AFPB- O senhor é um artista que atravessa gerações?...
Carequinha- Eu ontem – 19 de outubro – fiz o MIS – Museu da imagem e do Som e dei um depoimento. Lá não é para qualquer um, tem que ter história para contar.
AFPB- Por que o senhor estava afastado da grande mídia por tanto tempo?
Carequinha- Fui fazendo uns shows por aí a fora, não deixei de trabalhar, e televisão a gente sabe , é assim mesmo. A garotada está cantando a minha música, o modo de falar, já pegou no país inteiro. Sou figura certa no programa – Escolinha do Professor Raimundo na TV Globo – e fico satisfeito com isso. A imagem do Carequinha voltou.
AFPB- Dentre os programas infantis atuais, qual na sua opinião, tem maior compromisso com a criança? Respeitando as diferenças entre os trabalhos o senhor foi a Xuxa de outra geração.
Carequinha- Ela pegou um programa que eu fazia, quando saí, ela entrou. Mas é completamente diferente o trabalho, não posso me comparar com ela nem ela comigo. Eu inaugurei a televisão no Brasil, sou pioneiro, em 1951 eu estava lá. Fui convidado para ser o primeiro palhaço a se apresentar em televisão no Brasil, tive essa honra de ser convidado.Eu fazia um programa na TV Manchete - inaugurei a Manchete. Fazia o programa O Mundo da Criança – O Circo do Carequinha. Por causas diferentes eu
quis sair, aí botaram a Xuxa no meu lugar. Ela já estava lá fazendo programa de estúdio, a Marlene – Marlene Mattos –colocou a Xuxa. Marlene era minha assessora, fazia meus programas e fazia os "scripts".
Eu gosto do programa Criança Inocente, é uma coisa bonita, bem feita e o do Raul Gil de São Paulo, que bota as crianças para mostrar o que sabem fazer.Criança Inocente é mais livre o do Raul Gil não, faz mais um programa dentro da moral e da religião que eu gosto mais. Não gosto de imoralidade nem de pornografia. Não aprecio o artista que trabalha com pornografia, que conta anedotas imorais. Eu fiz sempre meu programa – 16 anos no ar - ensinando a criança o bom caminho, a respeitar papai
e mamãe. Hoje está tudo deturpado. Hoje a criança não respeita mais ninguém, quer fazer o que ela bem entende.
AFPB- A que o senhor atribui esse comportamento da criança agora?
Carequinha- Em grande parte à televisão que deturpou a idéia da criança. Um mundo onde ninguém entende, pode ter certeza disso. Não será para mim, mas para os nossos netos, bisnetos; eles vão passar apertado, vai ser uma vida de torturas, de não reconhecimento da família, isso já está acontecendo aí. Filho brigando com a mãe, saindo de casa. Antigamente, não tinha isso, a criança era mais compreensiva, agora ela não atende. A televisão ensina coisas que não deve em uma hora imprópria para
a criança. Eu sou dessa opinião e acho que estou certo.
AFPB- O que o senhor pensa sobre a Escola de Circo?
Carequinha- É boa pelas pessoas que gostam de arte. Todos os circos sempre são de uma família circense, a escola era o próprio circo, a família ensinava ao filho a mesma profissão. E agora inventaram um meio de pessoas que não são artistas, aprenderam a ser artistas. Não é fácil. O artista que se forma em escola, faz o número dele, aquela coisa, mas não será um artista que nasce de circo. Sou padrinho de três escolas de circo – Rio, São Gonçalo e Goiânia – acho interessante, não cobram
nada porque é do governo, a pessoa vai aprendendo a ter uma profissão. Mas de fato, como era antes, de circo, não vai ser, mas vai indo. Não será o profissional de poeira de picadeiro, não tenho a menor dúvida.
AFPB- E quanto a sua aposentadoria?
Carequinha- Sou aposentado desde 1972, não é uma aposentadoria que dê, eu ganho 10 salários daquele tempo. Hoje, agora que estou recebendo R$1.150,00 e o meu não sobe. O salário-mínimo sobe e o meu vencimento continua estagnado naquela posição de R$ 1.150,00. Então eu tenho que fazer força e continuar trabalhando. Sem falar na minha poupança que o governo Collor tomou emprestado da caderneta de poupança e nunca mais pagou. Levou quase mais da metade do dinheiro da gente, mas não foi só
comigo. Acho que aquele dinheiro já não vem mais.
