as teorias estabelecendo a verdade dos enunciados observados que são incompatíveis com elas. Assim a aceitação de uma teoria é sempre provisória e, por outro lado, a rejeição de uma teoria pode ser concludente. No entanto, nada há na lógica deste processo, que exija que seja sempre a teoria a ser rejeitada em caso de choque com a observação. Podemos rejeitar um enunciado observável falível e conservar a teoria com que choca. Foi o que sucedeu quando se conservou a teoria de Copérnico e se rejeitou a observação de que Vénus não variava apreciavelmente de tamanho durante o ano, o que era incompatível com a teoria de Copérnico. A ciência está plena de exemplos de rejeição de enunciados observáveis e conservação das teorias com que chocam.
A essência da postura de Popper sobre enunciados observáveis é que a sua aceitação se mede pela sua capacidade para sobreviver a provas. As que não superam as provas são rejeitadas, as que as superam são conservadas de modo provisório. Popper sublinha o papel das decisões dos indivíduos e grupos de indivíduos para aceitar ou rejeitar os enunciados observáveis que ele define como "enunciados básicos". Assim os enunciados básicos são aceites como resultado de uma decisão ou acordo e nessa medida são convenções. As decisões conscientes dos indivíduos, introduz um elemento subjectivo que choca em certa medida com a posterior insistência por parte de Popper numa ciência "como processo sem sujeito".
Uma outra limitação do falsificacionismo resulta do facto de as teorias não poderem ser rejeitadas de um modo concludente, e isto porque os enunciados observáveis que servem de base para a falsificação poderem resultar falsos à luz de posteriores progressos.
Se os cientistas tivessem atendido estritamente à metodologia do falsificacionismo, as teorias que hoje se consideram em geral como os melhores exemplos de teorias científicas, nunca teriam sido desenvolvidas, porque teriam sido rejeitadas logo à sua nascença. Em qualquer exemplo de uma teoria científica clássica, no momento da sua primeira formulação, é possível encontrar afirmações observáveis que foram geralmente aceites nessa época e que eram consideradas incompatíveis com a teoria. No entanto, estas teorias não foram rejeitadas e foram fundamentais para o desenvolvimento do conhecimento científico. As primeiras formulações de novas teorias, que implicavam novas concepções imperfeitamente formuladas, não se abandonaram e desenvolveram-se apesar das aparentes falsificações.
Consideramos que o falsificacionismo, apesar da óptima recepção e do quase inconsciente acolhimento que teve nos meios científicos, sobretudo nos mais experimentalistas, terá sido um dos últimos expoentes de uma concepção de ciência regulada pelo conceito de verdade. Nos últimos anos, esta concepção de ciência e a consequente distinção entre o grau de certeza das "ciências naturais e exactas" e a subjectividade das "ciências humanas e sociais" têm vindo progressivamente a ser postas em causa por um conjunto de factores, de entre os quais é possível destacar fundamentalmente este. A introdução da noção de paradigma ao nível da epistemologia e do conceito de revolução científica, que lhe corresponde ao nível da história das ciências. Thomas Kuhn procurava descobrir quais os elementos que um conjunto de cientistas partilhava com outros, para que fosse possível quer o seu trabalho de investigação, quer a comunicação com outros investigadores. Chegou assim à noção de paradigma enquanto estrutura pré-conceptual que permite olhar o real, identificar os fenómenos e classificá-los, antes de passar ao seu estudo mais aprofundado. Esta noção representa um golpe extremamente significativo numa concepção positivista de ciência, pois admite factores extra-científicos na produção do conhecimento científico (o paradigma é constituído por componentes científicas e religiosas, psicológicas, metafísicas, etc.). Deste modo, através de uma concepção paradigmática de ciência são postos em causa os critérios que a demarcam de outros saberes pela sua relação à verdade: se um paradigma é a pré-estrutura conceptual de uma investigação científica, passa a ser descabido opor a ciência às humanidades e à filosofia, como se a primeira fosse um conhecimento meramente explicativo e as segundas formas de saber compreensivo e interpretativo.
Conhecer um facto científico é inseri-lo, através de um modelo, numa estrutura prévia que lhe dá sentido (o paradigma), ou seja, é compreendê-lo e interpretá-lo.
No nosso entendimento, uma das grandes limitações do discurso de Popper reside, na não percepção do significado social do conhecimento científico. Como é que a sociedade intervém na ciência? Popper não responde a este problema nem à questão crucial da neutralidade da verdade científica. É ou não possível uma ciência neutral?
Concluindo, é lícito afirmar que a tematização do método científico avançada por Popper é, apesar da ampla reformulação de diversas das suas teses, solidária de uma imagem da ciência que se foi consolidando desde o século XVIII e que tende a identificar a cientificidade com a racionalidade + senão com a racionalidade "no seu todo", pelos menos com a racionalidade "no seu melhor". A ideia generalizada de que em ciência se procura uma adequação entre o intelecto e as coisas (conceito de verdade). Popper não supera essa ideia da teoria clássica da ciência. O seu falsificacionismo, surge como um espaço de transição entre uma visão clássica e uma visão nova de ciência. Esta situação foi definitivamente superada com o aparecimento de uma análise de ciência que abandonou a abordagem tradicional e que se deve à obra de T. S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas.


______________________
1 Karl, Popper, Conjecturas e Refutaciones, Barcelona, Ed. Paidos, s/d., p. 281.
2 H., Brown, "La nueva filosofia de la ciência", Madrid, editorial Tecnos, 1983, p. 89.
3 K., Popper, Ob. cit. 57.
4 Ibidem
5 Idem 58.
6 H., Brown, Ob. cit. 90.
7 K., Popper, O futuro está Aberto, Lisboa, editorial Fragmentos, 2ª ed., s/d., p. 60.
8 Idem 64.
9 K., popper, Conocimiento Objectivo, Madrid, Editorial Tecnos, 2ª ed., 1982, p. 83.
10 A., chalmers, Qué es esa Cosa Lhamada ciencia?, México, Siglo Vientiuno, s/d., p. 66.
11 K., Popper, O Futuro está aberto, Lisboa, editorial fragmentos, 2ª ed., s/d., p. 3.
12 K., Popper, O Futuro está aberto, editorial fragmentos, 2ª ed., s7d., p. 85.
BIBLIOGRAFIA
FONTES:
Brown, Harold, La Nueva Filosofia de la Ciencia, Trad. de G. Solana Diez e H. Marraud González, Madrid, Tecnos, 1983.
Chalmers, Alan, F., Qué es esa Cosa Lhamada Ciencia, México, Siglo Veintiuno, s/d.
Hempel, Carl, G., Élements d´Épistémologie, Paris, Armand Colin, 1972.
Popper, Karl, La Logica de la Investigación Científica, Trad. de V. Sanchez de Zavala, Madrid, Tecnos, 1973.
Popper, Karl, Conocimiento Objectivo, Trad. de C. Solis Santos, 2ª ed., Madrid, Tecnos, 1982.
Popper, Karl, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987.
Popper, Karl, A Teoria dos Quanta e o Cisma na Física, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989.
Popper, Karl, O Futuro está Aberto, Trad. Teresa Curvelo, 2ª ed., Lisboa, Editorial Fragmentos, s/d.
Popper, Karl, Conjecturas e Refutaciones, Barcelona, Ediciones Paidos, s/d.
OBRAS AUXILIARES:
Baudouin, Jean, Karl Popper, Lisboa, Edições 70, s/d.
Bunge, M., La Investigación Científica, Barcelona, Ariel, 1976.
Magalhães, Baptista, J., A Ideia de Progresso em Thomas Kuhn, Porto, Ed. Contraponto, 1996.


LINKAR EM LITERATURA E HISTORIA
DICAS DE LIVROS
Essa relação de livros foi composta pelos membros da lista de discussão de filosofia "Acrópolis" com o intuito de ajudar os iniciantes em filosofia em sua "jornada" pelo conhecimento. Não é necessário conhecer ou ler estes livros para participar do grupo, nem comentá-los, esta lista é um possível guia para os interessados.

A Construção da Filosofia Ocidental - Gradus Philosophicus
Monique Labrume, Laurent Jaffro,
Ed. Mandarim, SP, 1996 (e-mail: [email protected])

História da Filosofia
Irineu Strenger
LTR, SP, 1998 (Tel: OXX11 - 826 2788)

Manual Esquemático da História da filosofia
Ives Gandra Martins Filho
LTR, SP, 1997

Filosofia
Antônio Joaquim Severino
(Coleção 2º grau Série formação geral),
Ed. Cortez 1997, SP (Tel: 0XX11 - 864 0111)

Coleção "Os Pensadores", da Ed. Nova Cultural

Mal Estar na Modernidade - Ensaios
Sérgio Paulo Roanet
Ed. Schwarcz, 1993, SP (Tel: 0XX11 - 866 0801)

Filosofia em Nova Chave
Suzanne K. Langer
(Coleção Debates)
Ed. Perspectiva, 1989, SP,( homepage: http:www.editoraperspectiva.com.br)

Introdução ao Pensar
Arcangelo Buzzi
Ed. Vozes

Filosofia para principiantes: a existencia-humana-no-mundo
Arcangelo Buzzi
Ed. Vozes, 1991,

Introdução a historia da filosofia
Danilo Marcondes,
Jorge Zahar Editor.

