RESISTÊNCIA, DIGNIDADE e FORMOSURA ANCESTRAL
De:
Lygia Godoy
Professor, Artista Plástico, Escritor, Poeta, Dramaturgo, Senador da República, Secretário de Estado(RJ), Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova Iorque, Professor Visitante na Universidades de Yale e no Departamento de Línguas e Literaturas da Universidade de Ifé, na Nigéria.
Fundador do TEN – Teatro Experimental do Negro – em 1944, aqui no Rio de Janeiro, suas peças teatrais discutem o racismo e religiosidade de matriz africana.
Com o apoio das autoridades brasileiras, está sendo indicado pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental para o Prêmio Nobel da Paz. Este Cidadão Brasileiro, Cidadão do Mundo chama-se Abdias do Nascimento, certamente muitos não sabem quem ele é, principalmente os mais jovens, desconhecem o que representa assim como ignoram sua importância na História e Cultura Brasileira contemporânea.
Alzira Rufino, editora do Boletim EPARREI online afirma que "Nós, afro-descendentes, precisamos aprender a respeitar as nossas lideranças de ontem e de hoje. Por ser um dos semeadores de nosso movimento por direitos, antes de tudo, humanos, nossa admiração ao líder e mestre Abdias."
Também não podemos perder de vista a forma como estão sendo processadas e veiculadas as informações sobre as Culturas Negras nas escolas de ensino Fundamental e Média, tanto das Redes Públicas quanto da Rede Privada. Além da formação e informação que os professores têm acesso a fim de que o trabalho vá além da "festinha" do 13 de maio ou o feriado de 20 de novembro. Isso se realmente refletimos e agimos em conformidade com os ensinamentos do Professor Abdias do Nascimento.
TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO – TEN
O Abdias do Nascimento na faceta Ator e Dramaturgo, em outubro de 1944, ajudou a fundar o TEN – Teatro Experimental do Negro, com os companheiros Teodorico dos Santos, José Herbel e Tibério. À época, atores como Ruth de Souza, Léa Garcia e Haroldo Costa, atualmente conhecidos mundialmente; ao lado de Abdias, discutiam estratégias de ação e trocavam experiências artísticas e ideológicas com objetivo de melhor posicionarem-se como cidadãos e profissionais das Artes Cênicas atraindo assim um maior
número de pessoas simpáticas e dispostas a conhecer e participar das discussões.
O Teatro Experimental do Negro viveu um período de ebulição, deixando sua marca na história com o fim do Estado Novo. Redemocratização e renovação são marcas fundamentais da época; muitas experiências artísticas e intelectuais fundamentais emergem, florescendo um importante braço na história da cultura brasileira.
A primeira montagem teatral do Teatro Experimental do Negro foi o espetáculo "O Imperador Jones" de Eugene O’Neill, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Marco relevante na história cultural e artística da cidade; no entanto, infelizmente, ainda bastante desconhecido.
REFLEXÕES DO MESTRE
"O 4º artigo da Declaração dos Direitos Humanos reza: ‘Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas."
"O processo abolicionista vingou apenas no momento em que o interesse econômico do regime industrial dispensava a mão-de-obra escrava, e a sistemática discriminação racial contra os ex-escravizados e seus descendentes encarregou-se de manter sua situação de vida numa perversa continuidade da situação anterior à Abolição da Escravatura."
"No Brasil, existe também, ainda hoje, a escravidão direta, fartamente documentada em canaviais, carvoeiras e fazendas. Tais práticas não são estranhas ao sistema social de um país construído com base na tradição escravocrata, genocida e autoritária herdada do poder colonialista e reforçada por um Poder Judiciário omisso, quando não cúmplice."
"Neste final de milênio, entre os grandes fatos que marcam a experiência humana estão a afirmação da heterogeneidade humana, a valorização da diversidade decorrente da soberania dos povos antes subjugados e a progressiva legitimação dos direitos humanos conquistada neste meio século de vigência da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
"Num mundo cada vez mais marcado por conflitos entre etnias e agrupamentos humanos, impõe-se a necessidade de criar instrumentos capazes de assegurar os direitos coletivos e de evitar, encontrando soluções para as suas causas, o acirramento dos problemas decorrentes da diversidade inerente à natureza humana. No Brasil, caminha-se na direção da ação compensatória, que consiste na criação de vários mecanismos – não apenas cotas – para garantir ao afro-descendente uma efetiva igualdade de
oportunidades."
REFLEXÕES SOBRE O MESTRE
"90 anos de Abdias significa manter viva na memória do Brasil a resistência de nós negros. No ano de 1914 certamente foi a inspiração que recebeu para sua atuação na época, a memória da escravidão estava muito próxima, as marcas estão aí nos nossos dias, a exclusão, a pobreza, a não valorização da nossa condição de ser negro. Abdias do Nascimento inspira vida!" ( Ministra Matilde Ribeiro – Secretaria Especial de Políticas para a Igualdade Racial)
"Ele já nasceu com esse sentimento de luta. É um momento que todos nós temos que reverenciá-lo por toda sua luta e sofrimento." (Léa Garcia – Atriz de Cinema, Teatro e TV)
"Meu pai o conheço há 50 anos. É uma pessoa difícil de não se admirar."
"O que meu pai fez mudou muitas coisas no Brasil e abriu caminhos. É a concretização de um trabalho muito sofrido mas que mudou muitas coisas." (Abdias do Nascimento filho e Osíris Larkin do Nascimento – filhos do Prof. Abdias)
"Chegar aos 90 anos é sempre lindo. Para mim como atriz, o mais importante que Abdias fez foi fundar o Teatro Experimental do Negro que provou que nós negros podíamos ser atores." (Ruth de Souza – Atriz de Cinema, Teatro e TV)
"90 anos de Abdias é símbolo da nossa resistência de luta, é a garra, é a nossa determinação constante contra a intolerância." (Vanda de Souza – Ouvidora da Petrobrás)
"Sem dúvida é o nosso ícone e nos deixa um legado. Nos seus 90 anos, consegue fazer uma leitura crítica e atual da sociedade." (Rosália Lemos – Secretária Municipal da Coordenação dos Direitos das Mulheres de Niterói/RJ)
"Um homem de teatro, artista plástico, político sempre voltado para identificar o homem e a mulher negra do Brasil. É um dos homens mais importantes da nossa história mais recente. Ao longo de sua vida, não poderia poupar um dia no sentido de luta para dignificar a auto-estima do negro brasileiro." ( Haroldo Costa – Ator, Produtor, Historiador da Música Popular)
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