AFPB- O senhor é mais um aposentado que continua em atividade para poder sobreviver?
Carequinha- Eu gosto de trabalhar, gosto muito disso. Vivo do meu trabalho, sou contratado, faço shows, para não faltar dinheiro em casa. Não sou rico, nem remediado eu sou. Mas com meu trabalho consegui dar uma casa para cada filho, mesmo assim somente um não mora aqui em casa comigo. Eles preferem ficar aqui e... e eu gosto disso.
AFPB- O que o senhor acha desses grandes circos?
Carequinha- Circos famosos. É de gente que já nasceu rica, a maior parte deles. Circos como Beto Carrero, Garcia e outros, os pais deles já eram ricos, então eles cismaram de se meter em circo, porque eles nunca foram de circo. Agora, os de circo mesmo estão passando necessidade até, os que têm circo mesmo, os que são artistas de circo. Esses outros se metem, ganham dinheiro à custa dos artistas, fazem um grande circo e ganham dinheiro, mas os que vivem daquilo, os artistas não conseguem,
pouco dá.Os grandes não sabem o que é necessidade, não conheceram miséria, não conheceram nada. Tantos aí que pelejam e não conseguem arranjar contrato. Eu mesmo, fiquei muito tempo sem contrato. Fora da televisão. Estão vendo agora. Eles começaram a ver que a criança precisava do Carequinha, precisava aparecer um Carequinha no programa. Estou resgatando a criança do Brasil. Todas aí cantando a minha música e recebendo conselhos do Carequinha novamente, eles estão vendo isso, as outras coisas não estavam
dando certo. Voltou o Carequinha e está dando certo. Não sei se vai continuar, estou contratado até o final do ano, vamos ver se eles vão prorrogar, se acontecer muito bem, se não vou ter que ir por aí para outros lados. Por enquanto vou aproveitando o momento.
AFPB- O senhor já trabalhou no exterior?
Carequinha- Já fiz o exterior, mas para a colônia brasileira, estive na América do Norte e na Europa duas vezes, mas sempre fazendo shows para a colônia brasileira, nunca trabalhei para estrangeiro. Fui com a Estela Barros naquelas excursões e ela me pedia para fazer uns showzinhos, eu pegava a garotada, cento e poucas crianças, via as mais habilidosas, que sabiam cantar, sapatear, tocar piano e fazia um show intercalado. Eu contando as minhas coisas e cantando as minhas músicas e dava
tudo certo.
Estive em Nova York, em Miami. Em Paris demos um show para a colônia brasileira somente, poucos estrangeiros iam ver a gente. Estrangeiro não dá muito valor a gente. Tudo isso é mentira. Olhe que quem está falando é catedrático. Quem chega e diz que fez sucesso na América do Norte... não fez nada, ele trabalhou para a colônia brasileira. O americano não dá nem confiança, eles têm muitos artistas de todos os tipos eles têm bastante. Eles não ligam para nenhum brasileiro que vá lá. Só o
Pelé, esse é conhecido, esse todo mundo conhece, agora o resto ... Roberto Carlos foi lá em Nova York, fez um show lá, foi um show passável, entrada vendida, mas só para a colônia brasileira, fez o sucesso dele para os brasileiros de lá. Então foi isso, fui convidado pela Estela Barros para agradar as crianças que iam e a garotada de lá conhece o Carequinha, porque os pais, aqueles que moram lá eram fãs do Carequinha desde aqui e levaram os filhos para assistirem ao show.
AFPB- E aqui no Brasil, o circo, circos como o seu, por exemplo, não conseguem patrocínio?
Carequinha- Ninguém patrocina circo, é muito difícil. O circo não dá mais, somente esses grandes, com grandes aparatos ganham muito dinheiro, às vezes,perdem e tornam a ganhar em outro lugar muito mais. Mas esses circos tradicionais, nossos, brasileiros, estes estão acabando, pode ter certeza disso.
