Os cães ladram e a caravana passa Revista Destaque da AFPB
Ano V - Número 19 - Janeiro/Fevereiro - Ano 2007 - Revista Bimestral
 
Home
Capa
Colunistas
Comportamento
Culinária
Especial
Esotéricos
Expediente
Opinião
Personalidades
Saúde

 

Joãozinho Trinta

Com essa matéria estamos começando uma série que vai falar com algumas das pessoas responsáveis por esse espetáculo ímpar- o nosso Carnaval. O nosso objetivo é mostrar que, ao contrário do que parece, Carnaval é coisa séria. Além de criar empregos em vários segmentos como artesãos especializados, passando por ferreiros, sapateiros ,costureiras, pintores, escultores e outros, leva a reboque projetos sociais fantásticos, alguns já implementados e fazendo sucesso, como a Vila Olímpica na Mangueira.

O começo                                                                     João Jorge Clemente Trinta é o nome completo desse maranhense nascido em 23 de novembro de 1933. Menino de família pobre, desde criança brincava com a criatividade construindo brinquedos mecanizados e relacionados com a arte. Chegou ao Rio aos 17 anos, no Carnaval de 1951 para ser bailarino. Entrou, por concurso, em 1956, no Teatro Municipal e vem dessa vivência a concepção do Carnaval como uma ópera, um espetáculo audiovisual. João começou a trabalhar com Carnaval no Salgueiro, em companhia de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, em 1963. Em finais de 75 tornou-se carnavalesco da Beija-Flor de Nilópolis e aí se consagrou.

Revolucionário                                                           Inovou colocando as fantasias de destaque no topo dos carros alegóricos, inaugurou o nu nos desfiles e reciclou o lixo para transformá-lo em luxo. É dele a célebre frase, muito repetida -"Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual". Ele não se considera um revolucionário alega modestamente que apenas sintetizou o que encontrou em 1951: as Grandes Sociedades, os Ranchos e as Escolas de Samba.

Patrulhamento                                                                 A despeito do sucesso, João foi patrulhado na Beija-Flor, por jurados como Leon Hirszman e Bráulio Pedroso que lhe negaram a nota 10, em função, segundo eles da proximidade da Beija-Flor com o poder pós – 1964 (em 1974 e 1975 a Beija-Flor apresentou enredos ligados ao governo militar). A grande ironia é que, na época desses desfiles João estava no Salgueiro, não tendo portanto, nenhuma responsabilidade pelos mesmos. A Igreja também censurou a escultura de Cristo na Avenida durante o desfile de Ratos e Urubus Larguem a minha Fantasia(1989). Nessa obra eram focalizados personagens de rua retratando a realidade do Rio, incluindo mendigos, alcoólatras, pivetes e desocupados, que eram abençoados pelo Cristo. Ficou estabelecida a polêmica e João cobriu a imagem acrescentando a frase: "Mesmo proibido, rogai por nós". Sua maior resposta a tudo isso foi que ele não ganhou o Carnaval pelos jurados, mas seu desfile é comentado até hoje. Foi considerado um dos mais memoráveis desfiles da história do Carnaval. Ninguém comenta a Escola Campeã daquele ano.

Dedicação à beija-flor                                                           Apesar de ser a Escola que menos lhe remunerou, permaneceu tanto tempo na Beija-Flor (17 anos) porque estava integrado de todas as maneiras, não só pelo Carnaval, mas muito mais pelo aspecto social e sua dedicação ao trabalho não lhe dava tempo para perceber nem sentir falta de nada.

 

Carreira internacional                                                            Foi convidado a levar o Carnaval às ruas de Paris pelo então prefeito da cidade, Jacques Chirac. O convite se repetiu por alguns anos. Entre seus muitos trabalhos internacionais está o Reveillon real em Marrocos, desde o falecido rei Hassan II até o rei atual Mohamed IV , ainda apresentações na Itália, Portugal , Mônaco e recentemente na África do Sul.

 

Constrangimento                                                       Considera seu momento mais marcante o primeiro Carnaval, e o que menos lhe agrada é a falta de cobertura física para a feitura do Carnaval. A execução do Carnaval em barracões sem estrutura, precários, sofrendo até incêndios o deixa muito constrangido. A Prefeitura mais uma vez prometeu tomar providências. João também se ressente da falta de um Museu do Carnaval para os turistas terem o que visitar e conhecer um pouco mais da nossa cultura.

Carnaval de rua                                                               Quanto ao carnaval de rua, João critica a falta de apoio, e cita seu exemplo pessoal, pois apesar de inúmeras atribuições na semana que antecede o carnaval, desfila no bloco o "Badalo de Santa Teresa", bairro onde mora e dá todo o apoio que pode através do "Instituto Joãozinho Trinta". Ele observa que em torno da sede dos blocos dos bairros as comunidades podem se organizar.

Obras sociais                                                                   Confirmando sua marca registrada- implementar e participar de projetos sociais nas Escolas de Samba onde trabalha, após visitar o aterro sanitário de Gramacho, ficou horrorizado em ver pessoas disputando o lixo com ratos e urubus e quer trabalhar a idéia de transformar um antigo aterro sanitário em área para plantio de flores exóticas, das quais o Brasil é um celeiro e é produto de grande aceitação internacional. E ainda a criação de uma empresa exportadora dessas flores. Já há promessa de patrocínio por parte da Petrobrás e só falta o aval do prefeito de Duque de Caxias doando o terreno solicitado para a implantação desse projeto chamado "Do Lixo às Flores". Em torno dessa produção formar-se-ia um núcleo de civilização propiciando melhoria substancial na vida dos participantes.