Primeira Filosofia
Marilena Chauí (org)
Ed. Brasiliense

O que é Filosofia,
Caio Prado Jr.
Ed. Brasiliense

Que é Filosofia
José Ortega y Gasset
Editora Cotovia

História da Filosofia
Bryan Magee
Editora Loyola

Os Grandes Filósofos
Bryan Magee
Editora Presença

O Mundo de Sofia
Jostein Gaarder
Companhia das Letras

História da Filosofia Ocidental (três volumes)
Bertrand Russel

'O Banquete' de Platão
'Existencialismo ou Humanismo?' de Lukács

Para o estudante que quiser começar pelos clássicos, recomenda-se livros de
leitura fácil, rápida e prazeirosa, como os indispensáveis
-Apologia a Sócrates, Críton, Íon, Crátiloo, Mênon, Lacques de Platão
-Poética de Aristóteles
-Discurso do Método de Descartes
-Cândido de Voltaire
-Manifesto Comunista de Marx e Engels
-Resumo do Tratado da Natureza Humana por Hume
-O nascimento da Tragédia no espírito da mmúsica (as traduções de Nietzsche
da Cia das letras, por Paulo de Souza também são muito boas)
-O Princípe de Maquiavel
- A Utopia de Thomas More

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O que é Filosofia, de Caio Prado Jr.
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A FILOSOFIA E A VISAO COMUM DO MUNDO
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O que é Filosofia e por que vale a pena estudá-la
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Esta lista foi elaborada arbitrariamente pelo moderador, com sugestões de alguns membros, e tem por finalidade levar o iniciante a um ambiente em que questões filosóficas sejam, direta ou indiretamente, trazidas à tona. A qualidade das obras não foi o critério decisivo para a inclusão nesta lista, mas a evidência da questão filosófica. A ordem não indica prioridade ou grau de adequação ao tema. Deu-se evidente preferência a filmes de fácil acesso ao público em geral.

comenmtar sobre o nome da rosda

1 Matrix
2 Walking Life
3 2001 - Uma Odisséia no Espaço
4 Dogma
5 Stigmata
6 Contato
7 Cubo
8 O Rosto
9 O Sétimo Selo
10 Uma Simples Formalidade
11 Zorba, o Grego
12 O Grande Ditador
13 Dr. Strangelove
14 Uma Simples Formalidade
15 O Tambor
16 Notas do Subterrâneo
17 Crime e Castigo
18 Rei Lear
19 Blow Up
20 Magnólia
21 Arquitetura da Destruição
22 Aurora
23 Laranja Mecânica
24 Platoon
25 Planeta dos Macacos (primeira versão)

