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O que a culpa pode provocar em cada um de nós? Caso paremos para refletir, encontraremos em cada um as mais diferentes formas de manifestação deste sentimento. Desde o desespero pela impossibilidade de reversão de situações gravíssimas, passando pelo remorso frente aos casos onde, apesar de se ter tido a oportunidade da reparação, ficou o constrangimento entre ofendidos e ofensores. Tais situações provocam reações variadas, principalmente se considerarmos que cada protagonista tem a sua visão diferenciada quanto ao que seja o erro, o ilícito, o prejuízo. Já testemunhamos pessoas que, diante da acusação de culpabilidade, demonstram a frieza dos que consideram seu ato não-repreensível; até aqueles que o têm como perfeitamente normal. Em tais casos, pelo menos aparentemente, é comum não se notar qualquer sinal de pesar diante da condenação alheia. E há, inclusive, os que consideram ter realizado um benefício em favor daquele que foi lesado. De outra forma, há os que, perante a descoberta dos próprios erros, se entregam a desatinos, por vezes caindo em profunda depressão. Outros se lançam em uma ciranda de culpa que, ocasionalmente, resulta em doenças - reflexos do desequilíbrio íntimo -, ou, em casos extremos, levam ao suicídio. Raríssimos são os casos em que, após as considerações e acertos entre os envolvidos, o relacionamento prossegue sem que haja pelo menos a vaga lembrança do mal que se realizou. Para que isto ocorra, é necessário um processo de reconstrução, que burila o orgulho da vítima e a humildade do agressor, exigindo grandeza de ambos. Estas questões envolvem tantas complexidades que se criou o controverso axioma: "melhor arrepender-se do que fez, do que daquilo que deixou de fazer". Trata-se de um pensamento discutível, uma vez que se fazer ou não algo depende de diversas variáveis a serem consideradas; principalmente, quando redunda em prejuízo próprio ou alheio. É provável que cada um de nós tenha "algo" que incomoda, e que, caso pudéssemos voltar atrás, no tempo, provavelmente refaríamos tudo sem tantos desacertos. Quem sabe... Na Segunda Parte - Exemplos, de O Céu e o Inferno - obra poucas vezes consultada pelos estudantes espíritas -, Kardec reserva o capítulo VI - Criminosos Arrependidos, para registrar depoimentos de espíritos que tratam de assuntos semelhantes aos aqui estudados. Ao relê-lo, temos a convicção de que a busca pela reparação é uma Lei Universal, que move e moverá a todos nós quando cometemos um erro, um ato de injustiça, uma traição. Isto inclui desde aquele que, por conta da culpa, se entregou à insensatez do desespero, até o que se comporta com total indiferença. Distanciando-nos do perigoso campo dos julgamentos, podemos notar que, nas questões de culpabilidade, cada qual avalia utilizando conceitos bastante individuais. É essencialmente um assunto de foro íntimo. Certamente, muitos de nós passamos - ou poderemos passar - pela experiência dolorosa do sentimento de culpa. Este poderá nos atormentar, privando-nos da paz tão almejada, roubando o sono tranqüilo e restaurador, levando-nos a cair, vítimas de nós mesmos, num ciclo escravizador, onde a própria consciência faz a função de tribunal e de árbitro. Entretanto, àquele que erra, é necessário medicamento eficaz para soerguê-lo.
O sofrimento auto-imposto pelo reconhecimento da falha, a
que chamamos de remorso, é o mecanismo fundamental de
despertamento. Todavia, a permanência interminável nos processos
de tormento pela culpa é um perigoso inimigo, que se torna cada
vez mais pernicioso, produzindo enfermidades físicas e mentais. |
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Leia também os textos anteriores de autoria de Licurgo Soares de Lacerda Filho e Edson Rodrigues:
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