POESIA & CIA LTDA

 

 

AUTO- APRESENTAÇÃO

 

Na Certidão sou Antonio

Juraci Almeida Siqueira.

Nativo de Escorpião,

carrego em meu coração

amor e paz por bandeira.

 

Poeta marajoara

canto, brigo, me comovo

e prendo, em temas diversos,

no matapi dos meus versos

a voz e alma do povo.

 

Vou a todos os lugares

nas asas do pensamento.

Formado em Filosofia,

eu transformo a poesia

em arma, escudo e alimento.

 

Talvez por ser ribeirinho

eu viva sempre a cantar

como um rio em burburinho

fazendo o próprio caminho

sempre à demanda do mar !

 

Procuro, nesta existência,

mostrar ao mundo a que vim.

Moro na “Felicidade”

mas não sei se, na verdade,

moro nela ou ela em mim...

 

Vou cumprindo o meu destino

sem renegar o que fiz

e, na ciranda dos anos,

somando perdas e danos

posso dizer : - Sou feliz !

 

 

EU, O BOTO

 

Eu venho de um mundo

que tu não conheces:

-do onde, do quando,

do nunca, talvez...

 

Eu venho de um rio

perdido em teus sonhos,

um rio insondável

que corre em silêncio

entre o ser e o não ser.

 

Eu venho de um tempo

que os homens não medem:

nenhum calendário

registra meus dias.

 

Sou filho das ondas

que gemem na praia,

sou feito de sombras,

de luz, de luar

e trago em meu rosto

mandinga e mistério,

e guardo em meus olhos

funduras de rio.

(...)

 

 

TRAVESSEIRO DE PEDRA

 

Sou uma sombra caminhando sobre

a fímbria desta luz que te encandeia

na senda da existência onde caminhas

à procura do ser – verbo incriado.

 

Transmito no meu canto o que me dita a pedra

o que me dita o mar o fogo e o vento

mas sem deixar de ser um só momento

o próprio vento o fogo o mar e a pedra.

 

Cavalgo ave-marias carrego estrelas

no saco de dormir e às vezes canto

uma canção azul para ninar meus sonhos.

 

Um dia partirei sem despedidas

num raio de luar ou num cometa

e para que não sigas meu caminho

não deixarei pegadas na soleira

nem marcas digitais sobre a janela.

 

Te deixarei, porém, meu travesseiro

de pedra minha pena e minha insônia

para que possas aprender sozinho

a inventar a vida a encantar serpentes

a desnudar verdades rasgar horizontes

tecer madrugadas e deitar sementes

de poesia no ventre das manhãs cinzentas.

 

 

VIA  CRUCIS

 

Um dia ressuscitei com o sol a pino

e descobri então que o meu destino

é fazer varadouros na existência.

 

Por isso é que carrego a tiracolo

este canto e amor com o qual consolo

aqueles que não sabem mais sonhar.

 

E tu, por que não vens? De que tens medo?

Acaso não desponta bem mais cedo

a aurora imorredoura dos heróis?

 

Coragem, irmão! Não chora, não blasfema

contra a força das águas. Canta e rema

em busca de um novo amanhecer!

 

 

NAS ENTRANHAS DE MIM

 

Nas entranhas de mim existe um rio

de águas ancestrais – rio inconstante

com períodos de cheias

e de estios.

 

Nesse rio onde afogo meus anseios

meus segredos

meus deuses e demônios

habitam sonhos – peixes indomáveis

que nadam livres pela foz revolta

e em piracema sobem às cabeceiras

para o milagre da fecundação.

E quem beber das águas desse rio

e comer desses peixes – pedras / pães –

jamais conservará dentro do peito

o mesmo coração

e a mesma paz.

 

 

CANTIGA DE SONHO E CHÃO

 

Habito e sou nas palavras :

são elas meu próprio alento,

meu berço, meu alimento,

minha espada e minha cruz.

É  o Verbo que me conduz

pelas sendas da existência

e me transmite a ciência

da profunda afinidade

entre o Ser e o Mundo. Assim,

quando canto, na verdade,

é o Mundo que canta em mim.

 

Meu verso, às vezes molhado,

retrata a luta do rio

e outras vezes, flagelado,

é o próprio sertão no estio...

Canto a alegria, a tristeza,

as coisas  da Natureza,

a Esperança, a Paz e a Guerra.

E enquanto existir na Terra

motivos para cantar,

aos sonhos darei guarida

nos poemas que componho

pois, na balança da vida,

nada deverá pesar

além do que pesa o sonho!

 

 

ULTRAPASSAGEM

 

Ultrapassar-me sempre

é meu ofício:

abandonar casulos

quebrar peias

fazer do coração bússola e ponte

e não parar, jamais, na contramão.

 

 

PRESO ENTRE SONHOS

 

Nas cavernas de mim

um troglodita

sobre a pétrea manhã com ferro e fogo

grava o mito do Ser

 

Nos degredos de mim

um prisioneiro

com fios de solidão costura o tempo

nos lençóis da ilusão

 

Nas esquinas de mim

um cão hidrófobo

com dentes de cristal espreita a presa

que indefesa virá

 

Nos desertos de mim

um beduíno

desiludido segue indiferente

às miragens do amor

 

Nas ruínas de mim

preso entre sonhos

um velho coração ama em silêncio.

 

 

ATO ÚNICO

 

auto-guilhotinar-se a cada cena

rasgar a fantasia

trocar a máscara

refazer o cenário

o palco

o texto:

- eis o ato supremo de viver!

 

 

ESPÓLIO

 

Hoje não sou tão só:

tenho o meu canto

um nome para honrar

um sol na alma

e um sonho encarcerado entre palavras.

 

Meus bens – minhas  virtudes e pecados –

a quem falta farão

quando em meu peito

essa fonte secar?

 

 

TRÊS HAICAIS

 

I

 

a vida discreta

da raiz é a mesma vida

que dá vida à rosa

 

II

 

a borboleta

põe dobradiças de sonho

sobre o jasmim

 

 

III

 

um cão vadio

caminha

levando a noite

 

 

 

SONETO DE EROS

 

A minha língua, víbora de fogo,

sobre teus lábios, pétalas de mel,

desliza sem conter  o próprio afogo

rumo aos teus seios, torres de Babel.

 

Meu coração, indômito corcel,

de Eros, deus do amor, escuta o rogo

e minhas mãos passeiam sobre o véu

do teu corpo despido e, nesse jogo

 

carnal sem vencedor nem derrotado,

meu pênis, gurupé de barco alado

movido pelo açoite dos teus beijos

 

 

adentra em teus mistérios – lança em riste

de onde voltará vazio e triste

depois de saciar nossos desejos.

 

 

 

DELITOS DE EROS

 

Por tua causa pulei cercas

roubei flores

para enfeitar teus cabelos

para fazer-te feliz.

 

Por tua causa matei horas de trabalho

e aprendi  contar mentiras

tão bobas

tão geniais!

 

Por tua causa transgredi os Mandamentos

burlei as leis do universo

e inventei dias mais longos

para ficar ao teu lado

pelo tempo que quiseres.

 

 

 

POEMINHA GELADO

 

Quero só ver-te

lambuzada de sorvete

para sorver-te toda

da cabeça aos pés.

 

 

 

 

 

 

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