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Editorial [04.02.04]

Bem-aventurados sejam os interados da Universidade Federal do Piauí. Em meio à caoticidade do mundo da vida nos últimos dias não poderia esse instrumento comunicativo dos estudantes das ciências humanas do Piauí permanecer silente. O temário discursivo nas humanidades está muito bem servido: discute-se em Brasília a Reforma do Poder Judiciário e as complicações de um eventual controle externo, entra em pauta a Reforma Universitária, acaloram-se as disputas eletivas, seja no contexto das eleições municipais, seja nas eleições da Reitoria dessa querida e vetusta instituição, e isso não é tudo. Essas e mais outras são apenas algumas da série de questões que, desde já, são atiçadas pela resistência desse espaço privilegiado de debates que é o Interação.

Para acompanhar tantas questões delicadas de forma satisfatória, fomentando a divulgação de idéias, de tal forma a constituir verdadeiro canal de comunicação do estudante dentro das ciências humanas na UFPI, o Interação deverá, no decorrer desse ano de 2004, passar por sérias mudanças estruturais. São necessidades industriais [como diz um editor da Folha de São Paulo]. Sem a pretensão de apressar novidades a esse respeito, é de bom alvitre que noticiemos a princípio somente a novidade concreta: de uma amizade agora temos um parceiro - o Grupo de Estudantes de Ciências Sociais - o GECS - verdadeiro promotor de idéias dentro do CCHL da UFPI. E a Interação com as Ciências Sociais não pára por aí: temos mantido contato direto com o Professor Washington Bonfim, cientista político e vice-diretor do Centro, o qual tem nos trazido grandes sugestões e incentivos a alçar um vôo mais alto ainda. Em breve estaremos dando notícias acerca dessas novidades.

E é nesse contexto de mudanças que se delineiam dois caminhos: um deles é a reformulação estrutural de todo o Projeto - como já prenunciado acima - e o outro é a sua extinção. A sua reformulação já está sendo estudada, mas a sua extinção pode advir antes disso e será decorrente de duas prováveis causas: o esgotamento do modelo editorial e financeiro adotado desde o início do projeto ou pela cada vez mais próxima saída dos idealizadores do Projeto da sua equipe. Um excurso acerca da segunda possibilidade é necessária: em breve, dentro de alguns meses, os idealizadores e outros membros da equipe do Interação estarão deixando os bancos da Universidade para lançar-se no tão concorrido [e famigerado] 'mercado de trabalho', sendo preciso, desde logo, recrutar novos integrantes que possam dar continuidade ao ideal pregado por esse projeto. Como a extinção é o caminho mais doloroso e trágico... e como a Universidade e as ciências humanas continuarão existindo mesmo depois da formatura desses integrantes, a opção mais racional seria a reestruturação do Projeto de tal forma que ele se torne auto-sustentável [e viável] dentro da realidade dos estudantes do Centro de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Piauí.

O primeiro passo para tal reformulação será uma pesquisa a ser realizada na próxima semana, ainda antes do encerramento do período letivo. Tal pesquisa deverá medir o grau de interesse dos alunos pelo informativo, as deficiências do seu modelo editorial e as perspectivas e sugestões para um periódico cada vez mais compatível com a realidade acadêmica dos nossos queridos leitores.

São essas as nossas propostas a curto prazo. A médio e longo prazo, o Interação poderá voltar a ter a sua periodicidade restabelecida, dando entusiasmo e animação à toda a equipe que se esforça para produzir um informativo de qualidade, prestando um verdadeiro compromisso de formação de uma cultura mais humana na comunidade estudantil da Universidade.

Em breve, pretendemos tornar a abordar de forma contundente os sérios problemas que não só os estudantes, mas a comunidade em geral tem enfrentado. Ainda nessa edição [que será a última desse semestre 2003.2] trazemos à tona um tema de considerável importância, qual seja a tentativa de amordaçar a Imprensa empreendida pela esquerda-que-não-é-mais-esquerda. De repente, o sentimento de Poder derrubou todos os paradigmas democráticos levantados pela retórica do Partido dos Trabalhadores, e nós agora, inconformados diante da vitória da esperança sobre o medo, não podemos assistir passivamente ao desmantelamento do espaço midiático promovido pelas forças políticas do Brasil. Distorções na mídia têm sido uma constante, e cada vez mais torna-se premente, alguma espécie de controle - mas que seja um controle voltado para a qualidade dessa concessão de serviço público - e não um controle voltado para a manipulação das informações veiculadas à população, filtrando os interesses do Governo.

Os perigos da superposição ideológica também é tema dessa edição online, e a necessidade de uma abordagem dessa natureza está em servir de alerta àqueles que estão mergulhados dentro da sociedade do espetáculo. Em texto publicado pela Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, o Professor Lusitano João Carlos Correia procura desenhar uma ontologia da categoria 'espetáculo' e a sua importância dentro de um contexto de dominação ideológica pelos 'administradores de ilusões'. Repensar a mídia hoje em dia é repensar um dos instrumentos fundamentais de formação humana. O que será dos nossos filhos que terão como modelos paradigmáticos de personalidade os 'Big Brothers Globais' [e suas taras], ou mesmo, os 'Artistas' do Homem do Baú? Se a escola não monopoliza mais a educação [o que é uma outra problemática a ser tratada por aqui] e a família pós-moderna não ajuda mais a formar os filhos, como poderemos vislumbrar um mundo melhor com a Tv e a Internet que temos servindo de prato cheio ao 'futuro do Brasil'?

E por falar em formação educacional e em prato cheio, podemos agora fazer uma pausa para as preocupações. Nem tudo está perdido. O que nos anima é saber que nesse país também há pessoas inteligentes e comprometidas com pessoas melhores [o que redunda num mundo melhor]. E o que não nos permite mentir são as belíssimas lições do Professor Rubem Alves, o qual a algumas semanas nos presenteou com um texto sobre os Perigos da Leitura, publicado na coluna Sinapse da Folha de São Paulo. Para quem não conhece ainda esse notável educador [elogios que ainda são necessários, mesmo com todas as ressalvas feitas pelo Professor Fabiano Gontijo, do Departamento de Ciências Sociais], é bom dar um passeio pela Casa dele no endereço www.rubemalves.com.br.

Depois de tantas palavras, que são muito mais fruto da espontaneidade de quem vos escreve do que de alguma espécie de inspiração, não poderíamos deixar de agradecer a um Mecenas que apareceu para financiar mais essa edição impressa do nosso querido periódico nesse final-de-período-início-de-ano.

Um abraço a todos. [do editor que nem é chefe desse tão querido informativo]

 

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