Problemas da filosofia da ciência

David Papineau
King's College London

A filosofia da ciência pode ser dividida em duas grandes áreas: a epistemologia da ciência e a metafísica da ciência. A epistemologia da ciência discute a justificação e a objectividade do conhecimento científico. A metafísica da ciência discute aspectos filosoficamente problemáticos da realidade desvendada pela ciência. 1. As questões acerca da epistemologia da ciência são em parte as mesmas que as questões acerca do conhecimento em geral. Um tema central é o problema da indução. A indução é o processo que nos leva da observação de casos particulares a conclusões universais como «Todos os corpos caem com uma aceleração constante». O problema é que estes argumentos não são logicamente válidos. A verdade das premissas particulares não garante a verdade da conclusão universal. Que todos os corpos observados até agora tenham caído com uma aceleração constante não garante que todos os corpos observados no futuro o façam também. Uma solução popular para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Do ponto de vista de Popper, a ciência, para começar, não se baseia na indução. Em vez disso, formula hipóteses, numa atitude conjectural, e depois esforça-se por refutá-las. Popper argumenta que, enquanto tais hipóteses forem falsificáveis (no sentido de haver observações possíveis que as infirmariam), a objectividade da ciência está assegurada. Os críticos do «falsficacionismo» de Popper queixam-se de que ele não oferece qualquer explicação para a legitimidade das nossas crenças na veracidade das teorias científicas (embora o faça para as crenças na sua falsidade) e, logo, de que ele não consegue resolver o problema da indução. A teoria bayesiana da confirmação proporciona uma solução alternativa para esse problema. Os bayesianos argumentam que as nossas crenças se organizam por graus, e que esses graus de crença obedecem, se se tratar de crenças racionais, ao cálculo de probabilidades. Argumentam então que o teorema de Bayes implica uma estratégia racional para actualizar os nossos graus de crença como resposta a dados novos. Em relação ao problema da indução, esta estratégia implica que o nosso grau de crença numa teoria científica seja aumentado por observações que são prováveis dada a teoria, mas improváveis de outro modo. Outro problema central na epistemologia da ciência é a possibilidade do conhecimento de inobserváveis como os vírus e os electrões. Os instrumentalistas negam que as teorias científicas sobre inobserváveis possam ser aceites como descrições verdadeiras de um mundo inobservável. Em vez disso, defendem que tais teorias são, no máximo, instrumentos úteis para gerar previsões observáveis. A eles opõem-se aqueles que adoptam o ponto de vista realista de que a ciência pode descobrir, e de facto descobre, verdades sobre inobserváveis. Alguns instrumentalistas defendem o seu ponto de vista apelando para a subdeterminação das teorias pelos dados. De acordo com esta tese, qualquer conjunto de dados observacionais será sempre compatível com várias teorias mutuamente incompatíveis acerca de inobserváveis, e portanto não pode justificar a escolha de nenhuma delas em particular. Esta ideia pode, por sua vez, ser defendida apelando para a «tese Duhem-Quine», que diz que, em face de dados aparentemente recalcitrantes, se pode sempre manter uma proposição teórica por meio de ajustamentos em hipóteses auxiliares que sejam parte integrante de toda a teoria. Uma via alternativa para a subdeterminação das teorias pelos dados consiste em observar que, dada qualquer teoria que consiga acomodar os dados observacionais, podemos sempre «cozinhar» uma teoria alternativa que explica os mesmos factos observacionais. A doutrina do instrumentalismo assenta na distinção entre o que é observável e o que não é. Esta distinção não está isenta de problemas. Alguns filósofos da ciência, os mais notórios dos quais são T.S. Kuhn e Paul Feyerabend, argumentam que a observação está «contaminada pela teoria», com o que pretendem dizer que as nossas teorias anteriores influenciam as observações que fazemos e a importância que lhes atribuímos. Daqui inferem que muitas vezes teorias científicas diferentes são «incomensuráveis», no sentido em que não há nenhum conjunto de proposições observacionais teoricamente neutras que possa fazer decidir entre elas. Um corolário disto, para Kuhn e Feyerabend, é que a verdade científica objectiva não é alcançável mesmo ao nível dos observáveis, quanto mais ao nível dos inobserváveis. Kuhn argumenta que a história da ciência apresenta uma sucessão de «paradigmas», conjuntos de pressupostos e exemplos representativos que condicionam o modo como os cientistas resolvem problemas e compreendem os dados, e que apenas são substituídos, em «revoluções científicas» ocasionais, quando os cientistas mudam de uma crença teórica para outra. Nem todos os epistemólogos da ciência aceitam o relativismo epistemológico de Kuhn e Feyerabend. Muitos deles diriam que mesmo que a fronteira entre os observáveis e os inobserváveis não seja nítida nem imutável, as proposições observacionais básicas podem ainda proporcionar um teste imparcial para as previsões de uma teoria. E outros diriam que, mesmo que as teorias sejam sempre subdeterminadas  no sentido em que qualquer conjunto de dados será sempre compatível com várias teorias diferentes  daí não se segue que não possamos escolher racionalmente entre essas teorias, visto que algumas dessas teorias podem estar mais bem sustentadas por esses dados do que outras. Há, porém, outro argumento poderoso contra o ponto de vista realista de que as teorias científicas são descrições verdadeiras de uma realidade independente. Reside na versão do passado e obsoleta de tais teorias. Muitas teorias científicas do passado, desde a astronomia ptolemaica até à teoria flogística da combustão, revelaram-se falsas. Assim, parece que deveríamos inferir, por meio de uma «meta-indução pessimista», que, uma vez que as teorias científicas do passado se revelaram normalmente falsas, as do presente e as do futuro serão também provavelmente falsas. Em resposta a isto, pode-se argumentar que até mesmo as teorias do passado falsas contêm uma grande componente de verdade, e que portanto se pode esperar que as teorias do presente e do futuro se aproximem da verdade. Além disso, alguns filósofos detectam um padrão de convergência, argumentando que as teorias científicas que se sucedem a outras aproximam-se cada vez mais da verdade. Estas teses pressupõem, contudo, uma noção de «aproximação à verdade», ou verosimilhança. Veio a revelar-se surpreendentemente difícil atribuir um conteúdo bem determinado a esta noção. As primeiras tentativas para a definir, por parte de Popper e outros, revelaram-se incoerentes, e não é óbvio que uma elucidação satisfatória dessa noção seja possível. Nos anos 80, alguns filósofos adoptaram uma abordagem naturalista em epistemologia da ciência. Em vez de tentarem identificar regras a priori do método científico, inspiraram-se na história da ciência e noutras disciplinas a posteriori para mostrar que estratégias metodológicas constituem de facto meios eficazes para se atingirem objectivos científicos. É possível combinar esta abordagem naturalista com o ponto de vista realista de que o objectivo da formulação de teorias científicas é a descoberta da verdade. Todavia, à luz dos argumentos mencionados acima, muitos filósofos da ciência naturalistas rejeitam a ideia de que a verdade seja um objectivo sensato para a ciência, investigando em vez disso estratégias para se atingirem objectivos teóricos como a simplicidade, o sucesso das previsões e a proficuidade heurística.   2. Voltando-nos agora para a metafísica da ciência, uma questão central é a análise da causalidade. Segundo David Hume, a causalidade, enquanto relação objectiva, é apenas uma questão de associação constante: um acontecimento causa outro se, e só se, os acontecimentos do primeiro tipo estiverem constantemente associados aos acontecimentos do segundo tipo. Esta análise gera, contudo, alguns problemas. Primeiro, há a questão da distinção entre genuínas leis causais da natureza e associações acidentalmente verdadeiras: ser um parafuso da minha mesa pode muito bem estar constantemente associado ao facto de ser feito de cobre, sem que seja verdade que esses parafusos sejam feitos de cobre porque fazem parte minha mesa. Em segundo lugar, há um problema quanto à direcção da causalidade: como distinguimos nós as causas dos efeitos, dado que uma associação constante de acontecimentos do tipo A com acontecimentos do tipo B implica imediatamente a associação constante de acontecimentos do tipo B com acontecimentos do tipo A? E, em terceiro lugar, há a questão da causalidade probabilística: será que as causas têm de determinar os seus efeitos, ou é suficiente que elas estejam probabilisticamente (e não «constantemente») associadas a eles? Muitos filósofos da ciência deste século preferiram falar acerca de explicação em vez de causalidade. De acordo com o modelo da cobertura por leis desenvolvido por Hempel, um acontecimento particular é explicado se a sua ocorrência puder ser deduzida da ocorrência de outros acontecimentos particulares com a ajuda de uma ou mais leis naturais. Mas isto não é muito diferente da análise humeana da causalidade, e como é de esperar enfrenta essencialmente os mesmos problemas. Como distinguimos leis de acidentes? Será que às vezes não somos capazes de deduzir «para trás»  como quando deduzimos a altura do mastro a partir do comprimento da sua sombra  apesar de não querermos dizer que o comprimento da sombra explica a altura do mastro? E não haverá casos em que somos capazes de explicar um acontecimento  o sr. X ter desenvolvido um cancro, por exemplo  por meio de outro  o facto de ele fumar sessenta cigarros por dia  apesar de não sermos capazes de deduzir o primeiro do segundo, uma vez que a relação entre eles é apenas probabilística? Sobre a questão de distinguir leis de acidentes, há duas estratégias possíveis. A primeira permanece fiel ao ponto de vista humeano de que as proposições legiformes não afirmam nada mais do que a associação constante e tenta então explicar por que razão algumas asserções que exprimem associações constantes  as (legiformes)  são mais importantes do que as outras  as acidentais. A versão mais conhecida desta estratégia humeana, proposta originalmente por F. P. Ramsey e depois reavivada por David Lewis, argumenta que as leis são aquelas generalizações verdadeiras que podem ser encaixadas numa sistematização ideal do conhecimento; ou, na formulação de Ramsey, as leis são «uma consequência daquelas proposições que tomaríamos como axiomas se soubéssemos tudo e o organizássemos do modo mais simples possível num sistema dedutivo». A estratégia não humeana alternativa, cujo defensor mais proeminente é D. M. Armstrong, rejeita o pressuposto de que as leis não implicam mais do que associações constantes, postulando em vez disso uma relação de «necessitação» que se verifica entre os tipos de acontecimentos que estão relacionados de modo legiforme, mas não entre aqueles que apenas estão associados acidentalmente. Quanto à questão da direcção da causalidade, o próprio Hume apenas disse que, de entre dois acontecimentos constantemente associados, o acontecimento anterior era a causa e o posterior o efeito. Mas há algumas objecções a este uso da assimetria anterior-posterior para analisar a assimetria causa-efeito. Para começar, é pelo menos concebível que haja causas que sejam simultâneas com os seus efeitos, ou mesmo causas que sejam posteriores aos seus efeitos. Além disso, parece haver boas razões para querer fazer a análise em sentido contrário, usando a direcção da causalidade para analisar a direcção do tempo. Se fizermos isto, quereremos uma explicação da direcção da causalidade que seja temporalmente independente? Têm sido propostas algumas explicações desse tipo. David Lewis argumenta que a assimetria da causalidade deriva da «assimetria da sobredeterminação»: ao passo que a sobredeterminação dos efeitos pelas causas é muito rara, é perfeitamente normal as causas serem «sobredeterminadas» por um grande número de encadeamentos de efeitos independentes, cada um dos quais é condição suficiente para a causa anterior. Outros autores apelaram para uma assimetria probabilística relacionada para explicar a assimetria causal, fazendo notar que as diferentes causas de um dado efeito comum são normalmente probabilisticamente independentes umas das outras, mas que os diferentes efeitos de uma causa comum estão normalmente correlacionados probabilisticamente. O advento da mecânica quântica (e em particular a infirmação empírica da desigualdade de Bell) persuadiu a maioria dos filósofos da ciência da falsidade do determinismo. De acordo com isto, procuraram desenvolver modelos de explicação causal segundo os quais as causas se limitam a tornar prováveis o seus efeitos, em vez de os determinar. O primeiro destes modelos, influenciado pela análise de Carl Hempel da explicação «indutivo-estatística» exigia que as causas conferissem aos seus efeitos uma probabilidade alta. Contudo, embora fumar inequivocamente cause o cancro, nunca o torna altamente provável. De modo que os modelos mais recentes apenas exigem que as causas aumentem a probabilidade dos seus efeitos, mesmo que apenas seja de um valor baixo para um valor ligeiramente menos baixo. Os modelos de causalidade probabilística precisam de se precaver contra a possibilidade de as associações probabilísticas entre acontecimentos poderem ser espúrias em vez de genuinamente causais, como a associação entre o ponteiro de um barómetro baixar e a chuva subsequente. É uma questão em aberto a de saber se tais associações espúrias podem ser rejeitadas por meios puramente probabilísticos, ou se é necessário introduzir-se critérios não probabilísticos. A noção de probabilidade tem interesse filosófico independentemente da sua relação com a causalidade. Há várias maneiras diferentes de interpretar o cálculo matemático das probabilidades. As teorias subjectivas da probabilidade, que se desenvolveram a partir da teoria lógica da probabilidade de J. M. Keynes, encaram as probabilidades como graus subjectivos de crença. Esta é a interpretação adoptada pelos bayesianos partidários da teoria da confirmação. Contudo, a maior parte dos filósofos da probabilidade argumentam que precisamos de uma interpretação objectiva da probabilidade para além desta análise subjectiva. Segundo a teoria da frequência de Richard von Mises, a probabilidade de um dado tipo de resultado é o limite da frequência relativa com que ele ocorre em sequências cada vez mais longas extraídas de uma qualquer «classe de referência» infinita. Uma dificuldade que se põe à teoria da frequência é a de que ela atribuirá uma probabilidade diferente a um dado resultado isolado quando esse resultado for considerado como membro de diferentes classes de referência. Para cancelar esta consequência, Karl Popper propôs que as probabilidades fossem encaradas como propensões de cenários experimentais específicos, no sentido em que só as frequências de classes de referência geradas por repetições do mesmo cenário experimental deveriam contar como probabilidades genuínas. As versões posteriores desta teoria das propensões abandonam o apelo a classes de referência infinitas, tomando simplesmente a probabilidade como uma característica quantitativa de cenários específicos, que é exibida pelas frequências nas repetições desses cenários, mas que não pode ser definida em termos de frequências. A interpretação filosófica da probabilidade objectiva está intimamente relacionada com a nossa compreensão da mecânica quântica moderna. A interpretação da mecânica quântica, porém, é ainda um problema em aberto na filosofia da física. Tomada à letra, a mecânica quântica diz que, quando os sistemas físicos são medidos, adquirem subitamente, para parâmetros observáveis, valores definidos que não tinham antes. A teoria especifica as probabilidades de diferentes desses valores, mas não pode prever sem margem para dúvida quais serão observados. A reacção de Albert Einstein foi a de que a mecânica quântica tinha de ser incompleta, e que uma teoria futura acabaria por encontrar as «variáveis ocultas» que efectivamente determinam os resultados observados. Contudo, a possibilidade de uma teoria comprometida com tais variáveis ocultas foi entretanto concludentemente desacreditada: John Bell mostrou que qualquer teoria desse género conteria previsões diferentes das da mecânica quântica, e há resultados experimentais que infirmam essas previsões. Permanece, então, o problema de explicar as medições quânticas. Medições são, afinal de contas, processos físicos. Contudo, a mecânica quântica não explica a razão por que as medições determinam valores definidos observáveis; apenas o dá de barato. É provável que uma compreensão satisfatória das medições quânticas tenha de aguardar uma interpretação radicalmente nova da teoria. Um outro aspecto metafísico da filosofia da ciência é a questão da explicação teleológica. Esta é basicamente uma questão de filosofia da biologia, visto que é no domínio da biologia que encontramos os exemplos paradigmáticos da explicação teleológica, como quando dizemos que a clorofila está presente nas plantas com o fim de facilitar a fotossíntese. Explicações como esta são filosoficamente interessantes porque explicam as causas pelos efeitos, e parecem assim ir contra o modelo habitual que consiste em explicar os efeitos pelas causas. Carl Hempel argumentou que tais explicações são apenas uma variante de explicação pelo modelo de cobertura por leis em que o facto usado para explicar  a fotossíntese  calha ocorrer num momento posterior ao do facto explicado  a clorofila. Há, porém, contra-exemplos a esta proposta e as tentativas de a restringir impondo a condição de que os elementos envolvidos façam parte de um sistema auto-regulador revelaram-se problemáticas. A maioria dos filósofos da ciência favoreceria agora uma abordagem diferente, de acordo com a qual as explicações teleológicas da biologia são uma forma de explicação causal disfarçada, nas quais é feita referência implícita a uma hipotética história da selecção natural durante a qual o elemento em questão  a clorofila  foi favorecido porque produziu o efeito relevante  a fotossíntese. Alguns filósofos interrogar-se-iam se estas explicações «para trás» merecem de facto ser chamadas «teleológicas», visto que não explicam de facto o presente por meio do futuro, mas antes por meio de histórias anteriores de selecção; esta questão, no entanto, é essencialmente terminológica. «Ciências especiais» como a biologia, a química, a geologia, a meteorologia e assim por diante levantam a questão do reducionismo. Diz-se que uma ciência pode ser «reduzida» a outra se as suas categorias puderem ser definidas em termos das categorias da segunda, e as suas leis explicadas também em termos das leis da segunda. Os reducionistas argumentam que as ciências formam uma hierarquia na qual as que estão num nível mais alto podem ser reduzidas às que estão num nível mais baixo: assim, a biologia pode ser reduzida à fisiologia, a fisiologia à química, e por fim a química à física. A questão do reducionismo tanto pode ser vista histórica como metafisicamente. A questão histórica é a de saber se a ciência progride tipicamente pela redução das teorias anteriores às que se lhes seguem. A questão metafísica é a de saber se as diferentes áreas da ciência descrevem realidades diferentes, ou antes uma mesma realidade física descrita com diferentes níveis de pormenor. Embora muitas vezes sejam discutidas simultaneamente, trata-se de duas questões diferentes. Tomado como uma tese geral, o reducionismo histórico é falso, por razões relacionadas com a «meta-indução pessimista» discutida acima: embora haja alguns episódios históricos em que velhas teorias científicas foram reduzidas a novas, há outros tantos em que as novas mostraram que as velhas eram falsas, e em que portanto as segundas foram eliminadas e não reduzidas. Isto não significa, todavia, que o reducionismo metafísico seja falso. Mesmo que a ciência proceda em direcção à verdade total de modo errático, pode haver razões gerais para se esperar que esta verdade total, quando finalmente for alcançada, se reduza à verdade física. Um argumento possível desse género advém da interacção causal entre os fenómenos discutidos nas ciências especiais e os fenómenos físicos. Assim, os fenómenos biológicos, geológicos e meteorológicos têm todos efeitos físicos; e isto implicaria aparentemente que eles fossem compostos por elementos físicos. É questionável, porém, que isto seja suficiente para estabelecer o reducionismo de larga escala, em vez da tese da identidade-espécime segundo a qual cada acontecimento específico de tipo especial é idêntico a algum acontecimento físico específico. Podemos aceitar a identidade-espécime, e mesmo assim rejeitar a identificação entre tipos especiais e tipos físicos. Se o fizermos, rejeitamos também a tese reducionista de que todas as leis especiais podem ser explicadas pelas leis físicas. Em vez disso, defenderemos que há leis especiais sui generis, padrões que abrangem tipos especiais que variam na sua constituição física, e que portanto não podem ser explicados apenas por leis físicas. David Papineau Tradução de Pedro Santos Universidade do Algarve Bibliografia I. Hacking, Representing and Intervening (Oxford, 1983) C. Hempel, Aspects of Scientific Explanation (Nova Iorque, 1965) T. S. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions (Chicago, 1962) E. Nagel, The Structure of Science (Nova Iorque, 1961) K. Popper, The Logic of Scientific Discovery (Londres, 1950) B. Van Fraassen, The Scientific Image (Oxford, 1980) Texto extraído de Oxford Companion to Philosophy, org. por Ted Honderich (OUP, 1995, pp. 809-812).      

