HISTÓRIAS CABOCLAS APIMENTADAS
MOSQUEIRO
Jogo de futebol
na cidadezinha do interior. Na arquibancada improvisada à base de tábuas e pernamancas, dois amigos assistem a partida sentados no degrau rente ao chão. De repente um deles olha pra cima e
quase tem um treco ao dar de cara com a Neca, cabocla
aloprada, de mini-saia, sentada cinco lances acima
com tudo à mostra. O Caboclo cutuca o parceiro com o cotovelo e segreda:
- Arrepara só, sumano, a Neca cum a xerecona
dela tuda dé fora!...
- Tu tá é duido. Aquilo num é a xoxota
dela, não. É a carça dela qui
é preta, seu leso.
- Qui carça preta qui nada. Tu é qui
tá cego. Sé calhá eu já num cunheço
mais um buca preta. Nem mermo dé longe eu mé ingano.
-
Antão vamo fazê o siguinte: a gente aposta 50 pau e manda um pirralho dá uma macuricada bem dé perto. Quem acertá, leva o pacuru.
O
outro topou. Chamaram um moleque e pediram para ele, discretamente, tirar a
história a limpo. Ladino que só ele, como quem não quer nada, foi sentar-se bem
na frente da cabocla. Tirou um fino e voltou com a resposta na ponta da língua:
-
Tudo os duis perdero. Num é
nem carça nem buceta, é um
monte dé musca !
TIRA, CHICO !
Moravam na
mesma beira de rio e eram parceiros de pescarias, caçadas e apanhação de açaí.
Mane Chico, mais moço e solteiro e João Cosme, na casa dos cinqüenta, era
casado e pai de numerosa prole.
Certo dia estavam tapando um igarapé despidos,
fato comum nesses lugares desertos onde não aparece uma viva alma. Quando o
João Cosme aproximou-se da ribanceira para atar o talão do pari na estaca,
ficando com a bundona branca fora d’água, o Mané Chico não resistiu : escalou a
feramenta e foi encostando devagar no trazeirão do amigo que, para surpresa sua, não esboçou a
menor reação. Ao contrário, ajeitou-se melhor para curtir o engata-
rabo. Mas quando estavam quase nos finalmentes
eis que surge, não mais que de repente, como diria o poeta, o velho Domingão,
compadre de João Cosme, que estava pescando rio acima. Ao deparar com a
inusitada cena, parou a canoa bem na ilharga dos dois e disparou:
- Mas
que pouca vergonha é essa?!?! Só muito
me admiro do senhor, compadre...um homem velho, casado
e pai de filhos não se dar respeito.
Foi aí que o João Cosme, voltando-se para o parceiro enrabador,
ordenou :
- Tira,
Chico !
Só então, livre da maçaranduba, fez cara feia pro lado do compadre e deu o
troco :
- Ora vá
à puta que lhe pariu. Eu sou de maior, não lhe devo um tostão e o cu é meu.
Retomando a posição em que Napoleão perdeu a guerra, falou outra vez
para o parceiro :
- Mete, Chico !
E mais não disse nem lhe foi perguntado.
O TAMANHO DO ÓRGÃO
Na delegacia de polícia da cidadezinha do interior, o
delegado pergunta à vítima de estupro:
-
E então, minha senhora, o elemento chegou a consumar o ato?
- Consumá
o que, dotô?
- Eu quis dizer se ele
chegou a introduzir, a meter o órgão na senhora?
- Ah, dotô, metê ele meteu. Mas aquilo
num paricia um órgo, paricia um crarinete...
O PÊNIO
Ilha de Cotijuba, época de veraneio. Duas nativas conversam:
- Sabe, mana, aquele curua qui
tava cumigo onte dé nuite mé
deu cinqüenta pau só pr’eu chupá o pênio dele.
- Pênio? Qui diabo é isso já, piquena?
E tu num sabe, antão? É a tar da pica condo num alevanta mais...
SEM XIRI
Festa no interior. No
terreiro, à ilharga da porta do barracão, duas caboclinhas espiam o
movimento. Nisso se aproxima delas o caboclo que tomava conta da entrada e indaga:
- Cumequié,
vão entrá ou vão ficá só macuricando?
Ao que uma delas, com um risinho sacana nos lábios, responde:
- Puisé.
A gente vinhemo se inxiri...
- Nixe
caso – ordena o porteiro – vorte e vão buscá, qui mais tarde a gente vamo percisá.
CU PULANDO
Numa cidadezinha do interior,
dessas onde todo mundo se conhece por nome e sobrenome, o filho do juiz de
direito enrabichou-se pela filha do prefeito. Namoro sério e sem problemas, já
que envolvia, indiretamente, as duas maiores autoridades do município. E tudo
ia bem até a noite em que os dois namoravam na pracinha mal iluminada e deserta.
