UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE BIBLIOTECONOMIA E COMUNICAÇÃO
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO
PROJETO EXPERIMENTAL JORNALISMO V – MONOGRAFIA
 

O Ombudsman na Folha

por
Luiz Carlos Erbes

Orientador
Sérgio Caparelli

Porto Alegre, outubro de 1991

Principal
Jornalismo
Internet
O autor


Introdução

2.O Ombudsman

3. O Ombudsman
     na Folha

4. Os Jornalistas

     Conclusão

     Bibliografia

Escreva para
o autor
 

    1. A Folha


    A história da Folha e S. Paulo não é a história de uma família que se perpetua à frente de um jornal. Cada um dos quatro proprietários imprimiu ao diário paulista uma política editorial e administrativa própria. O jornal defendeu, em períodos distintos, os interesses da classe média urbana aos dos grandes produtores de café de São Paulo.
 Os jornalistas Olival Costa e Pedro Cunha fundaram o jornal em 19 de fevereiro de 1921, com o título de Folha da Noite. A política editorial – defesa dos interesses das classes média e, inclusive, operária – se deve a razões mercadológicas: o objetivo era buscar um público diferente do “O Estado de S. Paulo”, ligado aos grandes cafeicultores.
 O que distinguia a Folha dos outros grandes jornais da época era a sua organização interna. Segundo o historiador Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil, foi o primeiro jornal estruturado como uma empresa capitalista. Na época, a maioria das empresas jornalísticas eram porta-vozes de interesses políticos definidos.
 Em 1931, Octavino de Lima, Diógenes de Lemos e Guilherme Almeida compraram o jornal. O nome da empresa mudou para “Empresa Folha da Manhã Limitada”. O diário passou os interesses dos grandes de café, numa mudança de 180 graus.
 Essa fase foi até 1945, ano da queda do presidente Getúlio Vargas do poder, quando Nabantino Ramos, Alcides Ribeiro Meirelles e Clóvis Medeiros Queiroga aquiriram a empresa. Advogado, Nabantino foi um líder que, segundo Carlos Eduardo Lins da Silva no livro “Mil Dias, os bastidores da revolução em um grande jornal” (1998), tentou modernizar a empresa e acabar com as improvisações que reinavam no mundo do jornalismo.
 Escreve Lins da Silva: “Ele teve a preocupação de sistematizar suas experiências, produziu um extraordinário  documento chamado `Normas de Trabalho da Divisão de Redação´, tentou teorizar sobre jornalismo, estabeleceu critérios por excelência para a atividade dos repórteres e redatores.” (Silva, página 42, 1988) 
 Se o resultado final não pode ser considerado positivo, a experiência serviu ao jornalismo quase como uma ruptura com as práticas da época. Ao lutar contra a improvisação, ele produziu os documentos “Normas de Trabalho” e “Programa de Ação das Folhas”, documentos “quase” precursores do “Manual de Redação” e do “Programa de Metas Trimestrais”, segundo Lins da Silva.
 Nabantino, no entanto, deixou a empresa para os novos proprietários – Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho – em situação financeira difícil. Os dois empresários, que adquiriram o jornal em 1962, levaram praticamente cinco anos para reorganizar a empresa, financeira e administrativamente. “Nesse período, não houve tempo para preocupação com o jornal em si.” Silva, página 44, 1988)
 Nem na Segunda fase (1968-1974), a redação foi premiada com grandes investimentos. Nesses seis anos se deu a chamada “revolução tecnológica”. Foram introduzidos o “off-set”, a fotocomposição e novas unidades impressoras. No fundo, essa fase segue até os dias de hoje e permitiu a introdução pioneira no país dos terminais de vídeo na redação, em 1983, e posteriormente nas sucursais de Brasília e Rio.
 Frias de Oliveira, que tem uma liderança maior na administração do jornal, passa a voltar os olhos para a redação a partir de 1974. Como Nabantino Ramos, pretendia levar à redação método e organização. Teve problemas. Conforme Lins da Silva, “por várias razões, isso só viria a começar de fato em 1984, quando seu filho, Otávio Frias Filho, assumiu a direção de redação”.
 O período de 1974 a 1984 foi importante para o grupo, principalmente porque a Folha conseguiu se inserir numa política editorial diferente dos outros jornais. Apesar de não ser um porta-voz contra o regime militar que governo o país de 1964 a 1985, a Folha fez da “abertura política” e da “democracia” suas bandeiras. Um documento do Conselho Editorial deixa claro essa posição, ao pedir:
 “Melhores condições de vida para a maioria da população através da organização de um regime democrático, liberdade de informação, fortalecimento dos organismos da sociedade civil, distribuição mais eqüitativa da renda nacional, apoio à livre iniciativa, submissão de toda a economia ao interesse social e preservação da identidade cultural brasileira.” (Silva, pág. 46, 1988)
