Os cães ladram e a caravana passa Revista Destaque da AFPB
Ano V - Número 19 - Janeiro/Fevereiro - Ano 2007 - Revista Bimestral
 
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Zé das Medalhas

"E o Rio de Janeiro continua lindo...", lindo e correndo para o mar. Rio de Janeiro dos cariocas, das praias, do futebol e de todos aqueles que por afinidade ou por opção abraçaram a cidade como sua terra natal.

Aqui aparecem os tipos mais curiosos e pitorescos que pouco a pouco vão se integrando à paisagem e de repente, até sem querer, passam a fazer parte do folclore popular.

É para eles que esse nosso espaço está sendo aberto hoje, e para começar, colocamos em evidência um tipo por demais sui-generis.

Seu nome: ALTAIR DOMICIANO GOMES, mais conhecido como ZÉ DAS MEDALHAS.

Sua Infância

Nasceu num lugar chamado Malacacheta, município de Porciúncula, a última cidade do Estado do Rio. Era um dos doze filhos de uma família extremamente pobre,do tipo "não ter o que comer". Por isso, a proposta que uma família fez de trazê-lo para o Rio, pareceu- lhe tentadora, porque lhe dava a chance de poder fugir da fome.

O início no Rio

Veio para o Rio e aos quinze anos passou a trabalhar executando serviços domésticos. Vivia só para trabalhar confinado entre as paredes de um apartamento.

-"Era um tipo de escravidão!"

- "Se não fizer direito, apanha."

Naquela época, no Brasil o preconceito era mais explicitado. De modo que Altair vindo para cá fugia da fome e caía nas malhas desse preconceito.

Mas, havia um ponto favorável: preconceito dava comida.

Bem assim:

-"Toma negro, o que comer".

E o problema da fome estava solucionado.

Mas, ele continuava preso entre quatro paredes,com o desgosto de não poder ver a

"Princesinha do Mar".

O emprego que o salvou

Um dia, sem saber bem como, conseguiu um emprego em uma farmácia local, mais precisamente na Farmácia do Leme, na Avenida Prado Júnior- Copacabana. Lugar onde está até hoje.

A libertação

No momento em que conseguiu esse emprego, comprou o passe para a sua libertação. Passou a exercer o direito de praticar as maiores extravagâncias,

como se quisesse quebrar os grilhões que o escravizavam.

As medalhas

Nesta ocasião ganhou um balangandã de um amigo e pendurou ao pescoço, em um cordão.

A este veio juntar-se outro e mais outro e mais outros...de uma maneira tão desenfreada que chegou a de usar de uma só vez 1.800 medalhas em 800 cordões, perfazendo um total de quinze quilos de enfeites.

A motivação

Queria apropriar-se de seu corpo e viu nesse caminho uma forma fácil de fazê-lo.

A produção não termina aqui. Veste-se com calças de cetim com uma perna de cada cor; lencinho no pescoço; os dedos duros de anéis; a camisa aberta no peito, permitindo que a profusão de colares e medalhas lhes caindo na altura da barriga, fiquem expostos.

A explosão de cores compõe este espetáculo inusitado.

Com um visual deste tipo, é natural que Zé das Medalhas desperte a atenção de homens, mulheres, crianças, cobras e lagartos... Pois, se assim acontecer, então ele terá atingido o seu objetivo, pois é isto mesmo que quer. Causar espanto, perplexidade é a sua pretensão, sua finalidade na vida.

Aventura mineira

Extremamente divertido, Zé das Medalhas lembra-se de um choque que causou em Caratinga, Minas Gerais, quando foi convidado para um casamento.

As tradicionais senhoras interioranas quando o viram quase desmaiaram e deram parte na polícia.

A polícia caiu em cima de nosso herói armada de cassetete, taxando- o de "macumbeiro". Na delegacia Zé das Medalhas explicou ao delegado:

-"Faço parte do folclore do Rio, doutor, tenho documentos e sou cidadão honrado e trabalhador".

- "Foi a minha apoteose !"

Discrição atual

Hoje, porque está com quase 60 anos, ele está mais discreto: usa só 200 cordões e 500 medalhas porque os quinze quilos anteriores estavam prejudicando a sua saúde.

Em casa gosta de andar sem roupa e sem enfeites. O processo para tirar e repor toda esta parafernália leva de hora e meia a duas horas.

Zé das Medalhas é um homem de pouquíssima instrução,mas de inteligência brilhante, gargalhadas imensas, palavra fácil como se tivesse dentro de si uma chama acesa que crepita sem parar, prendendo a nossa atenção e nos fazendo verdadeiramente estarrecer.

POIS NÃO É ESSA A SUA FINALIDADE na vida?

 

Este site foi atualizado em 01/02/07

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