Ator, radialista, bailarino, modelo, "chef", professor ... ufa! Esse cara existe? Existe. Em músculos, plumas e muito talento, distribuídos em 1.93 de altura.
Sem levantar qualquer bandeira específica, transita com desenvoltura por todos os movimentos sociais e culturais.
É Vera! É Laffond! É Jorge Luís de Souza Lima o artista brasileiro que não abre espaço à hipocrisia e conquista o respeito a partir da verdade e do trabalho. Por isso é Vera, é Verão, é Laffond. Êta lelê, meu povo! Salve Jorge!
AFPB- De onde vem essa forma espirituosa de falar, essa sacação, essas idéias?
Laffond- Não sei, é espontâneo. No rádio trabalho com o Jairo Roberto. Parece que nos conhecemos há séculos, ele me olha , eu olho para ele e há grande integração. Para alcançarmos o padrão que a emissora queria foi preciso fazer algumas modificações, tira isso, tira aquilo e do programa inicial fica só Mania de Solidariedade, que dá cesta básica na casa das pessoas, o que acho bárbaro, fantástico. O meu negócio é falar, jogar a graça. Se você me corta isso eu vou para uma rádio fazer o
quê? Apresentar música? Isso não é minha praia. Mas a coisa foi amarrando, foi amarrando e encontramos a linha. Tanto que a emissora está em primeiro lugar no horário no Rio de Janeiro, segundo o IBOPE. Sendo assim acredito que o João Carlos, que é o diretor, tem toda razão quando controla; o que nós achávamos engraçados, o povo em casa não achava. Cortamos aqui e ali e agora não tiramos a graça que tínhamos antes e continuou um padrão gostoso. O programa é ao vivo de 2ª a 6ª feira na Radiomania( 97.5 FM
).
AFPB- Por que você não faz teatro infantil?
Laffond- Eu fiz na Faculdade e de uns quatro anos para cá estou fazendo circo, faço espetáculo com o Circo Montreal, a preços populares. É superlegal, onde eu trabalho com o povão, o meu público.Ontem fizemos espetáculo para 800 pessoas. Eu tenho um espetáculo chamado "Essa negra tem brasão". Tirei um pedaço de cada quadro dele e levei para o circo, onde eu faço os últimos 40 minutos da função. Eu fiz um espetáculo, que ficou oito anos em cartaz, que foi o "Sassarico da Nega".
AFPB- Você vive da Grota Funda para cá(Zona Oeste). O que você acha que deva ser feito aqui em termos de arte, cultura, saneamento?
Laffond- Conheço essa área há bastante tempo. Nasci na Penha, mas Diamantina, minha falecida mãe, morava em Santa Cruz, no Cesarão. Cresceu muito, melhorou , mas claro que está faltando muita coisa. Eu acredito que até o ano que vem essa parte de praia também vá melhorar com o Porto de Sepetiba terminado. Vão começar a construir no Recreio o túnel da Grota Funda que vai melhorar o acesso. A serra era um horror, hoje em dia é brilhante, a estrada de lá para cá está iluminada. Como aquela
banda da Barra da Tijuca, Recreio, Grumari, cresceu, a cidade está vindo. Se você olhar Campo Grande hoje e Campo Grande de cinco anos atrás é um absurdo, ninguém queria saber, hoje está belíssimo. Sepetiba é vista na cidade como até mesmo turística. Claro que falta muita coisa, mas você vê que já há outra visão. Não se fala em Santa Cruz com menosprezo. Santa Cruz é Zona Oeste, e comparada a Recreio e Barra da Tijuca. A Zona Oeste está crescendo, está ficando legal.
AFPB- Você escreveu um livro?
Laffond- Sim, "Bofes e Babados". Eu achava que só venderia um exemplar e acabamos vendendo 180.000, de acordo com a Editora. Esse livro é uma autobiografia. Quando eu dava entrevistas tinha interesse em falar da minha vida desde o subúrbio até os dias de hoje, e os jornalistas só se interessavam e perguntavam a respeito da minha sexualidade. Quando me vi diante de um papel onde eu poderia escrever aquilo que eu mesmo não iria cortar, vi que poderia escrever um livro e coloquei aquilo que
eu sempre quis falar e nunca foi publicado. O livro foi lançado na Bienal do Riocentro, vendendo 500 exemplares no primeiro dia e no domingo, meu dia de autografar, não havia mais livros. Não tenho pretensões a grande escritor como um José Saramago, mas é muito gostoso passar alguma coisa para alguém.Estou terminando o segundo livro, "Universidade das Mulheres". É um livro de dicas de como você melhorar seu relacionamento, segurar seu marido. É um livro popular de auto-ajuda. Eu estou passando o que os
maridos me dizem que sentem falta nas mulheres. São dez capítulos, estou no nono.
