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Editorial
Hoje já acho
um tanto descartável a idéia de fazer nesta
página uma biografia, apesar de ter rabiscado algumas
linhas especificamente para isso. Ainda estou começando
minhas realizações, e é bom sempre lembrar
que as coisas só acontecem depois que a pessoa faz
com que aconteçam.
Aos que não me
conhecem, não defendo as histórias
em quadrinhos como um todo. Não acho que o importante
é que a pessoa leia HQ seja ela qual for. Ou melhor,
não defendo a produção que se faz num
ano como algo que deve ser engolido para a maior"popularização"
desta arte. Antes disso os autores precisam evoluir mais,
e principalmente, se vacinarem contra certas coisas vindas
com o retorno que o público pode dar a seus primeiros
trabalhos, deixando o autor contente em apenas se repetir
eternamente e não crescer em nada. Quando digo evolução
estou me referindo a atitude de criar sua própria identidade
de trabalho e saber analisar questões importantes de
forma profunda através dessa identidade.
Isso é fundamental
para que no futuro as pessoas tenham a cabeça mais
aberta e assim consumam trabalhos diferentes. Só assim
os autores ganharão o que é justo fazendo o
que gostam, tendo liberdade de expressão. A questão
não é tosca como o marketing propõe.
Não é estudar o que as pessoas gostam e oferecer
a elas um espelho. Pensando assim, um espelho só basta,
o resto dos autores poderiam se preocupar em somar algo mais
a esse "espelho".
Sensibilidade
Há
muito tempo tenho estudado uma maneira de fazer Álbuns
com histórias muito densas. Que permitam leituras densas.
Que não sejam simplesmente um amontoado de acontecimentos
colocados de maneira a causar sensações fáceis
e toscas. Eu trabalho para a educação dos sentidos,
porque acredito que a saída para qualquer arte neste
novo milênio seja o investimento na sensibilidade das
pessoas, e esta ação, na Nona Arte, me entusiasma
bastante.
No momento estou muito feliz,
pois entrei num interessante estado de serenidade. Não
que eu tenha abandonado o ódio pela frase "se
o mundo não muda, muda você", ligando logo
minha "metralhadora giratória". Acho que
minha "metralhadora" , antes de tudo, fica melhor
instalada no coração de minhas histórias.
Como sempre, meu
mandamento primordial é usar a técnica a serviço
de uma idéia, e esta idéia a serviço
de uma ou várias mensagens.
Biografia em poucas
linhas:
Nasci
no dia 2 de agosto de 1976, em Santo André, SP. Meus
pais, pessoas muito honestas e de pouco dinheiro, se esforçaram
para dar uma boa educação à sua prole
(eu e minha irmã Michelli, na foto lá em cima).
Estudei desenho nessa
mesma cidade na Escola Atmosphera- Espaço de Arte,
e prossegui de maneira autodidata. Incorporei à minha
arte influências de cinema e literatura, e da HQ fui
muito influenciado pelo movimento italiano promovido no início
dos anos oitenta pelo grupo Frigidaire. Estudei computação
gráfica, web design, arquitetura e publicidade. Meu
pensamento ao fazer meus projetos é calculado a longo
prazo, que é o que julgo sensato e o que acho que contribui
para o engrandecimento desta arte.
Parâmetros
Tenho o orgulho de carregar meu
segundo nome de batismo Diógenes, um filósofo
quem admiro muito em inúmeros aspectos. O maior deles
é não ter se amarrado a grupos, senão
um ideológico, instituído unicamente para a
busca da verdade, o que lhe permitiu atacar e desmistificar
tudo o que entendia como atitudes ou valores que impediam
as pessoas de enxergarem a essência de suas próprias
vidas. Essa atitude quanto à essência pode parecer
até estúpida e ditatorial ao ficar clamando
que espécie de coisa as pessoas deveriam dar mais valor.
Mas a essência da verdade e da sinceridade, até
hoje, é a que menos redunda em desastres.
Só a sinceridade pode
nos salvar de idéias não tão boas assim,
de uma montoeira de trabalho desnecessário para descrever
aquilo que nem nós mesmos acreditamos. Isso sem falar
que, quando estamos bem vacinados com sinceridade, deixamos
de ser pessoas líquidas, que agem de acordo e pensam
de acordo com o lugar em que estão. Fico contente de
meu trabalho com arte não se resumir a declarações
do tipo: "pois é, pessoal, o segredo para desenhar
um bíceps massacrante é..."em lugares onde
declarações como essas são extremamente
comuns.
Acreditei e continuo a acreditar
que um dos grandes males da humanidade é a sua concepção
de educação e futuro. São conceitos de
terminologia insatisfatória, que não resistem
a uma análise mais apurada. Essa concepção
impregnada de status e morte idealista, acompanha as pessoas
rumo a um destino que se fundamenta em valores vazios, incapazes
de desenvolver um discurso convincente, e assim, debater com
qualquer cabeça mais esclarecida que transcenda esses
valores, ou, que os observa exteriormente como ainda fazem
muitos índios não catequizados, por exemplo.
