Prosa

 

 

O coração é como o bolso dos míudos da escola - Isabel Stiwell - Fevereiro 2001

 

Sempre achei que o coração tinha ventrículos e aurículos a menos. Como é que querem que na anatomia actual lá caiba tudo o que descobri para lá meter? O meu deve parecer o bolso de um miúdo da escola, em que os restos de gie misturam com moedas, berlindes, um canivete, um cromo para a troca e, aínda, aquele bocadinho de cordel que foi encontrado no chão e ainda pode vir a dar jeito.

Os objectos misturavam-se todos lá dentro e mesmo quando a nossa mãe nos revirava os bolsos e nos queria obrigar a deitar alguma daquela tralha para o lixo, recusávamos furiosamente. Ou diziamos que sim e voltávamos a lá pôr tudo, mal ela virava a cara.

Quem é que é capaz de dizer, a sangue frio, se vai precisar mais do canivete, do cordel ou do caramelo já meio esborrachado?

No bolso é dificil perceber qual a hierarquia do que anda lá dentro, porque mesmo que tivésemos colocado as "peças" por uma ordem qualquer, ela rapidamente desapareceria com tanto chocalhar. E só a (re)descobririamos no momento em que alguma das coisas que lá temos fosse necessária. E aí, tudo dependia das circunstâncias - presos numa masmorra, considerariamos o canivete a coisa mais preciosa do mundo; mortos de fome, escolheríamos evidentemente o caramelo. 

Como ao miúdo da escola, também a nós, nos estão sempre a perguntar a que damos mais valor, pressionam-nos para que decidamos o que queremos conservar e o que desejamos deitar fora. Sempre, a pretexto de que não é possível que tanta coisa caiba num só bolso, ou num só coração, sem que este rebente pelas costuras. Mas os afectos são como estes objectos - acumulam-se, sobrepõem-se e cumprem funções diferentes, em momentos diferentes. Às vezes só damos por eles quando os perdemos;noutras, acordamos um dia, olhamos para aquilo e perguntamos porque é que andamos tanto tempo a passear aquele peso.

Mas não precisam de ter uma ordem. Nem nos podem pedir que deitemos fora uns para lá colocarmos outros - em certas alturas pode revelar-se um gesto de sabedoria, mas só a nós nos compete decidir quando. E ficamos sempre com o direito de nos arrependermos e podemos voltar atrás, vasculhando na moita em que os deitámos, até os encontrarmos.

Decididamente, os bolsos foram feitos para terem coisas lá dentro.

Isabel Stilwell

in “Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres”

    

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