Introdução
2.O Ombudsman
3. O Ombudsman
na Folha
4. Os Jornalistas
Conclusão
Bibliografia
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o autor
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1. A
Folha
A história da Folha e S. Paulo não
é a história de uma família que se perpetua à
frente de um jornal. Cada um dos quatro proprietários imprimiu ao
diário paulista uma política editorial e administrativa própria.
O jornal defendeu, em períodos distintos, os interesses da classe
média urbana aos dos grandes produtores de café de São
Paulo.
Os jornalistas Olival Costa e Pedro Cunha fundaram o jornal em
19 de fevereiro de 1921, com o título de Folha da Noite. A política
editorial – defesa dos interesses das classes média e, inclusive,
operária – se deve a razões mercadológicas: o objetivo
era buscar um público diferente do “O Estado de S. Paulo”, ligado
aos grandes cafeicultores.
O que distinguia a Folha dos outros grandes jornais da época
era a sua organização interna. Segundo o historiador Nelson
Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil, foi
o primeiro jornal estruturado como uma empresa capitalista. Na época,
a maioria das empresas jornalísticas eram porta-vozes de interesses
políticos definidos.
Em 1931, Octavino de Lima, Diógenes de Lemos e Guilherme
Almeida compraram o jornal. O nome da empresa mudou para “Empresa Folha
da Manhã Limitada”. O diário passou os interesses dos grandes
de café, numa mudança de 180 graus.
Essa fase foi até 1945, ano da queda do presidente Getúlio
Vargas do poder, quando Nabantino Ramos, Alcides Ribeiro Meirelles e Clóvis
Medeiros Queiroga aquiriram a empresa. Advogado, Nabantino foi um líder
que, segundo Carlos Eduardo Lins da Silva no livro “Mil Dias, os bastidores
da revolução em um grande jornal” (1998), tentou modernizar
a empresa e acabar com as improvisações que reinavam no mundo
do jornalismo.
Escreve Lins da Silva: “Ele teve a preocupação
de sistematizar suas experiências, produziu um extraordinário
documento chamado `Normas de Trabalho da Divisão de Redação´,
tentou teorizar sobre jornalismo, estabeleceu critérios por excelência
para a atividade dos repórteres e redatores.” (Silva, página
42, 1988)
Se o resultado final não pode ser considerado positivo,
a experiência serviu ao jornalismo quase como uma ruptura com as
práticas da época. Ao lutar contra a improvisação,
ele produziu os documentos “Normas de Trabalho” e “Programa de Ação
das Folhas”, documentos “quase” precursores do “Manual de Redação”
e do “Programa de Metas Trimestrais”, segundo Lins da Silva.
Nabantino, no entanto, deixou a empresa para os novos proprietários
– Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho – em situação
financeira difícil. Os dois empresários, que adquiriram o
jornal em 1962, levaram praticamente cinco anos para reorganizar a empresa,
financeira e administrativamente. “Nesse período, não houve
tempo para preocupação com o jornal em si.” Silva, página
44, 1988)
Nem na Segunda fase (1968-1974), a redação foi
premiada com grandes investimentos. Nesses seis anos se deu a chamada “revolução
tecnológica”. Foram introduzidos o “off-set”, a fotocomposição
e novas unidades impressoras. No fundo, essa fase segue até os dias
de hoje e permitiu a introdução pioneira no país dos
terminais de vídeo na redação, em 1983, e posteriormente
nas sucursais de Brasília e Rio.
Frias de Oliveira, que tem uma liderança maior na administração
do jornal, passa a voltar os olhos para a redação a partir
de 1974. Como Nabantino Ramos, pretendia levar à redação
método e organização. Teve problemas. Conforme Lins
da Silva, “por várias razões, isso só viria a começar
de fato em 1984, quando seu filho, Otávio Frias Filho, assumiu a
direção de redação”.
O período de 1974 a 1984 foi importante para o grupo,
principalmente porque a Folha conseguiu se inserir numa política
editorial diferente dos outros jornais. Apesar de não ser um porta-voz
contra o regime militar que governo o país de 1964 a 1985, a Folha
fez da “abertura política” e da “democracia” suas bandeiras. Um
documento do Conselho Editorial deixa claro essa posição,
ao pedir:
“Melhores condições de vida para a maioria da população
através da organização de um regime democrático,
liberdade de informação, fortalecimento dos organismos da
sociedade civil, distribuição mais eqüitativa da renda
nacional, apoio à livre iniciativa, submissão de toda a economia
ao interesse social e preservação da identidade cultural
brasileira.” (Silva, pág. 46, 1988)
Esses pontos, mais a criação da seção
“Tendências/Debates”, em 1976, na página três, dando
voz a políticos, economistas e cientistas sociais perseguidos pelo
regime militar, identificaram o jornal com os anseios da sociedade. O ponto
alto dessa luta foi a campanha diretas-já, em 1984. A Folha, apesar
de defender o liberalismo e a livre iniciativa, passou a ser o jornal da
esquerda brasileira.
