É preciso mesmo muita personalidade e segurança, para se vestir de mulher, descer as escadarias de Mangueira e ser respeitosamente reverenciada pelos vizinhos.
Essa tal criatura – com licença, Leci Brandão – é a estilista Ferrula Muniz, nome artístico de Raimundo da Silva, mais brasileiro impossível. E mais ainda, primogênito de uma prole nordestina de oito brasileiros e brasileiras; família tradicional de construtores de açudes, religiosa até a raiz dos cabelos. Nada propiciava a uma preferência sexual tão oposta ao imposto e disposto.
Cedo descobriu-se, assumiu-se e impôs-se. Enfim, fêz-se respeitar. Ferrula, no entanto, apesar da conquista de sua real identidade, tem uma e importante batalha a travar – fazer com que seu pai volte a falar, conversar com ela. Ele é a única pessoa da família que não lhe dirige a palavra, apesar de sempre querer saber notícias de seu filho Raimundo e disponibilizar recursos e facilidades materiais quando Ferrula vai a Fortaleza visitar a família.
Quando chegou no Rio de Janeiro para morar com parentes, ainda muito jovem, concluiu o segundo grau, entrou para a Faculdade de Moda da Universidade Cândido Mendes, cursou quatro períodos e trancou matrícula, pois percebeu que suas necessidades estavam além do que o ensino acadêmico poderia oferecer. Há muito desenvolvia, com sucesso, sua atividade, inspirando-se em grandes estilistas como Vesace, Ocimar Versolato, dentre outros grandes.
Ser Musa OK foi uma conquista, passo a passo, que demorou 8 anos. Um investimento financeiro de porte e um empenho pessoal maior ainda, pois como a própria Ferrula Muniz explica "para ser Musa Ok não basta ter e fazer somente uma roupa caríssima e lindíssima, é preciso muito mais. É fundamental o refinamento nos gestos, no trato com as pessoas; enfim saber portar-se elegantemente qualquer que seja a situação e lugar."
Com relação ao preconceito da sociedade Ferrula é categórica: "se soubermos nos situar nos lugares onde estivermos, as pessoas não terão motivos, o porquê das agressões também está na atitude com que cada conduz a vida".
Ferrula Muniz afirma que a TURMA OK é uma espécie de centro de formação, produção e difusão de talentos, pois sob a orientação firme do Presidente Anuar Farah, sempre muito exigente e rigoroso em questões de comportamento e polidez; muitos artistas - atores transformistas - que fazem sucesso Brasil afora deram seus primeiros passos nessa Casa que está completando 44 anos de existência.
Por isso, pensa que aqueles, qualquer que seja a idade, que estão descobrindo sua sexualidade, não devam perder de vista o sentido real de Ser Humano, que entendam que sua orientação não lhes qualifica ou desqualifica, sim os identifica com pessoas que desejam e querem ser felizes, naturais e normais; enfim, seres humanos, daí a importância dos grupos que lutam pela dignidade das ditas "minorias". Ferrula pensa que se a luta é de todos, por que não a união de todos pelo bem comum, que é o exercício da
cidadania plena?