por João Paulo
Cursino P. Santos
jpcursino(arroba)yahoo.com
29 de maio de 2004
A série Clássica de Jornada nas Estrelas nunca foi a detalhes de como se
desse a reação entre matéria e antimatéria, nem sobre o funcionamento dos
sistemas relacionados. "The Naked Time" é o primeiro episódio a revelar o uso
dessa reação para a propulsão da Enterprise. Depois, o pouco que vemos
em "Elaan of Troyius", "That Which Survives", Jornada nas Estrelas: O Filme
e A Ira de Khan, para dar exemplos significativos, acaba não se encaixando
muito bem. Foi a Nova Geração que já nasceu com bibliografia e consistência
a respeito das minudências físicas e tecnológicas desse universo. Seguindo essa
linha, os fundamentos mantiveram-se na Voyager, para a qual o Manual
técnico da Nova Geração1 só precisaria de algumas
atualizações.
Assim, explica-se por que o armazenamento de antimatéria
é feito no deque mais inferior das naves: diante do risco de uma falha de contenção,
os módulos podem e devem ser ejetados imediatamente. Um exemplo da coerência
dessas séries está em "Future Imperfect", quando Geordi informa que há flutuações
na contenção de antimatéria, mas trata o fato como se fosse a mais simples rotina.
Isso é uma confirmação, para Riker, de que aquela não seja sua realidade, pois, se
fosse, aquelas flutuações seriam motivo de extrema apreensão.
Com alguma freqüência, pode-se ver, na Nova
Geração e na Voyager, que a iminência de uma falha na contenção de
antimatéria costuma ser razão suficiente para se abandonar a nave. As séries são
bastante enfáticas quanto a isso. Afinal, falhando os campos magnéticos de
contenção, o antideutério entra em contato com o interior dos módulos de
armazenamento e, aí, já viu... fogos de artifício, cortesia da Frota Estelar. Essa é a
grande ameaça com que Deanna Troi deve lidar em "Disaster" e a causa das
sucessivas destruições da Yamato, em "Contagion", e da Enterprise e
da Bozeman, em "Cause and Effect". Também Generations fornece
uma amostra do poder destrutivo da antimatéria quando a Seção de Engenharia da
Enterprise vai pro vinagre.
O mesmo raciocínio vale para rupturas do núcleo de dobra,
onde acontece a reação de que tratamos na parte II
deste artigo e onde a temperatura é milhões de vezes aquela encontrada no interior
do Sol. É esse o motivo que fez Sisko e a tripulação da Saratoga evacuarem
a nave nas primeiras cenas de DS9, em "Emissary". Vê-se que não é por pouca
coisa que Nog entra em pânico quando a ruptura do reator é programada para
dentro de dez segundos em "The Jem'Hadar".
Botando a bomba atômica no chinelo — Na parte I deste documento, o Leitor descobriu que a primeira
bomba atômica converteu apenas uma pequena fração de sua massa de urânio em
energia. Na verdade, foram 0,8 g de urânio que desapareceram (de um total de
cerca de 1 kg a sofrer fissão nuclear2), e a energia resultante
bastou para varrer uma cidade. Ao converter em energia apenas 0,08% da massa
com a qual lida3, a fissão nuclear é muito
ineficiente como arma.
Caso existissem bombas de antimatéria, elas poderiam, em
princípio, converter toda a sua massa em energia. Isso, sim, é pavoroso.
As assustadoras propriedades de nosso pacato objeto de
estudo são demonstradas pelo Capetão Kirk ao final de "Obsession". No episódio,
uma pequena garrafa magnética serve como uma bomba ao ter seu campo de
contenção desligado e, assim, permitir o contato entre matéria e a antimatéria que
transporta.
