Os cães ladram e a caravana passa Revista Destaque da AFPB
Ano V - Número 19 - Janeiro/Fevereiro - Ano 2007 - Revista Bimestral
 
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Roberta Miranda

Se é verdade que o amor é o melhor e o mais doce prêmio da vida, Roberta Miranda chega com um novo disco que atende ao seu público fiel e bem acostumado a cantar o amor sem medo de rótulos ou de parecer ridículo. Todos nós temos uma boa, linda ou triste história de amor. Não tem a menor importância se o amor acontece no início, no chamado tempo certo ou no fim da vida. Aliás, tem certos insetos que ama e morrem, plenamente recompensados pelo ato de viver...

P.- Roberta, nesse disco você está sorrindo na capa. É um disco diferente? Roberta- Eu sempre fiz discos alegres e românticos, cantando forró e outros ritmos. É claro que esse trabalho é essencialmente romântico, mas é um disco bem alegre, para cima, com uma regravação da Célia Cruz, um bolero-mambo e um forró maravilhoso, entre outras novidades. É um disco da Roberta Miranda, um pouco mais alegre, talvez, porque retrata o meu momento. Estou muito feliz com as minhas escolhas.

P.- Em 14 anos de carreira você gravou tudo o que gostaria ou ficou faltando alguma coisa? Roberta- As gravadoras sempre me deram total liberdade para decidir o disco e o repertório. Gravar o que gosto, sem nenhum tipo de pressão sempre foi a tônica do meu trabalho. É claro que eu gostaria de ter gravado outras coisas que, e princípio não teriam nada a ver com o meu repertório. Sou uma cantora, uma intérprete. Acontece que ainda não chegou o momento de trilhar outros caminhos, mas o projeto de gravar um disco de fados, acho que realizo ainda esse ano.

P.- "Deixando a vida fluir" é uma composição sua. Qual é a história dessa música? Roberta- Essa música é minha. Dediquei a uma grande paixão que tive, mas, infelizmente , não deu para manter. Não foi possível chegar à exaustão, viver até o fim como a própria paixão pede. Essa canção é tão especial que eu fiz uma dedicatória no disco falando dessa pessoa única. Está lá... é só procurar.

P.- Aquela faixa desse disco está sendo bem executada em rádio. "Faz amor comigo", do Michel Sullivan e Carlos Colla, com certeza, é um hit. Roberta- É uma música romântica, alegre, intensa, até porque fazer amor é uma coisa maravilhosa. Espero que as pessoas não entendam isso como um convite, já pensou... (risos). Isso é só música. Se cada vez que eu disser "faz amor comigo" um levantar o dedo...

P.- Como é o seu processo de criação? Roberta- A música vem junto com a letra. Sempre foi assim. Uma coisa fatalmente leva à outra. Às vezes eu me pego tomada por um sentimento e sinto a necessidade de compartilhar com alguém, a música torna isso possível.

P.- E a música "Atração fatal"? Roberta- Essa música não poderia faltar no meu disco. Eu fiquei dois anos sem gravar forró, nesse eu descontei e gravei dois grandes forrós de uma só vez. Um deles é Atração fatal. Foi para matar a saudade.

P.- Por que você ficou dois anos se gravar forró? Roberta- Eu estava vivendo um outro momento na minha carreira, ficaria fora do contexto. Tive a sensibilidade de perceber que esse era o momento certo para voltar a gravar um forró e o resultado foi ótimo.

P.- Quando você pensa em gravar um disco, é um sofrimento? Todo artista diz que fazer um disco é como um parto. Roberta- É um parto de trigêmeos. Tem o parto de conceituar o disco, tem o parto de gravar, tem o parto das entrevistas... Mas fazer um disco não chega a ser um sofrimento, é trabalho duro.

P.- Você gosta mesmo é subir no palco e fazer o seu show, não é? Roberta- E de estar no meu estúdio também. Todo mundo acha que a vida de artista é só glamour, festas, capas de revista, viagens... Mas o processo de concepção de um disco é enorme, desde o momento da escolha do repertório até chegar ao show, passando pela escolha da foto, capa e mixagem. Enfim, tudo requer muita dedicação.

P.- A música "Anel brilhante" tem alguma ligação com a sua paixão por jóias? Roberta- Tem. Eu misturei um sonho de criança com essa paixão. Na adolescência eu era muito pobre e não podia ter jóias. Isso, de certa forma, me frustrou. Eu lembro que umas amigas da minha mãe usavam anéis e colares que chegavam a ofuscar a gente. Aquilo ficou na minha memória. O título é meio estranho, mas quando você ouve a música, percebe que ela está dentro desse universo musical da letra que eu fiz. Então, Anel brilhante é um sonho mesmo, junto com esse grande amor, essa grande paixão, essa coisa meio indecente, porque a pessoa pela qual eu sou apaixonada é meio indecente. Mas isso foi uma das coisas que mais me atraiu.