AFPB- Como é para você ouvir as confissões dos homens?
Laffond- É engraçado que você se sente o máximo. A tal, a poderosa! Eles falam de verdade. As pessoas mais insuspeitáveis mantêm um relacionamento homo e se queixam das suas mulheres. Às vezes preciso me bater para acordar e ver que é verdade. Por exemplo: a mulher antes de casar se sente o máximo. Casa e quando tem filhos deixa de ser mulher para ser mãe. A partir daí o marido continua dizendo que ela está linda e ela mesma se vendo engordar e perder as formas, finge acreditar. Aí ela
começa a ser traída e prefere fingir que não sabe e manter-se casada. O problema não é financeiro, é moral. É o manter-se casada a qualquer custo. Ela quer proteção e "status".
AFPB- A Vera Verão, o Laffond e o Jorge se confundem?
Laffond-Não, cada um tem seu espaço. A Vera Verão eu " recebo" às terças- feiras; acabou, eu a boto dentro do saco, aí vem Laffond. Para cada momento é uma coisa e todos são sustentados pelo Jorge. Enquanto eu não entro em cena sou o Jorge vestido e maquiado como mulher, entrei em cena, foi Vera Verão que chegou. Acabou, quero logo tirar a roupa e a maquiagem e saio do trabalho de cara limpa e boné – Jorge.
AFPB- Você não fica incomodado com o fato da Vera Verão ser um quadro flutuando na "Praça é Nossa" para levantar os pontos do IBOPE?
Laffond- Não, encaro com naturalidade e faço o meu de sempre.
AFPB- O que lhe dá mais prazer em fazer?
Laffond- Tudo. Antes do rádio eu era completamente preguiçoso pela manhã, agora acordo todo dia às cinco e às sete estou na rádio feliz da vida.
AFPB- Por que você não fez mais novelas, não é mais chamado, não escrevem para você?
Laffond-Estou muito ocupado com várias atividades ao mesmo tempo. Agora, se aparecer um bom personagem, como eu quero, a idéia não está descartada. Vou começar a filmar Estação Carandiru, com o Hector Babenco, fazendo um personagem muito bom, na minha linha de personagem com um elenco de primeira, é um quase documental com Giulia Gam, Miguel Fallabela, eu ...
AFPB- Você não gostaria de mudar?
Laffond- Não porque as pessoas já se acostumaram a me ver fazer aquela linha de personagem- o gay, ou mais afetado ou mais levezinho. Se eu quebrar essa linha acho que as pessoas não vão achar interessante. Há uma estigmatização que eu não vejo como quebrar, pelo menos por agora.
AFPB- Você sempre pensou em ser ator?
Laffond- Não, na realidade esse lance de infância foi muito complicado. A minha família era muito bem estruturada. Minha avó só casava as filhas bem casadas. Minha mãe se separou e até se separar morávamos muito bem na Penha. Depois fomos morar em Cordovil num barraco e minha avó se afastou de nós. Minha mãe segurou a barra como mulher de fibra que era e não deixou a peteca cair. Mamãe já trabalhava na Maternidade-Escola e nas folgas nós trabalhávamos num Parque de Diversões em Vicente de
Carvalho, mamãe no caixa e eu no boliche, foi meu primeiro trabalho. Logo depois fui trabalhar numa oficina mecânica na Penha como ajudante. Mamãe fazia também sorvetes e nós vendíamos. Fui estudando em escola pública e nunca repeti ano. Minha mãe lavava roupas para me pagar a explicadora e eu já entendia que não podia repetir o ano para não por a perder o sacrifício dela.
AFPB- Como você ingressou nas artes?