Todo esse processo não se deu no improviso. A partir de
1978, seis documentos definem o que passou a ser conhecido mais tarde como
“Projeto Folha”: “Levantamento de pontos indicativos de posição
editorial e avaliação sintética do momento político”,
de 1978; “A Folha e alguns passos que é preciso dar”, de 1981; “A
Folha em busca de apartidarismo, reflexo do profissionalismo”, de 1982;
e “A Folha depois da campanha das diretas-já”, em 1984; “Projeto
Editorial da Folha – 1985-1986”, em 1985; e “Projeto Editorial da Folha
– 1986-1987”, em 1987.
O documento “A Folha depois da campanha das diretas-já
é, provavelmente, o mais importante do Projeto Folha. Ele “consolida
o projeto editorial do jornal e define questões técnicas
e organizacionais como prioridade da redação”. (Silva, pág.
47, 1988). O autor afirma:
“Fala dos problemas de estrutura jornalística, faz críticas
ao fluxo interno, demonstra preocupação com o cumprimento
dos cronogramas industriais, reclama das faltas de mecanismo de controle,
lamenta a ausência de critérios homogêneos para as tomadas
de decisões jornalísticas, exige desenvolvimento profissional.
Em sua, pode ser considerado como o marco de uma nova fase na vida do jornal.
Uma fase de menos proselitismo político e de maior preocupação
com a técnica da atividade; de menos dedicação à
ideologia política e de formulação de uma ideologia
jornalística.” (Silva, pág 47, 1988).
Além da campanha das diretas-já, houve outro importante
para o Projeto Folha em 1984: a posse de Otávio Firas Filho como
diretor de redação. Com ele, o processo de organizar internamente
o jornal se acelerou. É um período em que se acirrou também
a briga entre a Folha e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
Apesar de um projeto que visava “democratizar” mas as páginas do
jornal, a implantação foi considerada autoritária
(houve várias demissões por deficiência técnica,
contestadas pelo Sindicato).
Nos anos que se seguem, as inovações continuaram.
Ainda em 12984, entrou em vigor a primeira edição do “Manuel
Geral da Redação”, reeditado em 1987. A direção
também preparou manuais específicos paras as coberturas da
Copa do Mundo do México (Manual da Copa) e das eleições
para os governos estaduais em 1986 (Manual das Eleições),
distribuídos aos jornalistas envolvidos no trabalho. Diferentemente
dos concorrentes, a Folha deu um tratamento igual a Tancredo Neves e Paulo
Maluf na eleição indireta à presidente de 1984 e também
não aderiu à comoção nacional para salvar Tancredo
(fez uma cobertura mais objetiva e mais investigativa).
Um dos pontos do “projeto Folha” foi a preocupação
em se melhorar a qualidade do produto e fazer um jornal pensando no leitor.
Com o objetivo de ter um produto melhor, a Folha passou, a partir de 1985,
a admitir jornalistas só com concurso e iniciou um programa de seminários
sobre temas ligados à área.
Ainda que timidamente, o jornal também passou a fazer
um controle dos erros cometidos. Mas Carlos Eduardo Lins da Silva, que
participou da implantação do projeto, reconheceu que os mecanismos
eram fracos, sujeitos a erros.
Houve também uma preocupação em ser ter
um perfil melhor do leitor e ver como o público reagia. “Tanto a
pesquisa “Perfil do Leitor” como a seção “Painel do Leitor”
são insuficientes para que se tenha uma visão correta de
como o público reage ao jornal. Dão bons indícios,
oferecem uma visão aproximada, mas não satisfazem.”
(Silva, pág. 176. 1988)
Os três pontos – preocupação com o produto,
com o controle de erros e com a opinião do leitor – podem ser considerados
como a base para a decisão e se criar o cargo de ombudsman na redação,
ainda em 1986. Quanto jornalistas foram convidados pela direção
do jornal para a função, mas rejeitaram o convite.
Em 1989, o jornalista Caio Túlio Costa, então correspondente
da Folha em Paris (França), aceitou o convite e passou a ser o primeiro
ombudsman da imprensa brasileira e latino-americana. Ele começou
o trabalho em 20 de setembro e, quando dias depois, publicou a sua primeira
coluna, “Quando alguém é pago para defender o leitor”. Suas
funções: ouvir e passar à redação as
reclamações dos leitores e fazer uma análise crítica
do jornal.
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