| HIST�RIAS DO ARCO DA VELHA | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MEU OLHO DIREITO | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Nasci e vivi �s margens do rio Cajary, munic�pio de Afu�, at� os 16 anos de idade. Fui pescador, coletor de sementes oleaginosas e seringueiro. E foi justamente como seringueiro que me aconteceu um dos fatos mais singulares da minha vida, com o que o leitor h� de concordar. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Todo ano, a partir de Maio, quando a incid�ncia da chuva come�ava a diminuir na regi�o, fazia-se a limpeza dos seringais. Ter�ado em punho ia-se pondo abaixo o mato que crescera no caminho durante o per�odo das chuvas. Nessa �poca eu devia ter uns 14 ou 15 anos e achei de sair sozinho para fazer a capina��o. Num certo trecho da estrada deparei com um emaranhado de jupind�, esp�cie de cip� que possui espinhos tortos em forma de anz�is. Parti com determina��o pra cima do jupindazal� distribuindo golpes de fac�o a torto e a direito para abrir caminho rumo �s seringueiras. De repente senti uma fisgada no olho direito, mas, devido estar de corpo quente, n�o dei muita import�ncia ao fato. Trabalhei um pouco mais e voltei para casa por volta das quatro horas da tarde. Foi quando minha m�e, da beira do jirau, apavorada, m�os na cabe�a, indagou-me aos gritos: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������� - Meu filho, o que aconteceu com o teu olho?������������������ | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Instintivamente levei a m�o ao rosto e levei o maior susto de minha vida ao descobrir, espantado, a falta do meu olho direito. No mesmo instante lembrei-me da fisgada que senti quando desbastava os ramos do espinheiro e voltei, como se diz por l�, em cima do rastro at� o local, duplamente atento, j� que agora s� contava com o olho esquerdo. Depois de olhar atentamente em volta, percebi algo brilhando ao sol entre a folhagem. Com o cora��o na m�o aproximei-me devagar e vi, nada mais nada menos que o meu olho pendurado� pela membrana na ponta de um espinho de jupind�, cheio de formigas. Retirei-o com todo o cuidado do mundo, soprei fora as formigas e o recoloquei no seu devido lugar. Voltei para casa ainda zonzo e sem acreditar no que havia acontecido. Mas o pior da hist�ria, al�m dos �culos com sete graus na lente direita, que sou obrigado a usar, � ter que ag�entar os risos e as chacotas das pessoas todas as vezes que conto este caso.� | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| QUANDO A BOI�NA ENGOLIU O "VELHO" ERNESTO | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����� Seu sobrenome? N�o sei. S� sei que o chamavam de "velho" Ernesto. � boca pequena tamb�m era chamado de "pai-av�" por arcar com a responsabilidade de emprenhar as pr�prias filhas. Mas isso � assunto de fam�lia e n�o vem ao caso. Como tamb�m n�o vem ao caso o fato da "velha" Chica, sua mulher, o chamar de "Arnesto". O certo � que moravam �s margens do rio Aningal, no munic�pio de Afu�, distante algumas horas de remo da sede municipal. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������Quando menino bastava eu "mijar fora do caco" pra minha m�e vir logo amea�ando: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������ - Toma jeito, menino, sen�o eu te entrego pro velho Ernesto! | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������Eu me cagava de medo s� de pensar em ser levado embora por aquela figura r�stica, voz cavernosa e sempre com um cachimbo de barro e taquari no canto da boca. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������Mas al�m da fama de pai-av�, o velho Ernesto era tido e havido como um grande mentiroso, conceito este que deixo a cargo dos leitores com a seguinte hist�ria: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� Certa vez ele voltava da sede do munic�pio.Vinha sozinho em seu batel�o quando, ao dobrar a curva do rio, foi surpreendido pela cobra-grande, a lend�ria e temida boi�na, que num piscar de olhos o engoliu com batel�o e tudo. Mas o nosso her�i, acostumado �s mais bizarras situa��es, nem se afobou. Tateando na escurid�o conseguiu localizar as costelas da bicha. Pegou a faca de migar tabaco, fez um corte por tr�s de duas costelas opostas onde atou a rede que trazia na proa do batel�o. Em seguida encheu o cachimbo de tabaco, acendeu e passou a embalar-se na rede enquanto soltava enormes baforadas. Quando sentiu que a cobra-grande estava prestes a vomitar, enjoada pelo cheiro do tabaco e pelo embalo da rede, apanhou o remo e sentou-se na popa do batel�o, na expectativa de ser lan�ado fora. Foi vomitado com grande estrondo quase no porto de sua casa. Ao escutar o barulho do banzeiro provocado pelo v�mito da boi�na, a velha Chica correu para o trapiche, onde ele acabava de encostar o casco e exclamou: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� - Oh, Arnesto! Chegaste!!! | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������� ����� E ele, mais liso que vergalho de boto: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� - Arnesto, n�o. Gosma!�� | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| DE COMO O A�A� DEIXOU DE SER VENENO | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������ Das muitas hist�rias do arco da velha que ouvi quando crian�a, no Cajary, gosto desta, contada pelo tio Tavino, que explica por que o a�a� n�o faz mal a ningu�m. Nem mesmo quando tomado azedo, de um dia pro outro, sem nenhum processo de conserva��o. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������ Tio Tavino afirmava, do alto de sua sabedoria cabocla, que o a�a� "n�o era veneno por um grau". E explicava: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���������� - No tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo, passando um dia, em companhia de S�o Pedro, por baixo de um a�aizeiro, encontrou v�rios caro�os espalhados no ch�o. Curioso, apanhou um caro�o e roeu. Em seguida, cativado pelo sabor peculiar do fruto, resolveu aben�o�-lo para que todos pudessem desfrutar de suas nutritivas qualidades. E foi assim, segundo o tio Tavino, que a partir daquele momento o a�a� velho de guerra deixou de ser veneno. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����������� Em minha inf�ncia de menino do interior, eu acreditava em tudo o que os mais velhos contavam. E ficava imaginando Nosso Senhor Jesus Cristo, com suas longas vestes e p�s descal�os, andando pelas matas do Cajary, sempre acompanhado do seu amigo Pedro. E era como se estivesse vendo o momento da b�n��o: O Divino Mestre agachado e proferindo as santas palavras com os l�bios roxos de a�a�... | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������ E que assim seja, para sempre. Am�m! | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| DE COMO OS CACHORROS TROCARAM OS FIOF�S | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���������������� Depois que Deus Nosso Senhor criou o mundo com tudo o que nele existe, resolveu, talvez por pura e santa pirra�a, criar o homem para tomar conta de tudo. Depois de modelar Ad�o e dar-lhe o sopro da vida, deu-lhe, tamb�m, Eva e a chave do Para�so _ nos dois sentidos, se � que me entendem. E foi a partir da� que os problemas come�aram a aparecer na face da Terra. Assim� que descobriu que seria imposs�vel tomar conta da flora e da fauna do �den sozinho, Ad�o passou a promover, periodicamente, grandes festas no Para�so quando, como porteiro, faria a contagem da bichara. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���� No princ�pio tudo ia bem, mas com o passar do tempo os macacos , safados que s� eles, acabaram transformando a festa numa verdadeira suruba.Uma zorra! | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������������� Para p�r fim na bandalheira Ad�o resolveu confiscar o sexo dos animais no port�o do Para�so, incluindo o cu como �rg�o sexual, j� que para o bom enrabador a posi��o do buraco � s� um detalhe. E para facilitar o trabalho, colocava o sexo dos animais de uma mesma fam�lia com etiquetas de identifica��o individual. Quando a festa acabava, colocava os membros de cada fam�lia em fila �nica e ia fazendo a devolu��o dos �rg�os sem maiores atropelos. Numa das festas, depois de ter despachado quase todas as esp�cies, chegou a vez da fam�lia dos can�deos e a� deu-se a merda: a raposa, querendo ser mais esperta que os outros, tentou furar a fila provocando uma briga generalizada envolvendo lobos, chacais, hienas e cachorros de todas as ra�as num p�-de-porrada que transformou o Para�so num verdadeiro inferno, uma cachorrada s�! Para completar a cagada, derrubaram Ad�o com o saco de sexo que se abriu derramando cus, xerecas, vergalhos e etiquetas pelo ch�o, misturando tudo. Diante do desastre, cada cachorro tratou de apanhar o primeiro cu que viu pela frente, sob pena de ficar sem um dos mais importantes orif�cios do reino animal. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���������������� Essa hist�ria aconteceu no come�o do mundo e � por isso que at� hoje todo cachorro cheira o fiof� do outro para saber se n�o � o seu. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| DE COMO O PORCO NASCEU COM O CULH�O PRA TR�S | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���� �����������No sexto dia da cria��o do mundo, Deus criou todos os animais que habitam a face da Terra. Primeiro modelava-os em barro, depois dava-lhes o sopro da vida e, em seguida, colocava-os em fila �nica a espera do sexo que viria depois. Tomava, ent�o,certa quantidade de argila e ia, pacientemente, modelando sexo ap�s sexo: um vergalho aqui, uma xereca ali e assim por diante. Tudo segundo a esp�cie e a necessidade de cada animal, sendo que a chibata do elefante e a m�o-de-pil�o do jumento foram as que mais consumiram tempo e mat�ria-prima. Assim que terminava um dito instrumento de reprodu��o e sacanagem, chamava o animal da vez e nele implantava o precioso acess�rio. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������� Tudo ia bem at� o porco sair l� do rabo da fila e vir exigir, junto ao Criador, a sua ferramenta de trabalho com a m�xima urg�ncia. Queria-porque-queria. E tanto encheu a santa paci�ncia do Pai Eterno que Ele, tomado de s�bita e sant�ssima ira, implantou no desaforado um saca-rolhas que encontrou � m�o. E mal teve tempo de fazer uma bola de barro e atirar no traseiro do afobado animal, indo a dita cuja alojar-se um pouco abaixo do fiof�. Mas o porco nem ligou pro detalhe e foi embora roncando feliz da vida: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ��������������� - T� bom, t� bom, t� bom, t� bom, t� bom!... | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���������� ��������E foi por isso que o porco, por ser afobado, nasceu com o culh�o pra tr�s. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| CONTRA A LEI DE DEUS | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ���� Vov� Etelvina, que Deus a tenha em sua santa guarda, era uma tapuia marajoara de sete costados. M�e de minha m�e, muito contribuiu com o sustento de nossa casa depois que papai partiu pra outra dimens�o. N�o fazia cu doce pro trabalho: cortava seringueira, juntava ucu�ba, pescava, botava matapi e trepava num a�aizeiro como ningu�m. E aqui abro um par�ntesis para explicar aos maus entendedores, que trepar num a�aizeiro nada mais � que subir na �rvore para tirar os frutos. Mas, ao lado de todos esses predicados, vov� tamb�m cultivava um monte de abus�es e crendices. Hist�rias do arco da velha, sem p� e sem cabe�a, que o povo tomo como verdade absoluta. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� Naquele tempo, muito mais que nos dias de hoje,� o progresso tecnol�gico n�o era visto com bons olhos pelo povo do interior. Vov� n�o fugia � regra: para ela, "o homem� j� estava querendo saber mais do que Deus". | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� Meu irm�o mais velho morava em Macap� e creio que foi por seu interm�dio que minha m�e adquiriu sua primeira panela de press�o, verdadeira novidade naquele mundongo-de-meu-deus. Vov� olhou a bicha de soslaio, duvidando, penso eu, que aquela coisa pudesse cozinhar uma pregui�a velha em menos de uma hora, tarefa para quatro a cinco horas numa panela comum. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������� No dia da estr�ia da nova panela vov� pagou pra ver e perdeu. Meia hora depois de ir pro fogo, a b�ia estava prontinha da silva. Almo�o na mesa, ela amuou-se. Impinimou e n�o comeu da tal pregui�a cozida na "panela do C�o", alegando que a mesma havia amolecido "contra a lei de Deus". | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������ Desse dia em diante passou a cozinhar sua comida em panela comum, na base da mar� mansa e, certamente, sob as b�n��os do Pai Eterno. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| A VELHA PALPITEIRA | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ������������������� Baixo, forte e carudo: esse era o perfil de Manuel Cardoso, o Cara Dura, um caseiro do meu tio e padrinho Jos� Siqueira, o Lilico. Mas, ao contr�rio do apelido, o� Cara Dura era um cara legal, um tipo bonach�o que gostava de contar hist�rias. Entre as tantas que ouvi de sua boca, lembro-me, principalmente, a da velha palpiteira a quem, na minha ingenuidade de menino do interior, passei a nutrir um �dio mortal, uma vontade danada de esgan�-la por causa do seu palpite infeliz. Mas vamos � hist�ria: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ��������������� Contava o Cara Dura que Deus Nosso Senhor, ap�s criar o mundo com quase tudo o que nele existe, quis saber a opini�o de um mortal sobre sua obra. Para tanto aproximou-se de uma velhinha que fumava seu cachimbo de barro � ilharga do fog�o � lenha e perguntou: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����������� - E ent�o, minha velha, o mundo est� completo de tudo? | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� Para aumentar a minha ira o Cara Dura arremedava a velha, imitando a boca mole e banguela e respondia: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����������� - Ta, sim Senhor. S� falta uns adivertimentos. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����������� - E que divertimentos s�o esses? - indaga Nosso Senhor: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| �������������� E a maldita velhinha, atrav�s da boca mole do Cara Dura: | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ����������� - Mosca, carapan�, maruim... | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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