Beijo pra cá, arrocho pra lá, mão naquilo, aquilo na mão e a coisa esquentou de
tal modo que os dois chegaram à conclusão que o engata-rabo teria que ser ali
mesmo na praça. Olharam em volta e não viram viva alma.
A garota, ardendo em cio, ajeitou-se como deu no banco de pedra para o namorado
plantar a mandioca no seu latifúndio com tudo o que tinha direito e mais um
pouco. Serviço rápido, como quem rouba. Jogo terminado,
levantam-se, ofegantes, colocam as coisas nos seus devidos lugares e vão
saindo de mansinho quando escutam um barulho vindo de um monte de caixas de
papelão. Apuram o olhar e dão de cara com o velho Nhuca, um “papudinho” que perambulava pela cidade e sabia,
como ninguém, da vida de todo mundo. Parecia estar dormindo bêbado. A moça desespera-se mas o rapaz a consola afirmando que o velho estava dormindo
e, ainda por cima, porre. Ademais, naquela escuridão, ele não poderia ter visto
muita coisa. Mera ilusão! No outro dia, como por encanto, toda a cidade já
sabia da novidade, inclusive o pai da garota. Bafafá dos diabos. Caso de
polícia. Chama o autor da fofoca. O velho Nhuca é
intimado a comparecer à delegacia para afirmar ou desmentir o fato. O delegado,
ar solene, perante as famílias envolvidas,indaga do
seu Nhuca:
- Eu quero que o
senhor diga, agora, na presença de todos, o que foi que viu ontem à noite na
praça.
- Eu vi os duis fazendo safadeza.
-
Que tipo e safadeza, seu Nhuca? Eles estavam mantendo
relações íntimas?
- Tavo
sim, delegado. Tavo na maió
relação. Um sé relando no ôtro.
Eu vi tudo.
- Não foi bem isso
que eu perguntei, seu Nhuca. Eu quero saber se o
senhor viu os dois copulando.
Aí o “papudinho” coça a barba rala por fazer e responde:
- Bem, seu delegado,
na verdade eu só vi um cu pulando. O utro tava
riscando pur baixo...
DE
MAL À MORTE
Chico Tralhoto, pescador de fama, trabalhava numa empresa de pesca
para defender o santo pirão de cada dia. Na época, nas comunidades mais
distantes dos grandes centros, o sal era o único recurso para a conservação do
pescado, motivo pelo qual, quando a pescaria era farta, o Chico ficava até
altas horas da noite na empresa, com outros pescadores, salgando peixe, tarefa
regada à cachaça e
baforadas de grosso porronca. Regressava ao barraco onde residia em
companhia da mulher e da sogra pela madrugada,
invariavelmente bêbado, mais pitiú que um mapará e, ainda por cima, fedendo a cachaça, tabaco e
querendo trepar de qualquer jeito. A mulher que o recebia sempre com cara de
tacho, nessa hora virava bicho, batia o pé, xingava, mas não tinha meu-cu-tá-doendo: findava sempre estrepada no arpão do tarado pescador.
Não suportando mais aquela situação, uma noite ela falou para a mãe:
- Hoje eu não estou disposta a aturar aquele porco bêbado fungando em
cima do meu peito. Vou dormir na sua rede e a senhora dorme na nossa cama. Como
vocês não se falam, não tem problema. Ele chega, não me vê e dorme.
- A velha fingiu concordar a contragosto e foi dormir na cama do casal.
Dormir não é bem o termo, já que cheia de segundas e terceiras intenções, tirou
a roupa e enfiou-se debaixo do lençol mas não pregou
os olhos. Alta madrugada o genro chega mais porre do que nunca. Tão doido que
nem percebeu a inusitada troca. Foi logo tirando a roupa e passando a vara na
sogra que não esboçou o menor gesto de reação. Muito pelo contrário:
entregou-se ao genro numa boa, na moita, bico calado. Quando muito, uns gemidos
de pura satisfação.
Assim que amanheceu a mulher levantou-se e foi direto ao quarto do casal
onde só encontrou o marido, nu da silva, estarrado na
cama toda desarrumada. Com a pulga atrás da orelha correu à cozinha onde
encontrou a mãe cantarolando enquanto preparava o café, alegre que só pinto na
merda, fato que deixou a filha ainda mais cabreira. Ali tinha coisa, estava na
cara. E tão certa estava que foi logo acusando a puta que lhe pariu:
- Era só o que faltava, não é, mamãe?
Eu não me admiro dele que além de safado estava bêbado. Eu me admiro é da
senhora nessa idade não se dar respeito e deixar ele fazer tudo o que, tenho
certeza, fez. Isso é demais!
Foi então que a velha, pondo as mãos na cintura e fazendo cara feia pro
lado da filha, respondeu:
- E o que é que tu querias que eu fizesse? Tu não sabes que eu sou de
mal à morte com ele? E num é já por uma besteirinha dessa que eu ia falar com aquele
desgraçado.
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