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O sociólogo alemão, que estará no Brasil para dar palestras no Fórum Social Mundial, que acontece em Porto Alegre entre os dias 26 e 31, explica os fundamentos e as ilusões por trás dos valores de troca ocidentais

Publicado no Mais! Folha de São Paulo, 16/01/2005

Um sonho de liberdade


ROBERT KURZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Como se sabe, os conceitos de liberdade e igualdade formam os slogans centrais do Iluminismo. Desses ideais, todavia, o liberalismo não foi o único a se apropriar. Paradoxalmente, eles desempenham no marxismo e no anarquismo um papel tão grande quanto. E também para os movimentos sociais contemporâneos eles possuem um alto valor ideológico.
A esquerda fita os ídolos da liberdade e da igualdade como o coelho fita a cobra. A fim de não ser cegado pelo esplendor desses ídolos, recomenda-se dirigir o olhar para os seus fundamentos sociais. Marx [1818-83] desvendou esses fundamentos já há mais de cem anos. Trata-se da esfera do mercado, da circulação capitalista, da troca de mercadorias, da compra e venda universais.
Nessa esfera predomina uma espécie bem determinada de liberdade e igualdade, que se refere única e exclusivamente a vender o que se quer -supondo que se encontre um comprador-, e comprar o que se quer -supondo que se possa pagar.
E só nesse sentido predomina também a igualdade, isto é, a igualdade dos possuidores de mercadorias e de dinheiro. Nessa igualdade não importa a quantidade, mas a forma social comum. Para o "cent" comprar não é o mesmo que para o dólar; mas tanto faz se é "cent" ou dólar, em termos qualitativos predomina a igualdade da forma dinheiro. Na compra e venda não há senhores e escravos, ordem e obediência, mas apenas as pessoas livres e iguais do direito. Tanto faz se homem ou mulher ou criança, tanto faz se branco ou preto ou marrom -o cliente é bem-vindo em todas as circunsstâncias. A esfera da troca de mercadorias é a esfera do respeito recíproco. Onde se realiza uma troca comercial de mercadoria e dinheiro não há violência. O sorriso burguês é sempre um sorriso de vendedor.
O sarcasmo de Marx se refere ao fato de essa esfera do mercado constituir somente um pequeno fragmento da vida social moderna. A troca de mercadorias ou a circulação tem por pressuposto uma esfera bem diferente, nomeadamente a produção capitalista, o espaço funcional da economia empresarial ou do "trabalho abstrato" (Marx). Aqui valem leis bem diferentes daquelas da circulação das mercadorias, aqui o sorriso do vendedor se congela no esgar cínico do feitor de escravos ou do guarda da prisão.
No trabalho, assim já escrevia o jovem Marx, o trabalhador "não está em si, mas fora de si". A liberdade na produção de mercadorias é tão pequena que nem sequer pode determinar o conteúdo, o sentido e o fim do que é produzido ali. Tampouco os proprietários de capital e os empresários possuem essa liberdade, visto que eles estão sob a pressão da concorrência. Daí a produção seguir inteiramente os princípios de ordem e obediência.

Severidade produtiva
Onde o regime da economia empresarial é especialmente "eficiente", as trabalhadoras e os trabalhadores nem sequer podem ir urinar com autonomia. Essa severidade produtiva ganha dimensões extraordinárias justamente no neoliberalismo. Só na aparência a liberdade e a igualdade da circulação, por um lado, e a ditadura da produção empresarial, por outro, se contradizem.
De um ponto de vista puramente formal, as trabalhadoras e os trabalhadores são não-livres na produção justamente porque antes efetivaram sua liberdade no mercado na qualidade de possuidores de mercadoria, isto é, venderam sua força de trabalho. Naturalmente, essa liberdade de vender a própria força de trabalho se deve a uma coerção, logo a uma não-liberdade: a modernização criou as condições históricas em que não mais há nenhuma outra possibilidade de se conservar em vida.
É preciso ou comprar força de trabalho e empregá-la para o fim em si mesmo da valorização do capital ou vender sua própria força de trabalho e deixar-se empregar para esse fim em si mesmo. Enquanto havia ainda produtores independentes (camponeses e artesãos), não existia um mercado universal, a maior parte das relações sociais se desenrolava em outras formas. A ascensão do mercado universal foi acompanhada pelo declínio dos produtores independentes. Só porque há mercado de trabalho, ou seja, só porque a força de trabalho humana assumiu a forma de mercadoria, todos os outros bens são comercializados também como mercadorias.
Portanto, a esfera da liberdade e da igualdade só existe de modo geral porque a esfera da não-liberdade se constituiu na produção. É por isso que a liberdade universal se realiza também na forma da concorrência universal.
Esse problema se estende ao âmbito da reprodução pessoal ou da privacidade, onde as mercadorias são consumidas e as relações sociais íntimas têm o seu lugar. Aqui há muitas atividades e momentos da vida que não se reduzem à produção de mercadorias (economia doméstica, educação dos filhos, "amor" etc.).
No processo de modernização, a responsabilidade por esses aspectos foi impingida, no plano material, no sociopsíquico e no simbólico-cultural, às mulheres, e justamente por esse motivo elas foram socialmente desvalorizadas: trata-se de momentos da vida social que não são "dignos de dinheiro", isto é, são de segunda classe ou de valor menor no sentido da valorização do capital. Essa "cisão" (Roswitha Scholz [feminista alemã]) não se limita a uma esfera secundária demarcável: atravessa todo o processo de vida social.
Assim, no interior da produção de mercadorias, as mulheres são mais mal pagas em regra, e é relativamente raro que cheguem a posições de liderança. Nas relações pessoais predomina um determinado código dos sexos que implica para as mulheres uma relação de dependência estrutural, mesmo que esta seja algumas vezes quebrada ou modificada na pós-modernidade. De modo análogo, a parte não-branca e não-ocidental da humanidade é abandonada a uma subordinação estrutural, formulada de maneira racista já no Iluminismo.
Única e exclusivamente na esfera da circulação, do mercado, todas as relações próprias de uma "dominação do homem sobre o homem" parecem extintas. Essa esfera hipócrita da liberdade e da igualdade não se baseia, no entanto, somente em estruturas de dependência; em um sentido direto, ela se constitui também como uma mera função para o fim em si mesmo da valorização do capital. Pois o mercado universal não serve, em crassa oposição ao intercâmbio de produtores independentes entre si, à satisfação recíproca das carências.
Pelo contrário, ele é somente um estado de agregação ou um estágio de transição do próprio capital. Na venda o valor abstrato se "realiza" como dinheiro, e exatamente nisso consiste a função da troca aparentemente livre. O capital monetário originário, que se metamorfoseia em mercadorias por meio da produção, retorna à sua forma de dinheiro multiplicado pelo lucro. É nisso que se manifesta o caráter do capital como fim em si mesmo, isto é, fazer do dinheiro mais dinheiro e assim acumular "riqueza abstrata" (Marx) em um progresso ao infinito.
Portanto, ao efetivarem sua liberdade e igualdade na esfera da circulação, as pessoas não fazem nada mais que efetuar a "automediação" do capital, ou seja, fazem com que a mais-valia produzida ou o lucro deixe a forma mercadoria e se transforme de novo em forma dinheiro. Por isso a liberdade e a igualdade da circulação não são nada mais que uma engrenagem para o fim da "realização" do capital. Cada ato de liberdade precisa efetuar uma espécie de operação de bombeio para levar o capital do estado de agregação "mercadoria" ao estado de agregação "dinheiro".
A liberdade burguesa moderna possui, portanto, um caráter peculiar: ela é idêntica a uma forma superior, abstrata e anônima de servidão. A emancipação social seria libertar-se dessa espécie de liberdade, em vez de "realizá-la". As coisas não são melhores com o conceito de igualdade, que implica abertamente uma ameaça, a de espremer os indivíduos em uma única e mesma fôrma.
A modernização enfiou a humanidade, por assim dizer, em um uniforme homogêneo de sujeitos de dinheiro. Mas atrás disso se ocultam relações de dependência estrutural. Na realidade, as carências, os gostos, os interesses culturais e os objetivos pessoais dos indivíduos jamais são "iguais"; eles foram somente submetidos à igualdade da forma mercadoria. Por isso, como disse [o filósofo alemão Theodor] Adorno [1903-1969], emancipador seria poder ser "desigual em paz".
Desde o Iluminismo a igualdade recebeu seu falso nimbo por meio de um truque de prestidigitação dos ideólogos burgueses. O significado do conceito da desigualdade foi deslocado da pura diversidade dos indivíduos para a subordinação de um indivíduo ao outro. O que em si mesmo é mera expressão da peculiaridade individual, isto é, a desigualdade, aparece de repente como expressão da dependência. E vice-versa: o que em si mesmo é expressão da coerção uniforme, isto é, a desigualdade, aparece de repente como expressão da libertação da dependência. Temos de lidar aqui, na ideologia moderna, com um caso típico de linguagem orwelliana.
Na realidade, a desigualdade nada tem a ver com a dominação, e, a igualdade, nada a ver com a autodeterminação. Antes o contrário: a própria igualdade na modernidade é uma relação de dominação.
O resultado é uma permanente contradição da ideologia moderna. De um lado, a esfera da circulação é separada do contexto inteiro da reprodução capitalista e elevada a ideal. De outro, a ditadura factual na produção e a desvalorização estrutural do feminino são declaradas como "lei natural objetiva" intransgredível. Incessantemente um aspecto precisa ser jogado contra o outro; e justamente em razão disso se consolidam nas cabeças as relações sociais. Liberdade e igualdade representam exatamente o que Adorno designou de "contexto de cegueira".
E a esquerda herdou tal cegueira juntamente com o aparato conceitual do Iluminismo. Particularmente os utópicos, socialistas democráticos e libertários, anarquistas e dissidentes dos países do socialismo de Estado apelaram sempre para os ideais de liberdade e igualdade, sem reconhecer que eles se restringem à esfera da circulação e sem enxergar o nexo interno de liberdade e não-liberdade existente na modernidade.
Hoje a crítica social parece mais do que nunca recair nos ideais da circulação. O que tem causas estruturais. A crise mundial provocada pela terceira Revolução Industrial expulsa um número cada vez maior de pessoas da produção real, convertendo-os forçosamente em agentes da circulação. Como operadoras de serviços baratos de todo tipo, como vendedoras, comerciantes de rua e até como pedintes, elas próprias vivenciam agora, de modo paradoxal, a esfera da liberdade e da igualdade como o jugo de um trabalho secundário; a ditadura da produção se estende a atividades cada vez maiores da circulação, até chegar ao empresariado da miséria. Liberdade e não-liberdade coincidem aí de imediato; mas, ideologicamente, esse paradoxo é tanto mais assimilado nos termos dos ideais da circulação.
Na medida em que os indivíduos se vivenciam a si próprios como pequeno-burgueses e como negociantes de seu "capital humano" cada vez mais em circulação, o utopismo da troca de mercadorias retorna, depois do fim do socialismo do trabalho, em uma versão neopequeno-burguesa. Em uma sociedade em que permanentemente todos querem empurrar a todos alguma coisa e em que as relações sociais se dissolvem em um bazar universal, os crescentes fenômenos de crise são percebidos pela retícula da existência vivida na circulação.
De maneira francamente compulsiva, uma intelligentsia de vendedores de si próprios interpreta os problemas oriundos da terceira Revolução Industrial segundo o modelo das relações da circulação: "Um possuidor de mercadorias afeta o outro". Mesmo a superação da produção de mercadorias é pensada conforme as categorias da "troca eterna".
Os indivíduos, cuja constituição não é refletida de forma crítica e que só aparentemente são "independentes uns dos outros" na esfera da circulação, devem presentear reciprocamente seu "favor" e "mostrar boa vontade", em vez de concorrerem entre si; tudo como se o problema não residisse no plano do modo de produção e da vida social, mas sim no plano de uma "patologia" representável em termos individuais, a qual poderia ser "curada" por medidas pedagógicas e terapêuticas.

