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Maquiavel
sentado na varanda
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Vitor Menezes |
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Era
uma tarde de outono e o velho Nicolau Maquiavel estava sentado na varanda.
Tinha as mãos agarradas aos braços da cadeira de mogno
com encosto de palha, como uma forma de controlar o tremor da idade
avançada. Um sistema de molas possibilitava um balanço
discreto, quase imperceptível não fosse o ranger provocado
pela falta de lubrificação. O ruído ritmado da
cadeira era a única vibração sonora que enfrentava
o vento naquele silêncio da beira da lagoa.
A varanda circulava toda a casa, e Maquiavel, numa fuga rotineira, escolhia sempre o lado que se opunha ao sol. Todas as manhãs, passava as horas nos fundos da casa, de onde via a horta cultivada pelo caseiro e os pássaros alimentados por sua empregada. Nestes momentos, Maquiavel se acomodava em uma grande rede de cordas transadas que se estendia de um gancho próximo à porta da cozinha a uma das colunas que sustentam o madeiramento. Ali, lia os jornais que chegavam da cidade, em intervalos de três ou quatro dias - dependendo das chuvas e das condições da estrada, a remessa poderia demorar ainda mais. Metódico, sempre lia as publicações respeitando a ordem das datas, de modo a não perder a seqüência dos acontecimentos da maneira como se deu. Daí que se divertia, por vezes, em ler, em uma edição, a errata sobre a notícia que lera no dia anterior, quando já dispunha das duas edições. Enquanto lia, tomava café em canecas de cerâmica ordinária, com pequenos trincados e com a tintura desbotada. O almoço, servido às 11 horas, interrompia a leitura e inaugurava o ciclo da tarde, que incluía a sesta e, em seguida, a longa permanência na parte da varanda que compunha a frente da casa, com a bela vista para a lagoa. Era comum que Maquiavel prolongasse a sesta já na cadeira, tombando a cabeça em sono profundo. Era comum também que, vez por outra, aparecesse algum dos poucos e distantes vizinhos para uma conversa lenta, regada a chá de cidreira. As visitas não incomodavam Maquiavel, mas era necessário que controlasse o tédio provocado pelos assuntos comezinhos. Um dia, era o granjeiro do alto da colina a reclamar dos custos da produção, dos impostos, da insolência dos empregados, das péssimas condições da estrada. Noutro, vinha o pároco local, com as lamúrias acerca da inquietude dos jovens, que não queriam seguir os exemplos dos pais - que se dedicavam à terra -, e envolviam-se com as perdições da cidade. E, com menor freqüência, aparecia o velho Olímpio, a mais aprazível das conversas, que dizia ser técnico agrícola do governo e rodava o interior verificando o desempenho dos produtores e dando informações sobre novas tecnologias. Nos encontros com Maquiavel, no entanto, o assunto era outro. Olímpio aproveitava a companhia do velho sábio para descansar da estupidez dos demais moradores do lugar. Tinha lá as suas lamúrias de servidor público, mas não costumava cansar o interlocutor com elas. Preferia falar das experiências que fazia no cultivo de flores ao som de música clássica. Dizia que, expostas ao vigor de Mozart, as papoulas cresciam mais rapidamente e floresciam antes da temporada. Já as tulipas preferiam a agressividade de Beethoven. Entre uma história e outra, Olímpio também perguntava pela saúde de Maquiavel, mas sem enfadá-lo com assuntos de doenças. Claro que Maquiavel achava aquilo uma bobagem. Mas gostava do entusiasmo com que Olímpio contava as suas descobertas, e até sorria largamente em alguns momentos. Além disso, se sentia agraciado com a preocupação do amigo em relação à sua saúde. Tudo isso era muito extemporâneo. A regra era Maquiavel estar sério e solitário, sentado na varanda, como naquela tarde de outono. Absorto em seus pensamentos, o velho ultrapassava os limites da lagoa e dos montes. Enxergava metrópoles barulhentas, casebres sobrepostos e pequenas e grandes tragédias sendo banalizadas a cada instante. Nas suas viagens, confirmava o que lera pela manhã no jornal e, comumente, via muito além do que estava escrito. Assim que não perdoava a fraqueza dos governantes. Tinha tamanho desprezo pelo que chamam democracia que se auto-exilara na casa da lagoa. A presunção de igualdade entre os homens tornara o mundo insuportável. E nem chegava a lamentar que não pudesse tratar destes assuntos com os eventuais ouvintes da varanda, já que sabia não ser possível estabelecer uma relação intelectualmente produtiva com ignorantes de tal magnitude. Com estes, Maquiavel nem tentou, evitando o esforço que empreendera nos tempos de convívio com os doutores das universidades. Com aqueles personagens do mundo rural, pelo menos, a distância cultural era nítida e não havia a angustiante expectativa de que, numa centelha de inteligibilidade, pudesse algum visitante entender o que de sofisticado falava Maquiavel. Entre os doutores, havia uma arrogância que, em alguns momentos, chegou a ser confundida com inteligência. Em raros casos, Maquiavel investiu na convivência com estes que se mostraram promissores, mas não houve um só exemplo de relacionamento profícuo. Na maioria das vezes, estes doutores se perdiam em preconceitos ideológicos que nada tinham de ciência ou de verdade. Usavam lentes, ora marxistas, ora durkheimianas, ora qualquer outra coisa, para enxergar o mundo, e não conseguiam ver a existência como realmente é. Desenvolviam esquemas racionais de explicação que não levavam em conta a grande dose de imprevisibilidade dos eventos e, sobretudo, da natureza insurreta e maléfica dos humanos. Dos pensadores de verdade, Maquiavel respeitava a poucos, figurando Hobbes com destaque entre eles. Mar era só. Sua reflexão sobre o mundo não dependia de muletas teóricas. Na sua perspicácia e inteligência, ele se bastava. Destes atributos se valeu Maquiavel para, naquela tarde, quebrar um silêncio de séculos e escrever aos governantes de todas as nações. Reuniu entusiasmo para apostar energias em um empreendimento que, acreditava, dificilmente daria algum resultado. Chamou a empregada e pediu caneta e folha de papel. Para apoiar a escrita, pediu uma edição antiga de Leviatã, que ainda registrava na capa o seu título original na íntegra - com o subtítulo "ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil". Com dificuldade, controlou os tremores das mãos e lançou sobre as folhas a seguinte carta de advertência: "Senhores,
Venho, ao longo dos últimos cinco séculos, acompanhando
as desventuras da organização da humanidade em sociedade.
A propósito, vi a própria idéia de humanidade
ser forjada historicamente. Vi os lamentáveis acontecimentos
revolucionários que depuseram vários regimes monárquicos
na Europa. Vi a ascensão de uma idéia absolutamente
abjeta e desprovida de relação com a realidade segundo
a qual todos os homens seriam iguais e, portanto, deveriam interferir
na formação do poder político. Respeitosamente, Niccolò Machiavelli"
Ao final da tarde, o velho Maquiavel voltou a chamar a empregada e
ordenou que aquela carta fosse colocada em um envelope e nele constasse
o endereço da Organização das Nações
Unidas. Na manhã seguinte, a carta deveria ser postada na caixa
de correios mais próxima. |