P.- As histórias de amor, têm alegria, sofrimento, incompreensão... Roberta- Têm tudo. Sedução, amor, vida... As pessoas podem expressar suas histórias de amor de muitas maneiras. Podem expressar contando uma história, pode ser num desenho, numa pintura, num poema...

P.- Na faixa "Estou só", como em muitas outras músicas suas, você termina sozinha no final, por quê? Roberta- Eu acho que isso acontece muito na vida do artista consagrado. O sucesso não é o melhor companheiro, mas limita as suas companhias. Se você fizer uma pesquisa, vai verificar que nós somo todos muito sós. Não temos tempo para viver grandes amores, o que não nos impede de termos grandes paixões...

P.- E a versão "A vida é um carnaval"? Roberta- É uma versão alegre. Foi uma mensagem que eu quis passar para as pessoas, justamente para não ficarem tão tristes, pesadas. A vida deve ser cheia de felicidade. A vida tem que ser como o carnaval.

P.- Como você conseguiu autorização para gravar em português? Roberta- Eu fui indicada para o Grammy e lá estava a Célia Cruz. Não perdi tempo, fui até ela e dei o meu CD. Eu fiz uma versão em português que ela aceitou imediatamente e pediu que eu gravasse. Fiquei muito lisonjeada.

P.- "Terra genuína"? Roberta- Terra genuína é o meu lado sertanejo, meu lado de toada, meu lado de falar na terra, do homem do campo, falar dessa coisa maravilhosa que é a natureza. Eu quis registrar o meu lado sertanejo, puro.

P.- Hoje você é mais uma cantora romântica do que uma cantora regional propriamente dita. Faria música regional pura? Pensa em um projeto desse tipo? Roberta- Farei um dia. Tenho vontade de fazer canções puríssimas, música raiz sertaneja. Mais ainda não é a hora.

P.- No disco ainda tem uma outra versão... Roberta- É uma versão lindíssima da Lena Peres. "Boleros, nunca mais", que fez muito sucesso na década de 80 e realmente é uma das que eu mais gosto e me lembra o pôr-do-sol da minha terra, um dos marcos da minha vida. Lá em João Pessoa, quando o relógio marca cinco horas, tem um lugar onde se escuta o bolero de Ravel, no tempo exato de se apreciar o final do dia. Nessa faixa tem uma citação do bolero de Ravel. Música e natureza formam uma mistura sensacional, é apaixonante.

P.- E essa coisa meio árabe da música "Rural II"? Roberta- É fantástica. No meu entendimento trata-se de um sucesso. Não adianta esconder, vai aparecer sozinha. Eu acredito tanto que até encomendei a Carlinhos de Jesus uma coreografia especial. Tem um menino de seis anos que eu conheço que é louco pela música, ele me contou que já levou para a escola e todo mundo gostou. Então, é o tipo de música que vem naturalmente como sucesso. Independente de divulgação de rádio e TV. Eu acredito muito no seu potencial, ela já nasceu um estouro.

P.- Qual é a história dessa música? Roberta- Essa música veio do Nordeste. Só lá, o Neo Pi Neo (autor da música) vendeu 200 mil cópias. Ele estourou no Nordeste, literalmente. É o que é mais interessante, descobriu a referência da música árabe com o forró. Eu adoro música árabe. É incrível. Eu me identifico muito com a música. Ela é supersensual e misteriosa, ou seja, tudo de que eu gosto.

P.- Você sempre disse que tem um projeto da fazer alguma coisa pelos idosos. Por que não crianças? Roberta- Realmente existe um projeto. Eu optei em ajudar os idosos justamente porque eles ficam totalmente esquecidos. Tem uma história engraçada que aconteceu uns seis anos atrás. Eu dei uma festa para minha mãe na sua casa na Lapa. Onde a lado havia uma casa de repouso para idosos. Então eu fui até lá, convidei a todos para a festa. Depois os enfermeiros foram buscar os velhinhos e disseram que eu ia acabar matando um deles de tanta comida que eu dei. Daí em diante percebi que era a essas pessoas que eu deveria ajudar.

P.- E a sua paixão pela pintura? Como anda o seu trabalho com as formas, cores e palavras? Roberta- Ultimamente eu tenho feito telas diferenciadas, jogando com o lado da poesia. Eu acho importante toda obra ser diferenciada. Misturando cores, formas e palavras fica mais difícil cair na mesmice. Essa coisa de usar palavras e frases nos meus quadros fica por conta do meu lado compositora.

P.- Quando surgiu esse lado pintora? Roberta- Foi quando eu estava passando por um bloqueio como compositora. A pintura foi uma forma de eu continuar a me expressar. Eu não posso ficar sem trabalhar com arte, independente da sua vertente, a arte move a minha vida.

 

Este site foi atualizado em 01/02/07

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