O Ombudsman na Folha
Orientador
Sérgio Caparelli
Porto Alegre, outubro de 1991
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Introdução 1. A Folha |
Nos anos 80, a Folha de S. Paulo adotou um novo modelo de jornalismo. Os textos extensos, opinativos e repletos de adjetivos deram lugar a matérias curtas, secas, diretas, exatas. Informação inexata passou a ser informação errada. À medida que o tempo passou, o Projeto Folha foi aprimorado. A criação do cargo de ombudsman, em 1989, faz parte desse objetivo de melhorar a cada edição o jornal. Criar o programa do ombudsman exige alguns pré-requisitos. Entre esses itens, estão a independência de um jornal perante o governo, empresas e instituições, a tentativa de se melhorar o produto de forma insistente, a humildade para reconhecer erros e a vontade de estabelecer mecanismos de controle, além de buscar o contato com os seus leitores. A Folha atendia, em parte, esses pré-requisitos muitos antes de 1989, quando criou o programa. O cargo de ombudsman não é simplesmente uma peça de marketing. Apenas ouvir as reclamações dos leitores para se dizer que se pensa nele – sem atender as reivindicações – pode afastá-lo do jornal. Se fosse uma “jogada”, certamente outras empresas jornalísticas já teriam adotado o programa. O principal beneficiado com a criação do cargo foi o leitor ou a pessoa que se sentiu lesada pelo jornal. Pela primeira vez na história da imprensa desse país, uma empresa dos meios de comunicação colocou um profissional para ouvir principalmente queixas e – também – sugestões dos leitores. Mesmo antes da criação do cargo, a Folha já tinha reservado ao leitor o seu espaço, com o Painel do Leitor, na página três do primeiro caderno. Ali, era comum aparecerem críticas de pessoas anônimas contra o jornal, reclamando de erros de interpretação e até de opiniões emitidas por repórteres ou articulistas. Mas o leitor não tinha alguém específico a quem pudesse reclamar quando quissesse. Com a indicação do primeiro ombudsman, em 20 de setembro de 1989, ele passou a ter sua opinião mais respeitada no jornal – não necessariamente mais valorizada. Pôde, finalmente, reclamar contra a postura da Folha em algumas coberturas jornalísticas e ver, em alguns casos, mudanças. Com o cargo, o jornal passou também a ter um perfil dos leitores que mais se posicionam frente aos fatos. Ficou comprovado, por exemplo, que toda crítica a qualquer partido – mas principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT) – resultava em uma reação emotiva das pessoas. O ombudsman passou a ser também um responsável pelo controle de qualidade do jornal. Com as três outras funções – crítica diária, crítica pública semana e o controle dos erros cometidos pela redação –, o jornalista Caio Túlio Costa também colaborou com sugestões às editores e a cobrou mais reportagens desse ou daquele assunto. As intervenções do ombudsman tiveram resultados. Isso fica demonstrado no caso do julgamento dos médicos que operaram o presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. Tancredo morreu dois meses após a cirurgia, num hospital de São Paulo. Dois antes do início do julgamento, a Folha deu a notícia, mas não explicou como ocorreram os problemas com Tancredo. O ombudsman pediu na crítica interna para o jornal relembrar o caso. No dia seguinte, a Folha trouxe um material bem mais completo e consistente do que nos dias anteriores. Nem sempre, porém, foi assim. Há casos em que a intervenção do ombudsman não teve resultados semelhantes, principalmente quando os problemas eram subjetivos, permitiam alguma discussão opinativa. Os resultados dos primeiros 18 meses de Caio Túlio Costa no cargo são positivos. Jornalistas da própria Folha – como Gilberto Dimenstein – afirmam que o produto final melhorou com a implantação do programa. O fato de ter alguém realizando o controle e com espaço para emitir opiniões na edição de domingo fez com que os repórteres tivessem uma preocupação maior com a informação. Passou-se a ter mais cuidado na busca de dados para a redação do texto final. O controle de erros de digitação e português e de informação passou a ser melhor. Com isso, o número de erros cometidos pelo jornal passou a ser maior do que antes. Quando Caio Túlio Costa assumiu o cargo, eram corrigidas cerca de 12 informações por mês. Em fevereiro de 1991, poucos meses após a implantação do programa, foram feitos 130 erramos. Em maio, o número subiu a 160. Mesmo com esses dados, o ombudsman destaca que os erros diminuíram em relação a 1989. Mas ainda não há uma análise sobre quando essa média atual de 4,4 erros de informação por edição vai começar a baixar ou se ainda continuará crescendo. O ombudsman teve na sua coluna dominical um espaço nobre em que pôde discutir velhos conceitos do jornalismo brasileiro e mundial. Entre uma e outra polêmica, ele se opôs a atitudes tomadas por seu jornal em relação aos sequestros e pediu mais clareza aos jornalistas. O que fez o seu trabalho ganhar atenção, no entanto, foi a briga com o correspondente em Nova York, Paulo Francis. Por mais de um mês, eles travaram uma batalha verbal nas páginas da Folha, culminando com a intervenção da direção de redação. Apesar dos problemas que jornalistas – aceitar uma crítica sempre foi difícil – o ombudsman conseguiu atender certos objetivos. Ele ouviu os leitores e encaminhou suas queixas – muitas delas atendidas. Conseguiu também melhorar alguns detalhes do jornal. É, porém, um trabalho difícil, cansativo, que exige paciência. O principal beneficiado é o leitor. |
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