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Telefone
voices blues
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Quésia Francisco |
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Sempre
assim. Eu ouvindo blues e pensando em como seria bom bater na porta
do diplomata, "E aí, imbecil, já se decidiu se vai
para Saint Louis ou se afogar no Mississipi?". Não bati;
era cedo e o gato do 303 estava me esperando para consertar a tomada
do vídeo; a desculpa que arranjei. Ainda não cheguei na
décima primeira dose. Telefone, então. Pergunto qual é
a da Conferência Mundial das Nações Unidas em prol
do bem comum da América do Norte só para ouvir a voz dele.
Voz ao telefone é algo de sublime, não importa de quem
seja; fantasia-se. Adoro vozes, preciso dizer? Sussurros, meio doce
meio grave; meio voz de irlandês bêbado, que nem a do tio
Tom. É por isso que estou ouvindo Nick Cave, no último
volume. Sou mais eu, mas devo confessar que a francesa me deixa um pouco
insegura. Só porque ela sabe falar melhor de Greenland e eu ainda
sou só uma "garotinha", como disse o cara que me impediu
de entrar no Café com placa de "proibido para menores",
só porque esqueci minha carteira de identidade e o batom vermelho
no banco do Kadett do estranho de lindos olhos verdes que me deu carona.
"Girls just wanna have fun, baby." O diplomata dá gargalhadas
e tira o copo da minha mão quando desato a falar bobagens. Tenho
medo da morte e do tempo que passa rápido demais e leva minha
vida com ele e não há nenhuma aplicabilidade das teorias
que aprendi no curso de Tautologias Diacrônicas para evitar que
isso aconteça. Tenho tanto para fazer e só uma vida curtinha.
Ele sabe disso. "Erasmo de Roterdã está te deixando
paranóica, garota!" É por isso que nem sempre nos
aturamos. Sinergia de pesadelos.
Lá, onde as rosas selvagens crescem é o jardim que vai ser nosso. Quem sabe um dia, quando eu me decidir se aturo as grosserias passageiras dele ou se dissolvo tudo numa bacia de cianureto com corante básico de Hg. "A morte não é o fim, querida." Eu sei, imbecil. Só finjo que vou cortar os pulsos para que você fique mais um pouco e dance Where The Wild Roses Grow à luz da lareira comigo. É tão difícil dançar quando está frio e não há mais música. Fim é sempre fim. Tenho medo de fim. No fim, tudo acaba. É por isso que ainda não terminei a carta que escrevia para ele. É por isso que viro logo a página antes que acabe. Devolva meu copo, moço. Ainda não vi as estrelinhas da Constelação Zeta de Marte. Ele me pergunta o que acho das viagens que faz e do trabalho dele. Acho bom, comum para um diplomata comum com aspirações comuns. Assim tenho mais tempo para cuidar da minha própria vida enquanto ele discute sobre formas de colocar areia na bomba que só não explode por causas dos tais paliativos dos governos. Gosto de ter tempo para cuidar do meu jardim de cactos. Só não demore muito, pois Nicholas, o surfista que tem tattoo e piercing na língua, disse que virá passar as férias aqui na cidade. Vai se hospedar no Crooner do próximo quarteirão. "That bad motherfucker called Nicholas Lee?" Oh, doutor, não se irrite; ele é apenas um adolescente; que nem eu. Pede para eu arrumar suas malas. Digo não. Não sou sua empregada e você já é bem crescidinho. Coloco o filme do Danni Boyle e fico pensando no amor de tudo e em como as coisas acontecem e são tão previsíveis, que nem num filme que se vê pela segunda vez. Só basta um olhar e a gente já sabe; encho meu copo e sonho com uma viagem de trem pelas montanhas, riacho por entre seixos rolados abaixo dos trilhos e com os cactos do deserto que não existem na Greenland. Pôr-do-sol alaranjado e dunas amarelas com horizonte lilás, um lugar que só eu sei onde fica. Trarei uma rosa selvagem da margem esquerda do rio para o meu bem. |