Victor Diógenes

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Editorial

Hoje já acho um tanto descartável a idéia de fazer nesta página uma biografia, apesar de ter rabiscado algumas linhas especificamente para isso. Ainda estou começando minhas realizações, e é bom sempre lembrar que as coisas só acontecem depois que a pessoa faz com que aconteçam.

Aos que não me conhecem, não defendo as histórias em quadrinhos como um todo. Não acho que o importante é que a pessoa leia HQ seja ela qual for. Ou melhor, não defendo a produção que se faz num ano como algo que deve ser engolido para a maior"popularização" desta arte. Antes disso os autores precisam evoluir mais, e principalmente, se vacinarem contra certas coisas vindas com o retorno que o público pode dar a seus primeiros trabalhos, deixando o autor contente em apenas se repetir eternamente e não crescer em nada. Quando digo evolução estou me referindo a atitude de criar sua própria identidade de trabalho e saber analisar questões importantes de forma profunda através dessa identidade.

Isso é fundamental para que no futuro as pessoas tenham a cabeça mais aberta e assim consumam trabalhos diferentes. Só assim os autores ganharão o que é justo fazendo o que gostam, tendo liberdade de expressão. A questão não é tosca como o marketing propõe. Não é estudar o que as pessoas gostam e oferecer a elas um espelho. Pensando assim, um espelho só basta, o resto dos autores poderiam se preocupar em somar algo mais a esse "espelho".

Sensibilidade

Há muito tempo tenho estudado uma maneira de fazer Álbuns com histórias muito densas. Que permitam leituras densas. Que não sejam simplesmente um amontoado de acontecimentos colocados de maneira a causar sensações fáceis e toscas. Eu trabalho para a educação dos sentidos, porque acredito que a saída para qualquer arte neste novo milênio seja o investimento na sensibilidade das pessoas, e esta ação, na Nona Arte, me entusiasma bastante.

No momento estou muito feliz, pois entrei num interessante estado de serenidade. Não que eu tenha abandonado o ódio pela frase "se o mundo não muda, muda você", ligando logo minha "metralhadora giratória". Acho que minha "metralhadora" , antes de tudo, fica melhor instalada no coração de minhas histórias.

Como sempre, meu mandamento primordial é usar a técnica a serviço de uma idéia, e esta idéia a serviço de uma ou várias mensagens.

Biografia em poucas linhas:

Nasci no dia 2 de agosto de 1976, em Santo André, SP. Meus pais, pessoas muito honestas e de pouco dinheiro, se esforçaram para dar uma boa educação à sua prole (eu e minha irmã Michelli, na foto lá em cima). Estudei desenho nessa mesma cidade na Escola Atmosphera- Espaço de Arte, e prossegui de maneira autodidata. Incorporei à minha arte influências de cinema e literatura, e da HQ fui muito influenciado pelo movimento italiano promovido no início dos anos oitenta pelo grupo Frigidaire. Estudei computação gráfica, web design, arquitetura e publicidade. Meu pensamento ao fazer meus projetos é calculado a longo prazo, que é o que julgo sensato e o que acho que contribui para o engrandecimento desta arte.

Parâmetros

Tenho o orgulho de carregar meu segundo nome de batismo Diógenes, um filósofo quem admiro muito em inúmeros aspectos. O maior deles é não ter se amarrado a grupos, senão um ideológico, instituído unicamente para a busca da verdade, o que lhe permitiu atacar e desmistificar tudo o que entendia como atitudes ou valores que impediam as pessoas de enxergarem a essência de suas próprias vidas. Essa atitude quanto à essência pode parecer até estúpida e ditatorial ao ficar clamando que espécie de coisa as pessoas deveriam dar mais valor. Mas a essência da verdade e da sinceridade, até hoje, é a que menos redunda em desastres.

Só a sinceridade pode nos salvar de idéias não tão boas assim, de uma montoeira de trabalho desnecessário para descrever aquilo que nem nós mesmos acreditamos. Isso sem falar que, quando estamos bem vacinados com sinceridade, deixamos de ser pessoas líquidas, que agem de acordo e pensam de acordo com o lugar em que estão. Fico contente de meu trabalho com arte não se resumir a declarações do tipo: "pois é, pessoal, o segredo para desenhar um bíceps massacrante é..."em lugares onde declarações como essas são extremamente comuns.

Acreditei e continuo a acreditar que um dos grandes males da humanidade é a sua concepção de educação e futuro. São conceitos de terminologia insatisfatória, que não resistem a uma análise mais apurada. Essa concepção impregnada de status e morte idealista, acompanha as pessoas rumo a um destino que se fundamenta em valores vazios, incapazes de desenvolver um discurso convincente, e assim, debater com qualquer cabeça mais esclarecida que transcenda esses valores, ou, que os observa exteriormente como ainda fazem muitos índios não catequizados, por exemplo.

