As novas caras da literatura campista  Douglas Venoso:  segundo Jorge Rocha, Douglas é um sujeitinho vagabundo e preguiçoso. Adepto confesso do polianismo. Estudante de Comunicação Social. Diz ter coragem e assume a prepotência de se intitular escritor. Mais um produzindo – entre poucos – coisas   boas na planície.Jorge Rocha: colecionador de acusações de ser hermético e fechado para um gueto. Jornalista, professor e escritor com pitadas de hiperatividade. Assume ser um utópico irremediável, assim acreditando na expansão da vida literária inteligente em Campos.Jules Rimet: advogado,  professor. Acredita que com a chegada dos 33 anos caiu em si e percebeu que é um colecionador de ignorâncias. Diz ser, na verdade, mais poeta do que escritor. Indivíduo, aparentemente, calmo, mas que tem muito o que revelar, pode ser que seja agora, aos 33.Márcio Aquino: economista e exímio imitador de gato com frascos de desodorante. Memória ambulante da cultura pop goitacá. Um hippie da tecnologia, o único que se mantém a uma distância segura da internet. Sujeito tranqüilo e pacato, porém com idéias inquietantes. Quésia Francisco: guria hiperativa, só pode ser, para conciliar literatura de qualidade com duas graduações (Ciências Sociais – UENF e Geografia – CEFET). Pessoa de fala mansa e temperamento – no mínimo – forte. “- Tenho uma personalidade um tanto quanto contraditória sim, e daí?Vitor Menezes: é jornalista, professor e escritor, apesar de negar veementemente, sempre dizendo ser um jornalista metido a produzir literatices. Acreditando que o fato de ser viciado em prazos e cobranças, uma espécie de produção industrial, o faz muito mais jornalista do que escritor.

Coisa Ruim
Douglas Venoso
 
Coisa Ruim era o terror do Macaco Molhado, vilarejo em que morava, e adjacências. Foi durante um bom tempo o pior pesadelo dos comerciantes, das velhinhas, das crianças e animais. Qualquer um que cruzasse seu caminho era massacrado sem dó nem piedade e sem aviso prévio.
Mas nem sempre as coisas foram desse modo na vida de Coisa Ruim. Nascido João do Livramento, ele, segundo contam os mais velhos, era uma criança feliz. Amável com os pais, prestativo com os vizinhos e amante da natureza. Quando tinha três anos, seu pai lhe deu de presente de aniversário um cachorrinho, a quem ele chamou de Bilú.
Bilú crescia na mesma proporção que João e sua amizade aumentava também. Os dois viviam felizes, até que um dia, quando João tinha seis anos, Bilú contraiu uma doença que os veterinários não sabiam como curar. A única alternativa para aliviar o sofrimento do pobre animal era sacrificá-lo. João não sabia muito bem o que estava se passando até que viu o pai pegar a velha garrucha e levar o seu cãozinho para um matagal. João seguiu de longe e chegou a tempo de ver seu pai atirando no seu amigo querido. A partir daquele dia, João mudou seu comportamento. De criança amável para rebelde com causa. Uma verdadeira peste disposta a tudo para infernizar a vida de seus semelhantes.
Não demorou muito para ser apelidado de "Coisa Ruim" pelos vizinhos. Sua mãe, carola convicta, morreu de desgosto quando ele ateou fogo à igreja local, quase matando o padre. Seu pai casou-se com uma mulher mais nova e foi embora o deixando sozinho no mundo. Mas ele não se importava. Sabia que não precisava de ninguém.
Um belo dia, Coisa Ruim estava à procura de mais uma vítima quando tropeçou, bateu com a cabeça e morreu. Assim. Sem mais nem menos. Toda a comunidade do Macaco Molhado festejou sua morte como um grande acontecimento. Teve até carnaval fora de época. Com trio elétrico e tudo mais.
Obviamente, Coisa Ruim foi direto para o Inferno, sem escala no Purgatório. Logo na chegada, um diabinho veio açoitá-lo para que ele entrasse na fila. Coitado. Teve que pedir reforço de mais quatro para conter a fúria do recém-chegado. E mesmo assim não funcionou.
Logo a notícia da balburdia correu por todo o Reino Inferior, chegando aos ouvidos de Sua Excelência, O Cão. Lúcifer ficou muito interessado no novo hóspede e quis ver com seus próprios olhos vermelhos. Lulu, como era chamado nas rodinhas sociais, materializou-se e ficou alguns minutos a observar, escondido atrás de um máquina de tortura, enquanto Coisa Ruim dizimava todos que tentavam rendê-lo. Belzebu estava impressionadíssimo. Como um recém-chegado poderia mostrar tanta fúria, tanta raiva, tanto ódio? Rapidamente seus olhos iluminaram-se e sua face disforme tomou aquela expressão de "grande idéia". Mais que depressa, Satanás materializou-se na frente de Coisa Ruim, em meio a uma nuvem de enxofre e um espetáculo pirotécnico, coisa de que não abria mão. Coisa Ruim parou para ver o show de fogos de artifício, ignorando a presença de Sua Maldade Suprema. Quando a pólvora de Satã acabou, Coisa Ruim ia retomar seu trabalhinho, mas foi interrompido.
- Ae, rapah! Gostei do seu estilo! - Disse o Cão.
- Do que que tu tá falando, meu?
- Gostei de tu.
- Ih, sai pra lá, boiola! Sou facão!
- Não é isso, imbecil! To dizendo que gostei do jeito que você bate.
- Ih!!! Além de marica ainda é chegado em uma surra? Ferrou!
- Rapah, tive pensando. Faz tempo que preciso de umas férias... o que você acha de ficar uns tempos aqui no meu lugar?
- Fazendo o que?
- Nada.
- Topei!
- Mas não é assim tão fácil. Você tem que passar por umas provas antes...
- Tem Matemática?
- Não.
- Então tô dentro.
Lúcifer ficou muito esperançoso. Fazia tempo que ele queria sair de férias.
A prova era dividida em algumas questões de múltipla escolha e uma, a derradeira, prática.

