A empresária e produtora Zeza Mendonça trabalha há 25 anos no carnaval, iniciando com João Jorge Trinta na Beija-Flor e continuam trabalhando juntos até hoje. Não é destaque ficar parada esperando que façam por ela ou para ela, chega junto no que for preciso para que o trabalho saia perfeito e a contento, porque o público que está ali para assistir merece respeito.
Gerar empregos, formar profissionais, descobrir talentos é a sina dessa mulher simples, no entanto sofisticada na plenitude de suas atitudes e preocupação social, principalmente em uma área considerada por alguns supérflua ou até mesmo decadente – desfile de fantasias de luxo -. Nada disso, é mais uma vertente desse caldeirão mágico que é a Cultura Brasileira. E a arte, o fazer artístico não tem presas. Tem a necessidade incontrolável de estar no meio das pessoas trocando impressões e
impressionando. Trabalhar no Carnaval é difícil, porém prazeroso, a toda hora tudo muda, então a criatividade está sempre a toda velocidade – afirma Zeza Mendonça – muitas pessoas não compreendem como se pode gastar tanto para fazer uma fantasia, pensando ser somente para desfilar um dia e satisfazer um ego maior que a Via Láctea. Não é bem assim – continua Zeza Mendonça – há todo um ritmo empresarial também envolvido entre plumas e paetês, são espetáculos que fazemos pelo país inteiro e no exterior, são
fantasias que alugamos, porque o custo de cada uma, por vezes, atinge a casa dos 10, 20 mil dólares, e esse retorno do investimento é necessário.
Com certeza, que o desfile de fantasias naqueles moldes anteriores, sem dúvida alguma fantásticos, apesar de alguns senões, não tem mais espaço hoje em dia. Guardo saudades do Glória, do Municipal,... Mas é um tempo que passou, mas não acabou, o que é bom pode e deve sempre ser reeditado, claro que observando as características do século que se inicia, buscando o que há de melhor, mais harmônico, mais belo e suave, num mundo que está conturbado. Buscar novas maneiras, sem perder a
qualidade e a criatividade. Para que isso aconteça, não podemos continuar sozinhos, cada qual em seu "atelier" se descabelando até conseguir concluir o Carnaval. Precisamos que as classes empresarial e política compareçam, conheçam e se comprometam, porque o trabalho desenvolvido, certamente, não é do conhecimento deles, eles não sabem que o retorno é bastante satisfatório em todos os aspectos.
Na Copa do Mundo de 98, na França, a Beija-Flor montou um Barracão em Paris, eu estava lá com o João Trinta. O Pelé, junto com o Ministro da Cultura do Brasil estiveram nos fazendo uma visita, foram conhecer o Barracão. Pois eles ficaram emocionados – continua Zeza Mendonça – com a quantidade de empregos que um Barracão gera e a qualidade do trabalho. Acabaram tendo que reconhecer a necessidade de mão-de-obra altamente especializada e farta para desenvolver o trabalho com o alto padrão de
qualidade e eficiência necessários.
Aqui no Brasil, nós precisamos aprender a valorizar o que é nosso e ensinar aos mais novos, ensinar mesmo, em projetos que visem a profissionalização, é necessário também que as pessoas envolvidas com o Carnaval se unam e discutam um novo fazer, mas que não fiquem apenas na discussão e depois tudo caia no esquecimento. Sabemos que existe uma crise, ela é real, mas existe uma legião de desempregados, alguns já qualificados, que não conseguem trabalhar, porque pessoas como eu e outros
produtores – explica Zeza Mendonça – não temos patrocínio que junto conosco possa pagar um "cachet" decente ao contingente necessário um trabalho como o que desenvolvemos. A RIOTUR nos auxilia um pouco, mesmo assim a carência de recursos é imensa. Desde espaços adequados aos desfiles até a alimentação e "cachet".
Carnaval é coisa séria, muito séria e deve ser pensado e trabalhado o ano inteiro pelo poder público, com as autoridades em Carnaval – o pessoal do Barracão, do "Atelier", das Quadras – conversar muito com quem sabe. Isso é coisa para o pessoal da Educação, Turismo, Cultura, Trabalho, Ação Social. Carnaval é coisa séria, muito séria, é a cultura de um povo.