Natal permanente
O sorriso falso dos vendedores é estilizado no idealismo de um tratamento mútuo simpático, não mais marcado pela concorrência, como se fosse factível uma transformação social passando ao largo do modo substancial de produção e de vida e lançando mão somente dos construtos utópicos relativos ao comportamento pessoal, os quais todos têm sua raiz na esfera idealizada da circulação -sendo que os utopistas neopequeno-burgueses se nomeiam a si próprios como "médicos que estão junto do leito do sujeito".
Propagada em muitos países, a ideologia dos escambos praticamente não representa nada mais do que uma economia de hobby; onde ela foi praticada em grande escala, como há pouco tempo durante a crise argentina, fracassou grandiosamente. Ainda mais insuficiente parece a tentativa apoiada nas investigações do etnólogo francês Marcel Mauss [1872-1950], sobretudo em sua principal obra, o "Ensaio sobre a Dádiva", de salvar da concorrência a "troca eterna" segundo o modelo das assim chamadas sociedades arcaicas e transformá-la em uma permuta de presentes, ou seja, em uma espécie de Natal permanente.
Essa idéia de uma "economia do presente" não pode, segundo sua essência, ir além do âmbito das relações pessoais imediatas; daí ela ignorar a escala das forças produtivas sociais e dos contextos sociais altamente organizados. Seria ridículo se um indivíduo dissesse ao outro: se me "doas" um transplante de rim, eu te "dôo" uma debulhadora, caso sejas honesto. O problema não é "mostrar boa vontade" de maneira recíproca e individual, mas sim aplicar com sentido, e não de forma destrutiva, as potências sociais (infra-estruturas, sistemas de formação e ciência, sistemas da produção industrial e da imaterial).
As utopias da circulação, ao contrário, buscam uma solução sempre e primariamente no plano dos modos de comportamento individual. Isso significa frear o cavalo pelo rabo. Em vez, mediante uma revolução social da produção e do modo de vida, tornar supérflua a circulação de mercadorias e a concorrência nos mercados ligada a ela, exige-se do sujeito isolado da circulação que ele realize a pretensa ontologia da troca em uma forma depurada. A concorrência deve ser "moralizada".
A emancipação social aparece então como mera conseqüência de uma utopia da liberdade e igualdade do sujeito da circulação, supostamente "realizada" em pequenos grupos. A questão da solidariedade prática nos contextos sociais é ideologizada e convertida em um idealismo pedagógico mentiroso, muitas vezes psicoterapêutico, o qual pode se tornar simplesmente o terror da gentileza e do controle social recíproco (por exemplo, segundo o modelo de seitas religiosas). Esse utopismo neopequeno-burguês do capital humano em circulação está condenado ao fracasso tanto quanto todas as utopias anteriores.
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Robert Kurz é sociólogo alemão, autor de "Os Últimos Combates" (Vozes). Escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Luiz Repa.
 

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TEORIA SOBRE O MÉTODO CIENTÍFICO

EM BUSCA DE UM MODELO UNIFICANTE PARA AS CIÊNCIAS E DE UM RETORNO À UNIVERSIDADE CRIATIVA

I INTRODUÇÃO

Alberto Mesquita Filho

Começo, regra geral, as minhas lições sobre Método Científico dizendo aos meus alunos que o método científico não existe. Acrescento que tenho obrigação de saber isso, tendo eu sido, durante algum tempo, pelo menos, o único professor desse inexistente assunto em toda a Comunidade Britânica.
...
Tendo, então, explicado aos meus alunos que não há essa coisa que seria o método científico, apresso-me a começar o meu discurso, e ficamos ocupadíssimos. Pois um ano mal chega para roçar a superfície mesmo de um assunto inexistente.
Karl R. Popper 1

Resumo: Este artigo é o primeiro de uma série de artigos relacionados à metodologia científica e cuja temática foi dividida em cinco tópicos principais. Corresponde a uma versão atualizada de considerações expressas pelo autor a partir de 1983, em livros, artigos e conferências citados no texto; colaborou, para esta atualização, a experiência adquirida pelo autor no processo de remodelação da Pró-Reitoria Comunitária da USJT (1992-1993), bem como aquela adquirida junto aos demais membros da equipe criada pelos Conselhos Superiores da USJT (1994) expandida em 1995 com a finalidade de implantar o Centro de Pesquisa da USJT. Os conceitos foram axiomatizados, de forma a darem corpo a uma nova teoria sobre o método científico, permitindo mesmo a constatação de possíveis aplicações dentro de um contexto abrangente, tais como: 1) a teoria fornece os meios necessários para que se promova a integração das ciências; e, 2) propicia a sustentação de um projeto visando a caracterizar a universidade como o local apropriado para a formação de cientistas. Os cinco tópicos a serem abordados são, pela ordem: I - Introdução, na qual é proposta a regra delimitante da ciência; II - O macrométodo científico e a História da Ciência; III - O papel da universidade na produção de conhecimentos; IV - O método científico propriamente dito: a) A teoria da prática em ciência; b) A prática da teorização científica; V - O micrométodo científico e a Filosofia da Ciência.
Os demais tópicos estão em fase de projeto, não havendo portanto previsão quanto à época de publicação.



1. Colocação do problema.
Método, entre outras coisas, significa caminho para chegar a um fim ou pelo qual se atinge um objetivo. Que dizer então do método científico? Poderia dizer que é o caminho trilhado pelo cientista quando em busca de "verdades" científicas. Percebam que estou meramente jogando com as palavras e associando-as ao conceito de método acima postulado. Quais são as "verdades" científicas? O que é ser cientista? O que é ciência? Existe uma ciência única? Quando nos reportamos a uma hipotética linha demarcatória, a separar o que julgamos ser uma verdade científica de outras possíveis verdades, a que nos estamos referindo?

Afirma-se, com grande freqüência, que o cientista é aquele que se utiliza do método científico. Os que aceitam esta verdade, e há muitos que o fazem devem procurar uma conceituação para método científico diferente da exposta no parágrafo anterior, sob pena de andarem em círculo. Ou definimos cientista a partir da definição de método algo tentado por Popper ao propor o falsificacionismo ou definimos método a partir da definição de cientista; do contrário não chegamos a nada. Conservarei a idéia de método científico como caminho trilhado pelo cientista, com o que estou assumindo o risco de ter que definir ciência e/ou cientista. É o que tentarei fazer nesta introdução.

2. O que é ciência?
Não é fácil definir ciência, e são inúmeros os tratados sobre o assunto a abordarem esta dificuldade. Ao leitor principiante em ciência e que queira penetrar na complexidade do tema, ou então perceber a quantas anda nossa ignorância a respeito, sugiro, se tiver pendores filosóficos, que comece pelo livro de Chalmers (1976); ou então, se preferir algo mais ameno e mais voltado à prática científica, pelo livro de Beveridge (1980). Ao leitor acomodado, e que não tenha amplo conhecimento do assunto, ou mesmo para aquele que pretenda prosseguir com esta leitura ciente de que é possível, pelo menos em nível conjectural, enfrentar o desafio apontado, relatarei aqui a conclusão de um ensaio, que sintetiza uma idéia que me ocorreu há cerca de dez anos , e que apresentei, na sessão de debates da mesa redonda A Pesquisa na Universidade Particular, ocorrida por ocasião da IV Semana de Psicologia da USJT (1994), com as seguintes palavras:

"Vejo a ciência como a área do conhecimento que se apóia não num método, mas sim na regra da repetitividade, a que eu tenho chamado de regra científica fundamental:

Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda."

