Blocos e Cordões Dos blocos de sujos ao Cordão do Bola Preta

Com a remodelação da cidade dirigida pelo prefeito Pereira Passos, a partir de 1904, o zé-pereira, o entrudo e a pilhéria dos mascarados começariam a perder terreno para outras manifestações de rua. Modernização e higienização tornaram-se no período as palavras de ordem dos detentores do poder. Ao Rio cabia se transformar em uma metrópole de hábitos similares ao modelo estrangeiro, especificamente o parisiense, através da uma remodelação urbanística da cidade. Tornava-se necessário disseminar os hábitos ‘grosseiros e vulgares’ das festas carnavalescas, frutos da herança portuguesa, negra e indígena - símbolos de atraso -, para assemelhar-se à elegante Paris.

E se o Governo passava a reprimir o entrudo e o zé-pereira, o povo viu-se obrigado a disciplinar as brincadeiras de rua, organizando-se em grupos para comemorar o carnaval; apareciam, então, os blocos, cordões e ranchos, grupos que originariam, mais tarde, as escolas de samba do Rio de Janeiro. É importante observar que tais manifestações também não foram salvos de crítica e repressão. No entanto, muda-se completamente a forma do carnaval de rua carioca. As músicas e os desfiles desses grupos organizados davam lugar à ‘pilhéria’ dos mascarados, ao ‘barulho’ do zé-pereira e à ‘sujeira’ do entrudo.

Ô Abre-alas que eu quero passar...

Os cordões surgiram nas últimas décadas do século XIX, formados por negros, mulatos e brancos de origem humilde que animavam as ruas ao som de instrumentos de percussão, com forte influência dos rituais festivos e religiosos africanos. As figuras de destaque eram o porta-estandarte e uma composição própria para a sua exibição (daí a importância que tiveram para as futuras escolas de samba). Nos ensaios para o carnaval de 1899, uma comissão do Cordão Rosa de Ouro solicitou a Chiquinha Gonzaga que compusesse uma música para o grupo. Ela compôs Abre-Alas, canção eternizada e obrigatória em qualquer baile carnavalesco. Desse ano em diante, os cordões evoluíram de tal maneira que passaram a constituir a característica mais marcante do carnaval de rua carioca no início do século XX, quando o número deles chegou a 200. Em 1905, o jornal O País declarava que mesmo que nenhum clube saísse à rua, mesmo que não houvesse passeata das grandes sociedades, os cordões representariam o carnaval de rua carioca.

A decadência dos cordões é assinalada pela transformação da cidade e pelo surgimento dos ranchos que, por sua vez, motivaram as escolas de samba. Muitos existiram por longo tempo, outros tiveram vida breve, mas é inegável a força de sua atuação na época. O grande remanescente dos cordões, no entanto, está atuante até hoje, adaptando-se às novidades sem perder suas características básicas: o Cordão do Bola Preta. Fundado em 31 de dezembro de 1918, o grupo ainda arrasta uma multidão de pessoas pelas ruas do Centro da cidade no sábado de carnaval.

Dos blocos às escolas de samba

Um tipo de bloco extremamente popular era o bloco de sujos, em que imperavam a irreverência, o deboche e a paródia. A designação sujo, não por acaso, apareceu justamente em 1904 - época de apologia da limpeza na ‘nova sociedade capitalista’, moldada a partir do exemplo europeu.

Com o desaparecimento gradual dos cordões, os blocos cresceram em número e logo se organizaram em estruturas mais fechadas, formadas nas comunidades (blocos de samba) e outras formas mais livres e populares (blocos de sujos ou de rua). Os primeiros foram predominantemente influenciados pelas culturas negras e se tornaram os ‘embriões’ de renomadas escolas de samba do carnaval carioca: o Vai Como Pode deu origem à Portela; o Arengueiros à Mangueira; e o Prazer da Serrinha ao Império Serrano.


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