É conhecida a
afirmação de Hegel de que a oração matinal do homem moderno seria a leitura
do jornal. Era a constatação de que estávamos cada vez mais distantes da
Idade Média, tempo em que se começava o dia pensando em Deus.
Ingressamos na
Idade Mídia. Acordamos ouvindo notícias, recebendo enxurradas de e-mails.
Seqüestrados por meia dúzia de manchetes, todos sabem o que todos sabem.
Temos na ponta da língua o a-e-i-o-u do dia-a-dia, ou da semana-a-semana:
Iraque, os sem-terra, vírus de todos os tipos, dólar e Lula.
Por isso, com
informações que se repetem da manhã à noite, de segunda a segunda, desde a
rádio que toca notícia, passando pelos sites até o telejornal noturno,
corremos o risco de regredir à Idade Muda, se pararmos de pensar, repetindo
o repetitório.
Regredimos para a
Idade Muda, ou entramos na Idade do Repeteco, se o que fizermos for repetir
o que todos repetem.
Plagiando o
escritor Norman Douglas, que definia educação como "fabricadora de ecos",
podemos pensar na mídia como a fabricadora do eco de cada dia. Na mitologia
grega, Eco era uma ninfa falante e comunicativa que, a pedido de Zeus,
distraía Hera, esposa oficial do senhor do Olimpo e protetora do casamento
(bela ironia), sempre que este ia traí-la. No dia em que percebeu a tramóia,
Hera castigou Eco. Tirou-lhe o dom do Logos, condenando-a a nunca mais ser a
primeira a falar, conforme palavras do poeta Ovídio: "Com essa língua que
foi para mim enganosa, não te serás dado exercer mais que um fraco poder. Tu
não farás da fala mais que um breve uso".
Sem iniciativa
verbal, Eco só conseguiria repetir os últimos sons das palavras que lhe
dirigissem.
O dramático (o
frustrado) encontro entre Eco e Narciso é inspirador:
– Ouço barulhos.
Quem está aí?
– Está aí...
– Mas aqui só
estou eu e mais ninguém!
– Ninguém...
– Se alguém está
aí, apareça agora!
– Ora...
– Não se faça de
rogada, depois pode ir embora!
– Ora...
– Venha para
fora!
– Ora...
– Terei que
esperar a noite toda até o nascimento da aurora?
– Ora...
Os jornais e
revistas como caixas de ressonância de idéias e palavras que vêm de outras
caixas de ressonância. E nós, consumidores diuturnos de notícias iguais,
somos o eco que não tem mais ego. Porque o eco não nega, não breca, não
oferece resistência. A palavra do ego é cega, e não tem fôlego.