UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE BIBLIOTECONOMIA E COMUNICAÇÃO
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO
PROJETO EXPERIMENTAL JORNALISMO V – MONOGRAFIA
 

O Ombudsman na Folha

por
Luiz Carlos Erbes

Orientador
Sérgio Caparelli

Porto Alegre, outubro de 1991

Principal
Jornalismo
Internet
O autor


Introdução

1. A Folha

2.O Ombudsman

3. O Ombudsman
     na Folha

     Conclusão

     Bibliografia

Escreva para
o autor
 

4. Os Jornalistas
 O que a criação do cargo de ombudsman apresentou de inovador também teve de polêmico e contestador. Apontar erros em reportagens pode ser correto do ponto de vista do leitor e do entrevistado, mas expõe o jornalista a uma situação delicada: a de ser alvo de uma crítica pública. Se não há dados concretos sobre a reação interna dos repórteres da Folha de S. Paulo, existem exemplos em que profissionais contestaram publicamente a análise do ombudsman.
 Para Caio Túlio Costa, os jornalistas da Folha reagiram com normalidade à criação do cargo. “Muitas vezes eu recebo respostas de crítica – olha você está errado por isso e aquilo – e até dou direito a resposta de críticas quando eles se sentem atingidos e acham que eu errei”. (Sextante, 5/1991)
 A convivência, porém, não é tão pacífica assim. As reações de Paulo Francis e José Arbex – após receberem críticas do ombudsman em coluna dominical – revela momentos tensos da experiência. Francis e Arbex, no entanto, não foram os primeiros a contestar Caio Túlio. O pioneirismo coube a Mauro Lopes, da Editoria de Política.
 Lopes teve uma matéria sua, “Pelé entra na campanha” (20/9/1989), criticada pelo ombudsman na coluna de estréia. Caio Túlio analisou as informações da notícia e considerou a informação de que Pelé aderiu a campanha de Fernando Collor precipitada. Baseou-se também no noticiário de outros jornais, que evitaram “cantar” o apoio. Lopes mandou um resposta ao ombudsman, publica no domingo seguinte:
 “A primeira frase da reportragem, “Pelé colloriu mesmo”, retrata com fidelidade o acontecimento. Os outros jornais não publicam essa informação porque dela não dispunham. A folha, sim. Os repórteres de outros jornais contentaram-se em registrar declarações de Collor numa entrevista coletiva. O da Folha, não. A notícia foi precipitada, como afirma Caio Túlio Costa? Não. A crítica sim. Caio Túlio Costa cometeu um elogiou – tenho certeza que involuntário – à preguiça jornalística. Aplaudiu repórteres que se bastaram a recolher declarações numa coletiva. Criticou a reportagem da Folha que se constituiu num furo jornalístico”. (Folha, 1/10/11989)
 A crítica e a resposta de Mauro Lopes são um caso menor. Não têm o peso de outras polêmicas, nas quais o debate deixou o espaço reservado ao ombudsman e invadiu páginas inteiras do jornal. A reação de Mauro Lopes, porém, permite afirmar que os jornalistas receberam com reservas o primeiro ombudsman e dispostos a responder as críticas.
 Essa postura dos repórteres da Folha mudou com o passar do tempo. Eles começaram a admitir a crítica como jornalistas. E não como se fosse uma agressão pessoal. Até porque uma das funções do ombudsman era justamente analisar o noticiário do jornal, com critérios técnicos e promover a crítica.
 A polêmica envolvendo Caio Túlio e Paulo Francis começou após o primeiro turno das eleições presidenciais. Fernando Collor de Mello (PRN) e Luís Inácio Lula da Silva (PT) estavam em plena campanha para o turno final. As pesquisas de opinião pública davam vantagem a color, mas o candidato do PT estava crescendo e ameaçava vencer.
 Em meio a esse contexto, Francis atacou Lula num artigo de página inteira na edição de 23 de novembro de 1989, publicada no caderno Ilustrada e com chamada na capa. Escreveu o correspondente de Nova York: “Lula nos coloca “au niveau” de Cuba e Nicarágua. É uma besta quadrada, que não sabe nada do que está falando. Arruinaria o país, nos transformaria em Sudão, numa grande bosta.” (Folha, 23/11/1989)
