Personalidade forte e delicadeza ímpar são características marcantes de Fujika de Holliday, nossa capa deste mês.
Há algum tempo a revista DESTAQUE desejava conversar com este ser humano excepcional, finalmente conseguimos afinar nossas agendas e a tarde correu luxuosa.
Já havíamos assistido a algumas de suas performances no palco; esplendorosa figura preenche o espaço cênico com naturalidade e compartilha generosamente com seus parceiros de cena, porque conhece os segredos do tablado mágico. Daí a grande troca de energia entre atrizes e atores durante a atuação, o entrosamente perfeito entre iluminação, sonoplastia, coxias, direção, produção. Um espetáculo de teatro, qualquer espetáculo depende muito do envolvimento e compromisso de todos que dele
participam. Não há estrelas, a única estrela é o espetáculo e a resposta do público sua glorificação. Assim percebemos todo tempo na fala de Fujika.
O INÍCIO DE TUDO
Seu nome artístico foi criação do jornalista e autor de novelas, Aguinaldo Silva, ainda no Nordeste. Jovens amigos ensaiando os primeiros passos profissionais. Foi, no mínimo, interessante o batismo, conforme Fujika explica. Àquela época, muitos começavam a fazer shows noturnos e cada um precisava de um nome. Fujika trabalhava em uma companhia japonesa, por isso Aguinaldo Silva batizou-a Fujika e o sobrenome Holliday é um desdobramento de seu nome de família. Tudo muito simples e
natural.
Começou em 1963, em Recife, fez dança, sindicalizou-se e veio para o Rio em 1970, estreando no Teatro Rival, com o espetáculo "O Mundo é das Bonecas". Com direção de Ney Iang, coreografia de Adelmo Lobato ficando quase dois anos em cartaz com espetáculos de terça a Domingo – matinê toda Quinta-feira, aos Sábados duas sessões e Domingo três – uma verdadeira batalha. Depois fez "Mimosas por Ela" dirigida por Ângela Leal, também no Teatro Rival. Mais tarde um pouco no Teatro Brigite Blair,
encenou "Mimosas até certo Ponto". Com Jane di Castro participou no Teatro da Praia do Espetáculo "Travesti S.A"; no Teatro Alasca compôs o elenco do espetáculo "Gay Girls", neste espetáculo estava a atriz Nélia Paula, viajaram por todo Brasil e depois, fez "Loucura Gay", dirigida por Berta Loran, tendo Jane di Castro como protagonista.
NOBRE LINHAGEM
Esta montagem teve espaço no Teatro Rival – tradicional espaço dirigido, construído e preservado pela Família Leal: Américo Leal, Ângela Leal e Leandra Leal, todos sempre antenados com o que há de bom, melhor, interessante e diferente em todas as expressões artísticas, muitos vivas e ôbas à Ângela Leal.
Fujika em 1982 foi para a Europa, caminho natural de quem quer seguir carreira no mundo artístico internacional. Em Paris fez o Galaxy , em Portugal participou de espetáculos com Wilma Dias e Ângela Léclary e depois Bélgica; encerrada a temporada européia e voltou para o Brasil para dar continuidade a seus projetos artísticos, participando nessa volta do elenco da peça teatral "Orquestra de Senhoritas".
FELIZ RETORNO
"Quando saí daqui, saí rapazinho, lá em Paris é que me modifiquei para fazer show, tive que botar seio, fazer o necessário para poder atuar. Quando voltei, chamei minha mãe, toda a família e me apresentei. Não tive problema nenhum, fui muito bem aceita por todos, e sou até hoje" – afirma Fujika.
Quando estava de volta e atuando em diversas casas noturnas do Rio, recebeu convite para ir à Suíça fazer uma série de shows por todo o país. Retornando ao Brasil, Fujika de Holliday, é convidada a participar do espetáculo "Divas e Divinas", elenco composto por Rogéria, Jane di Castro, Camille, Paula Braga e Vicky Shynnider – "Todas são muito talentosas, maravilhosas e seres humanos divinos" – faz questão de frisar Fujika – era impossível recusar, pois além do elenco de alta qualidade,
ainda conta com a direção segura e experiente de Berta Loran e o apoio do Teatro Rival, leia-se Ângela Leal e sua equipe sempre esperta e atenta.
