Jamil WarwarLygia Godoy e Sonia Trindade
Pontualidade é uma das marcas registradas do arguto Jamil Warwar, 39 anos de Polícia Civil, dois mil casos resolvidos. Olhos espertos, atentos e seguros. Olho no olho da gente, gestos precisos de quem está atento em tempo integral. A sala acanhada da 9ª DEAC em Bonsucesso, bairro onde foi criado, a máquina de escrever antiga, a estante de aço enferrujada repleta de casos resolvidos
esperando a hora de seguirem os caminhos competentes. Aquele espaço tão sem "glamour" não empanam a habilidade do policial por vocação. Ele é muito maior, admirado e respeitado pelos colegas de trabalho e até mesmo pelos que cometeram delitos, quando sabem que o investigador é Jamil Warwar literalmente morrem, pois sabem que serão descobertos. Um homem romântico que gosta de Roberto Carlos, Agnaldo Rayol – nós fomos colegas aqui em Bonsucesso – E afirma com um sorriso maroto e galante – Policial também é
gente. – Sem poses estudadas para fotografar, apesar de ter experiência como ator de Fotonovelas e até ter participado de um curta-metragem, no qual desempenhou a si mesmo. O filme foi premiado no exterior. Viúvo há cinco anos, duas filhas advogadas, preserva a intimidade e privacidade da família a unhas e dentes, pois não pode expô-la à vinganças e atentados, a vida de um policial é um risco constante e Jamil Warwar está sempre na linha de fogo escapando por um triz. O medo faz parte da vida – Quem não
tem medo ? – Um policial tem que ter cuidado, muito cuidado.
AFPB- O que é importante para uma investigação correta e eficiente? J.W.- Um policial tem que ter técnica. Não costumo demorar muito numa investigação, modéstia à parte tenho experiência, quando vou, vou direto. Na área de investigação, modéstia à parte sou "expert". O policial fica atrás da prova material e não havendo ele desiste. Quando existe a prova
indiciária, que 99% da Polícia não sabe empregar. Os fatos, circunstâncias, depoimentos e detalhes que formam indícios é que levam à convicção. A técnica de investigação – na Academia o curso leva oito meses – vou resumi-la em poucas palavras: 1)Ninguém mata sem ter um motivo. 2)Sempre existe um elo ligando vítima a homicida, excetuando os casos de roubo ou motivo ocasional Partindo daí o policial tem que checar tudo em torno da vítima para formular uma hipóteses checadas até encontrar o caminho certo, é
um trabalho de paciência e astúcia.
AFPB- São mais de dois mil casos resolvidos, qual ou quais que mais impressionaram pela crueldade e os mais trabalhosos? J.W.- O caso mais cruel que eu já trabalhei, foi de um cara que foi todo decepado, levantei a
autoria e vi que foi um traficante que fez aquilo para servir como exemplo, porque o cara tinha dado um banho. Não existe crime perfeito, existe investigação bem feita. Existe crime difícil e crime trabalhoso. O crime difícil é aquele em que a vítima não tinha inimigos, porque se tem que fuxicar muito para descobrir a motivação que o levou à morte. Há casos que são difíceis, o policial na investigação tem que levar em consideração o que tiver no local.
AFPB- O caso Cláudia Lessim Rodrigues é uma espécie de marca para o senhor. Há mágoas por ter sido afastado, na ocasião, depois de resolvê-lo em 48 horas? J.W.-A investigação é o raciocínio dentro da lógica, é formada de pequenos detalhes. Não fiquei magoado, fiquei chateado com o que aconteceu, o governador, era o Faria Lima na época, era amigo do pai do Michel Frank. Isso não devia
acontecer, e tinha o procurador Vieira de Melo, o almirante Carvalho Rego que tentaram dar álibi ao Michel Frank e eu desmascarei todos. A cúpula não se agradou com o que levantei. Todo mundo era comprado. Fui para Itaguaí depois do caso Cláudia, lá a repercussão era grande. Trabalhando lá levantei rapidamente a morte de uma mulher, cujo assassino recebeu a intimação assinada por mim, quando soube que era eu o investigador, teve uma síncope e morreu. Por conta disso fui para no programa Silvio Santos –
Cidade Contra Cidade – levado pelo Sérgio Malandro para contar o episódio.
