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Esmeraldo
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Jules Rimet |
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Crescer
aspirando o melaço rarefazendo o ar. Viver admirando nuvens se
desgarrando em fiapos negros, encobrindo o ar, recolorindo a terra,
o asfalto. O negro e o melado: a cana queimada.
Viver. Sobreviver. O calor. O acelerador. O motor. O volante. O amanhecimento. O amortecimento. O calor do motor. O ranger do motor. O motor rangendo no estômago. Negrume sem sabor. Nuvem recomposta pelo motor. Sobreviver. Desde as cinco, dirigia. Das cinco às doze. Minha penúltima parada no terminal rodoviário seria aquela. Onze horas. Sacos de engana-bobos e palitos de picolés. Uma faixa no poste: 'Esmeraldo, não despreze um amor que te ofereço por outro que você não pode ter'. Alcenira, decerto. O calor subia pelas pernas. Vinha do acelerador e concentrava na barriga, ali na altura da cintura. O motor. O calor derretia sobre a cabeça. Vinha do teto e escorria testa-pescoço-braços. Flanela. Água. Poucos sabiam que meu nome era aquele. Para todos dizia sempre me chamar Aldo. Não mentia nem enganava. Apelidei-me desde jovem, por horror aos apelidos. Alcenira sabia. Ivana também. E só. Li a faixa e identifiquei: Alcenira. A súplica era dela. O escândalo, também. Que ninguém na empresa, colegas motoristas e cobradores, soubessem meu nome, não bastava para deixar de ser escândalo. Era escândalo. Pior porque secreto. Se alguém descobre que o destinatário da faixa era eu em meu silêncio, bastaria para o escândalo se fazer completo. Aliás, ainda não era nem escândalo. Mas era um 'rabo-preso', um motivo pra chantagem. Estaria Cenira tentando me chantagear? Enxugou mais uma vez o rosto com a flanela. O calor nas pernas não tinha solução. Tinha: o fim de seu turno. Estacionou no terminal. Cenira-boquinha-de-ouro chupava com jamais, mas Ivana tinha outras graças. Outros temperos. Outros requebros que mulher nenhuma saberia ou seria capaz. Ligou o limpador de pára-brisa: farelos da usina santa cruz. Acelerou em ponto-morto: refazer a nuvem que se desmonta. Quantos palitinhos de picolé catou na esperança de ganhar um quibom! Cem. Mil. Milhares talvez. Quantas poquinhas - engana-bobos - mastigou pelas rodoviárias com a mãe! E a Cenira fazendo cena. Gastando dinheiro pra uma coisa que já está decidida, acertada e sacramentada. Mudou-se para a casa de Ivana tem quinze dias. E o que diabos Cenira queria dizer com 'outro que você não pode ter'? Chupa pica como se fosse picolé. Pica... olé! Mulher com gosto assim, querer mais isso que outra coisa, ainda está para nascer. Uma vez acordou com a boca de Cenira colorindo de batom vermelho o pênis. Parecia um picolé da quibom, todo malhadinho o piru, todo listradinho. - Ei, garoto, ainda tem prêmio nos palitos? Nunca ganhou qualquer prêmio em qualquer picolé. Fosse depender de prêmio nunca teria experimentado um quibom. Cenira também não. Talvez por isso agora tirava o atraso. Conheceu Ivana no ônibus. Subiu na beira-valão, em frente à rodoviária. Naqueles dias ele estava na linha centro-turf. Ivana toda faceira de calça larga e blusa justa. Panfletos e gracejos. Faltavam quinze dias para a eleição. De novo o puto venceria. Ele não, o mais novo xodó dele. Como de fato venceu. E Ivana com a camisa do xodó. E papelada do xodó. E pedindo... e vendo que ele olhava a sua bunda redonda pedindo voto. A bunda, dentro do ônibus, gritando 'vamos votar no homem, gente!' enquanto balançava por entre os bancos. Pelo retrovisor ele olhava, e acelerava com força. Motor na frente tremelicando. Ganhou um panfletinho. Preferia a bunda. Ela desceu na vinte e oito de março. No panfletinho, um telefone. Dobrou e guardou. O motor aquietado. Quanto papel jogado fora. Quem vota em troca de papel? Quando era criança gostava de receber a papelada dos candidatos apenas para fazer pipa e avião. Pipa fajuta de criança pobre. Avião de guerra. Fechou a porta e acelerou. Pecuária. Sua infância enterrada numa favela. 