Laffond-Um dia, minha tia Dulcinéia, que é ligada ao Carnaval e às artes me incentivou nesse caminho. Na convicção de que alguém deveria herdar esse gosto, essas raízes. Trouxe um anúncio de um curso de artes numa Academia em Copacabana. O curso era muito caro e eu era desajeitado para a coisa, não deu certo.Outra ocasião , em companhia de outra tia, Dalva, tomei contato com um projeto chamado "Palco sobre rodas". Vi uma dança e gostei. Era o balé de Mercedes Batista (dança
afro-brasileira). Ainda não era bem aquilo que eu buscava e procurei uma escola de balé clássico. Fui desaconselhado por ser negro, mas não desisti. Fiquei dois anos com Dalal Acchar. Em seguida, fui para o Teatro Municipal, após um teste com o Edmundo Carijó. Na escola inteira éramos três negros: eu e duas bailarinas, uma não agüentou e saiu. Rodei a Europa com o grupo Brasil Canta e Dança (Haroldo Costa e Mary Marinho). Na volta fui fazer Faculdade de Artes (Uni-Rio). Logo depois fui para o corpo de
baile da TV Globo, e agora estou na "Praça É Nossa"(SBT). Independente da Uni-Rio fiz outros cursos. Fiz cursos de hotelaria e trabalhei no Sheraton como chefe de cozinha.
AFPB- Fale para as pessoas das vantagens de trilhar esse caminho de cursos no Senai/Senac.
Laffond- Toda criança pobre mora naquele lugar que não dá vez a ninguém. Ou você cai para as drogas ou para oura coisa. Para evitar, tudo que aparecia para estudar eu fazia. Eu fiz muita coisa ao mesmo tempo. Antes da Uni-Rio eu fiz Educação Física. Eu sou professor de Ed. Física, mas não era a minha predileção.
AFPB- Qual a sua Religião?
Laffond- Candomblé. Não abro mão do meu candomblé de jeito nenhum. Sou feito em Cotia, no interior de São Paulo. Não sou exagerado. Vou ao barracão para o " bori" de um ano e para a festa dos meus orixás. Telefono para pedir alguma coisa e pronto.
AFPB- Como é a sua relação com a Imperatriz Leopoldinense?
Laffond- Ah! Carnaval é um caso de amor antigo. Eu fiquei dezoito anos na Beija-flor,aí tive uma briga com João Trinta e saí. Participei da campanha do Marquinhos Drumond ,estava sem escola, ele me convidou e eu aceitei. A Imperatriz é como a Beija-flor, sendo que a Beija-flor eu coloco como mãe e a Imperatriz como madrasta boa. Estou feliz lá. Agora não dá mais para freqüentar barracões, somente vou ao final da escolha do samba-enredo na quadra e vejo meu carro no barracão. A Imperatriz
é uma escola de porte e fazemos uma grande troca.
AFPB- Você tem manias?
Laffond- Várias. Mas não as superstições habituais como temer gato preto ou não passar por baixo de escadas. Uma delas é não gostar de dividir o que é meu. Se você quiser alguma coisa minha, prefiro comprar para você e não emprestar. Tenho esse tipo de mania.
AFPB- Do que você mais se orgulha na vida?
Laffond- É de ter vindo do nada e agora poder bater no peito e dizer que tenho tudo sem ter feito qualquer coisa que me envergonhasse,ou não ter me assumido como sempre fui desde pequeno até hoje. E ter vencido, quebrado todas as barreiras e chegar aonde cheguei. Eu sempre falava para a minha falecida mãe que um dia iria lhe tirar do barraco no Quitungo (Vila da Penha) e botar morando de frente para o mar. Ela ria. Ela não está aqui hoje, mas onde estiver estará vendo que sai da
vizinhança de um rio malcheiroso para frente do mar, sem ninguém na minha frente.
AFPB- Você tem algum complexo ou mágoa?
Laffond- Complexo não. Mágoa a gente sempre tem de alguma coisa. Se você me perguntar qual, agora não sei responder. Aquilo me incomodou naquela hora e eu joguei para lá. Eu não levo nada para casa, resolvo na hora. Não vou morrer de pressão alta ou úlcera. Uma vez quase fui preso por conta disso. Eu estava dirigindo (uma Mercedes), quando a polícia parou para perguntar se o carro era meu. Foi a conta para o desaforo e a situação só foi bem resolvida por conta de um policial conhecido que
participava da "blitz".
