Introdução
1. A Folha
3. O Ombudsman
na Folha
4. Os Jornalistas
Conclusão
Bibliografia
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2. O Ombudsman
Até a Folha de S.Paulo implantar o programa,
pouco se sabia no Brasil sobre o trabalho do ombudsman. O próprio
nome, no início, soava estranho. Mais estranha, porém, era
a sua função num país onde a imprensa ainda é
arrogante (não gosta de admitir seus erros). Pela primeira
vez, um meio de comunicação pagava um profissional para apontar
erros do próprio veículo.
Novidade no Brasil, o ombudsman já era uma figura conhecida
nos Estados Unidos. O primeiro jornal a adotar um foi o “Louisville Corrier
Journal”, do Kentucky, em 1967. Hoje, o número de ombudsmen supera
os 70 em todo o mundo. Destes, apenas um é da América Latina.
O ombudsman foi adaptado pelos jornais. O cargo surgiu no início
do século XIX, na Escandinávia. Isso ocorreu em 1809, segundo
um artigo de Celso Barroso Leite e Clóvis Zobaram Monteiro (1971),
ou em 1810, conforme a “Folha de S. Paulo. Tinha como função
defender os interesses do cidadão contra o Estado (governo e administração
pública).
Para Leite e Monteiro, o ombudsman pode ter existido, de um maneira
diferente, antes da criação do cargo pela Constituição
da Suécia. Como “delegado”, “agente” ou um “fiscal”, ele tinha a
função de defender o rei e o patrimônio do Estado.
A mudança veio com a constituição sueca, quando o
ombdusman passou a ser um representante do parlamento e do povo, com total
independência do governo.
A instituição do programa não foi um ato
isolado no contexto histórico. Com o fim do feudalismo (séculos
14 e 15), os governos centralizaram o poder e passaram a exercer um número
cada vez maior de atividades. E, na mesma proporção em que
aumentaram o seu poder, cresceram as queixas contra a administração
público. Leite e Monteiro afirmam:
“À media que o Estado se distancia dos indivíduos
e sua virtual onipresença o faz inevitavelmente difuso e impessoal,
tornando insatisfatórios os mecanismos normais de manutenção
do equilíbrio entre as partes e o todo, entre as unidades e o conjunto
em que virtualmente se anulam, avulta a necessidade de proteção
dos direitos individuais, dia a dia mais sujeitos aos riscos de desproporção
entre a pessoa humana e o organismo social, corporificado no Poder Público.”
(Leite e Monteiro, 1971)
Uma das funções do ombudsman é a de delegado
do Parlamento que “investiga queixas de cidadãos contra mau atendimento
por parte das repartições públicas e, quando considera
procedentes, procura soluções”, define Ronal Rowat, no livro
“The Ombudsmen”. Um brasileiro, Caio Tácito, dá uma definição
mais abrangente no artigo “O controle da administração e
a nova Constituição do Brasil” (Revista do Direito Administrativo,
1967):
“Trata-se de um Comissário Parlamentar, escolhido pelo
Poder Legislativo, com atribuições especiais de acompanhar
e fiscalizar a regularidade da administração civil ou militar,
apreciando queixas que lhe sejam encaminhadas ou realizando inspeções
espontâneas nos serviços públicos. Os seus poderes
são limitados, não exercendo competência anulatória,
nem disciplinar ou criminal, mas, segundo o depoimento dos autores, a sua
advertência ou a iniciativa de processos penais contribui expressivamente
para a contenção dos abusos do poder administrativo.” (Leite
e Monteiro, 1971)
Na área pública, o ombudsman combate principalmente
a burocracia. O objetivo do seu trabalho é fazer com que o indivíduo
tenha do poder público a atenção que merece. Ele não
tem o poder de resolver problemas, mas os encaminha e agiliza o processo.
Em 1971, pelo menos 15 países tinham um ombudsman ou um
funcionário com função equivalente na área
pública para defender o cidadão do Estado. O Brasil não
consta dessa lista. Houve, mais tarde, durante o governo de José
Sarney (1985-90), um funcionário com a função do “ouvidor-mor”.
A experiência acabou não dando certo e o cargo foi extinto
meses depois.
O ombdusman também ocupa um espaço na economia.
Empresas que querem melhorar o seu relacionamento com o público
ou detectar problemas, normalmente indicam um funcionário especializado
para ouvir reclamações. Esse serviço é cada
vez mais comum em bancos ou empresas que prestam serviços. E confirma,
mais uma vez, um velho ditado: “O cliente sempre tem razão”.
2.1. O Ombudsman na Imprensa
O “Louisville Corrier Journal”, de Kentucky (EUA), foi o primeiro
jornal a adotar o ombudsman em sua redação, em 1967. Mais
do que uma jogada de marketing, a criação do cargo refletia
à época a discussão sobre ética no jornalismo
norte-americano. Como na área pública, o ombudsman de jornal
surgiu devido à preocupação com a veracidade da notícia
e com a questão ética que envolvia os assuntos noticiados.
