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Culpa e reparação
Licurgo Soares de Lacerda Filho
(Espírita; escritor e pesquisador)
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O  que a culpa pode provocar em cada um de nós?

     Caso paremos para refletir, encontraremos em cada um as mais diferentes formas de manifestação deste sentimento. Desde o desespero pela impossibilidade de reversão de situações gravíssimas, passando pelo remorso frente aos casos onde, apesar de se ter tido a oportunidade da reparação, ficou o constrangimento entre ofendidos e ofensores.

     Tais situações provocam reações variadas, principalmente se considerarmos que cada protagonista tem a sua visão diferenciada quanto ao que seja o erro, o ilícito, o prejuízo.

     Já testemunhamos pessoas que, diante da acusação de culpabilidade, demonstram a frieza dos que consideram seu ato não-repreensível; até aqueles que o têm como perfeitamente normal.

     Em tais casos, pelo menos aparentemente, é comum não se notar qualquer sinal de pesar diante da condenação alheia. E há, inclusive, os que consideram ter realizado um benefício em favor daquele que foi lesado.

     De outra forma, há os que, perante a descoberta dos próprios erros, se entregam a desatinos, por vezes caindo em profunda depressão.

     Outros se lançam em uma ciranda de culpa que, ocasionalmente, resulta em doenças - reflexos do desequilíbrio íntimo -, ou, em casos extremos, levam ao suicídio.

     Raríssimos são os casos em que, após as considerações e acertos entre os envolvidos, o relacionamento prossegue sem que haja pelo menos a vaga lembrança do mal que se realizou. Para que isto ocorra, é necessário um processo de reconstrução, que burila o orgulho da vítima e a humildade do agressor, exigindo grandeza de ambos.

     Estas questões envolvem tantas complexidades que se criou o controverso axioma: "melhor arrepender-se do que fez, do que daquilo que deixou de fazer". Trata-se de um pensamento discutível, uma vez que se fazer ou não algo depende de diversas variáveis a serem consideradas; principalmente, quando redunda em prejuízo próprio ou alheio.

     É provável que cada um de nós tenha "algo" que incomoda, e que, caso pudéssemos voltar atrás, no tempo, provavelmente refaríamos tudo sem tantos desacertos. Quem sabe...

     Na Segunda Parte - Exemplos, de O Céu e o Inferno - obra poucas vezes consultada pelos estudantes espíritas -, Kardec reserva o capítulo VI - Criminosos Arrependidos, para registrar depoimentos de espíritos que tratam de assuntos semelhantes aos aqui estudados.

     Ao relê-lo, temos a convicção de que a busca pela reparação é uma Lei Universal, que move e moverá a todos nós quando cometemos um erro, um ato de injustiça, uma traição. Isto inclui desde aquele que, por conta da culpa, se entregou à insensatez do desespero, até o que se comporta com total indiferença.

     Distanciando-nos do perigoso campo dos julgamentos, podemos notar que, nas questões de culpabilidade, cada qual avalia utilizando conceitos bastante individuais. É essencialmente um assunto de foro íntimo.

     Certamente, muitos de nós passamos - ou poderemos passar - pela experiência dolorosa do sentimento de culpa. Este poderá nos atormentar, privando-nos da paz tão almejada, roubando o sono tranqüilo e restaurador, levando-nos a cair, vítimas de nós mesmos, num ciclo escravizador, onde a própria consciência faz a função de tribunal e de árbitro.

     Entretanto, àquele que erra, é necessário medicamento eficaz para soerguê-lo.

     O sofrimento auto-imposto pelo reconhecimento da falha, a que chamamos de remorso, é o mecanismo fundamental de despertamento. Todavia, a permanência interminável nos processos de tormento pela culpa é um perigoso inimigo, que se torna cada vez mais pernicioso, produzindo enfermidades físicas e mentais.
     Cabe a cada um, o movimento à procura da regeneração. Seja buscando o verdadeiro perdão por meio da reparação direta ao agredido, ou, quando isto não for possível de maneira imediata, pela ação em benefício de todos os que cruzam a sua jornada terrestre. De qualquer forma, devemos estar cientes de que todo resgate requer esforço próprio em busca da ascensão.

Leia também os textos anteriores de autoria de Licurgo Soares de Lacerda Filho e Edson Rodrigues:


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Anjo ou demônio

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