 

Discriminação                                                          Mostrando que é mestre em driblar a discriminação Joãozinho saindo da Beija-Flor foi trabalhar na Viradouro de Niterói, que na época era discriminada por não ser do Rio e por não estar entre as grandes Escolas. Começou com um honroso 3º lugar.

Em relação à discriminação racial João considera que é um problema de situação econômica, que se for resolvida equilibra as relações. Cita o seu projeto atual como exemplo que deveria ser seguido. Há um mercado de seis bilhões de dólares para as flores, e com certeza há outros mercados a serem descobertos. Os empresários precisam abrir frentes de trabalho.

A mesmice do carnaval e uma antiga reinvidicação                                  Alguns críticos têm declarado que há uma mesmice no Carnaval. Com o dinheiro que todas recebem atualmente, pelos menos hipoteticamente, todas estão em condições de mostrar um bom Carnaval. João já há muito tempo vem defendendo a idéia de que uma nova dimensão para o desfile só será alcançada a partir do momento que essa iluminação fria atual possa ser substituída por uma iluminação teatral, condizente com a grande ópera que se desenrola na Sapucaí. Cita como exemplo o sucesso do Carnaval de Parintins, onde a iluminação permite a platéia interagir com o espetáculo e facilita os efeitos visuais, o que não acontece aqui. Essa posição é antiga e já foi exposta para o prefeito César Maia e há até um projeto que poderá ser submetido à sua apreciação.

A política                                                                      Perguntado porque não transforma seus projetos sociais em projetos políticos e não se candidata a um cargo eletivo ele respondeu que jamais se candidataria a algum cargo político, alegando não ser essa a sua Avenida. Ele considera a Avenida Política uma Avenida cheia de emboscadas e traições. Mas, apesar de sempre ter se mantido firme nessa disposição de não concorrer a cargo político, João não escapa da desconfiança de políticos, que invejosos de sua visibilidade já sabotaram projetos seus, inviabilizando sua realização e contribuindo para campanhas difamatórias.

 

Trabalho                                                                    Em 1996 uma isquemia o obrigou a modificar sua rotina de trabalho, descanso e alimentação, mas ele continua impávido em diversas frentes, através do Instituto Joãozinho Trinta que é a forma oficial por onde atualmente se processam os seus projetos, Ele profere palestras, onde expõe sua experiência não só de Carnaval como de vida, "Workshops", viagens nacionais e internacionais.

Nas suas apresentações mostra a ligação do Carnaval com o trabalho social. Em uma recente viagem à África do Sul se sentiu muito tentado a ficar lá implementando esse trabalho, mas seu coração e a responsabilidade do trabalho assumido aqui no Brasil falaram mais forte.

O ano de 2002                                                       Atualmente está na Grande Rio onde em 2001 mais uma vez surpreendeu quando um componente convidado sobrevoou a Avenida em pleno desfile. Em 2002 virá com um assunto lhe é muito grato: ele vai falar de sua terra - o Maranhão, com suas dimensões culturais fantásticas, num tratamento diferente do que ele já fez, com outra grandeza completamente diferente de 1974. João elogia a direção da Grande Rio na pessoa de Jaider Soares o Presidente de Honra, louva a boa administração do Presidente Helinho de Oliveira e ainda destaca a capacidade da Diretoria, da Harmonia e finalizando da comunidade de Caxias. Ressalta que a experiência que faltava, a Escola vem adquirindo rapidamente e está apta a fazer um grande Carnaval.

Aos Jovens                                                                   Ele não diria parafraseando Nelson Rodrigues que "envelheçam rapidamente". Mas diria que aproveitassem e se preparassem, porque só através do estudo e de uma preparação física, mental e espiritual é que eles irão aproveitar melhor a dádiva da vida. Sem esse preparo vai ficar difícil enfrentarem um sistema de vida que requer conhecimento, educação e preparação.

Aos governantes                                                             João acha difícil dar recado para quem está na frente de um governo. Diz que quem governa, governa com uma máquina que é como uma serpente que tem várias cabeças. Um governador ou presidente, no nosso sistema de governo não é dono de seu governo, ele também é engolido por essa serpente que ele chama política.

O seu recado é mais amplo, é um recado às consciências de várias camadas de dirigentes do Brasil, de homens públicos, de políticos, de intelectuais e também de povo. É um chamado à consciência de todos para que acabem com corrupções, maldades, violências, que não depende de uma pessoas mas do somatório de várias atividades.

Palavras finais                                                                Ele diz que não é preocupado porque pré quer dizer antes de se ocupar e quem está antes de se ocupar está desocupado. Ele se ocupa, entendendo que o trabalho social é uma ajuda para o povo brasileiro e se ele pode fazer um mínimo projeto não fica só falando, realiza. Joãozinho espera que muitas pessoas que também podem agir como ele, ao invés de ficarem reclamando, de ficarem somente dando recados, que façam. Deixem de ficar pré-ocupados e se ocupem, porque cada um se ocupando de um pouco,muitos problemas serão resolvidos.

Obrigada João, e que você esteja sempre protegido e iluminado.

 

Este site foi atualizado em 01/02/07

Hosted by www.Geocities.ws

1