As primeiras críticas ao jornalismo americano datam do
período colonial e dos primeiros anos da república (proclamada
em 1776, ano da independência do país). Mas, no início,
os estudos se baseavam apenas em alguns fatos isolados. Com o passar dos
anos, cresce a preocupação com a questão ética.
A partir de 1920 – período em que começam a surgir
no Brasil os primeiros jornais organizados como empresas –, a discussão
ética entra na agenda nos Estados Unidos. Neste período,
a Sociedade Americana de Editores de Jornais (em 1923) e a Sociedade dos
Jornalistas Profissionais (1926) adotaram os primeiros códigos de
conduta. Aliado a isso, há estudos aprofundados sobre a ética
– ou a falta dela.
Apesar de analisarem os problemas e estabeleceram alguns padrões
éticos, os livros e códigos eram recebidos com ressalvas
por jornalistas e editores.
A partir dos anos 30, o “ideal de objetividade” começa
a orientar os profissionais de imprensa e as escolas de jornalismo passam
a se expandir, constata Robert Schmuhl, no livro “As Responsabilidades
do Jornalismo”. Segundo ele, “com a objetividade operando sem muito questionamento
interno, o mundo da imprensa assumiu ingenuamente que não tinha
que prestar muita atenção à moralidade jornalística”.
(Schmuhl, 1984:12)
A relutância dos jornalistas em discutir com profundidade
o seu trabalho teve conseqüências graves. O número de
jornais diários nos Estados Unidos declinou de 2.008 em 1925 para
1.749 em 1945, enquanto houve um crescimento do total de revistas nacionais
e de redes com departamento de jornalismo. Schmuhl diz que esta “preocupação
com a mudança dos meios de informação contribuiria
para o redespertar de algumas indagações éticas que
tiveram nos anos vinte”. (Schmuhl, 1984:12)
O relatório “A Free and Responsible Press”, da Comissão
para a Liberdade de Imprensa – ou Comissão Hutchins –, em 1947,
provocou uma polêmica ao propor a criação do órgão
independente para avaliar os meios de comunicação. A proposta,
que fala em regulamentação, reduziu o impacto imediato e
diminuiu sua importância, avalia ele. Mas acrescenta:
“As sugestões específicas – maior acesso aos meios
de informação de pontos de vista contrários, publicação
ou divulgação de críticas sobre os veículos,
criação de agências externas para monitorar o desempenho
dos veículos, etc. – e a teoria da responsabilidade social adotada
no relatório levaram vários anos para se enraizarem e serem
aceitas pelos jornalistas, pelos professores de jornalismo e pelo público
em geral. Em última análise, porém, o relatório
teve maior influência do que os trabalhos que o precederam e continua
sendo importante até hoje.” (Schmuhl, 1988:14)
Em edições posteriores de relatórios, a
Comissão voltou ao assunto. Em 1957, Reinhold Niebuhr, membro da
Comissão, diz que “é necessária uma filosofia geral
da comunicação de massa”, mas reconhece que é difícil
“exigir um comportamento responsável” e considera “perigosa” qualquer
regulamentação.
Segundo Schmuhl, uma “imprensa responsável” depende principalmente
da definição de “responsabilidade social” pelos jornalistas
e empresas de comunicação. Regulamentação,
nem pensar. “Mecanismos limitados e práticos para estimular e encorajar
a responsabilidade e a reflexão ética no interior dos veículos
são praticamente os únicos caminhos possíveis”, afirma.
A filosofia liberal, que rege a economia norte-americana, vale também
para os meios de comunicação impressos.
Nos anos 50 e 60, a responsabilidade dos meios de comunicação
cresceu principalmente devido às evoluções tecnológicas.
Como os veículos – em especial as emissoras de TV – tornaram-se
parte do dia a dia do cidadão, as atitudes dos jornalistas e das
empresas passaram a ser analisados mais freqüentemente.
As coberturas dos problemas raciais, da Guerra do Vietnã
e do caso conhecido como Watergate (investigação que culminou
com a renúncia do presidente Richard Nixon), de acordo com Schmuhl,
“voltaram a atenção de toda a sociedade sobre o jornalismo,
fazendo com que ela examinasse os mensageiros e sua mensagens de modo mais
sério e crítico.”
Durante os anos 60, surgiu a revista “Columbia Journalism Review”.
Com ela, a crítica ao jornalismo passou a fazer parte de cotidiano.
Alguns críticas da época são severas, duras, como
a do “Public Broadcasting System” (rede TV pública, não comercial),
que define a área como uma “selva ética em que reina o pragmatismo,
no qual são poucos os princípios aceitos e respeitados no
exercício diário da profissão e onde há muitos
selvagens sentido-se orgulhosos da anarquia ao seu redor.”