A regra científica fundamental, conquanto aceita, intuitivamente, por todos os cientistas, ocupa, entre os mesmos, e até entre os filósofos da ciência, um papel secundário, quando não totalmente ignorada. Via de regra, considera-se a ciência como que apoiada em regras outras, como por exemplo: o princípio da causalidade de Kant, a regra metodológica de Popper que se associa a seu método dedutivo de prova, o princípio ou argumento indutivista, e as regras ou critérios de utilidade. Como posições extremas, e apoiadas em regras mais rígidas, podemos citar a visão paradigmática de Thomas Khun, a defender o dogmatismo científico; o ponto de vista de Chalmers, a questionar a argumentação filosófica, no que diz respeito à delimitação da ciência; e a visão anarquista de Feyerabend, a se opor frontalmente ao racionalismo em ciência.
A fim de ilustrar o comentado no parágrafo anterior, vejamos como Thomas Khun (1962) defensor de uma posição científico-filosófica incompatível com a que aqui pretendo apresentar retrata a importância da repetitividade dos eventos como algo a semear o surgimento de novas idéias:

"Existem, em princípio, somente três tipos de fenômenos a propósito dos quais pode ser desenvolvida uma nova teoria. O primeiro tipo compreende os fenômenos já bem explicados pelos paradigmas existentes. Tais fenômenos raramente fornecem motivos ou um ponto de partida para a construção de uma teoria. Quando o fazem, ... as teorias resultantes raramente são aceitas, visto que a natureza não proporciona nenhuma base para uma discriminação entre as alternativas. Uma segunda classe de fenômenos compreende aqueles cuja natureza é indicada pelos paradigmas existentes, mas cujos detalhes somente podem ser entendidos após uma maior articulação da teoria. Os cientistas dirigem a maior parte de sua pesquisa a esses fenômenos, mas tal pesquisa visa antes à articulação dos paradigmas existentes do que à invenção de novos. Somente quando esses esforços de articulação fracassam é que os cientistas encontram o terceiro tipo de fenômeno: as anomalias reconhecidas, cujo traço característico é a sua recusa obstinada a serem assimiladas aos paradigmas existentes. Apenas esse último tipo de fenômeno faz surgir novas teorias."

Ora, se um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se recusou obstinadamente a ser assimilado aos paradigmas existentes, e se esta recusa é quem orienta a caracterização de novas teorias, e mais: se a ciência é, fundamentalmente, o conjunto das idéias e teorias geradas pela mente humana, bem como a aplicação, pelo homem, dessas idéias e teorias, em busca de um relacionamento sadio com a natureza e com os seus semelhantes, podemos sossegadamente concluir que ciência é o processo pelo qual o homem se relaciona com os fenômenos universais que se sujeitam à regra científica fundamental.

3. O "ser" cientista.

Cientista, diz-nos Ferreira (1986), é a pessoa que cultiva ou que é especialista em alguma ciência, ou em ciências ; e ciência é um processo definido no item anterior. Se aceitarmos estas premissas, concluiremos que o conhecimento científico é aquele factível de reprodução, enquanto o cientista é aquele que, de alguma forma, cultiva esses conhecimentos. É importante aqui salientar que, muitas vezes, o que se espera reproduzir é um dado probabilístico. Por exemplo, se dissermos que 80% das moléculas de um gás são do elemento químico oxigênio, isto não significa estarmos afirmando ser oxigênio esta ou aquela molécula objeto de verificação experimental; o que a regra nos preconiza é que, independentemente de qual cientista for tentar reproduzir a medida, ou do local escolhido para que esta segunda medida seja efetuada, observando-se as condições em que a mesma foi realizada anteriormente, o valor obtido concordará com o valor precedente, dentro de uma margem de erro também estimável por métodos experimentais.
Todos nós, vez ou outra, nos comportamos como cientistas. Ser cientista não é possuir um rótulo, mas sim postar-se com uma atitude científica; por outro lado, mesmo aquele que se diz cientista, vez ou outra assume atitudes não científicas e penetra em terrenos apoiados em regras próprias ou, até mesmo, sem regras. O rótulo é freqüentemente utilizado quando queremos nos referir às pessoas que se utilizam de seus talentos científicos como meio de vida: seriam então os cientistas profissionais.
A filosofia, por exemplo, é um campo de atuação bem mais abrangente que aquele ditado pela regra científica fundamental. Poderíamos dizer que a filosofia comporta a ciência, ainda que esta idéia não agrade a alguns cientistas; mas jamais poderíamos dizer, e quanto a isso todos são concordes, que a ciência comporta a filosofia. O bom cientista utiliza-se da filosofia, da mesma forma que a maioria dos indivíduos com sede se utilizam do copo. Outras áreas do conhecimento seriam: 1) o ocultismo e aqui poderíamos incluir, a título de exemplo, a alquimia e a astrologia; 2) as artes e vale a pena aqui frisar que a arte pode ser encarada cientificamente, postura esta que foi freqüentemente adotada por Leonardo da Vinci, e defendida em sua Teoria do Conhecimento . 3) a teologia; etc. A busca pela verdade, que também é objetivo da grande maioria destas áreas não científicas, segue-se por caminhos nem sempre limitados ou compatíveis com a regra científica fundamental.
O cultivo da ciência pode se dar através da observação de alguns ou todos dentre seus objetivos nobres, quais sejam: 1) aquisição, transmissão e aplicação de conhecimentos científicos já sistematizados; e 2) produção e divulgação de novos conhecimentos. Visto sob este ângulo, são cientistas: 1) o estudioso e/ou o professor e/ou o profissional bacharel em quaisquer das ciências; 2) o tecnólogo; 3) o pesquisador em áreas científicas; 4) o teorizador em ciências; 5) e o autor de artigos científicos relatando idéias próprias e/ou revisões bibliográficas. Sob um ponto de vista mais rigoroso, o cientista seria apenas aquele capaz de dominar as técnicas inerentes a todos os objetivos nobres acima apontados.
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Percebam que já conceituamos ciência e já conseguimos ir além, a ponto de fornecer dados para que se analise o comportamento daqueles que trabalham em ciência. Observado este comportamento, poderíamos assumir como cientistas aqueles que realmente contribuem para o progresso das ciências. Adotarei esta postura, mas gostaria de esclarecer, conforme será comentado oportunamente, que a noção de progresso aqui defendida é um pouco mais abrangente do que aquela preconizada pelos pensadores iluministas que tanto influenciaram os positivistas. Aceita esta premissa a de que cientistas são somente aqueles que real e diretamente contribuem para o progresso das ciências suponha que consigamos caracterizar os cientistas, assim definidos, como aqueles que, ao contribuir para o progresso das ciências, se utilizam de um método comum, a que chamaremos método científico. Poderemos, então, afirmar, e não se trata aqui da busca por uma definição, que o cientista é aquele que se utiliza do método científico; o raciocínio cíclico, da forma como foi agora utilizado, está livre de conseqüências funestas. Notem, com o auxílio da figura 1, a sintetizar as idéias principais aqui focalizadas, que, do ponto de vista conceitual, não estamos andando em círculo.
REGRA CIENTÍFICA FUNDAMENTAL
Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda.
DEFINIÇÃO DE CIÊNCIA
Ciência é o processo pelo qual o homem se relaciona com os fenômenos universais que se sujeitam à regra científica fundamental.
OBSERVAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOS QUE TRABALHAM EM CIÊNCIA

VERIFICAÇÃO DE QUE ALGUNS CONTRIBUEM
PARA O PROGRESSO DAS CIÊNCIAS
Cientista é todo ser racional que contribui diretamente para o progresso das ciências.
CONSTATAÇÃO DE QUE ESTES SE UTILIZAM
DE UM MÉTODO COMUM
Figura A - Para explicação vide texto

Resta-nos, então, para que a idéia ganhe em consistência, comprovar a existência de um único método científico; e isto não parece ser uma tarefa fácil. Antes de enfrentarmos esta dificuldade, vamos verificar como as idéias aqui apresentadas se conformam a conceitos classicamente adotados como modelos de método científico.

4. O argumento indutivista.

Uma crítica imparcial, conquanto demolidora, ao indutivismo, é apresentada por Chalmers nos três primeiros capítulos de seu livro . Veremos aqui apenas alguns tópicos interessantes do ponto de vista epistemológico, e/ou necessários para um melhor entendimento da teoria ora sendo apresentada.
Um sumário completo do argumento indutivista da ciência está esquematizado na figura 2, extraída de Chalmers . Chama a atenção a omissão da dedução de hipóteses: o indutivista admite ser possível partir da observação e chegar a leis apelando exclusivamente ao raciocínio indutivo. O método indutivo baseia-se na crença de que é possível confirmar um enunciado universal (lei) através de um certo número de observações singulares. Via de regra, quando se questiona o indutivista a respeito da omissão da hipótese, ele logo repete uma frase de Newton: Não faço hipóteses. Obviamente este indutivista ingênuo ouviu esta frase, sabe que foi proferida por Newton, mas demonstra não saber a que Newton estava se referindo. A hipótese, a que Newton se refere, não é a mesma que hoje se conceitua nos tratados de metodologia científica ou de estatística. Newton deixou bastante claro, em sua obra, que não fazia, como cientista, especulações ou conjecturas infundadas. No que se refere a hipóteses, no contexto em que o termo é hoje aceito, raríssimos foram os cientistas que, em sua fase produtiva, as levantaram em número tal cuja ordem de grandeza se aproximasse daquela atingida por Newton.
LEIS E TEORIAS

FATOS ADQUIRIDOS
ATRAVÉS DE
OBSERVAÇÃO PREVISÕES E
EXPLICAÇÕES
Figura B - O argumento indutivista (segundo Chalmers).
O argumento indutivista baseia-se na crença no princípio da indução que, dentre outras formas, pode ser enunciado como: "Se, em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, em futuras verificações o mesmo sucederá." Escolhi esta versão para que fique claro o contraste entre o princípio da indução e a regra científica fundamental explícita na figura 1. Três comentários merecem ser feitos a respeito: 1) Conquanto seja usado como regra metodológica, o princípio da indução não define o número de observações singulares a permitir uma generalização (obtenção de leis). 2) Esta e outras falhas conceituais, inerentes ao argumento indutivista, propiciam interpretações ingênuas ao princípio, conforme veremos abaixo. 3) O princípio, sem perder em generalidade, no que diz respeito às premissas (tem o mesmo campo de atuação que a regra científica fundamental), e para que possa caracterizar-se como metodológico, e não apenas norteador, torna-se mais restritivo que a regra científica fundamental afirma, ao invés de supor. Conseqüentemente, os que abraçam esta ideologia, devem procurar por uma outra definição de ciência que não a apresentada no item 2 e figura 1. As conseqüências epistemológicas daí resultantes serão objeto de discussão em itens posteriores.
O indutivista ingênuo é aquele que, dentre outras falhas conceituais e/ou de raciocínio, consegue provar "cientificamente", por exemplo, a inexistência de Deus, pelo simples fato de Deus não se manifestar a ele; tendo em vista que ele não possui uma regra para delimitar a ciência que não seja o princípio da causalidade não há efeito sem causa ele tenta inverter o princípio que no caso ficaria: não há causa sem efeito e, apelando para o argumento indutivista, consegue, por métodos "científicos" chegar a conclusões não científicas no caso, teológicas. Mais comum, no entanto, é o erro, agora não tão ingênuo, cometido por alguns indutivistas que conseguem provar "cientificamente" que "todas as maçãs são vermelhas", prova esta "válida" somente até o dia em que eles se depararem com maçãs verdes. Neste caso, a falha decorre da crença num método repleto de incoerências internas.

