“Quem não se
lembra do clima político que deu origem à tristemente célebre ‘Lei dos
Crimes Hediondos’? Na época, (...) argumentou-se que o Brasil precisava de
uma Lei ‘muito rigorosa’ para coibir crimes muito graves. Pois bem, o que
aconteceu após a aprovação da Lei? Todos os chamados ‘crimes hediondos’
cresceram. Teriam crescido do mesmo jeito se não houvesse a Lei ou se
houvesse outra que tornasse as penas menos graves.” (Marcos Rolim, Deputado
Federal PT/RS bastante atuante na área de Direitos Humanos -
http://www.rolim.com.br/cronic163.htm)
É preciso acabar
com a criminalidade, combater a violência. Isso não discuto! Sou totalmente
a favor da paz e contra a guerra.
Mas quanto ao
desarmamento, não sou contra. Nem a favor. Nem você tem uma opinião formada,
embora possa pensar que tem, graças à passeata de Mulheres Apaixonadas. Nós
só poderíamos ter alguma opinião se houvesse estudos e debates sérios sobre
o desarmamento e seus efeitos. É ilusório achar que a proibição do porte de
armas vá acabar com a violência. O homem de bem pode até entregar seus
revólveres de seis balas e espingardas de cano duplo, mas alguém imagina os
membros do PCC entregando seus AR‑15 e outros? Armamentos que, diga-se de
passagem, já são de uso restrito às forças armadas e, portanto, lhes são
proibidos. Se o criminoso não respeita a lei vigente, respeitará a nova?
Alguém que não respeita o limite de 80km/h (pois crê que não será pego pelo
guarda de trânsito) respeitará um limite de 40km/h? Pelo contrário, isso
pode até fazer com que cidadãos comuns se tornem bandidos.
O estatuto do
desarmamento é uma ficção política que poderá evitar, no máximo, alguns
crimes no trânsito e alguns acidentes domésticos. Mas o que isso representa
nas estatísticas? Poderá eliminar algumas mortes decorrentes de discussões
em mesas de bar. Mas isso justifica a aprovação do “estatuto do
desarmamento”? Não seria o caso de obrigar cada portador de arma a fazer
cursos e passar por exames periódicos (como acontece com os condutores de
automóveis)? Qual o mal de se portar uma arma? O mal está no seu mal uso. A
proibição do porte de arma é uma medida arbitrária, uma “má lei” de que nos
fala Beccaria.
Se se quer
diminuir ou acabar com a violência, devemos discutir a erradicação da fome,
a diminuição do desemprego, a revalorização da família como núcleo da
sociedade, o aumento da religiosidade, soluções para o inchaço urbano, a
redistribuição de renda etc. Acontece que toda essa discussão é muito
complicada e mexe com muitos interesses escusos. Seria um debate trabalhoso
e profundo, mas capaz de resolver.
Porém, no Brasil
se procura sempre o jeito fácil, nem que seja tentando acabar com a
violência por decreto. Se você quer formar alguma opinião, leia os textos
que transcrevo abaixo e visite os sites citados. Depois a gente conversa
mais...
“Podem
considerar-se igualmente como contrárias ao fim de utilidade as leis que
proíbem o porte de armas, pois só desarmam o cidadão pacífico, ao passo que
deixam o ferro nas mãos do celerado, bastante acostumado a violar as
convenções mais sagradas para respeitar as que são apenas arbitrárias.
(...)
Tais leis só
servem para multiplicar os assassínios, entregam o cidadão sem defesa aos
golpes do celerado, que fere com mais audácia um homem desarmado; favorecem
o bandido que ataca, em detrimento do homem honesto que é atacado.” (Beccaria,
1764, Dos Delitos e Das Penas, XXXVIII)
“Além disso, a
que ficaria o homem reduzido, se fosse preciso interdizer-lhe tudo o que
pode ser para ele uma ocasião de praticar o mal? Seria preciso começar por
tirar-lhe o uso dos sentidos.
Para um motivo
que leva os homens a cometer um crime, há mil outros que os levam a ações
indiferentes, que só são delitos perante as más leis. Ora, quanto mais se
estender a esfera dos crimes, tanto mais se fará que sejam cometidos. Porque
se verão os delitos multiplicar-se à medida que os motivos de delitos
especificados pelas leis forem mais numerosos, sobretudo se a maioria dessas
leis não passarem de privilégios, isto é, de um pequeno número de senhores.
Quereis prevenir
os crimes? Fazeis leis simples e claras; fazei-as amar; e esteja a nação
inteira pronta a armar-se para defendê-las, sem que a minoria de que falamos
se preocupe constantemente em destruí-las. ” (Beccaria, 1764, Dos Delitos e
Das Penas, XLI)
“Não é razoável
(...) que o (príncipe) desarmado se sinta seguro entre servidores armados.”
(Machiavelli,
1532, O Príncipe, XIV – citado no site
http://desarmamento.tripod.com/)
“Não está,
portanto, na abundância de armas a causa de tanta violência no Brasil. Na
vizinha Argentina existem muito mais armas per capita e a legislação é muito
mais liberal que a nossa e os índices de criminalidade são, em média, 25%
dos brasileiros (o mesmo ocorre nos demais países latino-americanos).”
(essas e outras estatísticas estão no site
http://www.armaria.com.br/soc_desarmada2.htm)