'Dimbra!' Ele gritava. Mas Marco parecia um dormente fincado no fundo do campo. Dimbrar... moleque falava assim. Um dimbre quebrava o adversário, estilhaçava no toque malicioso. Dimbrava. Em setenta todos os jogadores dimbravam. Em oitenta, meio a meio. Hoje, o drible. Sentia saudades do dimbre. A flanela, endurecida de suor e poeira, no rosto endurecido. Na alma, a faixa agitada. A boca de Cenira gritava naquela faixa. Mais uma circulada e fim. De cinco às doze, às vezes. Dependia da vontade do patrão. Todos os dias o mesmo rio: Paraíba do Sul. Com ele ao seu lado direito, subia. Do outro lado, sua casa. Ivana. Alcenira. Esta, passado. Aquela, presente delicioso. Quando poderia adivinhar os atributos de Ivana, apenas olhando? De alguém como ela. Não que fosse puta ou que tivesse sido. Garantia que nunca foi. Se Cenira tinha a boca de ouro, Ivana-cuzinho-de-mel. Telefonou na noite do dia que a conheceu. Um chope. O rio ao fundo. Conversa. Risos. Cama. O susto. Confuso tentava entender. Ivana explicava. Antes de ficarem nus, Ivana explicava. E quem diria que travesti podia ser mulher tão perfeita/mais perfeita que muita mulher? Ivana era. Marco não dimbrava. Era o doidinho do grupo. Toda vez que errava um passe alguém lhe dava um tapa. No rosto. Com a pancada, Marco virava a cabeça e ficava olhando para o chão. Eu também participei com bofetões. Além de doidinho, Marco era usado e abusado pela turma. Todas as tardes o grupo de amigos, na faixa dos onze, doze anos, se reunia embaixo de uma mangueira para 'tocar punheta'. Ninguém gozava, mas todos participavam da safadeza. Marco sempre fazia as vezes de mulherzinha. Abaixava o short, apoiava as mãos nos joelhos e dizia 'enfia'. Esmeraldo em plena flacidez infantil tentava e solapava e forçava e dobrava o pequeno pênis frágil na bunda magra à sua frente. Só. Ninguém conseguia meter, mas ficava o gosto do proibido desafiado. Quando criança... quando adulto, gostou quando provou Ivana. Os uivos de Ivana há muito faziam parte de seu imaginário sexual. Sempre quisera uma mulher que gritasse escandalosamente enquanto transavam. Lembrou daquelas coisas na primeira noite que saiu com Ivana. Primeiro, o susto. Nem susto. Mais decepção. Logo tesão. Tesão incontrolável. Depois, ninguém poderia saber. Ivana, mulher-mais-que-mulher. Ninguém iria dizer que ele é gay, porque isso ele não é. Tivesse Ivana corpo e jeito de homem, jamais teria aceitado qualquer coisa. Gostou e aceitou porque Ivana, de fato, é mulher. - Sonhei que comia a Martina Navratilova. Disse para o trocador, pensativamente, enquanto estacionava na garagem. Preferiu omitir o fato de que, no sonho, ela possuía pênis. Na verdade, uma tromba, enorme e sugadora, no lugar da vagina. Sonhou que estava deitado e ela o sugava com sua vagina-tromba. Macia e peluda. No sonho não havia nojo. Acordado, há. Acordei e acendi um cigarro. Fiquei na janela, fumando e aspirando o cheiro de merda. Essa cidade vai acabar afundando na própria merda. Na tevê passava uma entrevista de lair ribeiro num canal religioso. Pornografia. O mundo está afundando na merda. Cadê os ecologistas? Salvar o tatu-sei-lá-o-quê é fácil. Queria ver fazer uma campanha por menos porcaria no mundo. Depois daquela primeira noite com Ivana, logo depois do sexo, estendi-lhe cem reais implorando por segredo. Foi aí que me apaixonei. Quando ela disse, irritada, que não queria o dinheiro e xingou e bateu e me mandou embora. Fui embora. Feliz. Ela não queria o dinheiro, o que já era um bom presságio. Há noites em que ele acorda, madrugada alta, com o cheiro de merda dominando o quarto. Levanta-se, fecha a porta do banheiro, abre a porta do quarto, liga o ventilador e deixa a janela aberta. Custa voltar ao sono. O cheiro nojento. Várias noites assim viraram rotina. No início achava que o cheiro vinha do vaso sanitário. Agora tem certeza que vem de fora, da