AFPB- O que o senhor pensa sobre a cogitada fusão da Polícia Civil com a Polícia Militar?
J.W.- Olha, tudo é válido para melhorar, acho que somente dois ou três países têm duas polícias, no resto do mundo é uma polícia só, um comando só. Tem que haver polícia uniformizada, para o policiamento ostensivo. Eu acredito que se houver realmente a fusão que seja o policial uniformizado. Polícia, na minha concepção, não tem nada haver como militarismo. Para a função específica de polícia não ficar em segundo plano. Se houver a fusão sou favorável.A Policia Militar tem a P2 que faz a investigação, a
Polícia Civil tem também seus organismos para isso, se houver uma unidade, uma central de investigação não haveria desperdício de energia, o registro da ocorrência seria só e agilizaria o trabalho, havendo um combate mais específico não tão aleatório.
AFPB- Na sua opinião, a Guarda Municipal deve patrulhar armada, com arma de fogo? Por quê?
J.W. – A Guarda Municipal está tendo poder de Polícia, sem estar armada. A Guarda Municipal é pra tomar conta dos prédios do Estado ou é a Polícia? Eu canso de ver um Guarda Municipal e um Policial Militar fazendo ronda juntos. Se o PM vir um marginal armado assaltando banco, ele tem arma para reagir e o GM? Como vai reagir? Com cassetete? Ou dão a função específica para eles, sem arma, mas para fazer serviço de polícia desarmado é suicídio. Do jeito que está acaba descaracterizada a real função dela.
AFPB- De que maneira deve ser, em sua opinião, a valorização do policial? J.W.- A valorização é um salário digno que ele possa sobreviver sem precisar de "bico", reciclagem funcional, especialização. Tudo depende de investigação, tem que reciclar esse pessoal para que não ocorram mais os casos de policiais que não têm a mínima noção de nada. Mesmo com todo o aparato – computadores, viaturas,
ambiente de trabalho. Isso não adianta nada. Na minha concepção devia ser como a Polícia Americana. Bem remunerada, ninguém precisaria ter outro emprego e se dedicaria integralmente ao trabalho de polícia.
AFPB- A Delegacia Legal é um avanço? J.W.- Dão boas condições de trabalho, mas na minha concepção existe uma falha, é a falta de setor de investigação, porque o policial que registra o fato é aquele que
tem que levar o caso até o final, mas ele só trabalha 24 horas, passados três dias - a folga – ele volta e volta e não terá mais tempo de pegar aquele caso, pois terá novos registros e o que acontece é o acúmulo de eventos sem investigação, não haverá solução de continuidade. O que teria haver na Delegacia Legal é como existia na antiga Delegacia de Homicídios, quando havia um evento a turma ia lá. Quando o policial saísse de folga deveria haver um setor que prosseguisse na investigação. O que acontece são
casos parados e o policial não tem o dom da ubiqüidade e não vai poder registrar a ocorrência daquele dia e apurar o que já foi registrado, então não vai chegar a lugar nenhum.
AFPB- O que é o medo para o senhor? Um policial deve ter medo? Por quê? J.W.- Eu tenho medo de ter medo. Um policial deve ter cuidado. Já subi morro sozinho para desentocar bandido, mas de uns tempos para cá os traficantes se organizaram, se armaram de forma tal que o policial que botar o pé está morto. Quando mataram o detetive Paulo Guimarães na Penha, rua do Couto, fui lá, levantei a
autoria e vi que era um tal de Pará do Morro do Alemão, organizei uma coisa e subi o morro para prender o elemento. Tudo garotada nova. Quando a jiripoca começou a cantar, foi um tal de se jogarem pra lá e pra cá e eu tive que ficar acalmando o pessoal e sustentando o fogo. Então, um policial tem que ter cuidado, se tiver medo não entra pra polícia.