5. O argumento dedutivista.

O argumento dedutivista, ainda que não isento de críticas, representou, sem dúvida alguma, uma evolução, no sentido em que propiciou uma metodologia científica dotada de coerência interna. A esse respeito, é dito, com freqüência, que o raciocínio dedutivo constitui o argumento da lógica.
A fim de padronizar comparações, apresentarei o argumento dedutivista como apoiado no seguinte princípio: Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, para que seja hipótese, deverá ser passível de verificação observacional. A figura 3 ilustra a proposição deste argumento.
É importante observar que nem toda a afirmação "deduzida" será uma hipótese, motivo pelo qual não utilizamos o argumento lógico se, e somente se, ao enunciarmos o princípio. Em particular, é de se ressaltar a opinião de Severino (1994) a respeito:
"É preciso não confundir hipótese com pressuposto, com evidência prévia. Hipótese é o que se pretende demonstrar e não o que já se tem demonstrado.
A lógica dedutiva, ao caminhar do geral para o particular, nos garante a formulação de hipóteses; e hipótese "comprovada" através de uma observação controlada (teste e/ou experiência) nos permite suspeitar, através de um raciocínio indutivo (do singular para o geral), sua condição de lei. Observem o cuidado na colocação das palavras: Eu disse nos permite suspeitar, e não nos permite garantir. Por que esse cuidado? A experimentação não nos garante verdades? A esse respeito, Popper assim se referiu:
"Não há um método para determinar se uma hipótese é 'provável', ou provavelmente verdadeira."
É interessante notar que algumas limitações inerentes ao indutivismo, e que propiciam o aparecimento de conclusões ingênuas, são aqui substituídas por uma impossibilidade. Sob esse aspecto, o dedutivismo não solucionou o problema, mas, simplesmente, reduziu a possibilidade de que se cometessem determinados raciocínios ingênuos.
HIPÓTESES

OBSERVAÇÃO LEIS
Figura C - O argumento dedutivista
Rigorosamente falando, o problema não é tão insolúvel assim. Será insolúvel tão-somente para aqueles que julgam estar, cientificamente, buscando por verdades absolutas. A verdade científica, e só o leigo talvez não saiba, é uma verdade provisória, tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela se nos aparenta ser. As verdades científicas de hoje serão, quando não negadas, lapidadas e reformuladas amanhã. Se chegaremos ou não, por métodos científicos, à verdade absoluta, é um questionamento que a ciência não está aparelhada para responder. E talvez nunca esteja, o que não nos impede de que continuemos procurando pela verdade.
Popper foi mais além, demonstrando ser impossível até mesmo probabilizar uma afirmação comprovada por um raciocínio que siga a metodologia dedutiva (incluindo, e é aí que reside o problema principal do método, a indução vide lado direito da figura 3). A esse respeito, Popper propõe a substituição do termo probabilizar por corroborar: Uma hipótese seria tanto mais corroborável quanto mais propiciasse verificações experimentais; e teria sido tanto mais corroborada, e não há como se atribuir números probabilísticos a esse efeito, quanto mais resistisse a essas verificações. Siegel (1977, tradução) adota, provavelmente com o mesmo objetivo, a expressão grau de aceitabilidade.
"Efetuamos pesquisas a fim de determinar o grau de aceitabilidade de hipóteses deduzidas de nossas teorias."
Esta impossibilidade em garantir um acerto preocupou bastante Popper, e, certamente, foi um dos motivos que o levou a expandir o argumento dedutivista através da proposição do falsificacionismo, a ser apresentado no item 7.
Independentemente das dificuldades apontadas neste e nos itens precedentes, a verdade é que a ciência progride, e este progresso é guiado por homens que conhecem o terreno por onde pisam. E conquanto todos saibam da não existência, em ciência, de verdades absolutas, da impossibilidade de se chegar a uma solução definitiva para os problemas científicos, e da não existência de provas observacionais irrefutáveis, quase todos entendem e concordam com a afirmação de GIL (1994) expressa a seguir:
"A pesquisa científica inicia-se sempre com a colocação de um problema solucionável. O passo seguinte consiste em oferecer uma solução possível através de uma proposição, ou seja, de uma expressão suscetível de ser declarada verdadeira ou falsa. A esta proposição dá-se o nome de hipótese. Assim, a hipótese é a proposição testável que pode vir a ser a solução do problema."

6. O que é teoria?

É importante salientar que a finalidade primordial da ciência não é formular hipóteses, e sim, sistematizar teorias; e que teoria não é pura e simplesmente uma coletânea de hipóteses: Teoria é um conjunto de hipóteses coerentemente interligadas, tendo por finalidade explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio do conhecimento . Por que, então, os livros de metodologia insistem em justificar os métodos através de hipóteses únicas e, via de regra, desinteressantes, tais como: As maçãs são vermelhas, os cisnes são brancos, etc.?
A verdade é que nem sempre é fácil encontrar teorias ao mesmo tempo simples e de amplo espectro, ou seja, que possam ser entendidas por leitores das várias áreas do conhecimento. Por outro lado, os argumentos que corroboram ou derrubam teorias são, em princípio, idênticos aos que corroboram ou derrubam hipóteses poderíamos também dizer que uma hipótese é, ou simula ser, uma teoria, cujo conjunto de hipóteses é unitário. Em geral, a dificuldade inerente ao grau de complexidade de uma teoria, pode ser superada, desde que o cientista conheça a fundo esta teoria, cujo grau de aceitabilidade pretende testar, e domine a lógica envolvida em situações similares, porém simples, como aquelas que aparecem nos compêndios sobre o assunto.
A ênfase, dada pelos textos de metodologia científica, a métodos relacionados a testes de hipóteses, contrasta com a quase ausência de referências a métodos relativos à prática da teorização. Existem exceções a esta regra, e eu não poderia deixar de citar os livros de Bunge e de Lacey , indicados especialmente para os iniciantes da área de exatas. Embora não especificamente dirigido a esta temática, há que se destacar também o livro de Bohm e Peat e que merece ser lido, posto que focaliza a essência da problemática aqui apontada; neste caso, e por este motivo, é indicado aos iniciantes de todas as áreas.
A prática da teorização, com raríssimas exceções, não se aprende na escola. Grandes teorizadores, por terem aprendido a utilizar uma técnica não encontrada nos livros tradicionais, e que nem mesmo é ensinada na maioria dos regimes de iniciação científica, chegaram a ser confundidos com gênios. É bem possível que estes gênios tenham adquirido esta práxis cultuando algum resquício da filosofia que a sociedade moderna não conseguiu despedaçar.
A lacuna, acima apontada, fomenta a ingenuidade ou, até mesmo, o charlatanismo, multiplicando. sobremaneira, o número dos que, sem estarem devidamente preparados para teorizar uma atividade que não é elementar ainda assim teorizam, e teorizam mal fato este que chega a incomodar cientistas de respeito que ocupam postos importantes nas universidades . Por outro lado, e em decorrência disto, permite que se condene, à marginalidade científica, e por períodos variáveis de tempo, todos aqueles que, certos ou errados, pretendem evoluir seriamente no sentido de atender à finalidade última da ciência: a edificação de teorias representacionais.
Que métodos estes homens seguiram que não a paixão, a devoção, a persistência e a crença num espírito universal? Espírito este que, segundo alguns admitem, não está a se divertir com nossos erros e "acertos", o que foi sintetizado, pelo maior dos gênios do século XX, nas seguintes palavras: Deus não joga dados. A resposta nos é dada pelo próprio autor desta afirmação:
"O alvo de construir uma teoria de campo eletromagnético da matéria permanece inatingível por ora, embora em princípio nenhuma objeção possa ser levantada contra a possibilidade de vir a se alcançar tal objetivo. O que reteve qualquer tentativa posterior nessa direção foi a falta de qualquer método sistemático que levasse a uma solução"
Será que não existem métodos ou regras a serem adotados nesta práxis? E por falar nisso, a prática da teorização não seria uma "teorexis" ? Será que teorizar em ciência é uma atividade puramente filosófica? Não existe uma metodologia científica a orientar aqueles que se preocupam em decifrar os segredos que estão por trás dos fenômenos que se adaptam à regra científica fundamental? Caso exista um método a ser sistematizado: Seria ele diferente do método científico? O que é o método científico?
Tentarei, dentro do possível, e da finalidade a que me propus ao conceber esta série de artigos, responder, oportunamente, e/ou orientar o leitor, se houver como, no que diz respeito aos questionamentos aqui assinalados. De qualquer forma, mais detalhes sobre teoria e/ou teorização serão apresentados no tópico IV b: A prática da teorização (em preparo).

