Prosa
Duas rosas e um capricho - Possidónio Cachapa - Setembro 2002
Estava
ela em cima de uma parede, a ver uma tourada, que é uma festa que mete gente a
correr à frente do perigo. Mas mete, sobretudo, olhares de baixo para cima e de
cima para baixo que trariam o nome de Sexo, se as terras fossem menos piedosas.
É ali que os romances acontecem; que a primeira quimica se estabelece ou, em
muitos dos casos, que as conveniências desencalham os mais fracos. Eu em cima e
tu em baixo, para que um dia sejas tu em baixo e eu em cima. Mas é talvez cedo
demais para falar nisto porque, o que os homens esperam no cais, ainda não
apareceu. E o vento começou a levantar-se mais frio e, se possível mais húmido,
transportado nos salpicos de ondas que batem na pedra. Mas conte-se apenas, em
jeito de entremez, que a história das rosas, metia dois cavaleiros: um gordo e
outro magro. Queria decidir-se, a donzela, sobre quem beijaria os sorrisos nos
meses (e até, talvez anos!) seguintes. Fez-se, por isso enjoada, quando lhe
ofereceram pirulitos e rebuçados de chupar. Eles eram dois e quase que tinha
vinte. Ela não teria mais de treze, mas a sua vulva apertada era antuissíma, e
os mistérios que tinham para segredar à dona vinham de tempos ainda mais
recuados.
- Quero que me tragam uma flor - disse-lhes, torcendo as pétalas da boquinha.
Os rapazes coraram, enquanto a testosterona subia. Partiram a correr, cada um para seu lado, vendo neste desejo, a sua possibilidade literal de elevação. Displicente, aidinha reinava do cima da parede de alvenaria. O gordo e esperto entrou, rápido, num quintal, desertado pela dona, onde se cultivavam maioritariamente orquídeas e arrancou, brusco, uma delas, logo a que tinha levado à cultivadora seis meses de sofrimentos e regas.
O outro, o que era magro e tolo, apanhou das paredes uma hortênsia porque lhe parecia servir, muito bem, o epíteto de "Flor".
Voltaram os rapazes, à desfilada, chegando ao mesmo tempo, entre duas largadas de bichos.
- Isso ?! - disse-lhes ela - Disso, tenho eu aqui.<
E, efectivamente, por estranha coincidência, o muro em que se elevava, fazia frente a um jardim exclusivo de hortênsias e orquídeas.
- Tragam-me uma rosa - disse, fria - E, se não encontrarem nenhuma, não vale, sequer, a pena voltarem.
Tiveram os dois a mesma ideia e subiram, como irmãos, ao monte sem nome que ladeava a freguesia e onde uma roseira bravia dava flores todas as Primaveras. Colheram em silêncio, duas das rosas - cada um de seu lado - e começaram a descer o caminho pedregosos, ouvindo ao longe os foguetes e os urrares da turba. Foi só a meio do caminho que se lançaram em luta, pois sabiam que a irmandade nunca leva ao desempate. Esmurraram-se com convicção e rolaram sobre as pedras; rasgaram as mãos nas silvas, sem tirare os olhos das duas rosas que tinham depositado, religiosamente, sobre um calhau alaranjado. E a luta só terminou, quando um deles caíu num buraco, coberto de musgo, e se pôs aos gritos de ter partido uma perna. Olhou, o outro, para dentro compôs a franja com baba, alisou a roupa desarranjada, e terminou atirando-lhe, ao membro quebrado, uma rocha ainda maior, que fez o rival desmaiar de dor e lho gangrenou na espera. Voltou depois para a festa, com as duas rosas na mão, para deparar com Aidinha, no alto da sua parede, a sorrir a um dos pegadores de touros, vestido de branco. Sussurava-lhe, a dengosa, que o que mais lhe apetecia no mundo era beber um pirolito ...
Possidónio Cachapa
in "O mar por cima"