 Nos dias que se seguiram ao artigo, o ombudsman atendeu nada menos que 38 telefonemas de simpatizantes do PT reclamando dos termos usados por Francis. Caio Túlio tentou explicar quem era o Francis no carde de artes e espetáculos, na coluna “Petismo, Paulo Francis e o mito de Narciso”:
 “Não se deve cobrar jornalismo nesse tipo de artigo que o Francis faz. Ali ele é o Francis ficcionista. O cronista dos tempos. Diz besteiras e coisas sábias. Escreve o que muitos pensam e não ousam falar em voz alta. É precoceituoso, vulgar, chuta alguns dados, é o Paulo  Francis de sempre – irreverente e destemido”. (Folha, 26/11/1989)
 Francis reagiu à critica com ataques. Num artigo de 30 de novembro de 1989, ele disse que Caio Túlio não tinha “currículo ou gabarito” para criticá-lo e acusou o ombudsman de “ensinar mal jornalismo aos jovens da Folha”.
 Em artigos posteriores, o ombudsman levantou uma série de defeitos nos textos do articulista: distorção de informações, falta de checagem dos dados, alterações de citações “até de Shakespeare”, erro de grafias de palavras frncesas, autor de “teorias apocalípticas” no jornal, negação das mesmas teses na Rede Globo e responsável por “opinionismo desenfreado”.
 O nível do debate caiu. Em artigo de 22 de fevereiro de 1990, Francis chamou Caio Túlio de “lagartixa pré-histórica” e de “canalha menor”. Diz ainda no texto: “Caio Túlio me causa asco indescritível, não posso garantir que se o encontrar não lhe dê uma chicotada na cara, ou não, palmadas onde guarda o seu intelecto”.
 A troca de farpas entre Francis e Caio Túlio fez a Folha encerrar a polêmica em 25 de fevereiro, com base no verbete “Polêmicas” do Manual Geral de Redação. Os dois tiveram um espaço igual para expor suas opiniões sobre o assunto pela última vez.
 Francis escreveu que tinha sido atacado “por uma instituição criada pelo diretoria” para criticá-lo. Afirmou também que o trabalho tinha que restringir-se à crítica técnica e não fazer uma contestação das opiniões dos articulistas da Folha. “Contra estas, se forem ofensivas a grupos e pessoas, a Folha poderia, deveria chamar, e chama, partidários da parte agredida”.
 Caio Túlio não foi menos duro em seu artigo, Segundo ele, todos sabem que Francis “chuta dados, distorce fatos e pratica um opinionismo desenfreado”. Definiu o articulista como “um ficcionista de sucesso apenas nas páginas do jornal”. Disse ainda: “Se lhe tirarem os jornais por uma semana acaba o Paulo Francis”.
 A polêmica acabou com a amizade entre Francis e Caio Túlio e provocou, mais tarde, a saída do articulista da Folha – foi para o Estado de S. Paulo, no qual faz duas páginas semanais sobre cultura do “Caderno Dois”. Diferentemente da Folha, Francis não faz mais comentários de política internacional e relações econômicas entre países.
 Outra polêmica foi com o editor de Exterior do jornal, José Arbex, em novembro de 1990, envolvendo a questão da unificação da Europa num grande mercado. Foram dois artigos do ombudsman e dois do editor e, posteriormente, algumas críticas menores por parte de Caio Túlio.
 Tudo começou com a manchete “Europa decide adiar a unificação”, de 19 de outubro de 1990. Em sua crítica interna, o ombudsman contestou a interpretação da Editoria sobre o que havia sido aprovado numa reunião em Roma, com a presença de 12 chefes de Estado. No encontro, foi definida a data da unificação monetária (1º de janerio de 1994), segunda etapa do processo. A primeira – unificação econômica, com o fim das barreiras alfandegária – está marcada para o início de 1993.
 Os argumentos do ombudsman não convenceram a Editoria de Exterior, que voltou ao assunto na terça-feira, com a manchete interna “Adiamento eclipsa a euforia européia”. Segundo a editoria, uma reunião entre ministros da economia dos países que integrarão a Comunidade Européia (CE) havia definido como data início da Segunda etapa do dia 1º de janeiro de 1993. Na reunião de Roma, o começo da unificação monetária teria sido adiado por um ano.