AFPB- O senhor é religioso? Como é sua relação com Deus? J.W.- A minha falecida mãe queria que eu fosse padre. Estudei no Salesiano Santa Rosa, Mosteiro de São Bento; mas já nasci polícia. Com dois meses de trabalho, já chefiava policiais mais antigos, com seis meses fui eleito o melhor policial.
AFPB- Que sugestões o senhor tem para minorar a corrupção na Polícia? Expulsão, desligamento resolvem o problema ou transferem? J.W.- A Polícia está na vitrine, porque é um setor público de repressão e qualquer coisa que faça, aparece. Bens e maus existem em
toda parte, mas , infelizmente, entre bons e maus o pessoal que trabalha na Policia e é o pessoal do povo. O que acho é no que o governo deveria, realmente, dar mesmo condições melhores de salário e aquele tendo condições que pisasse na bola, deveria ser sumariamente expulso, porque, infelizmente, se o policial achasse que não dava, o salário não dá, que saia da polícia e vá procurar outro emprego. Antigamente se entrava na polícia por vocação, policiais que dava a vida pela Polícia, porque gostavam da
profissão. Atualmente, a maior parte faz da Polícia um "bico" ou procura um meio para atingir uma outra situação. Acho que deve ser policial aquele que realmente gosta da Polícia. Não estou dizendo que o policial deva ser um "marajá", tem que ter condições melhores, para melhor se concentrarem em seu trabalho. Antigamente eu vivia 24 horas de polícia, perdi anos e anos noites de sono, mas porque eu gostava.
AFPB- O Disque-Denúncia é um auxiliar precioso? J.W. – O Disque-Denúncia é bom mesmo e através deles vários crimes são solucionados mesmo.
AFPB- O efetivo da Polícia é pequeno? O equipamento é pouco? J.W.- A delegacia tem que ter setores especializados, por exemplo aqui (9ª DEAC- Bonsucesso) eu faço tudo, mas a parte da investigação eu entendo. Havendo especialização a produção será melhor. Eu vejo com bons olhos a chegada das mulheres, tanto que no crime do "Monstro da Variante",
em 1965, eu utilizei mulheres para a investigação. Naquela época eu chefiava uma equipe de elite, ligada diretamente ao Chefe de Polícia, que era um general, e a Delegacia de Homicídios não levantava nada há dois anos e as mulheres já não saíam mais de casa com medo. Eu resolvi o caso em um mês. Na época havia a Polícia Feminina, uma organização particular. Fiz um ofício requisitando-as para colaborarem como chamariz na área de atuação dos crimes – entre o viaduto Faria-Timbó e o Centro de Comunicação da
Aeronáutica.
AFPB- Gostar de Roberto Carlos, Agnaldo Rayol não vai de encontro a sua prática profissional?
J.W.- Policial também é ser humano. Gosto de Roberto Carlos, Agnaldo Rayol que foi meu colega aqui em Bonsucesso quando a gente era jovem,e Orlando Silva. Eu tenho um livro de poesia publicado –"Amor e Descrença" e outro sobre fatos policiais. Já fiz filme, um curta metragem chamado "O Inspetor" do Artur Omar, que é um diretor Laureado. Este filme ganhou prêmio no Festival de Cinema de 1986 aqui no Rio e em 1983 ganhou como o melhor Curta Metragem de Festival e foi para os Estados Unidos, ganhou
também prêmios na Alemanha e França. Eu representei a mim mesmo, o filme girava sobre o início da minha carreira policial. Eu era chamado de o "Baretta" brasileiro, porque sempre me utilizei de disfarces para investigar – vagabundo, gigolô, mulher, padre. O filme tem cenas reais de tiroteio, é um filme muito bom. Na época do caso Cláudia fiz fotonovela na revista Sétimo Céu e contracenei com excelentes atrizes, algumas globais.