cidade. De algum esgoto ou fossa. Ou da cidade mesmo. Ou é macumba ou a cidade está apodrecendo. Acredita nas duas coisas. Cenira pode bem estar por trás disso. Numa madrugada acordou lembrando de sua época de estudante, de uma aula de história, de um trabalho de história, que fez, sobre a inquisição e as bruxas. Lembrou que os inquisidores, na idade média, afirmavam que as bruxas beijavam as nádegas do diabo. Ivana... diabo assim enganava até cristo. Ex-aluna do colégio auxiliadora... isso talvez explicasse muita coisa. Da educação religiosa, não de Ivana. - Já me punhetei pensando na narizinho, do sítio. Disse para o trocador, pensativamente, enquanto pagava um saquinho de engana-bobo. O mundo está cheio de gente como nós, bobos que pagam para serem enganados. Antigamente os bobos eram mais inocentes, e acreditavam que pagando receberiam algo em troca, como os prêmios nos palitos de picolés. Hoje, até os bobos são maliciosos. Pagam sabendo que são bobos, e apenas por serem, ou para admitirem ou para se afirmarem como tais. Dia haverá em que o bobo será uma classe social. Ou um partido político. Esse negócio de convenção social é que estraga a vida. Todo mundo vive tomando na bunda desse político, daquela empresa, de um e de outro. Fodidos psicológicos. Fodidos sociais. E gozam a sacanagem geral. Mas quando a coisa fica real, ali, no duro (Ney Matogrosso só foi aceito porque era caricato), quando é o vizinho que está botando na bundinha de outro homem, ou que está dando a bundinha, todos erguem o nariz acusadoramente. Despudorados eles. Teve também Aparecida. Negra de bunda grande que sonegava sempre meus apelos juvenis. Meus e de todo o grupo de moleques da Pecuária. Mas se deitava de bruços com um short justo e deixava, um por vez, deitar sobre ela e ficar no sarro. Teve o Renatinho que adorava chupar os pintinhos da molecada. Ninguém nunca o chamou de pedófilo. A pirralhada ficava lado a lado e ele vinha chupando. Ora um ora outro. Gostava tanto que arrancou todos os dentes só pra aumentar o prazer dele e dos outros. Teve Marcela, que dava pra todo mundo e achava que ninguém sabia. Sempre pedia segredo enquanto guiava o caralhinho com a ponta dos dedos. Essa tal de convenção social é que estraga. Que que tinha essas brincadeiras infantis? Como será que as crianças hoje fazem as suas sacanagenzinhas? Todo mundo de minha geração, e de gerações anteriores, cresceu assim. Agora, a pose de moralista guardião das sagradas escrituras ostentando a arca da aliança em cada esquina da cidade. Abrissem a arca seria um desespero, tal a quantidade de cadáveres. Vários para cada auto-intitulado moralista. Chegou em casa e abraçou Ivana. Um beijo, um beijo só que Cenira visse, seria caso de enfarte fulminante. Secretamente desejou. Ivana sempre sonhara a vida de marido e mulher. De marido e mulherzinha. Nunca tivera uma família desestruturada. Tinha pai, mãe, irmã, irmão, e o amor de ambos. Estudou sempre em boas escolas. Concluiu o segundo grau no centro educacional nossa senhora auxiliadora. Fez primeira comunhão e crisma. Família carinhosa, pais presentes... cresceu sem nunca passar nenhuma necessidade. Família comum. Vida comum. Mas desde criança sabia a diferença. Sabia o que queria ser. Sempre brincara com a irmã, com as bonecas da irmã, com as roupas da mãe, com a maquiagem da irmã. Quando brincava de casinha, fazia sempre questão de ser a mãe, ou a professora, ou a empregada. Sempre papéis femininos. Desde criança assim. Por isso nunca passou pelo 'trauma' de ter que contar pra família que era gay. Cresceu sendo. A família inteira sabia. Uma vez levaram-na à psicóloga. Não era caso para psicóloga. Conformaram-se. Aceitaram. E durante toda a vida zelaram por ele. Por ela. - Vamos para a cama, meu amor… O melhor de tudo, para Esmeraldo, era aquele momento. O momento de chegar em casa e botar na bunda de Ivana... foder a classe média... a cores e em real-time. Melhor que poquinha e prêmio da quibom. |