7. O falsificacionismo.

O falsificacionismo não foi proposto como um método novo, mas sim como um critério, ou conduta, a ser ou não adotado por aqueles que se conformam ao método dedutivo de prova. Não há nada, no falsificacionismo, do ponto de vista metodológico, que não esteja previsto, ou que não decorra naturalmente de uma opção a ser seguida, espontaneamente ou não, por este ou aquele dedutivista. Qual seria então este critério? Com que finalidade foi proposto? A resposta a estas perguntas, bem como o mérito do falsificacionismo constituem o objetivo deste e dos próximos dois itens.
Antes de mais nada afirmarei, sem me alongar, que uma teoria, adotado o argumento dedutivista, pode ser corroborada, ou negada, fundamentalmente, através de um dos três procedimentos seguintes: 1) Pela corroboração ou negação de uma de suas hipóteses; 2) pela verificação ou negação de uma de suas predições; 3) pela corroboração ou negação de teorias auxiliares, deduzidas da teoria principal (teoria em teste, ou sob suspeita); as teorias auxiliares podem ser de três tipos: teorias ou hipóteses de nulidade, teorias ou hipóteses salvadoras e teorias ou hipóteses assassinas . Incluem-se no rol das teorias auxiliares, como veremos oportunamente, as teorias transcendentais, freqüentemente conotadas por experiências de pensamento. As predições e as hipóteses ou teorias auxiliares são teorias geradas utilizando-se do próprio argumento dedutivista, esquematizado na figura 3. Neste caso, o foco de atenção inicial, representado na figura como observação é, nada mais, nada menos, que a própria teoria que deu origem à predição e/ou à teoria auxiliar.
Ao valorizar a falseabilidade, como critério a ser adotado pelos dedutivistas, Popper nada mais fez que tentar expandir, ou trazer para o domínio da metodologia científica, uma prática amplamente utilizada com sucesso em estatística: o critério de tomada de decisão através da hipótese de nulidade (H0):
"O primeiro passo, ou estágio, no processo de tomada de decisão, é definir a hipótese de nulidade (H0). Formula-se usualmente com o expresso propósito de ser rejeitada. Se é rejeitada, pode-se aceitar a hipótese alternativa (H1). A hipótese alternativa é a definição operacional da hipótese de pesquisa do pesquisador. A hipótese de pesquisa é a predição deduzida da teoria que está sendo comprovada.
A contribuição de Popper, a esse respeito, limitou-se à ênfase que deu à importância da procura por hipóteses de nulidade. Até então, este costume estava restrito à procura por previsões apresentadas, via de regra, pelo próprio autor da teoria e/ou hipóteses salvadoras levantadas pelos adeptos da teoria em foco e/ou hipóteses assassinas levantadas pelos críticos da teoria em questão. As quatro têm uma característica comum: são todas teorias falseadoras.
A boa teoria, dentre outras qualidades , e segundo Popper, é aquela potencialmente geradora de hipóteses falseadoras; e tanto melhor será quanto maior for o risco de ser negada. Ela pode até mesmo ser derrubada no primeiro teste a que for submetida, o que não invalida o que foi dito: foi uma boa teoria enquanto durou, e voltará a ser se conseguir ressurgir das cinzas. Dito em outras palavras: o critério, para se avaliar a virtude de uma teoria nascente, repousa no seu grau de submissão a testes adversos. Uma teoria de baixo risco raramente é bem vinda ; e uma teoria sem risco algum, na opinião de Popper, não é científica; e eu iria além: sequer é teoria.
Levando-se em conta que o critério falsificacionista peca pela subjetividade, deve-se tomar cuidado ao se optar por uma teoria, em detrimento de outra, pelo fato de a primeira ser mais falseável que a segunda. Diferentes hipóteses falseadoras devem apresentar pesos diferentes; e este peso, mesmo quando bem estimado, freqüentemente o é por um processo subjetivo. Não é raro utilizar-se desta subjetividade inerente ao falsificacionismo para justificar escolhas feitas segundo critérios políticos, econômicos, interesseiros, corporativistas, ou então apoiados em "princípios" outros que também deixam a desejar, no que diz respeito à ética do cientista.

8. Entendendo o falsificacionismo.

Suponha que alguém deduza a seguinte hipótese H1: As maçãs do Estado de São Paulo são vermelhas. A teoria, assim simulada, é uma teoria de hipótese única. Percebam que, no argumento da hipótese, está se admitindo como pressupostos uma infinidade de conceitos, tais como fruta, maçã, cor, vermelho, local, São Paulo, Brasil, etc. Estes pressupostos são o que Severino chama de evidências prévias, como vimos no item 5, e constituem uma das bases da argumentação de Chalmers ao contestar os que afirmam que a ciência começa com a observação.
Um exemplo de previsão desta teoria seria: as maçãs de Jundiaí devem ser vermelhas, tendo em vista que Jundiaí se localiza no Estado de São Paulo.
Suponha, também, que alguém tenha demonstrado que, em condições X, outra fruta que não a maçã, e que originalmente era de determinada cor, se modifica; e conclui que, se a teoria sobre as maçãs for verdadeira, ela deverá permanecer verdadeira nas condições X. Pode-se, então, construir a seguinte hipótese de nulidade H0: Em condições X, obter-se-ão, em São Paulo, maçãs não vermelhas. Esta previsão não decorre da teoria (H1), mas de evidências prévias outras e estranhas à mesma. Se esta hipótese (H0) for verificada, a hipótese original H1 estará falseada.
Será que este simples fato condena a teoria original? Para o falsificacionista ingênuo, sim. Para aquele que entendeu e aceitou o significado da afirmação de Popper, citada neste artigo, ao final do quarto parágrafo do item 5, não. Optar por uma teoria não significa crer numa verdade absoluta. Se eu afirmo que H0 é verdadeira, e conseqüentemente H1 é falsa, isto não significa que eu estou atribuindo o grau de veracidade 100% a uma hipótese e 0% à outra; significa, simplesmente, que a verificação experimental me convenceu a optar por uma teoria em detrimento da outra. A opção é uma das maneiras pelas quais o cientista expressa a sua fé na ciência , e o falsificacionismo estabelece normas a lhe orientar nesta opção.
Suponha agora que, em condições X, ou em outra condição qualquer, se encontrem, no Estado de São Paulo, maçãs verdes. Significa isto que a hipótese H1 é falsa? Não. Simplesmente ela foi falseada. Nada impede que amanhã, com a evolução da ciência, se descubra que estes frutos verdes, a que hoje associamos a idéia maçã, estejam inseridos num outro contexto, e que realmente não sejam maçãs.
Por que então se dá preferência a verificações falseadoras em detrimento das corroboradoras? Ora, isto nem sempre acontece, conquanto seja esta uma das regras propostas pelo falsificacionismo. Por exemplo, tanto a teoria da relatividade, quanto a mecânica quântica são teorias físicas amplamente aceitas, graças a terem sido corroboradas por previsões que se confirmaram; e pouco valor se deu a um grande número de testes que as falsearam. Por outro lado, estas duas teorias são, concomitantemente, aceitas pelos físicos, conquanto existam fortes argumentos a "provar" que cada uma destas duas teorias falseia a outra, e ambas falseiam a teoria de Maxwell, que também é aceita como verdadeira. Certos ou errados, neste caso, os físicos modernos, dentre os quais se inclui Popper, fizeram uma opção contrária à norma falsificacionista, e não há como criticá-los por essa conduta, a menos que se pretenda atribuir ao falsificacionismo uma qualidade que ele não possui: a de estabelecer critérios absolutos de veracidade.
O falsificacionismo presta-se também a fomentar o diálogo e a criatividade. Neste caso, surge quase como que um apelo para que se invista mais em experiências de pensamento, um recurso legítimo e de grande valor em ciência.

9. O falsificacionismo como delimitador da ciência.

Vimos, no item 8, que, para Popper, uma teoria sem risco algum não é científica, e eu acrescentei: sequer é teoria. Popper quis se aproveitar deste argumento para delimitar a ciência, utilizando-se então do falsificacionismo como critério de cientificidade. Com esta opção, Popper desagradou a muitos e convenceu a poucos, ainda que sua idéia não fosse de todo má.
Não podemos, em sã consciência, dizer que a psicanálise, por exemplo, não pertença ao campo da ciência pelo simples fato de uma de suas "teorias" precursoras ser não falseável. Sequer podemos dizer que o autor dessa idéia não fosse cientista: se é verdade que a psicanálise se desenvolveu em cima desta idéia, e apesar disso, conseguiu, de alguma forma, se impor como ciência, muito provavelmente, queiramos ou não, seu autor contribuiu diretamente para o progresso da ciência. Mesmo que hoje alguém chegasse a concluir, categoricamente, pelo caráter não científico da psicanálise, isto, de forma alguma, nos autorizaria a, hipoteticamente, condená-la à estagnação.
Se um cientista, utilizando-se de maus critérios, ou até mesmo apoiando-se em dogmas, constrói, de maneira não científica, um determinado campo do conhecimento, isto não significa que este campo não possa vir a ser estudado cientificamente; e que não se possam criteriosamente, aproveitar as conclusões de seus estudos. Nada impede que uma teoria, considerada hoje como não científica, pelo fato de possuir uma ou mais hipóteses não falseáveis, adquira esse status após passar por ligeiras reformulações.
Não podemos assumir que um campo do conhecimento seja não científico pelo simples fato de não encontrarmos nele teorias científicas. Este posicionamento de Popper, a meu ver, não se justifica: o falsificacionismo não é um bom critério delimitador da ciência, e isto eu espero que tenha ficado claro para o leitor. E mais: não existem áreas não científicas, mas sim áreas onde ainda não foram produzidos conhecimentos científicos. O progresso científico tem sua origem na intuição e, pelo menos nesta etapa, nada é absolutamente corroborável ou falseável. Podemos ainda dizer que a ciência não se localiza aqui ou acolá: sob esse aspecto, a ciência não tem fronteiras.

10. Enfim, a teoria do método.

Nos demais artigos desta série, irei demonstrar ser possível, partindo da regra científica fundamental, desenvolver uma teoria sobre o método científico utilizando-se das três hipóteses seguintes:

Hipótese 1: O progresso científico tem sua origem na intuição.
Hipótese 2: A produção de conhecimentos passa necessariamente pelas etapas dedução, análise, indução e síntese, na ordem apresentada.
Hipótese 3: Os princípios científicos fundamentais são universais.
Por questão de simplicidade, subdivirei o estudo do método em três etapas, correspondentes a cada uma das hipóteses: 1) o estudo do macrométodo científico; 2) o estudo do método científico propriamente dito; e 3) o estudo do micrométodo científico. Os tópicos, nos quais desenvolverei estas etapas, estão em fase de projeto, não havendo, portanto, previsão quanto à época de publicação.


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