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Coisa
Ruim
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Douglas Venoso |
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Coisa
Ruim era o terror do Macaco Molhado, vilarejo em que morava, e adjacências.
Foi durante um bom tempo o pior pesadelo dos comerciantes, das velhinhas,
das crianças e animais. Qualquer um que cruzasse seu caminho
era massacrado sem dó nem piedade e sem aviso prévio.
Mas nem sempre as coisas foram desse modo na vida de Coisa Ruim. Nascido João do Livramento, ele, segundo contam os mais velhos, era uma criança feliz. Amável com os pais, prestativo com os vizinhos e amante da natureza. Quando tinha três anos, seu pai lhe deu de presente de aniversário um cachorrinho, a quem ele chamou de Bilú. Bilú crescia na mesma proporção que João e sua amizade aumentava também. Os dois viviam felizes, até que um dia, quando João tinha seis anos, Bilú contraiu uma doença que os veterinários não sabiam como curar. A única alternativa para aliviar o sofrimento do pobre animal era sacrificá-lo. João não sabia muito bem o que estava se passando até que viu o pai pegar a velha garrucha e levar o seu cãozinho para um matagal. João seguiu de longe e chegou a tempo de ver seu pai atirando no seu amigo querido. A partir daquele dia, João mudou seu comportamento. De criança amável para rebelde com causa. Uma verdadeira peste disposta a tudo para infernizar a vida de seus semelhantes. Não demorou muito para ser apelidado de "Coisa Ruim" pelos vizinhos. Sua mãe, carola convicta, morreu de desgosto quando ele ateou fogo à igreja local, quase matando o padre. Seu pai casou-se com uma mulher mais nova e foi embora o deixando sozinho no mundo. Mas ele não se importava. Sabia que não precisava de ninguém. Um belo dia, Coisa Ruim estava à procura de mais uma vítima quando tropeçou, bateu com a cabeça e morreu. Assim. Sem mais nem menos. Toda a comunidade do Macaco Molhado festejou sua morte como um grande acontecimento. Teve até carnaval fora de época. Com trio elétrico e tudo mais. Obviamente, Coisa Ruim foi direto para o Inferno, sem escala no Purgatório. Logo na chegada, um diabinho veio açoitá-lo para que ele entrasse na fila. Coitado. Teve que pedir reforço de mais quatro para conter a fúria do recém-chegado. E mesmo assim não funcionou. Logo a notícia da balburdia correu por todo o Reino Inferior, chegando aos ouvidos de Sua Excelência, O Cão. Lúcifer ficou muito interessado no novo hóspede e quis ver com seus próprios olhos vermelhos. Lulu, como era chamado nas rodinhas sociais, materializou-se e ficou alguns minutos a observar, escondido atrás de um máquina de tortura, enquanto Coisa Ruim dizimava todos que tentavam rendê-lo. Belzebu estava impressionadíssimo. Como um recém-chegado poderia mostrar tanta fúria, tanta raiva, tanto ódio? Rapidamente seus olhos iluminaram-se e sua face disforme tomou aquela expressão de "grande idéia". Mais que depressa, Satanás materializou-se na frente de Coisa Ruim, em meio a uma nuvem de enxofre e um espetáculo pirotécnico, coisa de que não abria mão. Coisa Ruim parou para ver o show de fogos de artifício, ignorando a presença de Sua Maldade Suprema. Quando a pólvora de Satã acabou, Coisa Ruim ia retomar seu trabalhinho, mas foi interrompido. - Ae, rapah! Gostei do seu estilo! - Disse o Cão. - Do que que tu tá falando, meu? - Gostei de tu. - Ih, sai pra lá, boiola! Sou facão! - Não é isso, imbecil! To dizendo que gostei do jeito que você bate. - Ih!!! Além de marica ainda é chegado em uma surra? Ferrou! - Rapah, tive pensando. Faz tempo que preciso de umas férias... o que você acha de ficar uns tempos aqui no meu lugar? - Fazendo o que? - Nada. - Topei! - Mas não é assim tão fácil. Você tem que passar por umas provas antes... - Tem Matemática? - Não. - Então tô dentro. Lúcifer ficou muito esperançoso. Fazia tempo que ele queria sair de férias. A prova era dividida em algumas questões de múltipla escolha e uma, a derradeira, prática. 1.
Você está passando pela rua quando acontece um acidente.
Várias pessoas estão feridas. Você: 2.
Seu filho engoliu uma moeda rara de sua coleção. Você: 3.
Sua sogra inventou de passar as férias em sua casa. Você: Coisa
Ruim gabaritou a prova. Nunca alguém havia sido tão
cruel como ele. Belzebu estava todo orgulhoso. Mas faltava a última
prova. A prova que decidiria todo seu futuro. Capetão rumou
para a Sala de Sacrifícios, seguido por Coisa Ruim. Todos os
demônios estavam presentes para presenciar o momento histórico.
No centro da sala havia uma pedra de sacrifícios e alguma coisa
coberta por um lençol. Lúcifer fez um sinal para que
o outro fosse até lá e retirasse o lençol. |