A este respeito, os torpedos fotônicos são um melhor
exemplo do emprego bélico da antimatéria. A série Clássica e seus filmes não
chegam a sugerir o funcionamento destes destrutivos engenhos, fazendo com que,
mais uma vez, a tarefa caiba ao Manual técnico da Nova Geração.4
Dentro de um torpedo fotônico, quantidades iguais de
deutério e antideutério são mantidas em confinamento por seus respectivos campos
de contenção magnética. A um sinal dos circuitos de bordo, desligam-se os campos,
matéria e antimatéria entram em contato, e grande quantidade de energia é liberada
em prejuízo de quem estiver por perto. O mesmo princípio é visto em "Dreadnought",
mas em escala muito maior: neste episódio, o míssil cardassiano do título transporta
uma tonelada de cada reagente, "o suficiente para destruir uma pequena lua". Isso é
E = mc2 levado a conseqüências extremas, a uma dimensão
de grandiosidade bastante diversa da escala subatômica de onde o Leitor partiu
algumas páginas atrás. Um final apropriado para nossa pequena jornada pelos
domínios da exótica antimatéria.
Nos dias de hoje, a Engenharia tem tido sucesso na criação
segura de antimatéria para os desbravadores da Física de alta energia. Investigando
a origem da vida, do universo e de tudo o mais, eles estão, contudo, ainda muito
distantes do dia em que conseguiremos — se o viermos a fazer — controlar a
reação entre matéria e antimatéria em escala industrial. A estrada até lá oferece toda
sorte de dificuldades. Nas palavras do Manual técnico, "regularmente, alguns
dos primeiros reatores de matéria e antimatéria sofriam detonações catastróficas"5.
Realmente, aprisionar e controlar a
fornalha de Vulcano (se o Leitor me perdoar o trocadilho) não há de ser tarefa muito
fácil. Um trecho inicial do caminho está sendo percorrido pelos físicos Pierre Noyes,
Charles Pellegrino e Jim Powell com seu projeto do foguete Valkyrie6. Se construído conforme
o planejado, o Valkyrie será capaz de atingir 92% da velocidade da luz,
propelido por uma reação de fusão nuclear cuja iniciação se dará pelo contato entre
matéria e antimatéria. Os três artistas da Física já pensaram em proteção contra os
danosos raios gama e em outros subsistemas, como o de arrefecimento e o defletor
navegacional.
Em seu site Ex Astris Scientia (onde mais?), Bernd Schneider apresenta
uma concepção, escrita por Masao Okazaki, de como teria ocorrido o domínio
prático da reação mais intensa conhecida pelo ser humano7. Os primeiros reatores
de matéria e antimatéria teriam sido postos em serviço durante a guerra entre a
Terra e o Império Estelar Romulano. Em razão de sua maior eficiência e apesar dos
maiores riscos envolvidos, teriam vindo a substituir a fusão nuclear na geração de
energia para a propulsão de dobra. Despeço-me do Leitor indicando-lhe a "bolacha",
criada por aquele Autor, que simboliza o projeto dos primeiros reatores de matéria e
antimatéria.
O autor agradece a Gerson B. Costamilan pela lembrança
do impossível espelho para raios gama; a Isabel Grau pela revisão do texto; a
Cristina Nastasi pela gentil cessão de material de pesquisa; e, principalmente, a seu
pai, Prof Jota Pinto, que estimulou e ainda alimenta sua fascinação por Física.
Notas
João Paulo Cursino é engenheiro mecânico
e apaixonado por Física. Seu prato preferido é antimatéria flambada.
Este artigo foi registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional sob o número 320.480, livro 586, folha 140, está protegido pela lei
no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e foi publicado originalmente no Portal
Jornada nas Estrelas Brasil (http://www.jornadanasestrelas.net) em 13 de março de 2002
sob específica permissão do autor e republicado em
http://www.geocities.com/jpcursino/antimat3.htm em 12 de maio de 2004. A reprodução só é
franqueada a quem obtiver minha
permissão expressa, específica e nas condições ditadas por mim. Eu costumava
autorizar a
reprodução, até que encontrei meu artigo Uma cronologia
de Jornada nas Estrelas na página
de uma organização com a qual nunca havia tido contato. O texto havia sido
adulterado, com
omissão
da autoria e meu nome apenas na "bibliografia". Sob minha insistência, concordaram
em tirar a obra
do ar, mas insinuaram que eu não podia provar ser o autor. Por isso, agora, tudo é
registrado.
Jornada nas Estrelas e tudo que vai dentro são
marcas da Paramount
Pictures, não pretendo violar normas nem direitos, esta página é só diversão, não há
finalidade comercial, etc.
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