Prosa
A passagem - Miguel Sousa Tavares - Dezembro 2002
O tic-tac do coração calara-se de repente. A agulha que desenhava uma linha quebrada no papel do electrocardiograma suspendera-se, quieta. Um borrão o papel assinalava o instante exacto em que o coração parara de bater. Do fundo do coma onde estava mergulhado há dias, ele ouviu distintamente o silêncio das máquinas e depois a campainha de alarme que soou na mesa das enfermeiras de reanimação. Viu-as correr até à sua cama, a 6-A, viu-as ligar para a sala dos médicos pelo intercomunicador, viu-as preparar a máquina de reanimação. Viu toda a agitação e alvoroço dos seus gestos, em contraste com a absoluta calma que ele ezperimantava. sentiu ternura por elas, por se preocuparem assim consigo. Apeteceiu-lhe dizer-lhes que morrer não era afinal tão difícil.
Estava
morto há uns cinco minutos quando chegou a médica. Mesmo de olhos fechados, ele
via tudo, mesmo morto, ouvia as vozes e sentia tudo. Viu que a médica era nova,
tinha uns olhos azuis, meigos e lindos, olheiras fundas, um pescoço comprido e
magro. Ela pousou-lhe as mãos no peito e pressionou-o levemente. Estava a falar
com ele em pensamento e ele conseguia ler-lhe o pensamento:
«Vou tentar trazer-te de volta à vida.Mas não sei se consigo e nem sei se é isso que queres. Neste instante, tu estás morto e sabes infinitivamente mais do que nós. Só tu sabes, mas não me podes dizer, se queres continuar a viver ou se queres ficar em paz. Vou tentar que vivas, perdoa-me se isto força a tua vontade.»
Encostou-lhe os eléctrodos ao peito, e deu-lhe uma descarga contínua e profunda. Pareceu-lhe que peito tinha rebentado, a dor foi atroz e ele gritou por dentro, sem mover a boca. Depois, no silêncio que se tinha feito na sala, recomeçou a ouvir outra vez o mesmo tic-tac monótono de um coração a bater e era o seu. Ela tinha-lhe interrompido a morte, tinha-o chamado de volta, como só os deuses podem. Havia um destino traçado e ela trocara-lhe as voltas.
Miguel Sousa Tavares
in "Não te deixarei morrer David Crockett"