Os que não são de circo como o Marcos Frota que a partir de um programa de televisão gostou da história de ser trapezista. Comprou um circo pra ele e está aí ganhando dinheiro- o programa que ele fez eu também participei. Ele – Marcos Frota com o nome que tem na televisão consegue. Os outros estão em situação difícil. Uma porção de cirquinhos aí no Rio de Janeiro está à míngua, não pode organizar um espetáculo bom e... Agora, se for um Beto Carrero é diferente. O Garcia tinha um circo
muito bom, deu sorte, não era de circo, ele era alfaiate, se meteu em circo e ganhou dinheiro.
A coisa hoje é à base da propaganda, você tendo publicidade, pode não prestar, mas vai pra frente, entendeu? E o tempo de enganar. A propaganda faz você ir lá para ver, gastar seu dinheiro e, às vezes, não é o que esperava.
AFPB- É o senhor que compõe suas canções?
Carequinha – A maioria, mas tem o Edmo Oliveira, um bom compositor para criança, que faz também. Ele fez "O bom menino não faz pipi na cama...", "Chegou a hora de apagar a velinha...".
AFPB- O senhor quase se formou advogado...
Carequinha- Parei no terceiro ano da faculdade, o Carequinha dominou.
AFPB- E sua família...
Carequinha- A Elizabeth Savala é minha prima, a mãe dela trabalhou em circo muitos anos. Ela depois foi para o teatro, televisão e está aí. O artista é assim, procura se aprimorar sempre, buscar caminhos novos. Porém há os aventureiros, uma turma imensa de aventureiros que entra aí fazendo coisas sem pé nem cabeça. A rapaziada gosta disso, é coisa moderna. O que a gente vai fazer? É o tempo que ensina a gente, mas esses novos tempos eu não aprendo e nem quero aprender. Sou um artista que
continua trabalhando fazendo o que fazia antes, ensinando o bem, ensinando às crianças a respeitar, sem imoralidade. O Raul Gil faz um programa sem dizer imoralidade e é líder de audiência, quer dizer que tem público para isso.
AFPB- Seus filhos, netos e bisnetos são circenses também?
Carequinha- Não deram, fiz força, tencionava deixar um substituto, mas não consegui, eles não dão para isso, não adianta que isso é dom. O sujeito sendo um bom artista, continua sendo bom, você não insisti muito, isso na profissão que for, se nasce para aquilo, não adianta pelejar. Faz, mas não dá certo. Eu tenho quatro bisnetos, netos; não quiseram, eu tentei. Não forço a barra. Vou terminar Carequinha, quero morrer Carequinha, vai ser a melhor coisa da minha vida.
AFPB- Qual é a receita de longevidade?
Carequinha-É Deus que me ajuda, eu sou muito ajudado por Deus. Acho que Jesus me ajuda demais, mais do que mereço. Vou tocando. Doença, dificilmente eu tenho. Agora que estou meio bombardeado, mas estou com 86 anos e tenho que esperar isso, alguma coisa não tem que andar direito, mas eu procuro me tratar bem. Não faço farra, não bebo, não fumo, eu acho que tem que ser isso. Não gosto de contrariedades e não gosto de contrariar, procuro estar sempre de bem. Deus me ajuda aí.
AFPB- É difícil fazer rir?
Carequinha- Eu acho que é, não é pra qualquer um não. O sujeito vai muito na conversa dos outros. Fazer chorar, você conta uma história e pronto. Fazer rir, às vezes, basta um gesto e ir aprimorando isso. Quando trabalho para rico tem que ser de um jeito, para pobre de outro e é melhor. Eu gosto de trabalhar para a garotada em praça pública. A prefeitura pagando para eu trabalhar e não faço porque não dá, tenho que pagar os artistas que trabalham comigo, eu não vou sozinho.
Tempos atrás a prefeitura do Rio pagou para eu fazer espetáculos em todos os bairros do Rio e eu gostava, porque era a criançada pobre, aquela que não tinha dinheiro para ver a Carequinha. Aquilo para mim era uma alegria, a praça cheia de crianças.