 Esses pontos, mais a criação da seção “Tendências/Debates”, em 1976, na página três, dando voz a políticos, economistas e cientistas sociais perseguidos pelo regime militar, identificaram o jornal com os anseios da sociedade. O ponto alto dessa luta foi a campanha diretas-já, em 1984. A Folha, apesar de defender o liberalismo e a livre iniciativa, passou a ser o jornal da esquerda brasileira.
 Todo esse processo não se deu no improviso. A partir de 1978, seis documentos definem o que passou a ser conhecido mais tarde como “Projeto Folha”: “Levantamento de pontos indicativos de posição editorial e avaliação sintética do momento político”, de 1978; “A Folha e alguns passos que é preciso dar”, de 1981; “A Folha em busca de apartidarismo, reflexo do profissionalismo”, de 1982; e “A Folha depois da campanha das diretas-já”, em 1984; “Projeto Editorial da Folha – 1985-1986”, em 1985; e “Projeto Editorial da Folha – 1986-1987”, em 1987.
 O documento “A Folha depois da campanha das diretas-já é, provavelmente, o mais importante do Projeto Folha. Ele “consolida o projeto editorial do jornal e define questões técnicas e organizacionais como prioridade da redação”. (Silva, pág. 47, 1988). O autor afirma: 
 “Fala dos problemas de estrutura jornalística, faz críticas ao fluxo interno, demonstra preocupação com o cumprimento dos cronogramas industriais, reclama das faltas de mecanismo de controle, lamenta a ausência de critérios homogêneos para as tomadas de decisões jornalísticas, exige desenvolvimento profissional. Em sua, pode ser considerado como o marco de uma nova fase na vida do jornal. Uma fase de menos proselitismo político e de maior preocupação com a técnica da atividade; de menos dedicação à ideologia política e de formulação de uma ideologia jornalística.” (Silva, pág 47, 1988). 
 Além da campanha das diretas-já, houve outro importante para o Projeto Folha em 1984: a posse de Otávio Firas Filho como diretor de redação. Com ele, o processo de organizar internamente o jornal se acelerou. É um período em que se acirrou também a briga entre a Folha e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Apesar de um projeto que visava “democratizar” mas as páginas do jornal, a implantação foi considerada autoritária (houve várias demissões por deficiência técnica, contestadas pelo Sindicato).
 Nos anos que se seguem, as inovações continuaram. Ainda em 12984, entrou em vigor a primeira edição do “Manuel Geral da Redação”, reeditado em 1987. A direção também preparou manuais específicos paras as coberturas da Copa do Mundo do México (Manual da Copa) e das eleições para os governos estaduais em 1986 (Manual das Eleições), distribuídos aos jornalistas envolvidos no trabalho. Diferentemente dos concorrentes, a Folha deu um tratamento igual a Tancredo Neves e Paulo Maluf na eleição indireta à presidente de 1984 e também não aderiu à comoção nacional para salvar Tancredo (fez uma cobertura mais objetiva e mais investigativa).
 Um dos pontos do “projeto Folha” foi a preocupação em se melhorar a qualidade do produto e fazer um jornal pensando no leitor. Com o objetivo de ter um produto melhor, a Folha passou, a partir de 1985, a admitir jornalistas só com concurso e iniciou um programa de seminários sobre temas ligados à área.
 Ainda que timidamente, o jornal também passou a fazer um controle dos erros cometidos. Mas Carlos Eduardo Lins da Silva, que participou da implantação do projeto, reconheceu que os mecanismos eram fracos, sujeitos  a erros.
 Houve também uma preocupação em ser ter um perfil melhor do leitor e ver como o público reagia. “Tanto a pesquisa “Perfil do Leitor” como a seção “Painel do Leitor” são insuficientes para que se tenha uma visão correta de como o público reage ao jornal. Dão bons indícios, oferecem uma visão aproximada,  mas não satisfazem.” (Silva, pág. 176. 1988)
 Os três pontos – preocupação com o produto, com o controle de erros e com a opinião do leitor – podem ser considerados como a base para a decisão e se criar o cargo de ombudsman na redação, ainda em 1986. Quanto jornalistas foram convidados pela direção do jornal para a função, mas rejeitaram o convite.
 Em 1989, o jornalista Caio Túlio Costa, então correspondente da Folha em Paris (França), aceitou o convite e passou a ser o primeiro ombudsman da imprensa brasileira e latino-americana. Ele começou o trabalho em 20 de setembro e, quando dias depois, publicou a sua primeira coluna, “Quando alguém é pago para defender o leitor”. Suas funções: ouvir e passar à redação as reclamações dos leitores e fazer uma análise crítica do jornal.


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