A Arte

Em 1988, na Atmosphera- Espaço de Arte, Uma escola de Artes na Cidade de Santo André aprendi não a desenhar, mas a ter consciência do leque de possibilidades plásticas da ilustração e da Nona Arte, e a noção mais básica de que, os elementos a serem utilizados numa obra, não são mais importantes isoladamente do que o trabalho que podem ajudar a construir. Esse trabalho pode evoluir de uma simples composição pictórica despretenciosa a uma mensagem de valor transcendental. Essa idéia me levou mais tarde a polir uma concepção de Universo Integrado, onde as coisas não acontecem por acaso.

O Universo integrado resultou num intenso estudo usando como referencial os seguintes elementos:1 A vontade de descomplexar , reduzir, enxergar as coisas em essência; 2 estabelecer metas e cumprí-las 3 o gosto eclético, que me ajuda a buscar informações onde quer que estejam. Estes elementos e muitos outros deixaram raízes muito profundas em tudo o que faço. É necessario dizer ainda que, melhor que evolução, é chegar até ela com uma arte capaz de divertir quem faz e quem a apreciará mais tarde. Até a mais profunda dissertação precisa de um molho que a torne atrativa.

Primeiros Projetos

Em 1992 meu pai e minha mãe começaram a erguer uma casa. Meu pai, literalmente, colocou a mão na massa. Ergueu as paredes ele mesmo e se saiu muito bem. A construção me inspirou a construir algo grande também. Numa série de sucessivos ensaios comecei a levar para frente dezenas de projetos que não encontraram fim . Eu dava cabo deles muitas vezes antes que pudessem respirar. Muitos deles de fato não mereciam respirar. Prova disso é que até meus dezoito anos, eu me prendia ainda a fetiches e a outras coisas vazias, que encantavam pela forma e pelo estilo, e tinham nesses elementos sua principal razão de existir. Graças a Deus, para mim hoje, essas razões não bastam.

Morte aos Heróis

Ao princípio de meus estudos mais sérios, desenvolvi personagens essencialmente humanas, sem qualquer adorno fantástico. O herói, se é que eu acreditei algum dia em heróis, representa para mim a maneira mais fácil e tosca dos quadrinhos lidarem com situações sociais, e justamente por isso os chutei merecidamente para bem longe. Herói bom para mim é herói morto, enterrado e não ressussitado. E chamo de personagem caracterizações humanas com profundidade psicológica influenciada por um meio, e não somente rabiscos engraçadinhos ou de alguma outra forma estereotipados com o objetivo de estampar lancheiras.

A Mensagem de Uma Década Horrível

Nas décadas de oitenta e noventa o número de lançamentos no mercado editorial em geral, chega ao absurdo. Na minha pesquisa tomei o cuidado de enxugar esse enorme volume de publicações e assim descobrir o que poderia me ajudar a desenvolver um trabalho que correspondesse à minha identidade. A revista Animal, trouxe às minhas mãos, por exemplo, informações suficientes sobre o movimento bomba promovido pela revista italiana Frigidaire, organizada por gente como Filippo Scozzari, Stephano Tamburini e Tanino Liberatore e Andrea Pazienza entre outros autores.

O mais interessante é que não comprei as primeiras revistas que me inspiraram. Um amigo de infância veio mostrá-las depois de encontrá-las no lixo da casa da vizinha. O filho da vizinha colecionava uma porção de revistas alternativas, que sua mãe de certo considerava um atentado à moral e aos bons costumes. Na verdade só comecei a montar uma biblioteca interessante depois que muita coisa interessante já havia esfriado ou falido no meio cultural, em decorrência do nosso digníssimo presidente que não vou citar o nome para não sujar esta página, mas arrebentou com este país no início da década de noventa, quando ninguém acreditava que era possível superar as façanhas anteriores.

Os Amigos

Tenho que agradecer também a dois amigos que me influenciaram muito em termo de atitude. Mateus Zeferino, que colaborou com uma página sobre Noam Chomsky neste mesmo site, sempre manteve opniões subversivas a respeito desse gracioso mundo de castelos e duendes encantados onde sofrem uns seis bilhões de desgraçados. E a meu outro amigo, Jean Nastrini, fundador da banda Victoria (não tive influência alguma neste nome) onde toquei Heavy Metal Progressivo, até hoje me envolver mais com a música clássica e Jazz. A visão de música de Jean me ajudou muito a restaurar meu conceito de Universo Integrado, ou seja, produzir arte com o poder de abstração muito desenvolvido, e a partir disso, fazer todas as ferramentas acessíveis trabalharem integradas para passar uma mensagem.

Continua

Mr.Alavanc

Uma história sobre pessoas brilhantes e idéias catastróficas.

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