Como podes perceber, a porta de toda bondade é fechada rapidamente, e de maneira universal e definitiva, até ao ponto de que este condenado e maldito rico não poderia mesmo obter um pedido ínfimo como aquilo. De modo que em qualquer parte na qual os condenados põem os seus olhos, e onde estiram as suas mãos, não encontrem nenhuma maneira de conforto, nunca, nem o mais pequeno. E da mesma maneira que um náufrago que se encontra no meio do mar a ponto de afogar, dado que não encontra onde apoiar os seus pés, tenta nadar adiante sendo ajudado dos seus braços numa tarefa totalmente inútil (porque onde quer que nade, apenas encontrará a água líquida e fina, nenhuma terra sólida) também isto produzir-se-á com os que estão malditos no inferno, quando afogarem neste mar profundo de misérias infinitas, eles esforçar-se-ão e combaterão sempre com a morte, sem encontrar nenhuma ajuda ou pequeno canto onde possam descansar. ![]()
Esta é uma mais maiores penalidades dos condenados atormentados neste lugar maldito: porque se estes tormentos tivessem uma duração limitada por certo tempo, ainda que são mil, sim, cem mil milhões de anos, isto suporia certo conforto para eles, porque nada é perfeitamente grande, e em todo caso terá um fim mais ou menos afastado: mas não. Não têm nem sequera este conforto pobre e miserável: mas pelo contrário, as suas dores continuarão iguais em proporção com a eternidade de Deus Omnipotente, e a duração das suas misérias equivalentes à eternidade da glória de Deus. Tanto como viverá Deus Omnipotente, durará tanto assim a morte dos que são malditos: e quando Deus
Omnipotente cesse de ser Deus, então também cessarão de ser como são.
Oh morrido em vida, oh morte immortal! Não sei se posso chamar-a vida ou morte: Porque se é vida quando ocorre o falecimento? E se é morte, quanto dura? No entanto, não é nem uma nem a outra, porque nos dois casos existe um algo bom: na vida existe o falecimento e na morte existe um fim (que é um grande conforto para o que está afligido) mas não existindo falecimento nem nenhum fim, qual classe de coisa é então? Temos o pior da vida e o pior da morte; Da morte temos o tormento sem fim e da vida temos a continuidade para sempre jamais.
Oh, composição amarga, Oh penoso esvaziado da c�lice do Senhor! da qual, todos os pecadores da terra beberão a sua parte!!!
Mantendo-nos nesta continuação desta eternidade, desejaria (oh meu caro irmão cristão) que você fixar um momento os olhos na consideração de um pequeno assunto: é que verificasses como até o que parece mais simples ele é finalmente insuportável se o alargamos o suficiente no tempo.
Esta tentativa fazeremos-a melhor se seguidamente consideras um momento as dores que um homem doente sofre numa noite infeliz, especialmente se o desagradam com qualquer penalidade veemente, ou doença continuada. Olhe como treme e se agita na sua cama, qual inquieta é, que soa e fastidiosa resulta uma noite ao seu lado, como por a sua causa contamos cada uma das horas do relógio, e quanto tempo parece alargar-se cada hora, como passa o tempo desejando que passem as horas faça dia; o que não parece ser melhor para ajudar-o a ser tratado da sua doença.
Se este resulta então tormento tanto grande, que classe de tormento será (pense-o) esta noite eterna no inferno, onde não haverá nenhuma amanhã, nem tampouco não nenhuma esperança de ver o dia? Oh, obscuridade mais que escura! Oh, noite eterna! Oh, noite maldita mesmo pela boca de Deus Omnipotente e todos os santos! Quanto desejar um ver a luz, e nunca não a verá, nem só uma vez, mais nunca voltará a luminosidade da manhã. Considerem então qual classe de tormento será este, suportando uma noite eterna como esta, e deitado não numa cama lisa (como a do homem doente) mas em um forno ardente, incandescente, lançando, horríveis chamas furiosas de fogo abrasador.
Quais ombros podem suportar estes ardores terríveis? Se parece como coisa intolerável ter certa parte apenas dos nossos pés parados sobre um pedaço de terra tapizada com carvões ardentes, durante um espaço de tempo suficiente para pregar uma oração, qual deve ser (pense-o) ficar parado com o corpo e a alma a ser queimada no meio destes fogos que rabiam reaquecidos e eternos no inferno, a comparação da qual, os fogos deste mundo não são apenas pinturas grosseiras?
Há talento ou sabedoria neste mundo? Têm os homens os seus sentidos activos? Compreendem que significam estas palavras? ou por ocasião são persuadidos do qual isto são apenas fábulas de poetas? ou pensam, aquilo não me pertence à mim, mas apenas foi destinado para outros? Nada de isto podem afirmar-o, porque a nossa fé não deixa a mais mínima dúvida a este respeito de que a maioria da humanidade herdar-o-á. E mesmo nosso salvador Jesus-Cristo, que continua por verdadeiro, gritou no seu Evangelho que o Céu e a terra passarão, mas as Minhas palavras não passarão.
Desta miséria seguirá outra tanto grande, que é, que as dores continuarão sempre num mesmo grau, sem nenhuma interrupção, ou diminuição. Todas as coisas que estão sob alcance do céu, deslocam-se e dão regresso em redor do mesmo céu, e nunca são paradas num estado ou ser, mas estão continuamente ascendentes ou descendentes. O mar e os rios têm seu vazar continua, os tempos, as idades, e a fortuna mutável de homens e de reinos continuam em movimento contínuo. Não há febre tanto fervente que não decline, nenhuma penalidade tanto mantida mas após ter aumentado muito, diminui a seguir imediatamente. Para ser curtos, todas as tribulações e as misérias diminuem com o passo do tempo, e como diz o provérbio, nada seca-se antes que as lágrimas.