A Arte
Em 1988, na Atmosphera- Espaço
de Arte, Uma escola de Artes na Cidade de Santo André
aprendi não a desenhar, mas a ter consciência
do leque de possibilidades plásticas da ilustração
e da Nona Arte, e a noção mais básica
de que, os elementos a serem utilizados numa obra, não
são mais importantes isoladamente do que o trabalho
que podem ajudar a construir. Esse trabalho pode evoluir de
uma simples composição pictórica despretenciosa
a uma mensagem de valor transcendental. Essa idéia
me levou mais tarde a polir uma concepção de
Universo Integrado, onde as coisas não acontecem por
acaso.
O Universo integrado resultou
num intenso estudo usando como referencial os seguintes elementos:1
A vontade de descomplexar , reduzir, enxergar as coisas em
essência; 2 estabelecer metas e cumprí-las 3
o gosto eclético, que me ajuda a buscar informações
onde quer que estejam. Estes elementos e muitos outros deixaram
raízes muito profundas em tudo o que faço. É
necessario dizer ainda que, melhor que evolução,
é chegar até ela com uma arte capaz de divertir
quem faz e quem a apreciará mais tarde. Até
a mais profunda dissertação precisa de um molho
que a torne atrativa.
Primeiros Projetos
Em 1992 meu pai e minha mãe começaram
a erguer uma casa. Meu pai, literalmente, colocou a mão
na massa. Ergueu as paredes ele mesmo e se saiu muito bem.
A construção me inspirou a construir
algo grande também. Numa série de sucessivos
ensaios comecei a levar para frente dezenas de projetos que
não encontraram fim . Eu dava cabo deles muitas vezes
antes que pudessem respirar. Muitos deles de fato não
mereciam respirar. Prova disso é que até meus
dezoito anos, eu me prendia ainda a fetiches e a outras coisas
vazias, que encantavam pela forma e pelo estilo, e tinham
nesses elementos sua principal razão de existir. Graças
a Deus, para mim hoje, essas razões não bastam.
Morte aos Heróis
Ao princípio de meus estudos mais sérios,
desenvolvi personagens essencialmente humanas, sem qualquer
adorno fantástico. O herói, se é que
eu acreditei algum dia em heróis, representa para mim
a maneira mais fácil e tosca dos quadrinhos lidarem
com situações sociais, e justamente por isso
os chutei merecidamente para bem longe. Herói bom para
mim é herói morto, enterrado e não ressussitado.
E chamo de personagem caracterizações humanas
com profundidade psicológica influenciada por um meio,
e não somente rabiscos engraçadinhos ou de alguma
outra forma estereotipados com o objetivo de estampar lancheiras.
A Mensagem de Uma Década Horrível
Nas décadas de oitenta e noventa o número
de lançamentos no mercado editorial em geral, chega
ao absurdo. Na minha pesquisa tomei o cuidado de enxugar esse
enorme volume de publicações e assim descobrir
o que poderia me ajudar a desenvolver um trabalho que correspondesse
à minha identidade. A revista Animal, trouxe às
minhas mãos, por exemplo, informações
suficientes sobre o movimento bomba promovido pela revista
italiana Frigidaire, organizada por gente como Filippo
Scozzari, Stephano Tamburini e Tanino Liberatore
e Andrea Pazienza entre outros autores.
O mais interessante é que não comprei
as primeiras revistas que me inspiraram. Um amigo de infância
veio mostrá-las depois de encontrá-las no lixo
da casa da vizinha. O filho da vizinha colecionava uma porção
de revistas alternativas, que sua mãe de certo considerava
um atentado à moral e aos bons costumes. Na verdade
só comecei a montar uma biblioteca interessante depois
que muita coisa interessante já havia esfriado ou falido
no meio cultural, em decorrência do nosso digníssimo
presidente que não vou citar o nome para não
sujar esta página, mas arrebentou com este país
no início da década de noventa, quando ninguém
acreditava que era possível superar as façanhas
anteriores.
Os Amigos
Tenho que agradecer também a dois amigos que
me influenciaram muito em termo de atitude. Mateus Zeferino,
que colaborou com uma página sobre Noam
Chomsky neste mesmo site, sempre manteve opniões
subversivas a respeito desse gracioso mundo de castelos e
duendes encantados onde sofrem uns seis bilhões de
desgraçados. E a meu outro amigo, Jean Nastrini, fundador
da banda Victoria
(não tive influência alguma neste nome) onde
toquei Heavy Metal Progressivo, até hoje me envolver
mais com a música clássica e Jazz. A visão
de música de Jean me ajudou muito a restaurar meu conceito
de Universo Integrado, ou seja, produzir arte com o poder
de abstração muito desenvolvido, e a partir
disso, fazer todas as ferramentas acessíveis trabalharem
integradas para passar uma mensagem.
Continua
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