Prosa
O coração é como o bolso dos míudos da escola - Isabel Stiwell - Fevereiro 2001
Sempre
achei que o coração tinha ventrículos e aurículos a menos. Como é que querem que
na anatomia actual lá caiba tudo o que descobri para lá meter? O meu deve
parecer o bolso de um miúdo da escola, em que os restos de giz misturam com
moedas, berlindes, um canivete, um cromo para a troca e, aínda, aquele bocadinho
de cordel que foi encontrado no chão e ainda pode vir a dar jeito.
O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa - Mia Couto - Agosto 2001
Nós eramos os do muro, sentadiços. Os outros corriam os futebóis, dispensavam suores. Enquanto nós, não. As meninas passavam, com suas batas brancas, pareciam aprendizes de garças. Os outros perseguiam-nas caçando simpatias. Nós ficávamos no muro, olhos trincando as sombras femeameninas.
Duas rosas e um capricho - Possidónio Cachapa - Setembro 2002
Estava ela
em cima de uma parede, a ver uma tourada, que é uma festa que mete gente a
correr à frente do perigo. Mas mete, sobretudo, olhares de baixo para cima e de
cima para baixo que trariam o nome de Sexo, se as terras fossem menos piedosas.
É ali que os romances acontecem; que a primeira quimica se estabelece ou, em
muitos dos casos, que as conveniências desencalham os mais fracos.
O avô e o menino - Pedro Paixão - Novembro 2002
O menino que vai fazer cinco anos em maio e tem o cabelo curto e encaracolado vai de mão dada com o avô pelas ruas da cidade e têm os dois de ter cuidado porque os carros passam por cima dos paseios e quase não há jardins na cidade. Não se queixam. Têm um ar sério, olham em frente e seguem. Sabem o que estão a fazer. (ler mais)
A passagem - Miguel Sousa Tavares - Dezembro 2002
O tic-tac do coração calara-se de repente. A agulha que desenhava uma linha quebrada no papel do electrocardiograma suspendera-se, quieta. Um borrão o papel assinalava o instante exacto em que o coração parara de bater. Do fundo do coma onde estava mergulhado há dias, ele ouviu distintamente o silêncio das máquinas e depois a campainha de alarme que soou na mesa das enfermeiras de reanimação.
Batalha - Claudia Galhós - Junho/Julho 2003
Ele chamava-se Artur. ela pensou que podia ser o rei encantado dos contos de fada e heróis de tempos idos.
Ele achava-se bonito.
Ela achava que ele era bonito. (ler mais)