DESTACANDO TALENTOS
Nunca esquecendo da casa onde desenvolve boa parte de seus projetos artísticos – A TURMA OK – Fujika destaca alguns dos muitos talentos que podem ser admirados nos eventos que a casa promove. Por exemplo Carlos Louzada, Vick L’Amour e muitos e muitos mais, por isso, melhor não enumerar para não cometermos indelicadezas ou causar constrangimentos desnecessários, "enfim todos são maravilhosos e talentosíssimos." – diz Fujika de Holliday. E para comprovar o melhor é conhecer a TURMA OK,
mas não esqueça de despir o manto do preconceito e vestir o corpo e a alma com o modelito "o mundo é de todos nós", vá e seja feliz.
DIVAS E DIVINAS
Eu – conta Fujika - em "Divas e Divinas", faço dublagem de uma cantora de ópera e uma canção francesa, a parte de texto falado está a cargo de Camille. A coreografia é de Ciro Barcellos , direção de Berta Loran, produção de Jane di Castro e Rogéria estrelando. O teatro está enchendo, apesar de fazermos somente uma vez cada mês por causa da agenda apertada do Teatro Rival. A produção não fica muito cara porque todas nós temos figurino próprio e adequado ao espetáculo.
DIVERSIDADE EM QUESTÃO
"Acho importante a existência dos diversos grupos de apoio à diversidade, mas não sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, tipo casar em Igreja; sou favorável à UNIÃO ESTÁVEL ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO, a fim de que tenham uma situação legalizada, principalmente quando constroem uma vida juntas. Eu e meu companheiro estamos juntos há 29 anos, somos solteiros, temos que nos precaver.
Eu tenho 61 anos, ganhei agora em novembro uma festa linda de Anuar Farah o presidente da Turma OK. Não me acho mulher, não sou mulher; tenho sim um comportamento de mulher, um sentimento feminino.
Não quero me vulgarizar; eu me faço respeitar. Por isso meu lado masculino grita forte quando tenho que resolver questões embaraçosas em agências bancárias, aeroportos, repartições públicas, assumi este meu lado numa boa, meu nome é Henrique Halliday Júnior, jamais vou me operar, porém procuro e mantenho meu ser feminino sempre bem polido. Quando estive em Paris queriam me operar, mas descartei a idéia, porque no Brasil – talvez o único país que não fornece identificação oficial a
transsexuais – por isso, eu não teria uma identidade oficial, teria que fazer uma documentação falsa e isso está totalmente fora de mim."
PRECONCEITOS E DISCRIMINAÇÕES
"Eu sou muito feliz aqui na OK, todos me respeitam. O preconceito, pelo mundo, está melhorando, as pessoas estão nos aceitando mais. Antigamente a gente não andava vestido de mulher na rua porque coisas sérias poderiam acontecer, mas agora está havendo menos preconceito, as pessoas estão aceitando mais. Acho que os educadores, os professores, deveriam explicar melhor a homossexualidade a seus alunos; não se pode tratar como doença, o que até mesmo pela OMS – Organização Mundial de
Saúde - já foi visto, revisto e constatado que nunca foi, é ou será caso patológico.
Eu servi ao Exército e tenho minha ficha intacta, meu certificado de reservista é de primeira categoria. Naquela época houve um colega que foi excluído, porque foi pego, talvez por seu jeito mais leve e não impor-se. E era eu quem estava batendo todo o processo dele, faltavam seis meses para ele dar baixa, mas foi excluído por disciplina, menos mal, pois evitou a expulsão. Eu acho uma bobagem os militares não aceitarem os homossexuais assumidos em suas fileiras, pois o que vale é a
atitude, o comportamento e a competência profissional. Eu moro no subúrbio e todos respeitam a mim e meu companheiro, porque sei me comportar, tenho atitude, somos cidadãos dignos.
Respeito todas as religiões, mas acredito mesmo em Deus, sou católico, mas respeito todas as outras. Adoro ler biografias, principalmente de artistas, acabei de ler a biografia de Judy Garland. Adoro cantoras como Isaurinha Garcia, Dóris Monteiro, Marlene. Adoro a Dóris Monteiro, somos amigas.
Gostaria de escrever os textos que represento, mas não é este o meu talento; somente dou idéias e gente boa e talentosa como Berta Loran, Meira Guimarães dão vida dramática.
Adoro cantar, comecei imitando Nora Ney, cantando com orquestra e tudo. Por isso, gostaria que este projeto "Divas e Divinas" tivesse vida longa e bem sucedida, assim como "FUJIKA. COM" o espetáculo que estou montando; há espaço para todo mundo."