AFPB- Você já sofreu assédio sexual?
Laffond- Já, de homens e mulheres. Na faculdade uma colega loirinha que faz novelas na Globo, dava em cima de mim direto e atrapalhava a minha vida, eu tinha pavor dela! Eu era apaixonado por um colega e ela atrapalhava tudo pegando no meu pé. Agora mulheres não me assediam. São homens, as pessoas mais insuspeitáveis. Fico de boca aberta. Às vezes nem fazem meu tipo, mas vou ver como é. Claro que alguns fazem a linha mas não me interessam.
AFPB- O que você acha de casamento homossexual?
Laffond- Essa lei que vem ai me favoreceria, mas eu não posso me casar, porque ele é casado e tem filhos. Temos coisas que são em comum, compradas no nome dos dois. Vai dar uma complicação muito grande. A bomba vai estourar um dia. Se ele morrer primeiro, vai ser ótimo. Vai abalar, mas eu não tenho nada a perder. Agora, se eu for primeiro, acabou, ele vai ficar descoberto. De vez em quando ele brinca que tem palpitações e eu digo: Ih! Vão saber quem é o marido de Laffond.
AFPB- Dê umas dicas sobre o "cara".
Laffond- Eu nunca tive relações com um homem negro, quem me conhece sabe desse detalhe e descarta algumas hipóteses. Não é ninguém que já tenha sido falado. Ele já esteve em seleção e tem apelido. Está jogando fora do Rio e não adianta que não dou outras dicas. É uma relação que tem suas complicações, mas até compreendo porque fui o primeiro homem da vida dele. No meu livro falo dele numas seis páginas.
AFPB- Você é fiel?
Laffond- Não, não sou, de jeito e maneira. E digo isso nas entrevistas para causar polêmica.
AFPB- Fale sobre o que aconteceu entre você e a Neuza Borges.
Laffond- Eu fiz um comentário no meu programa de rádio. Disse que muita gente ofereceu trabalho e ela não aceitou. Eu disse que ela só queria as doações. E acabou. Aí ela voltou na Sônia Abrão e relatou que eu a havia chamado de negra e vagabunda. Eu não faria isso num programa de rádio e também não é da minha índole; graças a Deus fui muito bem educado, jamais faria isso com ninguém.
AFPB- O que é para você ser bem sucedido?
Laffond- Não muita coisa, mas você ter um trabalho, uma casa própria, o seu carro e um pouco de dinheiro para gastar. O seu trabalho, e o resto você vai fazer por onde. Sem dívidas é impossível. Sem dívidas você não faz parte da sociedade. Você tem que ter dívidas para ter crédito.
AFPB- Como é sua relação com o movimento negro?
Laffond- Eu não levanto bandeira nem para negro nem para homossexuais . Eu acho que cada um tem que fazer a sua parte. Você vai para uma conversa para questionar um monte de situações e acaba num botequim com um copo de cerveja na mão. Eu acredito que não seja por aí. E quanto aos homossexuais, esse ano pela primeira vez participei das passeatas de São Paulo, no Rio (Madureira) e Belo Horizonte. Fiquei de boca aberta porque aquela parte de Minas é super conservadora. Parece que jogaram
uma bomba no armário e todas vieram para a rua gritando num número maior que no Rio, foi super legal. É isso, eu vou se convidado, me dou com todos, mas participar ativamente não faz a minha cabeça não.
AFPB- Houve uma época em que você queria se candidatar a um cargo público, alguma coisa assim?
Laffond- Houve um convite para vereador no ano passado. Este ano me convidaram para candidato a deputado estadual. Estou pensando. Ainda não assinei nada, estou levando um projeto. Meu projeto tem uma proposta de trabalhos com comunidades onde cada um planta para tirar seu alimento. Colocar em cada bairro uma creche onde as mães possam deixar seus filhos para trabalhar. Dentro dessas creches, que poderiam ser em circos de lona, funcionaria a creche e atividades culturais: cursos, aulas,
etc. A minha idéia é que as pessoas se ajudem; nada de assistencialismo. Cada um tem que fazer por si.
Muito obrigada, e que sua estrela brilhe cada vez mais.