Prosa

 

 

O avô e o menino - Pedro Paixão - Novembro 2002

O menino que vai fazer cinco anos em maio e tem o cabelo curto e encaracolado vai de mão dada com o avô pelas ruas da cidade e têm os dois de ter cuidado porque os carros passam por cima dos paseios e quase não há jardins na cidade. Não se queixam. Têm um ar sério, olham em frente e seguem. Sabem o que estão a fazer.

Os pais estão separados e têm a vida deles. Acontece o mesmo com tanta gente. Mais vale assim do que andarem à bulha, é o que se costuma dizer. Vivem em casas diferentes, cada um na sua, com pessoas diferentes. O menino anda de casa em casa, passa o tempo a ir de um sítio para outro conforme o tempo que têm para ele, que não é muito e não é culpa de ninguém porque todos têm de trabalhar nesta vida e a vida está díficil para toda a gente. O menino ainda não sabe de nada.

O avô tem mais tempo. Está reformado. Repete com orgulho que ser avô é ser pai duas vezes e os pais sorriem porque acham graça. O avô e o menino não têm pressa de chegar a nenhum lado. Têm a mesma idade ao contrário. Brincam um com o outro como dois amigos verdadeiros. O menino pergunta: "E para que serve ?", e o avô sabe: "É para cortar a relva". O menino pede: "Conta esta história" e o avô protesta: "Outra vez o Batman !" O avô volta a ser pequenino e todos os dias o menino cresce.

Os tempos são outros. Os pais preocupam-se. Toda a gente se preocupa, cada qual com a sua coisa. Ninguém pode fazer nada. Só o menino adorado, o menino abandonado, pode fazer tudo que o avô não diz nada. "Avô, posso andar descalço ?" E o avô tira-lhe os sapatos.

Encontram-se depois da escola cheios de saudades. O avô não lancha. O menino vê um vídeo e depois a mãe vem buscá-lo. Dorme numa caminha no quarto dele e acorda de noite com sonhos maus. O médico disse para tomar qualquer coisa para dormir descansado o avô pensa que o médico é maluco e cala-se. Os pais não sabem o que fazer, talvez um psicólogo saiba.

O menino pergunta porque não dormem todos no mesmo quarto e o pai diz que têm de ir ver outra vez os golfinhos ao jardim zoológico.

O avô e o menino vão de mão dada pelo meio da cidade e riem de tudo e não dizem nada.

 

Pedro Paixão

in "Histórias verdadeiras"

 

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