 Em sua coluna de 4 de novembro, “Ninguém adiro unificação européia”, o ombusdman escreveu: “Esta Folha cometeu na segunda e terça-feira grave erro de informação, talvez o maior da imprensa brasileira neste ano.” Segundo ele, a Folha confundir o início da unificação européia com as três etapas do processo – unificação econômica, monetária e política.
 O noticiário, segundo o ombudsman, trazia dois erros factuais (o jornal não mencionou que a definição da data da Segunda etapa era necessário para a adoção da moeda única e que a proposta aprovada era de Giulio Andreotti, da Itália, e não de Helmut Kohl, da Alemanha) e uma interpretação errada (a definição da data não adiou a unificação mas acelerou o processo).
 José Arbex respondeu dias depois, em texto que foi manchete de página. Segundo o editor, “há pompa na crítica. A circunstância foi fabricada pelo ombudsman”:
 “Em sua crítica, o ombudsman não tocou naquilo que marcou as edições de 29 e 30 : a editoria preocupou-se em situar o processo de unificação da CE no quadro cirado com a queda do Muro de Berlim. Até essa data, a unificação européia era imediatamente associada à unificação dos países da CE. Isso perdeu o sentido após a queda do Muro”. (Folha, 7/11/1990)
 Caio Túlio Costa e José Arbex escreveram cada um ainda um outro artigo sobre a unificação européia. O ombudsman trouxe as manchetes dos principais jornais da Europa sobre o assunto para reforçar seus argumentos. O editor disse que Caio Túlio “não conseguiu escapar a simplificação esquemática e equivocada”, ressaltando que os jornais europeus fizeram análises diferentes.
 Apesar de considerar “errada” a interpretação do editor, o ombudsman concorda com o debate feito nas páginas do jornal:
 “É democrático. Se ele acha que não está errado e se o diretor do jornal acha que deve, nada contra. Deixa ele defender o interesse dele. O que eu fiz foi mostrar para o leitor que não é uma coisa que eu estava falando. O que fato é uma coisa. A Folha deu outra coisa .” (Sextante, 5/1991)
 Os debates com Paulo Francis e José Arbex foram os maiores travados pelo ombudsman. O primeiro por tratar-se de Francisco, um provocador de polêmicas da primeira linha do país. De forma seguida, ele deixa irados autores, compositores, cineastas, políticos e entidades. Aliado aos seus pontos de visa, ele tem um estilo agressivo e não mede as palavras para (des)caracterizar o seu adversário, quem quer seja.
 Com Arbex, a discussão foi mais no nível de idéias. O assunto reunificação européia interessa aos brasileiros, até pela imagem que o povo tem da Europa. Uma unificação semelhante no continente asiático não teria os mesmos efeitos, apesar do crescimento econômico e geopolítico do Japão.
 O ombudsman não foi contestado apenas por jornalistas da Folha. Ele foi alvo também de notas nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Diz Caio Túlio: “Toda tentativa do Estado e Globo ou de outros jornais que crítico é bater o ombudsman, inventar casos a meu respeito para me intimidar e eu deixar de falar deles”. (Sextante, 5/1991)
 A briga maior foi com o Estado. Em função das férias de Caio Túlio no início de 1991, por exemplo, o jornal publicou a nota “Ombudsman elogia”, no dia 5 de janeiro:
 “Por causa das anunciadas férias do ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, esta coluna só voltará em fevereiro a publica alguns dos elogios que ele faz diariamente ao Estado em seus boletins de uso interno da redação, enquanto, aos domingos, critica o concorrente. Para o público externo”. (Estado, 5/1/1991)
 Pela reação, nota-se que tudo que o ombudsman escreveu em sua coluna dominical foi lido com atenção pelos jornalistas da Folha e pelos concorrentes. Ninguém é contestado sem ser lido. Cada erro mereceu comentários. “Toda vez que o ombudsman erra é uma festa na redação”, disse ele durante uma palestra em Porto Alegre, em agosto de 1991.

Esta página foi desenhada por Luiz Carlos Erbes
  E-mail
Hosted by www.Geocities.ws

1