AFPB- Como vive a família de um policial? Orgulhosa ou refém? J.W.- Já fui tocaiado três vezes, tentaram me matar, por isso preservo muito família. Sou viúvo e tenho duas filhas advogadas e não gosto que elas apareçam, exponham-se, porque quem quer se vingar de alguma coisa tem que fazer em mim.
AFPB- Quais Polícias, no mundo, o senhor cita como exemplos em todos os aspectos? J.W.- O governo está investindo em tecnologia, tudo muito importante, mas o mais importante é investir no ser humano, no policial. Há alguns anos li que a melhor Polícia do mundo seria a brasileira, porque mesmo com a falta de recursos o índice de levantamento era bem superior ao das outras polícias que tinham tecnologia. A Polícia Americana é
referência por causa da tecnologia e também pelo fato de ser uma polícia só, porém a malícia do jogo de cintura pata descobrir é da Polícia Brasileira. De nada adianta aparelhos, sofisticação, se os policiais não souberem investigar. É preciso especialização.
AFPB- De sua geração que policiais o senhor destaca? E da nova geração? Quais as gratas revelações?
J.W.- Da minha geração destaco: Airto Louzada, Fernandinho, Nelson Benício, Jaime de Lima, Pedro Marinho. Atualmente, dos que entraram por vocação temos: Carlos da Silveira Tomaka, que foi meu aluno na Academia de Polícia e é muito inteligente, fez concurso para delegado e está esperando para ser chamado; tem o Francisco Vicente Badan Júnior, foi também meu aluno e trabalhou comigo, é hoje delegado muito atuante no Espírito Santo, este policial se destaca por fazer valer a prova indicial, por isso
resolve muitos casos.
AFPB- Qual o seu sentimento ao prender e a justiça soltar? J.W.- A polícia prende, mas muitas vezes não é culpa da polícia que eles não fiquem presos, porque a legislação penal dá muitas vantagens ao criminoso. O cara pode matar mil pessoas, ser condenada a dois mil anos, mas não pode passar mais de
30 anos na cadeia. Se passar um, dois, três anos com bom comportamento vai para a liberdade condicional e os marginais sabem disso. É preciso por trás da ação policial, uma legislação penal que dê respaldo, o marginal sabe mais de lei que muito policial. A pena tem que ser cumprida integralmente, sem regalias. Ele tem que saber que cumprirá.
AFPB- Qual é sua opinião sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente? O que precisa ser revisto?
J.W.- Eu acho que a maioridade deveria ser baixada para 16 anos, o que eu não concebo é que o elemento, um galalau, faltando dois dias para fazer 18 anos, possa matar, estuprar, roubar e ficar isento. Em razão disso os traficantes só estão usando menores, tem até garotos de 11 anos. E são perigosos, matam e sabem que não se pode fazer nada, o que é um erro. Nos Estados Unidos há garotos de 13 anos condenados à morte. Ora bolas! Lá não é o primeiro mundo? Na minha opinião, eles estão certos.
AFPB- Como o senhor se define? J.W.- Eu sou um idealista, com 40 anos de Polícia não me aposento. Apesar das desilusões, sou útil, assim me sinto e gosto de ensinar a essa
gente nova pra poder essas pessoas, que têm vocação, se aperfeiçoarem e serem benéficos à sociedade como deve ser feito.
AFPB- Que recado envia a estas pessoas: Sr. Governador Garotinho, Josias Quintal, Prefeito César Maia, Presidente Fernando Henrique Cardoso? J.W.- Que todos continuem trabalhando em prol do povo e da sociedade que o reconhecimento virá à "posteriori."