Schmuhl discorda da crítica extrema da rede de TV e afirma
que existem “várias trilhas” que podem levar ao “caminho da responsabilidade
jornalística”.
A criação do cargo de ombudsman pelo “Louisville
Corrier Journal”, na análise de Robert Schmuhl, é uma
trilha. Há ainda outras, como a adoção de códigos
de ética que estimulem a conscientização dos profissionais
e a criação de conselhos de imprensa, órgãos
independentes que avaliam a atuação de jornalistas e veículos.
Apesar de não terem poder de decidir, eles estimulam o diálogo
entre jornalistas e o público.
A experiência iniciada pelo “Louisville Corrier Journal”
pode ser considerada como positiva. De 1967 até hoje, mais de 70
jornais de diferentes países (Estados Undiso, Inglaterra, Suécia,
Espanha, Áustria, Canadá, Filipinas, África do Sul
e Brasil) adotaram o ombudsman. Suas funções são ouvir,
investigar e encaminhar as reclamações dos leitores; analisar
o jornal diariamente e fazer uma crítica dos meios de comunicação,
normalmente publicada nas edições de final de semana. Schmuhl
define o trabalho do ombudsman:
“Esses críticos internos têm como responsabilidade
averiguar se uma matéria é exata, justa e equilibrada ou
se ela tem defeitos que podem dar ao público uma falsa impressão
da notícia. O ombudsman responde a perguntas e queixas tanto particularmente
– um telefonema ou um memorando para o leitor e o jornalista envolvido
– quanto publicamente – mediante uma retificação ou um artigo
detalhado sobre um problema ou caso específico.” (Schmuhl, 1984:
19)
Quando um jornal adota o ombudsman, ele transmite ao leitor uma
disposição de rever conceitos e reparar erros cometidos.
Esta “meia culpa” feita pelos veículos torna-os menos arrogantes
aos olhos do público. “Lavar a roupa suja nunca é agradável.
No jornalismo, porém, pode reduzir a arrogância e estimular
uma maior responsabilidade”, diz o autor.
Além do ombudsman, surgiu em 1983 uma coluna no jornal
“The New York Times” (EUA), a “Nota de Editores”, com o objetivo de corrigir
erros de informação. Sobre a experiência, o editor-chefe
A. M. Rosenthal afirma:
“As pessoas ficam surpresas com a sinceridade. Se você
diz que realmente errou, movido por um profundo desejo de reconhecer o
fato, a primeira reação de muita gente em nossa profissão
é de `ah, ah, o que ele está querendo?´ Francamente,
não estamos querendo nada. Estamos fazendo isso para nos sentirmos
melhor. Não existe outra razão.” (Schmuhl, 1984: 19)
Semelhante a uma parte do trabalho do ombudsman, a “Nota dos
Editores” do NYT tem similares em outros jornais americanos. Essa discussão
pública dos problemas do jornalismo dá uma idéia ao
leitor de como é o trabalho e como funciona a imprensa. Ao mesmo
tempo, ela expõe mais os jornalistas e, indiretamente, os obriga
a ter um cuidado maior com a notícia e com a questão ética
que envolve cada informação.
Nos Estados Unidos, o surgimento do ombudsman de imprensa é
precedido por uma longa e aprofundada discussão ética. Isso
não significa que a adoção de um crítico interno
não seja fruto de uma jogada de marketing. Isso é visível
hoje no que se referea ecologia: inúmeras empresas, com passado
de poluidoras, insistem em aparecer em publicidades como defensoras do
meio ambiente.
No Brasil, o ombudsman surge devido ao trabalho da Folha de S.
Paulo. Não houve uma discussão sobre a questão ética
dos meios de comunicação. Os possíveis debates sobre
o jornalismo foram interrompidos pelo golpe de 1964. Com a ditadura militar,
não era precisa discutir nada. Tudo era decidido em gabinetes, de
cima para baixo.
Mesmo após o fim do período militar e da abertura,
o debate foi tímido. Os jornais realmente independentes podem ser
contados nos dedos: a subserviência ao governo federal ainda é
visível por parte de emissoras de rádio e TV e de jornais.
Muitos órgãos ainda preferem se manter próximos ao
poder e informal mal do que em optar pelo distanciamento e divulgar
os fatos acima de interesses políticos.
Nesse contexto, a Folha de S. Paulo foi o único jornal
a assumir uma postura diferente dos concorrentes. Mesmo antes de indicar
o jornalista Caio Túlio Costa para o cargo de ombudsman, o jornal
já reconhecia erros e publicava correções. Dentro
da própria equipe que implantava o Projeto Folha, a discussão
era incentivada. Com o ombudsman, a discussão dos problemas passou
a ser pública. |
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