A prefeitura aqui de São Gonçalo pode fazer isso, pode, mas não faz, o único lugar que não faz. Onde eu já moro há quase 70 anos. O povo aqui gosta de mim, não tenho nada contra esse povo, mas os dirigentes... eu não posso contar com eles. Eu dou um nome a São Gonçalo que só vendo, em todo o Brasil falo que moro aqui. Essas autoridades deveriam me dar um emprego vitalício pelo tanto que divulgo pelo Brasil.
AFPB- Qual foi a maior emoção em sua carreira?
Carequinha- A minha maior emoção foi quando viajei para Florianópolis, fui fazer três shows. Levei Fred, Zumbi e mais três atrações, viajávamos seis pessoas. O comandante do avião recebeu um rádio pedindo que o Carequinha se vestisse para desembarcar porque havia três mil pessoas no aeroporto esperando. Não acreditei, mas mudamos de roupa, ainda brincamos com os passageiros. Quando o avião pousou, havia mesmo três mil pessoas o governador, o prefeito, criança que não acabava mais, ônibus
e mais ônibus para aguardar o Carequinha. Foi aquele cortejo extraordinário em cima de um carro do Corpo de Bombeiros. Foi a minha maior emoção.
AFPB- O senhor ganhou a medalha Pedro Ernesto e a Tiradentes...
Carequinha-O que muito me envaidece, porque não é para qualquer um... Também tem cartão de prata do poeta Vinícius de Morais. "Com as lágrimas do tempo e o cal do meu dia-a-dia fiz o cimento da minha poesia". Isso em 22 de setembro de 1995. É uma coisa que eu guardo com muito carinho.
AFPB- O senhor é maçom ?
Carequinha- Grau 33, e as pessoas precisam saber que a maçonaria não é coisa ruim é mais para ajudar a todo mundo. Jesus Cristo era maçom. O que eu não gosto é dessas igrejas que ficam pedindo dinheiro, eu vou a todas elas, eles contam umas histórias da Bíblia que eles nem sabem, porque não lêem direito. E pedem dinheiro, eu não sou favorável a isso não, isso não é direito. Não sou de ficar falando isso por aí não, mas está incomodando muito esse comportamento.
Contam por aí uma história de que eu passei pela porta de uma dessas igrejas e ouvi todo mundo gritando lá dentro e perguntei o que era e responderam que era Jesus que estava operando e dizem que respondi perguntando se ele não tinha anestesia para o pessoal sentir menos dor.
Isso é história, eu respeito todas as religiões, inclusive fui lá e conversei com o pastor, eu seria incapaz de dizer uma coisa dessas, respeito todas as religiões, mas que é um absurdo aqueles gritos, ah, isso é. Não é gritando que se espanta o diabo, nós é que fazemos o diabo. Cada um vivendo a sua vida honestamente não tem diabo. A igreja católica também tem essa história de espantar satanás. Que é isso? Isso tá errado.
AFPB- O senhor gosta de ler?
Carequinha- Eu leio tudo, mas gosto de ler Júlio Verne, Nostradamus; são os meus prediletos. Tudo isso que está acontecendo foi previsão deles.
AFPB- Os animais no circo. O que o senhor pensa sobre.
Carequinha-Eu não gosto de circo com animais. Primeiro porque não são bem tratados. As crianças quando entram no circo já sentem aquele cheiro dos bichos e fica com medo. Na minha opinião não devia ter bicho no circo, não devia mostrar isso às crianças. Mostrar no cinema, vá lá. Fazer o bicho apanhar. Eu não gosto de animais amestrados. O circo é o artista e nada mais. Botar animais ferozes é um absurdo. Deixa os bichos pra lá, eles trabalharem para as pessoas e ganharem dinheiro, não é
correto.
AFPB- Que mensagem o senhor tem para as crianças hoje e principalmente para os pais?
Carequinha- Em primeiro lugar eu digo que os pais devem ser mais calmos com os filhos, porque com essa transformação da vida, a criança não é mais a mesma e temos que tratá-las com muito carinho e não nos exaltarmos. E para as crianças eu digo que estudem, estudem com vontade, porque vocês em muito breve serão os dirigentes dessa pátria gloriosa que ainda é o nosso querido Brasil. Tá certo ou não tá?