1. Você está passando pela rua quando acontece um acidente. Várias pessoas estão feridas. Você:
a) Ajuda os feridos.
b) Senta para assistir a desgraça alheia.
c) Finge que nem viu.
d) Aproveita para roubar tudo de valor que as vítimas possam ter.

2. Seu filho engoliu uma moeda rara de sua coleção. Você:
a) Leva o menino correndo para o pronto-socorro.
b) Dá uma surra nele pra deixar de ser metido.
c) Vira-o de ponta cabeça para ver se ela sai.
d) Dá purgante para ele. Tem que sair de algum jeito.

3. Sua sogra inventou de passar as férias em sua casa. Você:
a) A recebe de braços abertos.
b) Liga para a fofoqueira do 906 e diz que toda sua família está com lepra.
c) Contrata um matador de aluguel. Se ela se aproximar de sua casa...
d) Liga para a polícia e denuncia a velha como contrabandista.

Coisa Ruim gabaritou a prova. Nunca alguém havia sido tão cruel como ele. Belzebu estava todo orgulhoso. Mas faltava a última prova. A prova que decidiria todo seu futuro. Capetão rumou para a Sala de Sacrifícios, seguido por Coisa Ruim. Todos os demônios estavam presentes para presenciar o momento histórico. No centro da sala havia uma pedra de sacrifícios e alguma coisa coberta por um lençol. Lúcifer fez um sinal para que o outro fosse até lá e retirasse o lençol.
Coisa Ruim caminhou lentamente até a pedra. Todos os presentes estavam em silêncio. Com um gesto rápido, o lençol foi retirado. Um "oh!" foi ouvido na sala. Qual não foi a surpresa de Coisa Ruim ao descobrir que ali, embaixo do lençol estava Bilú, seu cachorrinho. Ele ficou paralisado. Por toda a sala, um burburinho começou a se formar. Bilú olhava para Coisa Ruim com aqueles olhinhos marotos que ele conhecia tão bem. Satanás olhava com uma expressão de felicidade. Coisa Ruim respirou fundo, ergueu o chicote e quando ia abaixá-lo, não conseguiu. Atirou o chicote fora e abraçou seu amiguinho.
Lúcifer, decepcionadíssimo, mandou os dois de volta para a terra, como castigo. Só que agora nos papéis invertidos: Coisa Ruim era o cachorro, e banguela, e Bilú seu dono. Mas, ao contrário de Coisa Ruim, Bilú não se lembrava de nada do ocorrido e todos os dias batia e maltratava seu cachorro. E todos os dias Coisa Ruim se arrepende de não ter torturado Bilú quando teve chance.

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