| Não falarás ! [sampler grand guignol interceptado] | Jorge Rocha |
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Caímos
na estrada, com a roupa do corpo. Chevette 77. A estrada como guia.
Antena vergada numa só direção, mesmo nas curvas.
Estática nos acompanha, alimentada por poeira e ocasionais bostas
de bois e eventuais espinhos estradeiros. Meu nome está na farpa
fincada no dedo e na cicatriz que lembra a batalha travada. Antonio
Mun é como me chamo. Um híbrido: homem de mídia,
artista performático e matador - nunca soube distinguir muito
bem a diferença entre um e outro. Sou um homem com uma missão.
E, por executá-la como quem concebe obras de arte, procurado.
Eu poderia não ter nascido na década de 70. Talvez nem mesmo Mellita, a estudante de Latim. Eu a havia convencido a se sentar no banco do carona usando uma tática simples: uma garrafa de conhaque e um bem aplicado puxão de cabelos - como rédeas; um ensaio para fazê-la de ponygirl. Oa, ooaaa, oooooaaaaa. Eficácia. Rodamos, enquanto eu aplicava nela pequenas doses de um método sossega leão - nesse momento, ao me lembrar, automaticamente coloco a mão na fivela em alto relevo catracada no cinto; um ornamento que convence, sendo bem utilizado. Rodamos. Modificando a paisagem enquanto cruzávamos: no porta-luvas, perto das gaitas, uma caixinha de prata guarda três línguas, embrulhadas em papel de seda. Manja aquelas histórias de feras encurraladas ? No quinto dia, paramos em um posto de gasolina. Foi quando eu rezei - para São Tom Waits, protetor dos dias obscuros. Mellita, já no terceiro dia, dava claros sinais de que se entendera com sua atual situação - nenhum traço de civilidade ou adaptação, na verdade; mas não era isso que eu queria ? Percepção requer cumplicidade. Isso eu chamo de entroncamento. Uma música de Francisco F e as Idéias Perigosas em falta de sintonia:o rádio do carro chia com a estática. Desço do carro e olho em volta. Paisagens. E escapes. É com isso que eu lido. Por isso, precisamos parar de quando em vez. Para remodelar. Preciso absorver: sociopatia, politicagem e - ah, sim - cultura. Por isso, entro nesse bar - marcado no meu mapa como ponto de caminhoneiros. Faro e conhecimento são piores que sanguessugas e coquetel molotov. As pessoas estão entretidas com jogo de futebol e nem assim conseguem esquecer o calor - mesmo na hora do intervalo, quando rolam as chamadas do último jornal da noite. Enquanto faço os pedidos e me entupo com as proposições, modelos e imagens mentais que o local faz circular, rabisco minhas iniciais no balcão. Sou o inverso do nexo, nega; disse isso para Mellita depois que ela decretou que eu sempre falo em paisagens. O rádio vibra e meus olhos se viram para cima. E para dentro. Talento de quem faz parte de uma espécie em extinção: híbrido. Aprendi a enxergar com o canto dos olhos. Perco as chamadas e a zoeira radiofônica interfere. ///estática/// Me
descobri como algo fantástico - um saci com as duas pernas, talvez
- numa foto, numa mesa de bar. Do tipo que leu as entrelinhas do livro
de uma stripper. Disseram uma vez que este tipo de descoberta
é feita ao acaso, sem o menor indício de busca. Melodias
tristes para dias de alegria - ou o contrário, encarnado no escambau
a quatro. Antes disso, eu rezava, chiando: para que meus inimigos tenham
pernas e não me alcancem. Agora, nesse ponto, penso em amputação
e morfina; e peço, em oração, a desgraça
como fonte de inspiração para modificar a paisagem. Uma
musa que me sopre convencimento - certeza ? - nos ouvidos. Talvez, talvez
haja uma e outra perda na tradução; o que eu somente poderia
comprovar com experiências sensoriais no fatídico momento
de checar se o defunto caiu de barriga pra cima. Mesmo daqui de dentro,
é possível perceber que Mellita ainda não conseguiu
achar a porra da sintonia desse rádio. Mensagens
superpostas assim, em histeria radiofônica, fazem com que meus
dentes tremam. Saio da lanchonete, disposto a dar uns puxões
no cabelo de Mellita. Coloco as mãos no cinto e me lembro. A
fivela em alto relevo catracada no cinto deixou marcas na pele de Mellita.
Marcas que ficaram roxas em menos de cinco minutos. Manipular é
um termo visto como essencialmente ruim - puta engano. O estalo que
faz quando bate naquele couro liso alimenta meu interesse em saber o
que há por trás das mensagens. Os ruídos. Os ruídos.
Quando começo a depurá-los, um velho comete uma interferência
no meu caminho. Todos os dentes à mostra; nenhuma cárie,
nenhuma obturação, nada de tártaro. Mordendo uma
pilha. NÃO FALARÁS !
Mellita estala os dedos Dááá
din-eeeeiruuu, moço. Recedite,
plebe ! Não sou chegado a odiar. Sou um cara sereno, tranqüilo e quase zen. Só acho que a raiva vai nos salvar. A língua pendurada entre meus dedos: um talismã a mais na coleção. Um rosto roxo salpicado de futuros coágulos se dispersa no chão. Pra mim, é só mais um cara que teve a programação cancelada. Alguém que andou ribombando - por átimos, por átimos - memorietas cover do crooner dissidente; como se fosse resquício de linguagem. Culpa, talvez, da estática do maldito rádio. Se ele tivesse caído de barriga pra baixo, eu teria que virá-lo. De forma parecida com que se mexe num dial. ///estática/// A não-comunicação verbal talvez seja um ato positivo. Benéfico até. Quem vai saber ? Pode ser a busca de olhos pelas frestas da humanidade. A língua macilenta e roxa, rola da minha mão para o bolso da calça: por isso, quero mais é ficar sem emitir som. Talvez uma espécie de reverência. Mellita me disse uma vez - quando saímos em disparada no Chevette 77 no primeiro capítulo deste tomo - que isso talvez explique o que sou e como me sinto. É a minha forma de reagir à estas paisagens. Pra ver o que há por detrás das mensagens. Do ruído. Do ruído.
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